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Moradores de Guaianases chamam atenção para o problema do lixo na região

Abaixo dela, no entanto, sacos de lixo são espalhados pela calçada. Infelizmente, uma cena recorrente nas esquinas seguintes. Nas ruas onde o lixo chega a bloquear a passagem pelas calçadas, além dos sacos de lixo, é possível ver móveis velhos, restos de comida, embalagens e até roupas velhas.

Esse problema é recorrente para a maioria dos moradores escutados pela equipe do Laboratório Você Repórter da Periferia 2.0 (VCRP 2.0), do Desenrola e Não me Enrola, em outubro de 2025.

Córrego próximo a estação da CPTM, enquanto o caminhão da coleta de lixo passa pela rua. Foto: Gabriel Zahid.

Quem é responsável pela limpeza?

A Prefeitura, por meio da Secretaria Executiva de Limpeza Urbana (SELIMP), é responsável por fazer licitações para contratar as empresas que vão recolher o lixo. Mas não é só a Prefeitura e as empresas contratadas as responsáveis pelo lixo. 

Cada morador também tem um papel crucial e precisa fazer a sua parte no descarte. Para lixos comuns, por exemplo, cada cidadão precisa colocar o que vai descartar em sacos fechados e resistentes. O lixo também precisa ser descartado na área onde os caminhões de lixo passam e próximo aos horários em que passam. Isso, para evitar  que os sacos rasguem e espalhem o lixo, ou que eles fiquem acumulados.

Placa da prefeitura posta para aviso e denúncia de descarte irregular de lixo, caracterizado como crime ambiental. Foto: Gabriel Zahid.

Fica esperto(a)!

Se o caminhão de lixo não passar na sua rua, denuncie. Ligue para a Central de Atendimento 156 para denunciar a falha na coleta. A denúncia também pode ser feita pela internet no site da Prefeitura de São Paulo.

Córrego próximo à estação CPTM com entulhos e sacos plásticos acumalados no fluxo. Foto: Gabriel Zahid.

E o lixo reciclável?

Segundo levantamento recente do jornal Bom Dia São Paulo, a capital paulista produz diariamente cerca de 20 mil toneladas de lixo. O que chama a atenção é que 40% deste montante é reciclável. No entanto, somente 7% é realmente reaproveitado.

Muitos moradores de Guaianases apontam dificuldades para reciclar o lixo. A falta de espaço em casa para separá-los e a ausência de uma coleta seletiva foram alguns pontos levantados por eles. 

Mas quem conseguiu inserir na rotina o descarte de recicláveis tem contribuído, não só para o meio ambiente, mas também colaborado com a sustentabilidade financeira de empreendimentos e trabalhadores na região.

Na rua Tristão Gago fica o Ferro Velho Rainha da Sucata, administrado por Paulo Tenório da Paixão, 46, mais conhecido na região como Alemão. Trabalhando há cinco anos com reciclagem, ele elogia a postura de alguns moradores.

“Alguns chamam os próprios recicladores para ir na casa deles retirar, até fora de dia de reciclagem, justamente para não ter esse tormento contra enchente e outros tipos de situação” – Alemão.

Alemão explica que a reciclagem é um benefício grande tanto para o reciclador, que irá ganhar seu sustento, quanto para o bairro e seus moradores, por impedir o descarte errado e colaborar com o meio ambiente, evitando também alagamentos e enchentes.

Por ser uma região com a presença de muitos córregos, ele também conta que os recicladores dão uma atenção especial a esses locais, entrando neles e retirando boa parte do lixo. 

A iniciativa contribui diretamente para evitar enchentes e alagamentos na região, já que a retirada de lixo possibilita melhorar o escoamento da água da chuva.

Recipientes de plástico despejados no Ferro Velho Rainha da Sucata. Foto: Gabriel Zahid.
Lixos e entulhos tampando a passagem nas calçadas em Guaianases. Foto: Gabriel Zahid.

No distrito de Guaianases existem três Ecopontos:

  • Rua Utaro Kanai, 374
  • Rua da Passagem Funda, 250
  • Rua Padre Nildo do Amaral Júnior, 900

Cata-Bagulho

O serviço foi criado em 2017 e é responsável por recolher gratuitamente móveis velhos, pedaços de madeira e outros objetos volumosos nas ruas da cidade. Os caminhões circulam duas vezes por mês em cada bairro, recolhendo esses itens que não podem ser destinados à coleta de lixo comum ou reciclável. O cronograma por onde eles passam é divulgado pela Prefeitura.

Se liga!

Em caso de lixo em vias públicas, é possível entrar em contato com a Prefeitura pelo telefone 156.

Esse conteúdo foi produzido por jovens em processo de formação do laboratório de produção de conteúdo Você Repórter da Periferia 2.0 (VCRP 2.0), programa em educação midiática antirracista realizado desde 2014, pelo portal de notícias Desenrola e Não Me Enrola.

Futebol de várzea: times unem lazer e transformação social na zona leste de São Paulo

Da escolinha para crianças às ações sociais, e até mesmo aqueles momentos em que a galera se junta para um churrasco no campo, a união de moradores, torcedores, familiares, equipe técnica e diretoria, comprova a potência do futebol dentro e fora das quatro linhas.

Clubes tradicionais como o Botafogo de Guaianases, o Princesa Futebol Clube e o Vila Minerva, em Itaquera, são exemplos de como os times de várzea têm, ao longos dos anos, ocupado o papel do Estado ao suprir a ausência de alternativas esportivas e educacionais para os moradores.

“O futebol me salvou e é essencial pra molecada sair da rua. A educação começa pelo esporte.”Juliano Pereira, 38, jogador do Princesa Futebol Clube

Fundado em 1955, com muita mobilização de seus frequentadores, recentemente o campo do time, localizado na rua Luís Mateus, passou por um processo de revitalização. O campo do time deixou o terrão para dar lugar ao gramado sintético, além de receber postes de iluminação.

Décadas de resistência e diversão

Fundado no mesmo ano que o Princesa, o tradicional Botafogo de Guaianases completou 70 anos em abril. Ele foi fundado por Admardo Armond, um carioca que se mudou para São Paulo. 

Boa parte dos moradores da região conhecem ou já tiveram contato com o time e suas principais atividades, que acontecem na sua sede na rua Alexandre Monat, 166 ou no CEU Jambeiro.

O projeto social da escolinha de futebol é uma forte vertente dos trabalhos realizados pelo time. Nele, participam cerca de 600 crianças entre 5 e 16 anos, onde aprendem os fundamentos do esporte e, por vezes, têm a oportunidade de participar de peneiras e campeonatos de clubes profissionais.

Moradora da região, Débora Ferrari é professora e coordenadora da escolinha de futebol do Botafogo de Guaianases. Foto: Andressa Barbosa

A coordenadora e treinadora, Débora Ferrari, 41, afirma que o time acolhe crianças de diferentes perfis e sem distinções. Ela também alerta para que os pais acompanhem a evolução dos filhos no esporte. 

“Vejo crianças de 5 anos que vem sozinha treinar. É importante que os pais acompanhem, incentivem e tenham vivência com os filhos”, diz.

Um passo de cada vez

A falta de investimento e patrocínio é uma das principais reclamações de quem está nos bastidores dos times da várzea. “Falta estrutura, falta apoio. A gente faz o que pode, não tem investimento nem ajuda de custo. Às vezes, tira do próprio bolso para manter o time”, conta o técnico do time Vila Minerva, Davi Nascimento, 27. 

Luiz Oliveira Chagas, 61, e Einstein Jesus Teixeira da Costa, 73, mais conhecidos como Luizinho e Nego, são do Botafogo de Guaianases, e ressaltam que órgãos públicos deveriam investir e divulgar mais as iniciativas da várzea.

No time, vez ou outra os responsáveis dos alunos da escola comunitária de futebol precisam arcar financeiramente com gastos voltados para uniforme, alimentação e transporte em dias de jogos fora do campo do CEU Jambeiro.

Luizinho e Nego fazem parte da velha-guarda e participam de quase todas as atividades promovidas pelo time. Foto: Andressa Barbosa

Luizinho também foi o responsável por criar categorias 50+ dentro do Botafogo de Guaianases, possibilitando que jogadores mais antigos retornassem ao campo. 

“Antes diziam que era comédia o cara com 50 anos jogar bola. Hoje tem até jogador de 83 anos […] Times tradicionais [que não estavam ativos] voltaram a jogar por causa das categorias 50 e 60. Então o futebol continua vivo.” – Luiz Oliveira Chagas, do Botafogo de Guaianases

Nego, presidente da velha guarda e integrante do clube desde 1966, acredita que tais práticas são responsáveis por dar ao Botafogo o status de time respeitado no universo da várzea paulista.

Esse conteúdo foi produzido por jovens em processo de formação do laboratório de produção de conteúdo Você Repórter da Periferia 2.0 (VCRP 2.0), programa em educação midiática antirracista realizado desde 2014, pelo portal de notícias Desenrola e Não Me Enrola.

Em Guaianases, projetos impactam autonomia e a vida de quem envelhece na periferia

“Eu tinha diabetes, colesterol, pressão alta. Hoje, está tudo normal”, conta o baiano Leonídio Neto Chagas, 70 anos, aposentado e morador de Guaianases há 50 anos. 

Incentivado inicialmente pela filha, ele participa do projeto Dia Total, realizado de forma gratuita no Parque Linear Guaratiba, e se sente motivado a manter a frequência nas atividades com o apoio dos colegas.

“O pessoal trata todo mundo igual, seja novo ou velho. Todo mundo abraça como se fosse uma criança. É como se fosse uma família e uma casa”, conta

Reconhecido como destaque do bairro, o projeto existe há mais de 10 anos e mostra como iniciativas comunitárias fortalecem a saúde física e mental de quem envelhece na periferia.

“Estava depressiva por ter me aposentado e uma amiga me indicou o Dia Total. Fui muito bem recebida”, relata Margarete Pereira de Abreu, 52 anos, que frequenta o projeto há seis anos.

Professora aposentada e moradora de Guaianases, Margarete Pereira de Abreu, 52 anos, encontrou no projeto Dia Total acolhimento e motivação após a aposentadoria. Foto: Jéssica Calheiros

Desde então, sua rotina passou por uma grande transformação: ela sai de casa todos os dias às 5h30 para participar das atividades, também começou a frequentar a academia e a pedalar na praia. 

No entanto, ela aponta os desafios enfrentados pelos frequentadores. “O parque era muito sujo. Quando chegamos aqui, limpamos todo o espaço, e agora ele tem respeito. Mas é muito complicado: os banheiros são fechados e praticamente não há policiamento nenhum.” Apesar das dificuldades, ela reforça que o local segue sendo um espaço de acolhimento e superação.

“Hoje, [os frequentadores] entendem que o calo da mão e o suor da testa trazem pra gente o que a gente mais precisa: a coragem, a determinação, a força, a garra, a luta, a esperança — e a esperança não do esperar, a esperança do esperançar.” – Felipe Bezerra, idealizador do Projeto Dia Total.

Felipe Bezerra, diretor na SME-SP e idealizador do projeto Dia Total, atua como mentor emocional e dedica-se a transformar vidas por meio do cuidado e da empatia. Foto: Jéssica Calheiros.

Transformar a vida da comunidade foi o que motivou João Gabriel, 40 anos, a criar e manter, junto com seu primo Rodrigo Augusto, a Academia Black Brothers. “Nosso maior público no projeto é da terceira idade, e 90% são mulheres”, diz. “Aqui no bairro, esse é um público que não têm incentivo ao esporte, não tem apoio.”

Empresário e morador de Guaianases, João Gabriel, 40 anos, criou a Academia Black Brothers ao lado do primo Rodrigo Augusto para oferecer ao bairro as oportunidades que ele gostaria de ter tido na adolescência. Foto: Jéssica Calheiros.

Oportunidade para os frequentadores, mas também para quem programa as atividades. Na Academia Black Brothers, Geraldo Gabriel do Nascimento, de 71 anos, ministra aulas de boxe, incluindo turmas voltadas para pessoas idosas. 

Ele começou a praticar o esporte em 1971, aos 14 anos, e chegou a competir em competições amadoras, mas precisou interromper a prática ao servir na Aeronáutica. Após se aposentar, retomou o boxe na academia do filho. “Essa minha volta é só com o intuito de passar um pouquinho do que aprendi e manter um bom condicionamento físico.”

“Estou com 71 anos, tenho uma vida plena, normal, eu faço de tudo. Graças a Deus, tenho uma ótima saúde. Acredito que os esportes trazem muitos benefícios e são necessários na vida das pessoas.”

Aos 71 anos, Geraldo Gabriel do Nascimento, morador de Guaianases, compartilha sua paixão pelo boxe como professor na Academia Black Brothers. Foto: Jéssica Calheiros.

É preciso mais do poder público

Criada em Guaianases, a psicóloga Mariana Félix, especialista em psicologia organizacional e clínica, explica que a falta de políticas públicas voltadas à população idosa é um problema que afeta diretamente a saúde mental desse grupo.

“Os idosos sofrem muito com a solidão. Nas periferias, faltam centros de acolhimento e atividades voltadas a esse público. São políticas que não são levadas a sério pelos governantes, e, sem atenção adequada, muitos acabam depressivos e sem o respaldo da família, sendo, por vezes, abandonados”, destaca.

Ela explica que o acesso limitado aos cuidados básicos e à informação agrava ainda mais essa realidade, e reforça que a inclusão dos idosos em espaços de convivência é essencial. 

Seu Antônio, conhecido carinhosamente como Toto, é um dos destaques do projeto Dia Total. Foto: Jéssica Calheiros.

“A atividade física é benéfica para todas as idades, mas especialmente para os idosos, pois ajuda a tonificar os músculos e aumenta a disposição. Além disso, estimula neurotransmissores como serotonina, noradrenalina e dopamina — substâncias ligadas ao prazer, à regulação do humor e à memória.”Mariana Félix, especialista em psicologia organizacional e clínica

Para participar, basta chegar ao parque no horário das atividades e se juntar ao grupo. As aulas são gratuitas e abertas a todas as idades!

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Técnica sustentável, ‘upcycling’ ainda é vista com preconceito na periferia, diz estilista

É essa a proposta do upcycling, técnica de reaproveitamento de resíduos têxteis, transformando tudo num produto novo com maior valor funcional e estético. Tudo isso, sem a necessidade de reprocessamento dos tecidos, o que reduz gastos com energia e consumo de água. Incrível, né?

Apesar dessas vantagens, a técnica é vista com certo desprezo pelas pessoas, segundo Luã Ayo Ayana, 25 anos, educador, produtor criativo e artista têxtil há mais de 8 anos.

“Se não é novo, então não presta, não tá valendo, vai estragar, é ruim […] Eu já escutei muita coisa assim. Ainda tem muito preconceito dentro da própria periferia”, diz Luã, morador da Chácara Santana, no distrito Jardim São Luís, na zona sul de São Paulo.

“As pessoas têm muito preconceito e não querem dar um valor justo para uma peça. Pagariam um valor alto numa peça de uma marca famosa, mas não pagariam R$100 numa peça de upcycling porque a enxerga como lixo.” – Luã Ayo Ayana, educador

Da quebrada para a quebrada

Nas periferias de São Paulo, o upcycling em si ainda não é amplamente disseminado como mercado da moda, mas Luã lembra que suas técnicas sempre estiveram presentes culturalmente nesses territórios, que, por falta de condições financeiras, sempre precisaram achar alternativas para se vestir.

“Essa ideia de pegar roupas antigas e transformar é uma coisa que eu já vejo na quebrada faz muito tempo”, diz.

O que pode confundir muita gente é o uso do termo em inglês: upcycling, em português, significa “reciclagem”. Neste sentido, explica Luã, quando pensado no mundo do mercado da moda no Brasil, hoje tem se discutido o uso de outros termos para tornar a técnica mais acessível no país.

“A gente ‘catou’ esse termo, mas para mim sempre faltou uma coisa mais brasileira que conversasse mais com o meu corpo, que é o corpo dissidente. Daí eu conheci o termo ‘transmutação’, dentro de um curso do ateliê Vou Assim. Depois disso, eu comecei a me apropriar desse termo”, explica.

Luã em desfile da Casa de Criadores para o ateliê Vou Assim + DCRLHS em 2024. Foto: Arquivo pessoal.

Hoje, existem movimentos para que a transmutação têxtil chegue a mais pessoas nas quebradas, a fim de difundir essa técnica. “Meio que esse ‘babado’ de passar para frente o conhecimento para que ele seja difundido. […] Na Fábrica de Cultura Jardim São Luiz tem um curso de moda, que lutaram muito para conseguir fazer acontecer”, explica Luã.

Estilo e sustentabilidade andam juntos

Temas como sustentabilidade e estilo precisam andar lado a lado. Afinal de contas, ser consciente não impede ninguém de se sentir bem e estiloso. Além disso, achar técnicas sustentáveis na moda é uma emergência climática. 

Estima-se que o mundo gere hoje cerca de 92 milhões de toneladas de resíduos têxteis por ano, e o Brasil, 4 milhões de toneladas anuais, segundo dados da Fundação Ellen MacArthur, ONG internacional.

Luã e alunos tirando medidas durante aula de transmutação têxtil. Foto: Arquivo pessoal.

Técnicas como o upcycling ou transmutação têxtil ajudam na redução de resíduos têxteis que vão parar em aterros sanitários e impactam o meio ambiente.

Desta forma, podemos dizer que o upcycling é também um movimento de contra-cultura da moda, uma vez que se opõe ao consumo rápido e descartável, propondo uma moda mais consciente e personalizada. Esse movimento acabou se tornando símbolo de uma cultura alternativa adotada por movimentos artísticos socioambientais.

E aí, conta pra gente, já conhecia essa técnica? Como a moda upcycling pega aí na sua quebrada?

Esse conteúdo foi produzido por jovens em processo de formação do laboratório de produção de conteúdo Você Repórter da Periferia 2.0 (VCRP 2.0), programa em educação midiática antirracista realizado desde 2013, pelo portal de notícias Desenrola e Não Me Enrola.

Bancos comunitários combatem desigualdade de acesso ao crédito nas periferias

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Enquanto os bancos tradicionais dificultam o acesso ao crédito para pequenos empreendedores e pessoas de baixa renda no Brasil, os bancos comunitários Palmas, localizado na periferia de Fortaleza, e Paulo Freire, localizado na Cidade Tiradentes, zona leste de São Paulo, estão reduzindo taxas, criando moedas digitais, facilitando acesso ao crédito e fortalecendo empreendedores locais.

Uma das pessoas impactadas por essas instituições financeiras comunitárias é Márcia Rodrigues, 52, moradora do bairro Jangurussu, em Fortaleza, que se tornou empreendedora do ramo de alimentos com o apoio do banco Palmas, instituição financeira comunitária, após conseguir acesso ao crédito necessário para iniciar e expandir o empreendimento “Bolo Bolo”.

Ela conhece o banco Palmas desde os anos 2000, quando trabalhava como coordenadora em uma creche comunitária, que também era um centro de nutrição. Nessa época, Márcia não recebia nem um salário-mínimo e para complementar a renda ela começou a aprender a cozinhar.

Com o apoio de cursos oferecidos gratuitamente pelo Banco Palmas, ela conseguiu estruturar um novo ramo de atuação profissional, passando a fazer tortas de frango, bolos e salgados para vender na porta de casa.

“O dinheiro para fazer isso era tão pouco. O que entrava a gente tinha que comprar [os ingredientes] novamente, e essas coisas não têm um retorno a curto prazo, porque você tem que investir. Aí eu pensei: ‘vou procurar o banco Palmas para ver se consigo fazer um empréstimo’.” relembra a empreendedora.

Ela conseguiu esse empréstimo para investir no empreendimento. “Eu cheguei a fazer [empréstimo de] até R$ 5.000. Então, [o negócio] deu uma guinada, porque eu pude fazer bastante coisa com esse valor. Eu fui comprando os equipamentos”, aponta a empreendedora.

Emanuel Kayro de Souza Costa, funcionário da Bolo Bolo. (foto: arquivo pessoal)

Márcia menciona que ela solicitava o crédito, empregava o dinheiro arrecadado, e o que ela conseguia de retorno era usado para pagar o empréstimo, o lucro servia para continuar os trabalhos. Com o tempo, ela abriu uma lanchonete e contratou três funcionários, gerando renda e trabalho na região.

Moeda própria e tarifas mais baixas

Segundo Joaquim Melo, criador do Banco Palmas, a instituição financeira comunitária é a primeira no Brasil. A iniciativa tem uma atuação inovadora por lançar o E-dinheiro, primeira moeda digital brasileira criada com o objetivo de promover inclusão econômica de pessoas de baixa renda, como a dona Márcia, criando uma plataforma digital para operar a moeda com juros mais baixos no acesso ao crédito e outros serviços bancários, em relação aos bancos tradicionais.

Ao criar essa estratégia, o banco foi desenvolvendo uma série de processos que vão na contramão da cultura de instituições financeiras tradicionais, que se baseiam em taxar praticamente todos os serviços utilizados pelos consumidores.

“As taxas de juros são menores, a análise do crédito é mais rápida, não é obrigado ter cadastro limpo, tem acompanhamento e tu vai ter estratégia de comercialização [no caso dos empreendedores]. No banco tradicional o crédito serve para ele [o banqueiro] ganhar dinheiro. No banco comunitário o crédito é uma estratégia de desenvolvimento do território, ou seja, a gente empresta dinheiro para o bairro crescer”

Joaquim Melo, fundador do Banco Palmas e criador da E-dinheiro.

O fundador do Banco Palmas explica que embora cada banco comunitário tenha autonomia para decidir uma taxa de juros, há um protocolo que estabelece que seja cobrado “uma taxa de no máximo até 1%, para poder ficar abaixo do que é praticado no mercado”. Ele explica que essa taxa de juros está estabelecida com base na Lei da Usura 22.626, de 7 de abril de 1933.

Enquanto os bancos comunitários adotam a taxa de juros de 1% ao mês para fornecimento de crédito pessoal, os principais bancos comerciais brasileiros têm uma taxa média de 7,94% ao mês, segundo estudo mensal do Procon- SP, divulgado no mês de fevereiro de 2024.

Neste contexto, Márcia, a empreendedora de Fortaleza, ressalta: “não tenho mais conta em banco comercial”. Ela justifica essa mudança de cultura com o exemplo de sua mãe. “Todo mês na conta da minha mãe vem R$ 60 descontado só da taxa de manutenção, mesmo recebendo um benefício pelo INSS. Isso é um absurdo para um trabalhador.”

Ela conta que na plataforma E-dinheiro esse tipo de taxa não existe e menciona as diferenças nas cobranças de taxas entre os diferentes tipos de bancos.

“Eles não me cobram nenhum tostão. A única coisa que eles cobram é R$ 1 pelo pagamento de boleto de até R$1.000, e acima [desse valor] é R$ 2.”,

Márcia Rodrigues é empreendedora e cliente do banco comunitário Palmas.

Atualmente, a dona do “Bolo Bolo” não precisa mais pegar crédito para investir em seu negócio, mas continua utilizando o banco comunitário para fazer as demais operações bancárias. “Eu recebo o E-dinheiro no meu negócio e eu também pago as minhas contas com eles no banco Palmas, compro em outros comércios do bairro também, porque é uma mão lavando a outra”, comenta a empreendedora.

Bancos comunitários combatem desigualdade de acesso ao crédito nas periferias
Márcia em seu empreendimento “Bolo bolo” localizado no Conjunto Palmeiras, em Fortaleza. (foto: arquivo pessoal)

No Brasil, a E-dinheiro é a primeira e por enquanto a única moeda social digital. Dos 152 bancos comunitários que existem no país, 98 são cadastrados na plataforma. Para aderir ao uso dessa moeda é necessário que o banco comunitário esteja localizado no mesmo bairro ou município da pessoa interessada em abrir uma conta, pois o uso da moeda social é destinado ao território.

Segundo o criador do banco Palmas, todo lucro gerado no banco comunitário é investido no próprio território. Essa é outra regra que tem que ser cumprida por todos os bancos dessa rede. Um exemplo desse investimento é o curso de culinária que a Márcia fez, e é desse jeito que o desenvolvimento social ocorre.

Banco Paulo Freire

Na Cidade Tiradentes, distrito da zona leste de São Paulo, o banco Paulo Freire também usa o E-dinheiro, como uma ferramenta para viabilizar a inclusão econômica de moradores da região, proporcionando que mesmo as pessoas endividadas, desempregadas, com o nome listado no serviço de proteção ao crédito (SPC), de baixa renda consigam acessar o crédito, para empreender ou consumir em comércios locais. 

“Elas conseguem pegar o crédito sim. Mesmo aquela família que a gente sabe que tem mais dificuldade de pagar, a gente parcela [a devolução] em mais vezes, e procura ser bem acessível”, conta Maria das Dores Ferreira, 52, que é mais conhecida como Dora no território, e que além de pedagoga, é gerente do banco Paulo Freire. 

Dora enfatiza que diferente das demais instituições financeiras, nos bancos comunitários é possível obter crédito, mesmo quando a pessoa não está com a condição financeira ideal.

De modo geral, os pré-requisitos e os benefícios de acesso ao crédito se igualam tanto para o empreendedor como para o morador que procura o banco comunitário, conforme diz Joaquim. “O acompanhamento, o aconselhamento, o controle de inadimplência, prazo maior para você poder pagar, tanto serve para um como para o outro”, pontua.

No banco Paulo Freire, a avaliação para liberação de crédito é feita pelos associados que estão na gestão do banco. “A gente vê o quanto a pessoa recebe, o quanto que ela gasta e tenta ajudar ela a ter o controle da própria renda. Tem vezes que a pessoa nem precisa pegar um empréstimo, porque ela só não está sabendo usar direito o dinheiro que tem. Em outros momentos, a gente empresta e acompanha”, comenta Dora sobre o processo de empréstimo.

A gerente do banco menciona que a confiança e a relação de proximidade com as pessoas é um ponto crucial para que a concessão e a devolução do crédito ocorram. “Quando a família não consegue pagar no prazo estipulado, a gente vai conversar com ela e estende, por exemplo, se tem que pagar em três meses, ela paga em seis o empréstimo. Assim a pessoa consegue ter o dinheirinho dela e consegue devolver pra gente.”

Os bancos comunitários têm uma renegociação de dívida mais flexível, que leva em consideração as condições sociais e financeiras das pessoas. “No Brasil, no começo de 2023 estava em 45% a inadimplência, ou seja, quase cinco de cada 10 pessoas não conseguiam pagar suas dívidas [no banco comercial]. No banco comunitário, a gente fala de 2%, ou seja, menos de uma pessoa por cada 10.”, aponta Hamilton Rocha, coordenador e articulador da Rede Paulista de Bancos Comunitários.

Oyá (Iansã) e Xangô: Orixás da transformação e força

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Nesta sessão, trago reflexões a partir do olhar ancestral que temos cultivado por aqui. Seguimos sendo surpreendidos por mudanças de rota, por caminhos que se desfazem e se refazem diante de nós. Tenho compartilhado minha visão sobre as forças que nos atravessam e nos convocam a novos desafios.

Como as águas, precisamos aprender a fluir, entregando-nos ao movimento, para então compreender o poder do fogo, que queima, transforma e nos empurra para grandes mudanças.

Hoje, convido à reflexão sobre o poder das divindades Oyá (Iansã) e Xangô.

Quem nunca se angustiou diante de um relâmpago cortando o céu, anunciando uma tempestade por meio de estrondosos trovões?

Diante de tamanha força, só nos resta reconhecer a grandiosidade do que nos transcende. Essas manifestações anunciam que algo será transformado, a vida como a conhecemos pode ser desfeita num sopro, e não temos controle sobre isso. Resta-nos apenas a consciência de nossa pequenez diante da força sagrada.

Quando criança, eu temia as tempestades. Queria me esconder, e o fazia: fechava os olhos e me cobria com o que acreditava ser proteção. Na inocência, pensava estar segura, quando, na verdade, apenas me refugiava no imaginário de uma segurança que não existia.

Na vida adulta, já sabemos que não há como se esconder das tempestades que a existência nos impõe. Somos chamados a encarar os ventos, os raios, a destruição e a transformação.

Não somos mais crianças, e fingir que tudo está sob controle é ilusão. Precisamos entender que não dominamos tudo. A vida exige entrega, fé, coragem e confiança na força dessas energias ancestrais que nos guiam.

As grandes mudanças, muitas vezes, vêm com dor. Quando a justiça não é ouvida, quando o entendimento nos escapa, quando tudo parece ruir, talvez não caiba buscar respostas imediatas, mas sim cultivar coragem para recomeçar, resiliência para reconstruir e sabedoria para seguir.

As tempestades, físicas ou simbólicas, sempre trazem um chamado: olhar para os erros, aprender com eles e seguir com mais equilíbrio e consciência.

Os ensinamentos que vêm da destruição e da reconstrução são regidos por forças que assustam, mas que também amam profundamente. O amor e a justiça de Oyá e Xangô, que regem o mês de julho, nos ensinam que há proteção, mesmo no caos. Que há amor, mesmo na dor. Que há justiça, mesmo quando tudo parece injusto.

Eparrey, Oyá! Kaô Kabecilê, Xangô!

Que nunca nos esqueçamos de que temos com quem contar, mesmo nos momentos mais difíceis. Sigo confiando no amor e na sabedoria de adulta, com o coração de uma criança.

Essa mesma força que parece destruir também é a que media as ações humanas e fortalece nossos passos. A analogia da tempestade nos ajuda a compreender os sinais da Terra, ventos, trovões e enchentes revelam não apenas as mudanças em nossas vidas, mas também as consequências de como tratamos o planeta. E sabemos: são sempre os mais vulneráveis que sofrem primeiro.

Na infância, escondíamo-nos sob os lençóis; na vida adulta, aprendemos ser preciso coragem. Coragem para olhar para dentro, descobrir a própria força e mudar de rota quando o caminho já não nos serve mais. Muitas vezes, somos perseguidos não pelos nossos erros, mas por nossa verdade, por aquilo que não está à venda, que resiste.

Xangô e Oyá cuidam dos seus. Protegem, mas também ensinam. Nos chamam à escuta, ao planejamento, à consciência espiritual e material. Nos convidam a desenvolver autoconfiança e a lutar por justiça, a nossa e a do mundo. Mas tudo isso só é possível quando nos abrimos para sentir, compreender e agir em alinhamento com essas forças.

Por fim, deixo mais uma imagem: a da tempestade que nos dilacera, mas também nos cura. Quando sentimos que tudo está desmoronando, é preciso lembrar que os trovões anunciam movimento. Que os relâmpagos revelam o que estava oculto. E que, após a tempestade, há sempre a possibilidade da bonança. Que venha o novo. Que venha a paz. Que venha a transformação.

Este é um conteúdo opinativo. O Desenrola e Não Me Enrola não modifica os conteúdos de seus colaboradores colunistas.

Duplicação da M’Boi Mirim: uma promessa política que atravessou uma década

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Recentemente, a duplicação da M’Boi Mirim tem sido alvo de novos debates, angústias e promessas. Na última eleição, em 2024, tanto o atual prefeito Ricardo Nunes quanto os demais candidatos falaram sobre essa pauta, especialmente Guilherme Boulos, que ocupava um lugar acirrado nas pesquisas de intenção de voto em relação a Ricardo.

Contudo, esse é um pedido recente da população?

Na verdade, a promessa de realização da duplicação já atravessou diferentes governos, sendo anterior às lutas da população com o Movimento Passe Livre, por exemplo. Quando tivemos as mobilizações pelo Hospital do M’Boi Mirim (que inicialmente seria construído no Guarapiranga, mas, com a pressão popular, foi possível alterar essa decisão), a duplicação já estava em pauta.

Em 2012, no governo de Kassab, tivemos mobilizações ativas da população pela duplicação da M’Boi Mirim e, apesar da pressão ativa e popular, não conseguimos enxergar uma luz no fim desse túnel de promessas.

Nessa época, eu tinha 12 anos e participei dos protestos do MPL na Zona Sul. Essa foto é do dia que alguns integrantes do movimento foram dormir na Associação que meu pai preside. Nesse dia estávamos organizando um ato. Foto de arquivo pessoal.

Nessa época, eu tinha 12 anos e participei dos protestos do MPL na Zona Sul. Irei deixar uma foto do dia em que alguns integrantes do movimento vieram dormir na associação que meu pai preside. Essa foto é de um dia em que estávamos organizando um ato. Foto de arquivo pessoal.

Em 2013, Haddad assumiu a Prefeitura do Estado de São Paulo. Tínhamos nele uma enorme esperança em relação a diversos encaminhamentos para a Zona Sul de São Paulo e, apesar dos registros no Plano de Metas de 2013 a 2016, nas reuniões não obtivemos respostas concretas em relação a essa reivindicação.

A “duplicação” realizada por ele foi somente a referente à ponte do Jardim Capela, uma obra pequena e que deveria ter tido continuidade por toda a extensão da avenida.

Estamos, então, realizando o aniversário de debutante dessa obra que nunca começa e que parece ser uma forma infinita de conseguir votos. Hoje, com meu pouco conhecimento na área de mobilidade urbana, sei que realizar uma duplicação não sanaria o problema que temos, pelo menos não por completo. O debate de mobilidade precisa ser realizado com profundidade, mas esse não é o foco do texto.

Todavia, o debate desse texto não é esse, e sim o uso constante de uma reivindicação popular para conseguir votos. Na última eleição, Ricardo Nunes citou a duplicação diversas vezes, porém, precisa ser uma informação de cunho público que ele não a incluiu no Plano de Metas de seu governo. Era uma promessa eleitoreira!

A promessa fez aniversário 

Assim, a duplicação do M’Boi Mirim já completou diversos aniversários. Poderíamos até realizar uma festa de debutante para ela. Uma reivindicação popular que tem um papel importante na mobilidade do território, que é utilizada para alcançar votação na região, porém jamais realizada.

Todas as semanas, em algum dos dias, muitos de nós temos que descer dos ônibus e caminhar para chegarmos em casa. Essa é uma realidade vigente desde a minha infância. Eu me lembro de caminhar do Jardim Ângela até em casa em diferentes fases da minha vida. Recordo das diversas vezes que cheguei atrasada em compromissos importantes ou no trabalho por passar 40 minutos parada somente no trajeto do Jardim Vera Cruz até a ponte.

Em uma cidade como São Paulo, beira ao absurdo pensar na população sendo exposta a esse tipo de realidade. Apesar das constantes propagandas que o governo faz, a São Paulo verdadeira para, não é rápida e não tem um planejamento efetivo para a população.

A juventude da região, que precisa trabalhar e estudar na região central da cidade, vive com a esperança de sair da região, não pelo ódio ao território, e sim pela exposição a condições precárias de mobilidade e transporte público. Não estamos falando de uma região pequena da cidade. O distrito do Jardim Ângela tem 311.432 habitantes (2022). Já a Zona Sul possui a maior concentração populacional da cidade: são 2,7 milhões de habitantes.

Se a obra já não será mais realizada, onde estão os recursos que foram destinados a ela? Além disso, quais outras alternativas a prefeitura tem pensado para a mobilidade na região?

Ricardo Nunes sempre se orgulha das suas economias, mas economizar sem investir na cidade e deixá-la sucumbir não é economia, é uma política que não pensa no trabalhador.

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Memórias periféricas na história da cidade

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Dia 13 de maio de 2017, data em que relembrávamos exatos 127 anos da falsa abolição da escravidão. Escrita na lei, mas até hoje vivida de forma relativa pelas populações negras brasileiras. Nesse dia, fui até o bairro Jardim Vila Carrão, o nosso Carrãozinho, distrito do São Rafael, Subprefeitura de São Mateus.


Havia combinado uma conversa com Maria Aparecida Trajano, Cida Preta, também conhecida como Tia Cida. Sento-me no sofá, ligo o celular para iniciar a gravação e ouço atentamente as histórias de uma mulher preta que chegou a São Mateus no fim dos anos de 1940, ainda com 7 anos.


Em um loteamento comercializado pela família italiana dos Beis (que dá nome à principal avenida do território), viu sua primeira casa, construída em mutirão por sua família e vizinhos, ser derrubada pelas chuvas e ventos.


Seu longo caminho de ônibus nas estradas de barro de São Mateus até os bondes na Celso Garcia e centro da cidade para chegar ao Jardins, para trabalhar como doméstica — trabalho que depois vira sua “casa”, por conta das longas distâncias, mas também da cultura racista dos patrões — é mais uma herança da falsa abolição que Tia Cida nos traz.


A fala é pausada, o olhar para o alto, expressão facial de quem saboreia o ato de rememorar. Entre o cigarro que acendia na boca do fogão e o café que preparava, contava da infância de seus filhos, as dificuldades nos estudos que só foram superadas pela filha. Os dois meninos sofriam racismo na escola, sua educação formal seria abreviada pela falsa abolição.


Desafios de uma mãe solo que teve seus filhos com um pintor de alegorias e espaços da escola Camisa Verde e Branco. Que foi embora e voltou ao final da vida para receber os últimos cuidados.


As andanças entre São Mateus, centro da cidade e Barra Funda, para comprar discos e instrumentos musicais, frequentar sambas e se formar enquanto cidadãos que rabiscavam a cidade ao ritmo do samba foram fundamentais para enfrentar as barreiras da falsa abolição. Marcelo Tocão se tornou exímio tocador de banjo.

Os sambas animaram o quintal de Tia Cida, a partir dos anos de 1970, sendo espaço de formação de uma turma que se espalhou por São Mateus como Berço do Samba de São Mateus, Bar do Timaia, Instituto do Samba de São Mateus, Samba da Maria Cursi, Escola de Samba Amizade Zona Leste. Quintal e sambas de resistência contra a violência do lado de fora, em plena Ditadura Civil-Militar, e na construção do viver na década de 1990 marcada pelo desemprego.

A sina do trabalho do cuidado, que a sociedade da falsa abolição destina às mulheres negras, fez com que Tia Cida estudasse serviço social, fosse designada pelo padre Franco, pároco da Igreja São Mateus Apóstolo, para mapear famílias que precisavam de cesta básica, crianças que precisavam de cuidado e espaços educacionais para que suas mães pudessem trabalhar.


Veio, então, a luta pelas creches, pelos postos de saúde, hospitais, com a participação no Movimento de Saúde da zona leste, do qual o Hospital São Mateus e postos de saúde conquistados com a volta da democracia ainda são testemunhas em São Mateus. A sina virou luta, formulação política, saberes de organização do povo e de direção de creches.


A essa altura, o impacto de ver a história da cidade que eu vivo, da periferia leste, de São Mateus sendo escrita oralmente, com todo o seu conteúdo de abolição real — em construção — já havia me colocado outra questão: que história é essa, que vem das leis, dos documentos de governo, que não respira, não se empolga, não luta e não vive a construção da nossa cidade?

Essas memórias periféricas, de nossas casas autoconstruídas, do básico arrancado do Estado com muita luta e articulação política e da criação artística, conseguimos captar aqui e agora, como movimento em constante transformação. É aquela que documentamos, narramos e vivemos mobilizando nossos sentidos: o escutar, o ver, tatear-caminhar.


Que o diga o grupo Opni, referência do graffiti na cidade nos últimos 20 anos, que, em 2021, colocou Tocão para tocar banjo para Tia Cida ao lado do grupo Berço do Samba de São Mateus, em uma linha do tempo de nosso samba, com todos os grupos e comunidades de samba que Tia Cida inspirou, incentivou e articulou e com quem gravou e divulgou seu álbum Tia Cida dos Terreiros em 2013.

Estão todos ali, nas paredes da galeria de graffiti a céu aberto da Vila Flávia, história monumentalizada por um dos elementos da cultura hip hop.
As memórias periféricas na história da cidade transbordam nas paredes, nas falas, no chão e no nosso olhar para o alto e ao redor. A história não é só escrita nos livros e não fala só de heróis ou heroínas.

Tia Cida é mulher, negritude, coletivo e movimento. Uma e, ao mesmo tempo, várias e vários, como são os movimentos, criadores, grupos, vielas, ladeiras, ocupações, conquistas, resistências e reexistências nas nossas periferias.

É dessas histórias, memórias e patrimônios (nossos monumentos e heranças) que tratarei nesta coluna que inicio hoje no Desenrola e Não Me Enrola.

Este é um conteúdo opinativo. O Desenrola e Não Me Enrola não modifica os conteúdos de seus colaboradores colunistas.

De quem é a escola? 10 anos da luta secundarista

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Em 2015, estudantes ocuparam escolas e ruas para dizer não a “reorganização” proposta por Geraldo Alckmin em São Paulo. A reorganização resultaria no fechamento de 94 escolas, o que mudaria a vida escolar de mais de 300 mil estudantes e cerca de 74 mil professores.

À nível nacional tínhamos duas políticas de cortes que afetariam a educação naquele momento. A primeira era a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 241, que visava limitar gastos em diferentes áreas, incluindo a educação. Já a segunda era a PEC do Teto (PEC 55) que alteraria a Constituição Federal (1988) e congelaria por 20 anos recursos públicos.

A partir dessas movimentações aconteceram duas mobilizações estudantis consecutivas, sendo a primeira em 2015 e a segunda em 2016. Dessa forma, o movimento político dos estudantes protagonizou uma luta importante, ganhando até músicas como “O trono do estudar” produzida em união de diversos cantores. O movimento de 2016, intitulado como “Primavera Secundarista”, se tornou um marco e teve “vitória” naquele ano. 

Em 2013, as jornadas de junho já haviam sido um marco político e social, a organização “livre” e com uma descentralização em relação a partidos políticos já chamava atenção. Além disso, a luta do Movimento Passe Livre tomou não somente as ruas do centro da cidade de São Paulo, como também as periferias com o pedido de que os trabalhadores fossem para rua. 

Nessa época, eu tinha 12 anos e participei dos protestos do MPL na Zona Sul, irei deixar uma foto do dia que alguns integrantes do movimento vieram dormir na Associação que meu pai preside.

Nessa época, eu tinha 12 anos e participei dos protestos do MPL na Zona Sul, irei deixar uma foto do dia que alguns integrantes do movimento vieram dormir na Associação que meu pai preside. Fotos, arquivo pessoal

Em 2015 os estudantes se posicionaram para afirmar que a escola era deles, um lugar diferente da narrativa receptiva, o clamor era pelo coletivo. A Prof. Dra. Flavia Ginzel em sua tese de doutorado intitulada A insurgência da crítica e a crítica da insurgência:

resistência, autonomia e desafios pós-ocupações secundaristas (2024), a pesquisa realizada com jovens “ocupas” após as ocupações em Sorocaba traz importantes contribuições a partir das experiências narradas por esses jovens, não só reafirma questões trazidas por outros estudos como o olhar para a escola como um lugar de reconhecimento, pertencimento, de trocas, saberes e diversidades, mas também da construção de olhar desses jovens para a política e a decisão de se organizarem contra essas políticas incisivas do Estado.

Partindo desses olhares e da minha experiência pessoal nas lutas é que decidi construir este texto para perguntar: de quem é a escola? 

 Ao observamos os movimentos após a Primavera Secundarista, a  nível nacional e estadual as políticas que nos assustaram foram reformuladas, ampliadas e aprovadas. Pensando nisso, decidi retomar esse recorte temporal, pois estamos vivendo em um momento desafiador para a educação, especialmente à nível estadual.

A partir de 2017 as políticas voltadas a educação focaram em fomentar a ideia de que o novo modelo seria mais compatível com o “mercado” ou com formar o estudante dentro da área de interesse, o NEM (Novo Ensino Médio), não somente ampliou as cargas horárias, como flexibilizou o currículo e propôs os itinerários formativos.

O projeto é interessante, a discussão sobre ele precisa de um aprofundamento que uma coluna não dará conta de realizar, mas é fato que entre o projeto e a prática existe um vão, um vão que também é composto pelo o que é oferecido de recursos a escola e comunidade escolar como um todo.

Para além dos debates sobre recursos, essas políticas excluem a realidade do estudante periférico que precisa trabalhar, por exemplo. Também não pensam melhores condições de trabalho docente.

Uma complementa a outra, mas não parecem contínuas, à medida que não pensamos que um estudante que trabalha não vai optar por estar na escola somente por receber 200$ do Pé de Meia, e se temos que implementar esse tipo de política é porque algo não está compatível com o ideal colocado primordialmente. 

A escola vira um objeto, perde a sua essencialidade, aprender se torna algo pautado não no conhecimento, mas no marketing desse conhecimento. A escola é de quem? Se em 2015, os estudantes gritavam nas ruas que a escola precisava se manter, melhorar e pediam por melhores ambientes para toda a comunidade escolar, o que nos restou?

Qual estudante permanece nessa escola? Para é essa escola?

Não digo aqui que tenhamos que realizar a crítica de maneira extrema, mas no mínimo precisaríamos revisar, à nível nacional, quais caminhos estamos direcionando para a educação em nível médio no Brasil. Já à nível estadual, não é preciso uma lupa para enxergar que todas as políticas caminham para a iniciativa privada, e não possuem tempo e nem espaço para debate. 

À qual interesse serve uma escola cívico-militar? De quem e para quem é essa escola? Não digo que não tenham estudantes que gostem da ideia, mas qual projeto de escola é esse? O que muda e melhora no currículo? S e o foco é o aluno e as trajetórias desses estudantes, quais conhecimentos e recursos essa escola oferece?

Como disse, esse texto não dá conta de responder, mas relembrei a lutar para que possamos refletir o que ficou para nós após esses 10 anos? O que podemos observar nas políticas de educação agora? De quem é essa escola?

Se em 2015 e 2016, lotamos as ruas para afirmar que as escolas eram nossas e que não aceitaríamos políticas de destruição, quais realidades temos agora? O projeto de escola que está vigente pertence a quais interesses? E quais alunos são contemplados por esse projeto? 

Segundo dados publicados em uma nota técnica em 2023 pela Rede Escola Pública e Universidade (REPU):

Os dados analisados permitem afirmar que a expansão do tempo integral no ensino médio não ampliou as matrículas nesta etapa de ensino nas redes estaduais em todo o país. Ao contrário, o que vimos, desde 2008, é uma perda de quase 830 mil matrículas, sendo a redução das matrículas noturnas uma das principais variáveis que impactaram esta redução. Vale ressaltar que tal perda de matrículas tem sido contínua desde 2008, indicando que a aprovação das legislações, programas e políticas com foco no ensino médio e na expansão do tempo integral no referido período não produziram os efeitos de expansão da oferta e, muito menos, de universalização desta etapa da educação básica”.

A partir da perspectiva que segui nesse texto, essa é uma escola para marketing, é um projeto de escola que não pensa no conhecimento e nem nas trajetórias reais dos alunos e tampouco se interessa pelos territórios onde serão desenvolvidos os projetos. Há uma padronização da educação e uma política excludente em relação à jovens periféricos e suas trajetórias. 

Após 10 anos, qual escola temos?

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Liderança indígena pauta trajetórias coletivas na busca por políticas públicas

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Ao nos receber em sua casa, logo de início, Chirley Pankará faz questão de apresentar o ambiente em que estamos chegando, a ‘Sala da Memória’, espaço que abriga peças e obras que dialogam sobre território e memória. “[Aqui] tem peças de barro do meu núcleo familiar, peças de vários povos indígenas, e aí a gente vai se conectando com essas ancestralidades também. Isso me mantém no processo de territorialidade, que é a conexão que eu faço na cidade em situação de contexto urbano [com] o território indígena”, explica.

Chirley Pankará, 50, é pedagoga, doutoranda em antropologia, e conta que sua família é do território reconhecido como Serra do Arapuá, no município de Carnaubeira da Penha, em Pernambuco. “Nós fomos trabalhar em fazendas [na] zona rural [do município] de Floresta, que não é a mesma [região] das aldeias Pankará”. Ela menciona que essa migração foi a alternativa encontrada pela família para conseguir trabalho e subsistência.

Em 1998, Chirley migrou para São Paulo pelo mesmo motivo, “vim para trabalhar como empregada doméstica”, conta. Atualmente, ela mora no bairro Jardim São Francisco, localizado no distrito de São Rafael, na zona leste de São Paulo. 

“Muitos indígenas que vivem em situação de contexto urbano, vivem nas periferias. Quando eu falo periferia também estou falando de povos indígenas. É que há um pensamento distorcido de achar que o indígena está só dentro da aldeia.”

Chirley Pankará, pedagoga e doutoranda em antropologia.

Ela identifica sua ligação com a militância e a liderança desde a infância, quando sua avó Maria Divina, conhecida como Mãe Bó, que era parteira e benzedeira, pedia ajuda na busca de ervas, e Chirley prontamente ia procurar na mata para auxiliar. 

Chirley traz que sua atuação nos movimentos sociais antecede sua participação na política partidária. “Eu era ligada à política pública da luta dos movimentos sociais”, comenta. Ela conta que sua trajetória política é permeada pela escuta, oralidade e pela construção de redes. 

A partir dessa perspectiva de construção conjunta, Chirley fala sobre um tipo de liderança, que se estabelece por um querer coletivo. Segundo ela, é por esse direcionamento que está como pré-candidata a vereadora de São Paulo. “Algumas pessoas, que não estão dentro do contexto indígena de coletividade, de escutas, [não entendem] quando eu digo que foram os povos indígenas que escolheram”, compartilha.

Reunião com lideranças políticas e indígenas, na Terra Indígena Jaraguá, em 2022 (foto: Rafael Vilela)

“Em São Paulo capital, por exemplo, nós temos 19.777 indígenas, apontou o IBGE. Com 19.777 [votos] não elege uma vereadora. E estamos contando que nesses 19.777 temos as crianças”, expõe Chirley ao explicar que por causa dessa quantidade de votos não seria uma boa estratégia lançar duas candidaturas ao mesmo tempo, e que é desse modo que os indígenas geralmente se organizam politicamente, sem competir entre si.

Trajetória

Em 2007, Chirley começou a cursar pedagogia como bolsista por renda. No ano seguinte, após ingressar na faculdade, passou a se conectar com outras atuações. “Eu me encontrei com os parentes indígenas [e] comecei a participar de movimentos indígenas”, diz. E de lá para cá não parou mais. “Em 2009, fui para a minha primeira viagem fora de São Paulo no sentido da militância, representando a questão indígena”, conta. 

Desde então Chirley já integrou o Conselho Nacional de Mulheres Indígenas representando a educação, participou da 2° Conferência Nacional da Igualdade Racial, foi para a Rio+20, para a Conferência Global de Mulheres Indígenas em 2013, realizada no Peru, participa do ‘Acampamento Terra Livre’, entre outras movimentações. 

Chirley no Congresso Nacional reivindicando a demarcação de terras indígenas, durante o Acampamento Terra Livre (foto: arquivo pessoal).

Através dessas articulações, Chirley conheceu Edson Kayapó, que é escritor, ativista indígena e historiador. Ela a indicou para o Observatório da Educação Escolar Indígena, na PUC, onde iniciou como estudante e após o primeiro ano passou a atuar como professora, de 2009 a 2012, período que também começou o mestrado.

Em 2010, também a convite de Edson Kayapó, foi Coordenadora Geral das escolas de primeira infância do Povo Guarani, em três Centros de Educação e Cultura Indígena (CECIs), na Tenonde Porã e Krukutu, em Parelheiros, zona sul de São Paulo, e no CECI Jaraguá, no Pico do Jaraguá.

Chirley como doutoranda em Antropologia Social da USP, no Seminário internacional de antropologia. (foto: arquivo pessoal).

“Eu fui aprovada [como] a primeira mulher indígena a entrar no doutorado em antropologia social na USP, como cotas”, aponta Chirley, que reivindica ter professores e autores indígenas como referências no curso. 

Identitarismo

Chirley conta que foi apenas em 2018, que filiou-se a um partido político. Através do Emerson Guarani Nhandeva, que é professor e pesquisador, ela foi chamada para conhecer e participar da campanha da Bancada Ativista. A Pankará comenta que na ocasião ainda não conhecia como funcionavam os mandatos coletivos. 

Na última reunião para definir as co-candidatas do mandato, a pedagoga foi para entender mais sobre, e ao final do encontro passou a compor a Bancada Ativista, que ganhou as eleições de 2018. “Eu fui para a reunião e senti que dava pra dialogar, porque eu vi pessoas que se aproximavam da minha pessoa. Eu pensava que eu ia ver só aquele povo metido, nas gravatas, no salto”, comenta.

Sobre as dificuldades de atuar na política enquanto mulher indígena, nordestina e periférica, Chirley diz que há várias formas de preconceito. “Você tem que ser 10.000 vezes mais forte, pra poder se manter de pé, fazer políticas públicas e combater isso”, coloca. 

“Eu [já] vi muitas pessoas falarem assim: ‘ela traz uma pauta identitária’. Como se quisesse me xingar, sabe?”

Chirley Pankará, pedagoga e doutoranda em antropologia.

A pedagoga afirma que as pautas que contemplam os povos indígenas também podem ser necessárias para a cidade. “Quando estou falando de privatização da água, da Sabesp, estou falando de um braço que se conecta com meio ambiente. A especulação imobiliária, as ecovias verdes, tantas coisas que vão servir para a cidade e para a aldeia”, exemplifica. 

Chirley também aponta que a visão estereotipada e de tutelagem sobre os indígenas ainda existe, tanto na sociedade como nos espaços políticos, e que esse imaginário precisa ser descolonizado.

Chirley Pankará, pré-candidata a vereadora de São Paulo, fala sobre militância e representatividade indígena na política paulistana.
Chirley como Coordenadora Geral de Promoção à Políticas Culturais, pelo Ministério dos Povos Indígenas (foto: arquivo pessoal).

Em 2023, a Pankará atuou como Coordenadora Geral de Promoção à Políticas Culturais, pelo Ministério dos Povos Indígenas, e se desvinculou para concorrer às eleições de 2024. “Estou a serviço do movimento indígena, uma liderança é a serviço da coletividade. A gente tem que honrar a memória dos nossos ancestrais”, finaliza.

Trajetória política: Agatha Benks fala sobre a busca por representação na política institucional

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Agatha Benks, 38, é uma mulher negra, travesti, de matriz africana e periférica, que está como pré-candidata a vereadora do município de Cachoeiro de Itapemirim, do Espírito Santo, cidade onde mora, no bairro Bela Vista. Agatha conta que construiu uma trajetória de vivência política que antecede essa primeira candidatura que disputa nas eleições de 2024.

“Eu sou ativista de direitos humanos e trabalho com educação social, com coletivos e ONGs de empoderamento e fortalecimento da população preta e periférica”, diz. Agatha é vice-presidente do Conselho Estadual LGBTQIAPN+ do Espírito Santo, assessora parlamentar da deputada estadual Camila Valadão, pelo PSOL, partido no qual é filiada desde 2019, e também atua na área da cultura.

Trajetória política: Agatha Benks fala sobre a busca por representação na política institucional
Agatha Benks em um evento do Partido Socialismo e Liberdade (PSOL). (foto: arquivo pessoal).

“Enquanto mulher trans e periférica, eu sou uma sobrevivente por não aceitar nada que a sociedade historicamente colocou para o meu corpo. Eu não aceitei a prostituição como a minha única opção de vida. Eu relutei contra isso por vários anos, desde quando eu me entendi travesti”, coloca.

Aos 16 anos, Agatha abandonou os estudos por causa dos preconceitos e hostilidades que sofreu quando cursava o ensino médio em uma escola pública. Foi nesse período que ela vivenciou a prostituição.

Agatha na composição do conselho estadual lgbtqipn+ do Espírito Santo (foto: arquivo pessoal)

“[Eu tinha] medo desse submundo de marginalização das mulheres trans, deste lugar que é extremamente inseguro, incerto e violento. Então eu procurei outros caminhos”. A partir daí, Agatha começou a trabalhar como cabeleireira. “Quando se é uma travesti [ou] trans, você é manicure, cabeleireira e maquiadora ou você vai fazer programa, porque você não acha outro emprego”, afirma.

Após se estabelecer como cabeleireira e voltar a estudar, ela optou por trabalhar em áreas que se relacionam com a militância sobre negritude e a comunidade LGBTQIAPN+. “Por mais que eu não esteja [mais] naquele ambiente [de prostituição], eu também não quero que as minhas amigas estejam lá”, menciona a assessora, que concluiu o ensino médio atraves do EJA (Educação de Jovens e Adultos), e por meio do ENEM, cursou Gestão Pública com bolsa de estudos pelo PROUNI.

“É só na educação e no estudo que a gente consegue romper [os preconceitos], se você quer combater o racismo, o preconceito, estude, é a única forma de você enfrentar o que está imposto frente a todos esses recortes de violações de direitos humanos.”

Agatha Benks, vice-presidente do Conselho Estadual LGBTQIAPN+ do Espírito Santo e pré-candidata a vereadora de Cachoeiro de Itapemirim.

Garantir o direito ao uso do nome social foi uma das dificuldades da graduação na universidade em que conta ter sido a primeira travesti a estudar. Nesse período, a assessora relata que outras mulheres trans e travestis da região passaram a acreditar que estudar e se formar era um caminho possível. “Foi muito simbólico, outras meninas se viram representadas”, diz.

Embora já tivesse conexão com as pautas que aborda, a universidade também fortaleceu sua militância, e de lá surgiram os direcionamentos da área que passou a trabalhar. Foi nesse espaço que conheceu coletivos, grupos de diversidade, negritude e que desenvolveu um lado politizado com o respaldo na palavra.

Atuação política no território

“A periferia está sempre formando homens e mulheres, jovens, negros, lgbts, ou não lgbts, a periferia está sempre formando o povo preto, porque é o lugar de todas as [nossas] vivências”,  menciona Agatha.

Desde 2016 ela atua no instituto FEPNES (Instituto de Fortalecimento e Empoderamento da População Negra + Diversidade), no qual atualmente é coordenadora da pasta de diversidade. O instituto realiza ações que promovem os direitos humanos das pessoas lgbtqiapn+, mulheres e jovens negros. Entre essas ações está a oferta de cursos nas áreas de empreendedorismo em comunidades do Espírito Santo.  

Suas vivências enquanto travesti, negra e periférica interferiram na decisão de entrar na disputa da política institucional e buscar combater o racismo. “A partir do momento que a gente desce um morro e vai para o centro a gente entende o preconceito territorial. O preconceito de você ser periférico, porque as pessoas vão te olhar e julgar”, coloca.

Agatha no Conselho Estadual de Promoção da Igualdade Racial do Estado do Espírito Santo. (foto: arquivo pessoal).

“O menino [negro] de 17 [ou] 18 anos se desce para a rua de sandália, boné e cordão, automaticamente uma viatura vai parar ele. Quando ele entrar numa loja um segurança vai acompanhar ele”, exemplifica Agatha. Segundo dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública, 83% dos mortos pela polícia em 2022, no Brasil, eram negros, pobres e residentes das periferias, sendo que 76% tinham entre 12 e 29 anos. 

São todos esses recortes e demarcadores que estão presentes na trajetória da assessora. “Minhas frentes de atuação [são] a negritude e a diversidade da população LGBTQIAPN+. Minhas bandeiras são homens, mulheres e jovens negros e negres. E dentro dessa militância da negritude tem os povos de terreiro e de matrizes africanas que também é um povo muito violentado”, coloca Agatha.

Desafios e motivações

Agatha diz que foi nas eleições de 2022, que começou a considerar a possibilidade de se candidatar, e a ideia veio a partir da sua atuação como assessora parlamentar. Foi através dessa experiência que começou a entender de fato como a política institucional é feita, e incentivada por pessoas parceiras, decidiu pela candidatura.

“Pessoas de terreiros, de matrizes [africana], lgbtqiapn+, pretas, periféricas, essas pessoas começaram a comentar em posts meus [nas redes sociais]: ‘você me representa’, ‘eu tenho orgulho’. Foi que eu entendi que posso realmente representá-los de fato, com garantias de lei”, coloca Agatha. Ela comenta que essa motivação foi fundamental, já que, segundo a pré-candidata, o Espírito Santo é um estado conservador. 

Em 2023, pelo 15º ano consecutivo, o Brasil seguiu sendo o país que mais assassina pessoas trans, conforme mostra o “Dossiê: Assassinatos e Violências contra Travestis e Transexuais Brasileiras”, realizado pela ANTRA (Associação Nacional de Travestis e Transexuais).

Para Agatha, ser uma mulher, negra, travesti, de terreiro e periférica dentro da política partidária é um posto que reúne diferentes tipos de representatividades e que isso também torna o meio político um local cheio de desafios para pessoas como ela.

“Aqui na minha cidade não precisa literalmente ser eu. Eu estou aqui pela primeira vez [me pré-candidatando], mas que tenha uma pessoa igual a mim, porque a gente entende a importância desse corpo político”, comenta. Agatha ainda menciona que mulheres trans na política, como Erika Hilton, Deputada Federal, é algo que a motiva e inspira nessa empreitada por um cargo político e por dias melhores.

Coletivo incentiva uso da bicicleta como opção de mobilidade e lazer nas periferias

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Segundo dados da pesquisa Viver em São Paulo: Mobilidade, realizada pela Rede Nossa São Paulo junto com o Instituto Cidades Sustentáveis e o Ipec (Inteligência em Pesquisa e Consultoria Estratégica), em 2023, o tempo médio gasto diariamente para fazer todos os deslocamentos na cidade, através do transporte público, era de 2h26.

Esse é um dado vivenciado por muitas pessoas, principalmente em territórios periféricos, como é o caso da Josivete Pereira, conhecida como Jô, que passou a considerar o uso da bicicleta para se locomover, a princípio por uma questão financeira, mas também pelo tempo de locomoção na cidade.

Jô Pereira, moradora do Rio Pequeno, é presidenta da União de Ciclistas do Brasil e cofundadora do coletivo Pedal na Quebrada. (foto: Yuri Vasquez)

“A gente precisa ter tempo pra gente, só [temos] tempo para o trabalho. A gente se desloca, trabalha e volta. Não pode ser só isso”, coloca Jô Pereira, que é educadora física, moradora do bairro Jardim Ester, no distrito do Rio Pequeno, zona oeste de São Paulo, presidenta da União de Ciclistas do Brasil, atuante na Associação de Ciclistas Urbanos de São Paulo, e uma das fundadoras do coletivo Pedal na Quebrada. 

A ciclista aponta que qualidade de vida e lazer se relacionam com as questões de mobilidade urbana. Ela coloca que o uso da bicicleta nas periferias não se dá apenas no aspecto da obrigação ou escassez, que pode ser usada para brincar e em exercícios físicos.

“A mobilidade ativa, tanto a pé quanto de bicicleta, e o transporte público dependendo dos horários, são maneiras com as quais a gente pode estar somando ganhos nessa mobilidade. Isso é importante para repensar as cidades”, diz Jô. 

Pedal na Quebrada

O Pedal na Quebrada é uma iniciativa criada em 2018, pela Jô Pereira, junto da Jezz Rodrigues e Angela Maris, que moram em Itaquera, e pela Tati Souza, que é de Guaianazes, ambos territórios localizados na zona leste de São Paulo. 

Coletivo incentiva uso da bicicleta como opção de mobilidade e lazer nas periferias
Angela Maris, Jô Pereira, Tati Souza e Jezz Rodrigues formam o coletivo Pedal na Quebrada. (foto: arquivo pessoal).

Formado por três educadoras físicas e uma educadora infantil, as ações do coletivo circulam por diferentes regiões. A principal atividade tem sido retomar as reais histórias dos territórios, a partir do conhecimento de quem veio antes e de quem o habita no momento, isso se dá através da poesia e do ciclismo na atividade que Jô se refere como Pedalada Política, proposta pelo coletivo. Ela explica que o objetivo é “falar da nossa historicidade, dos corpos negros e indígenas na cidade, só que no olhar do pedal”.

“Não é um passeio ciclístico, é uma pedalada política, artística e principalmente afetiva, porque é para a gente se colocar na história e se colocar no presente”. A ciclista conta que essas pedaladas são realizadas com alguém do território, e previamente é feito um mapeamento do percurso que tem entre 10 e 20 km. 

Pedalada noturna no município de Mogi das Cruzes, em São Paulo. (foto: Jezz Rodrigues)
Pedal no distrito de Belém, com o projeto ‘Poesia urbana sobre rodas’. (foto: Yuri Vasquez)

O coletivo também promove oficinas de mecânica e de pedal, que além do aprendizado prático estimulam o desenvolvimento da autonomia, da construção coletiva e provocam questões de identidade e subjetividade das pessoas que participam.

Como exemplo, Jô cita um grupo de pedal formado por incentivo das ações do coletivo, após uma oficina que realizaram na Casa Anastácia, um Centro de Defesa e Convivência da Mulher que atende mulheres vítimas de violência doméstica. 

Participar de discussões acadêmicas é mais uma das movimentações da iniciativa. “Entrar dentro das estruturas de educação para decolonizar esse assunto [da mobilidade urbana], porque ele é bem colonizado”. Classe, raça e gênero são temas presentes quando se trata da viabilidade do uso de bicicletas e o Pedal na Quebrada também desenvolve suas atividades a partir dessas abordagens ao abrir espaço para rodas de conversas antes das oficinas práticas.

Políticas públicas

A regulamentação do uso das bicicletas e dos demais veículos, como bicicletas elétricas, ciclomotores, entre outros, para que eles utilizem as vias ao invés das calçadas, por exemplo, é apontada por Jô como uma forma para evitar acidentes.

“A gente está lutando por mais espaço dentro das vias, da ‘carrocracia’ e para isso a gente tem que ganhar mais espaço também para o pedestre”.

Jô Pereira, Presidenta da União de Ciclistas do Brasil, integrante da Associação de Ciclistas Urbanos de São Paulo e cofundadora do coletivo Pedal na Quebrada.

Segundo o Código de Trânsito Brasileiro, a bicicleta é considerada um veículo de propulsão humana, e por isso pode ser usada na via, tendo direitos e deveres resguardados pela lei.

Jô afirma que a diminuição da velocidade dos veículos motorizados é uma das providências a serem tomadas para viabilizar não só a locomoção com bicicleta nas cidades, mas para diminuir os sinistros com veículos de modo geral. Ampliar a malha cicloviária na cidade, tendo como foco as periferias, também é uma das prioridades reivindicadas.

“Pensar a cidade e as políticas públicas também nessa visibilidade de como respeitar a pluralidade das pessoas estarem nos mesmos espaços com seus direitos garantidos. [Precisamos] de olhares [na] construção política para periferias e falar: ‘Opa, precisamos aumentar a malha cicloviária nas periferias’. Tem aumentado? Tem. Com tanta pressão tem funcionado, mas ainda está muito lento”, coloca a cofundadora do Pedal na Quebrada. 

Vivência Bike Trial, projeto do Dia do Desafio pelo Sesc 14 Bis. (foto: arquivo pessoal).

As necessidades para viabilizar a locomoção com bicicleta nas periferias ainda são muitas, e Jô coloca que a organização em coletivos para elaborar projetos políticos tem sido a estratégia adotada para alcançar melhorias. 

“Quem mais pedala é a periferia, isso é muito bom e positivo, só que a gente precisa de segurança para todo mundo [com] qualidade, não é só pintar [uma faixa]”, compartilha Jô, que também afirma sobre a facilidade do uso de bicicletas em bairros centralizados ocorrer por conta do investimento destinado para esses locais.

A educadora coloca que as discussões sobre políticas públicas de mobilidade urbana precisam acontecer também nas periferias para que moradores desses territórios possam ter a possibilidade de participar.

“[Precisamos de] mais de nós falando, não pode ter tão poucas representações assim, porque somos muitos, tem que ampliar mais essa discussão, porque não é uma discussão só da bicicleta, é uma discussão da cidade”, menciona Jô, que ressalta sobre o voto nas eleições interferir diretamente nesse planejamento urbano.

Direito à saúde: o acesso à políticas públicas de dignidade menstrual nas periferias

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Dignidade menstrual e pobreza menstrual são conceitos que tratam das condições de higiene e saúde de pessoas que menstruam, levando em conta as particularidades e necessidades que o período menstrual requer. Contudo, medidas de cuidado e saúde muitas vezes não são disponibilizadas para pessoas em situações de vulnerabilidade social. 

“A dignidade menstrual é o acesso a cuidados de saúde em geral, para poder cuidar do próprio corpo e [isso inclui ter acesso aos] produtos ligados à menstruação”, explica Shisleni Macedo. Ela é especialista em estudos de gênero e teoria feminista, atua como pesquisadora no Centro de Estudos Periféricos (CEP) da Unifesp e trabalha em projetos ligados a justiça reprodutiva.

“A gente tem relatos de mulheres que durante a menstruação inserem miolo de pão no canal vaginal ou pedaços de colchão, que usam tecidos e nem sempre têm água o suficiente [ou] saneamento básico em suas casas para higienizar”, relata a pesquisadora, que também trabalha em uma organização de direitos sexuais reprodutivos.

“Pobreza menstrual é toda a dificuldade de pessoas que menstruam têm para acessar itens de higiene necessários para esse período, que não são apenas mulheres, adolescentes, meninas, mas também pessoas trans, não-binárias, intersexo, que tenham útero e menstruam. Uma pessoa que não consiga, por exemplo, ter absorventes suficientes para todo o seu período, está numa situação de pobreza menstrual”.

Shisleni, especialista em estudos de gênero e teoria feminista.

Situação pela qual a Taciana Lopes, 21, já passou. “Quando eu era adolescente deixei de ir pra escola por não ter absorvente ou [tinha que] racionar. Eu deixava de usar em casa e quando eu ia para a rua, ia com um pouco que eu tinha. Eu já tive que pedir para uma amiga. Na necessidade, em uma emergência, [são] outras mulheres que me ajudam a ter esse absorvente”, comenta a jovem bolsista do curso de Gestão Financeira, moradora do bairro Jardim Vera Cruz, em São Mateus, zona leste de São Paulo.

Direito à saúde: o acesso à políticas públicas de dignidade menstrual nas periferias
Taciana Lopes, antes do Pograma Dignidade Menstrual, tinha dificuldade de ter acesso suficiente aos absorventes. (Foto: Viviane Lima)
Segundo o relatório “Pobreza menstrual e a educação de meninas”, de 2021, realizado pelo movimento Livre para Menstruar, no Brasil, em torno de 60 milhões de mulheres menstruam, sendo que 15 milhões não têm acesso à água tratada e 1,5 milhão moram em casas sem banheiro. Ou seja, pode-se considerar que essas mulheres estão em situação de vulnerabilidade menstrual.

Políticas públicas

Atualmente, Taciana participa do Programa Dignidade Menstrual, uma política pública lançada em 2023, para viabilizar o acesso gratuito à absorventes para pessoas que menstruam, que tenham baixa renda ou estejam em vulnerabilidade social.

Para participar do programa é necessário ter entre 10 a 49 anos, estar inscrito no CadÚnico, emitir uma autorização pelo aplicativo Meu SUS Digital, ter renda mensal de até R$ 280, ou ser estudante da rede pública e ter baixa renda. Pessoas em situação de rua também têm direito a esse benefício. Os absorventes podem ser retirados em qualquer Farmácia Popular credenciada, mediante a apresentação de um documento de identidade com foto, CPF e a autorização do aplicativo.

“Eu não tenho renda, então ajuda bastante porque o valor de cada [pacote de] absorvente é muito gasto, e eu não tenho esse dinheiro todo mês. [Agora] eu não tenho essa questão de ficar contando os absorventes que eu vou usar para conseguir render para o próximo dia ou para o próximo ciclo”, conta Taciana. A jovem diz que conseguiu cumprir todas as etapas do programa e retirar os absorventes sem dificuldade.

Absorventes distribuídos pelo Programa Dignidade Menstrual. (Foto: Taciana Lopes)

No entanto, Shisleni aponta que essa não é a realidade da maioria das pessoas que precisam do auxílio. “É importante que existam políticas públicas, mas da maneira como está hoje, pela mediação de um aplicativo, elas não atingem as populações extremamente precárias”. A pesquisadora comenta que pessoas em extrema vulnerabilidade não têm acesso à internet ou até mesmo ao celular para realizar os passos necessários que viabilizam a distribuição gratuita pelo programa.

Giselda de Oliveira, 51, é agente comunitária de saúde e aponta que no caso de pessoas em situação de rua, falta até a documentação. Ela mora no bairro de Santo Onofre, e trabalha na UBS (Unidade Básica de Saúde) que tem o mesmo nome do bairro, localizado em Taboão da Serra, São Paulo. 

Giselda de Oliveira é agente de saúde na Unidade Básica de Saúde Santo Onofre, no município de Taboão da Serra. (Foto: Viviane Lima)

“Quando você educa a população eles entendem. A gente tem que ir pra rua, ensinar, ter palestras”, comenta a agente de saúde. Para além de campanhas de informação e conscientização, ela aponta que é necessário realizar ações conjuntas envolvendo diferentes instituições e secretarias para auxiliar na questão da documentação, no acompanhamento e na implementação do programa para torná-lo efetivo e acessível para quem precisa. “A população não está informada sobre isso [o Programa Dignidade Menstrual]”, afirma Giselda.

A agente de saúde menciona que nenhuma informação ou instrução sobre o programa chegou para a UBS Santo Onofre. O fornecimento dos absorventes está acontecendo, mas segundo Giselda, não houve mobilização local para informar as pessoas e auxiliá-las na obtenção desses itens. 

Taciana, Giselda e Shisleni mencionam a importância do programa, mas ressaltam que precisa de ajustes. Shisleni aponta que a situação das pessoas que menstruam que estão em cárcere também deveria ser considerada, para que elas pudessem ter acesso aos direitos básicos de higiene e saúde. A pesquisadora comenta que há muito a ser feito para as pessoas passarem pelo período menstrual de forma adequada. 

“Que a gente consiga pensar políticas públicas de direitos trabalhistas [e] tenha mais licenças de saúde ligadas às questões de menstruação [para] pessoas que têm problemas que fazem com que a menstruação seja incapacitante”, coloca a pesquisadora.

Tabus discutidos por gerações

Sarah Lutosa, 15, é moradora do bairro Jardim Iracema, em Taboão da Serra, e afirma que a menstruação segue sendo um tabu mesmo para a sua geração, e que o acesso à higiene básica nos lugares públicos, como na escola, também é precário. Ela está no primeiro ano do ensino médio e estuda em escola pública. 

“Tem papel higiênico, mas é muito raro ter sabonete e absorvente. Se você quiser um absorvente tem que ir na secretaria pedir e não é sempre que tem”, menciona Sarah.

Ainda segundo o relatório “Pobreza menstrual e a educação de meninas”, o Brasil tem cerca de 7,5 milhões de meninas que menstruam na escola, sendo que 90% delas frequentam a rede pública de ensino. A partir dos dados da Pesquisa Nacional da Saúde do Escolar (PENSE) do IBGE de 2015, o relatório aponta que cerca de 3% das alunas estudam em escolas que não têm banheiro em condições de uso. Essa porcentagem equivale a 213 mil meninas, sendo dessas 65% negras.

A adolescente conta que já passou por uma emergência e teve que pedir absorvente na escola. “Foi horrível. Antes tinham disponibilizado os absorventes no banheiro, só que o pessoal que não tinha condição ia lá e pegava todos. Eles pararam de colocar por conta disso”, comenta.

Sarah Lutosa é estudante do ensino médio e faz uso de fitocosméticos para amenizar os incômodos menstruais. (Foto: Viviane Lima)

“Por ser um tabu, o pessoal tenta esconder que existe, então não tem muito suporte para isso”, aponta Sarah. “Acho que a menstruação tem que ser tratada da forma mais natural possível”, diz a adolescente sobre naturalizar a menstruação como caminho para que a população comece aprender a lidar melhor com o assunto.

Shislene coloca a educação sexual como outro ponto que poderia auxiliar na quebra dos tabus relacionados ao tema.

“Se a gente pudesse conversar nas escolas sobre educação sexual, uma das coisas que a gente iria discutir é sobre o ciclo menstrual. Como funciona, o que significa esse sangramento. Inclusive, para que jovens possam identificar quando tem alguma coisa que não está funcionando bem”.

Shisleni, especialista em estudos de gênero e teoria feminista.

A pesquisadora menciona que esse tipo de abordagem ajuda a ensinar sobre autocuidado, contribui com a identificação e prevenção de doenças, além de ser uma forma de detectar casos de vulnerabilidade social, e assim, auxiliar no combate à pobreza menstrual. 

“[A educação sexual ajudaria a identificar] quando está tendo algum sintoma que não é esperado para aquela idade, para aquela fase do ciclo, e [para que] a gente possa identificar inclusive mais cedo problemas de saúde, por exemplo, ou acessar questões de precariedade mesmo, ligadas a isso”, finaliza a especialista sobre o papel também das escolas nesse processo.

“O mulherismo africana é a quebrada”, afirma pesquisadora sobre a presença do movimento nas periferias

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Segundo Wanessa Yano, pesquisadora de história, artes, estéticas africanas e afrodiaspóricas, o mulherismo africana busca referências plurais do continente africano, e é uma prática que está presente dentro da periferia. “O mulherismo africana vai dizer que a nossa história pode ser diferente [enquanto mulheres negras], mas a nossa luta pela raça, ela é igual independente da condição em que você esteja”, coloca.

Wanessa Yano diz que o mulherismo africana é prática nas periferias.
Wanessa Yano na exposição Brasis, que ocorreu no Sesc Belenzinho. (foto: arquivo pessoal)

A pesquisadora, que também é co-fundadora da editora Ananse, conta que é dentro de uma perspectiva familiar, matriarcal e de comunidade que o movimento se apresenta nos territórios. “Hoje a mulher negra é a sustentação da casa, principalmente na quebrada. No mulherismo africana, uma mulher preta dentro de uma periferia sabe que se ela mudar a própria realidade, vai mudar a realidade de toda a família dela”, coloca Wanessa. 

“Qualquer associação de mulheres dentro de uma quebrada já tem vínculo com o mulherismo africana. Onde as mais velhas trocam e se fortalecem entre elas é uma comunidade de mulherismo africana”

Wanessa Yano, pesquisadora de história, artes, estéticas africanas e afrodiaspórica.

Wanessa afirma que nessa prática a comunidade é um elemento tão fundamental quanto raça. Esse é um ponto central na busca do bem viver e na resolução de conflitos. Dentro desse contexto de comunidade, a prática também engloba questões que envolvem homens negros.

“Por exemplo, se [uma mulherista africana] está dentro de um relacionamento e o cara é machista, ela vai fazer a correção devida desse homem, mas ele também vai precisar entender o que é ser um homem preto, africana, [para ele modificar] as reproduções que ele está tendo do machismo”, exemplifica a pesquisadora, que ressalta a importância de homens africana debaterem sobre suas masculinidades.

“O mulherismo africana já existe dentro da quebrada, ele é a quebrada. Ele é a mãe de vários meninos em situação de cárcere. Ele é a situação das grandes cozinheiras dentro da quebrada. Ele é as mulheres que estão como agentes de saúde que andam o dia inteiro para cuidar de outras pessoas. É sobre o agir e o fazer todos [os] dias por uma comunidade.”

Wanessa Yano, pesquisadora de história, artes, estéticas africanas e afrodiaspórica.

Feminismo e Mulherismo Africana

O termo mulherismo africana, foi criado em 1987, pela autora e acadêmica afro-estadunidense, Clenora Hudson-Weems. No Brasil, o termo chega através da tradução do livro “Mulherisma Africana: uma teoria afrocêntrica”, da escritora afro-estadunidense, Nah Dove. “Clenora fala que não inventou nada, ela deu um nome a algo que já existia, [que é] a insatisfação das mulheres que não se identificavam com o feminismo e que precisavam dar nome àquilo [que viviam]”, comenta Wanessa.

Clenora Hudson-Weems criou o termo mulherismo africana, em 1987. (foto: arquivo pessoal)

Ao citar Clenora como referência, Wanessa coloca que mesmo as vertentes do feminismo que abordam questões raciais, como o feminismo negro e o interseccional, surgiram de um não pertencimento ao feminismo tradicional, e não dão conta das experiências de mulheres negras, pois apresentam uma origem eurocêntrica e ocidental, que por anos desconsiderou até a humanidade de pessoas negras. 

“Olhando para a história do feminismo, que surgiu da luta sufragista das mulheres brancas, em que as mulheres pretas passaram por muitas violências e que [tem] situações de racismo desde a sua formação, não há como [o feminismo] se tornar algo das mulheres pretas. A agenda dessas movimentações vão ser pensadas para mulheres brancas”, pontua Wanessa Yano.

Segundo Wanessa, o movimento também contempla, desde a sua origem, a comunidade LGBTQIAPN+, por entender que ‘mulher’ é uma categoria social, não uma questão biológica. “Dentro do mulherismo africana a forma com que a gente se identifica como mulher tem muitas camadas, é por isso que essa lógica de [ser] mulher [vem] dessa formação e entendimento social”, comenta a pesquisadora. 

Wanessa chama atenção para os contextos de violência ao citar o feminicídio e a violência policial que encarcera e mata homens, adolescentes e jovens negros. Dentro do mulherismo africana, essas demandas também são apontadas.

“Quando um homem ou jovem preto é preso, a mãe não abandona esse filho. A questão é: o feminismo dá conta de justificar que essa mulher está passando por diversas violências e apontar que ela está lutando pelo filho dela, pela comunidade, pela humanidade e recuperação dele?”, questiona. 

A pesquisadora coloca que o movimento pode ser um mecanismo de mudança social, pois ao mesmo tempo que aponta as problemáticas e violências que atravessam pessoas negras, também amplia as perspectivas de mundo, fortalece o potencial das pessoas, o cuidado e a busca do bem viver em comunidade.

Da esquerda para a direita, Alice Hudson (educadora, artista e pesquisadora de ciências sociais), Noxolo Kiviet Ministra da África do Sul, Wanessa Yano. (foto: arquivo pessoal)

“Não é mais a gente sobre o olho do ocidente. É sobre nós e as nossas próprias escrevevivências, as nossas experiências. É poder falar e documentar aquilo que a gente é como ser humano, não mais [como] objeto de estudo”, finaliza a pesquisadora.

Mostra celebra a parceria de Dona Ivone Lara e Nise da Silveira pela saúde mental brasileira

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O projeto acontece em Mogi das Cruzes, São Paulo, entre 13 de abril a 18 de maio e conta com atividades gratuitas em cinco espaços culturais da região.

A mostra “Ivone & Nise: um reencontro” é idealizada pela artista visual Mariana da Matta e a multiartista Pâmella Carmo, com o objetivo de eternizar o legado da cantora e compositora Dona Ivone Lara em sua atuação como enfermeira, assistente social e terapeuta ocupacional, especialmente quando trabalhou na equipe da médica Nise da Silveira, no Hospital Psiquiátrico Engenho de Dentro, no Rio de Janeiro, nos anos 1940. A Mostra está aberta para visitação entre os dias 13 de abril e 18 de maio, na Pinacoteca de Mogi das Cruzes, em São Paulo, com entrada gratuita. 

As datas de abertura e encerramento da Mostra foram escolhidas a partir de dois marcos: em 13 de abril, abertura do evento, Dona Ivone Lara completaria 102 anos. Já o encerramento, em 18 de maio, marca o Dia Nacional da Luta Antimanicomial.

Pela valorização da obra humanitária de Dona Ivone Lara

A ideia da mostra é dar visibilidade para outras facetas da sambista que foram fundamentais para a história do Brasil. O objetivo também é resgatar memórias que se perderam no tempo e que apontam uma das faces do racismo: a invisibilidade de personagens negras em diversas áreas do conhecimento.

Antes de ser a primeira mulher a fazer parte de uma ala de compositores de escolas de samba e passar a dedicar-se somente à música, a sambista trabalhou por 37 anos no Hospital Engenho de Dentro. Sob a supervisão da psiquiatra Nise da Silveira, a jovem Ivone utilizava a música como estratégia de tratamento na seção de terapia ocupacional.

Além de falar sobre o seu trabalho terapêutico com música no hospital, a proposta da mostra busca contribuir com ações de reparação para reconhecer o importante papel da grande dama do samba na construção de metodologias e práticas de cuidados humanizados pioneiros em sua época e local, como a ressocialização e desinstitucionalização de internos.

Serviço

Mostra “Ivone & Nise: um reencontro” | Instagram @ivone.e.nise
De 13 de abril a 18 de maio de 2024
Local da exposição: Pinacoteca de Mogi das Cruzes – R. Cel. Souza Franco, 993, Centro, Mogi das Cruzes – SP 

Programação 

Exposição 
Pinacoteca de Mogi das Cruzes
Abertura: 13/4, das 16h às 20h, com roda de samba às 18h
Visitação: 16/4 a 18/5/24. Terças a sextas, das 9h às 17h. Sábados, das 9h às 12h.

A exposição conta a história de Dona Ivone Lara e Nise da Silveira na saúde mental brasileira por meio de trabalhos de artes visuais e poesia, além de cenografia temática. É incentivada a participação do público na ação, de forma que possam desenhar ou escrever cartas que interagem com a proposta, em um ateliê integrado à exposição.

Atrações musicais

Pinacoteca (abertura): 13/4, sábado, às 18h
Ateliê Sementeira: 20/4, sábado, às 17h30
Congada Santa Efigênia: 27/7, sábado, às 18h30
Cursinho Popular Maio de 68: 4/5, sábado, às 18h

Rodas de samba e poesia com intervenção artística simultânea. Com participação de Pâmella Carmo, Mariana da Matta, Marlene Santana e Angelina Reis (Pretas Bás),Felipe Nogueira, Henrique Nogueira, Silas Xavier e Fernando Sd.

Oficinas – Inscrições neste link

Tenho Estima
Com Midori Camelo
Dia 9/5, quinta, das 18h às 21h, na Pinacoteca.

Tiê: brinquedo e ilusão
Com Vanessa Oliveira
Dia 20/4, sábado, das 14h30 às 16h30, no Ateliê Sementeira.

Tecendo Travessias
Com Mariana da Matta
Dia 16/5, quinta, das 18h às 21h, na Pinacoteca.

VIVÊNCIAS – Inscrições neste link

Pescar no Inconsciente o Estado do Sonho
Com Mariana da Matta
Dia 18/4, quinta, das 18h às 21h, na Pinacoteca.

O Tambu e o Tempo no espiral
Com Pâmella Carmo
Dia 27/4, sábado, das 14h30 às 17h30, na Congada Santa Efigênia.

Laboratório de Escuta de Imagens
Com Elidayana Alexandrino
Dia 25/4, quinta, das 19h às 21h, na Pinacoteca.

Quem são as mulheres invisíveis? Uma escavação ao passado
Com Larissa da Matta
Dia 8/5, quarta, das 19h às 21h, no Galpão Arthur Netto.

RODA DE CONVERSA
Sankofa e as tecnologias ancestrais para produção de saúde integral
Dia 4/5, sábado, das 15h às 17h30, no Cursinho Popular Maio de 68
Bate-papo sobre a atuação de Dona Ivone Lara na saúde mental e sua parceria com Nise da Silveira, a partir do conceito de Sankofa. Serão discutidas também tecnologias ancestrais e práticas culturais e artísticas como recursos terapêuticos. Com Ana Paula Soares, psicóloga e Domenica Almeida, terapeuta ocupacional.

CORTEJO
Ruas do centro da cidade
Dia 18/5, sábado, das 9h às 13h (concentração às 9h, saída às 10h)
Encerramento da mostra com um cortejo pelas ruas centrais da cidade, composto por artistas e público participante das atividades ocorridas nos espaços parceiros. Aberta à população, a ação afirmativa ocorre no Dia Nacional da Luta Antimanicomial e visa difundir a pesquisa sobre Dona Ivone Lara e Nise da Silveira com arte, cultura e saúde mental, por meio de um coro musical e trabalhos artísticos resultantes das ações formativas da mostra. O cortejo é concluído com chegada à instalação, na Pinacoteca, onde é prevista apresentação de canto dos usuários do CAPS e fala de encerramento.

Locais

Pinacoteca – R. Cel. Souza Franco, 993, Mogi das Cruzes – SPAteliê Sementeira – R. Manoel Inácio Silva Alvarenga, 206, Mogi das Cruzes – SP
Galpão Arthur Netto – R. Rui Barbosa, 248, Mogi das Cruzes – SP
Cursinho Popular Maio de 68 – R. Dr. Paulo Frontin, 365, Mogi das Cruzes – SP

Rose Dorea, articuladora da Cooperifa, conta como a sua trajetória se vincula à história do sarau

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Em plena correria da realização da 14ª Mostra Cultural da Cooperifa, Rosilene da Costa Dorea, 50, mais conhecida como Rose Dorea, entre uma ligação e outra, em uma manhã de sexta-feira, nos recebe na sua casa, no bairro Jardim Panorama, que fica na cidade de Taboão da Serra, região metropolitana de São Paulo.

Além de articuladora e integrante do Sarau da Cooperifa, Rose trabalha como assistente administrativa da Unidade Básica de Saúde (UBS) do Jardim Santo Onofre, em Taboão da Serra, e cursa graduação em Serviço Social. A articuladora também é mãe solo do Joshua Zali, de 13 anos.

Rose e seu filho Joshua Zali no aniversário de 22 anos do Sarau da Cooperifa (foto: Ricardo Vaz)

Rose é integrante do Sarau da Cooperifa desde 2001, e já vivenciou várias transformações e conquistas no sarau. “A Cooperifa é um lugar que muda a vida, tem vários depoimentos das pessoas falando de coisas que elas não imaginavam que poderiam fazer e estão fazendo [inspiradas pela Cooperifa]”, conta Rose.

A Cooperifa é um movimento cultural e literário que acontece desde 2001, e semanalmente viabiliza um espaço de trocas literárias, além de promover encontros entre pessoas de várias quebradas na zona sul de São Paulo. 

A atuação enquanto articuladora e produtora cultural conecta Rose com muitas pessoas dos territórios. Ela conta que muitas delas acham que ela é uma mulher brava, no entanto, o que define a sua personalidade é a lealdade, como conta. “As pessoas me vêem como uma mulher brabona, que eu não sou, eu sou uma pessoa chorona, entendeu!? Acho que eu tenho muito axé, [e] sou muito protegida pelos Deuses”, comenta Rose.

Trajetória

“Eu sempre tive um lado de liderança, tanto que eu fui chefe de formatura do colegial. Sempre tive esse lado do querer fazer, querer ajudar as pessoas”. Rose comenta que além desse senso de liderança, que ela tem desde a infância, a proatividade também é uma de suas características que está presente nas diferentes funções que ela desempenha. 

Foi com o intuito de ajudar diretamente as pessoas que ela decidiu estudar Serviço Social, e também por ser uma área com a qual tem contato através do seu ambiente de trabalho na UBS. “Sou do administrativo, mas eu saio da minha mesa várias vezes para resolver problemas. Vamos supor, [para] ajudar um idoso, ajudar uma mãe que chega lá para resolver alguma coisa”, menciona. Antes de atuar como assistente administrativa, Rose trabalhava como vendedora, e conta que uma das suas características é ser desenrolada. 

O trabalho como produtora não é algo recente. Nos anos 90, Rose fez a produção de uma equipe de som, e durante quatro anos trabalhou como produtora geral, na coordenação dessa equipe. Anos depois, se conectou com a Cooperifa.

Aniversário de 22 anos do Sarau da Cooperifa, Sérgio Vaz ao microfone (foto: Viviane Lima)

A conexão de Rose com a Cooperifa aconteceu de forma natural. A produtora tinha um amigo em comum com Sérgio Vaz, um dos fundadores do sarau, que os apresentou. Tempos depois, Rose e Vaz também trabalharam juntos na Câmara Municipal de Taboão, e a partir disso a amizade se concretizou. Ela também conta que estava na primeira conversa informal sobre a Cooperifa, junto com Marco Pezão e Sérgio Vaz, fundadores do sarau, em 2001, no bar do Português, no centro de Taboão da Serra. 

“Quando ele [Sérgio Vaz] deu a ideia de que ia fazer um sarau, eu não sabia o que era, [mas] eu sou curiosa, então eu queria saber. E aí eu comecei a frequentar desde o primeiro sarau, [que] foi na estrada do São Francisco, no [bar] Garajão, aqui em Taboão da Serra”, compartilha Rose. Por ser boa em comunicação, ela recepcionava quem chegava, algo que faz até hoje, e assim conquistou o título de musa da Cooperifa.

Com a venda do bar Garajão, em 2002, o sarau migrou para o Bar do Zé Batidão, na Chácara Santana, na zona sul de São Paulo, onde acontece até hoje, toda terça-feira, a partir das 20h30. Rose afirma que todo mundo é bem vindo e tratado de igual para igual, a única regra para participar é saber chegar com respeito. 

13ª Mostra Cultural da Cooperifa (foto: Ricardo Vaz)

A conexão com o movimento literário foi um marco importante na trajetória da articuladora. “Eu volto a estudar [em 2005] realmente por conta da Cooperifa, para tentar entender o que era falado”, conta. Antes disso, Rose tinha estudado até a 8° série, pois havia perdido o interesse pela escola devido às dificuldades que tem de leitura, por conta da dislexia.

“Para uma pessoa disléxica é muito difícil, porque você é tratado como burro. Virou um trauma, porque eu repeti por três anos a 1° série”. Rose se emociona ao falar dos enfrentamentos que passou devido a descoberta tardia de dislexia, que veio aos 44 anos.

Atualmente, além de assistente administrativa, durante a Mostra Cultural da Cooperifa, Rose atua como produtora cultural. Nessa função, ela recebe os grupos convidados para se apresentarem na Mostra, participa da elaboração da programação e faz parte do grupo que pensa o evento como um todo, além de cuidar da alimentação da equipe e dos repasses de como está o andamento dos eventos. 

“Eu me considero uma produtora cultural da rua, porque eu aprendi na raça, eu aprendi dentro da Cooperifa”

Rose Dorea, graduanda em Serviço Social e articuladora no Sarau da Cooperifa.

A articuladora cultural menciona que embora tenha admiração pela literatura, não tem a intenção de ser uma escritora, que gosta mesmo é de fazer as coisas acontecerem nos bastidores. “Eu gosto, faço parte e acredito muito na literatura, na poesia e na cultura, mas não me vejo como poeta”, pontua.

Musa da Cooperifa

Rose comenta que no início, no sarau, tinham mais homens do que mulheres, por conta das multitarefas que a elas socialmente são encarregadas, e pelo tabu que existe de mulheres frequentarem bares. No entanto, ela considera que isso esteja mudando. “O sarau deu visibilidade para nós mulheres. De mostrar que é um bar, mas você tem direito de estar onde você quiser”, menciona.

Ela aponta que os feitos mais importantes da Cooperifa foi apontar que a poesia está sim ao alcance das periferias e auxiliar no combate a estigmas que desvinculam a cultura, arte e educação desses territórios. “Começamos a ver a nossa quebrada falando de nós para nós. Essa é a grande importância da Cooperifa e ter esse olhar pelos professores, pela escola”, diz Rose.

Rose no Bar do Zé Batidão, onde acontece o sarau da Cooperifa, toda terça-feira. (foto: arquivo da Cooperifa)

Desde 2001, Rose foi titulada como a musa da Cooperifa, durante a primeira edição do prêmio da Cooperifa. Na ocasião, ela fez a entrega das medalhas, recepcionou quem chegava e com o tempo esse título foi se firmando junto com a admiração das pessoas que frequentam o sarau. “Eu falo que eu sou uma colaboradora e sou a musa da Cooperifa, eu tenho muito orgulho desse título”, comenta.

Rose também participa de palestras, rodas de conversas e considera que seja uma referência no território. Ela conta que desde 2021, tem ocupado esses lugares de fala.

“É uma trajetória de muita luta, porque tem 22 anos que eu estou na Cooperifa e agora que sou chamada para um monte de coisas. Acho que é porque me permiti mais a ver que eu tenho um lugar de fala, mas estou dizendo um lugar de fala como uma mulher preta, entende? [E enfrentar] os medos, porque a gente sabe que o que você fala não tem volta, tem que ter muita responsabilidade do que você fala”

Rose Dorea

“Eu estou vivendo um ano de reconhecimento, mas também de muito aprendizado e acho que uma coisa está muito ligada a outra”, finaliza Rose, que cita sobre sua trajetória ser de luta e construção.

Jornada das Pretas: encontro final debate estratégias de enfrentamento à violência política de raça e gênero

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“Agir sempre foi preciso e a cada dia a minha, a nossa inteligência, nos garante que não é sobre topos e sim novos horizontes”, foi assim, com poesia e música, que Danuza Novaes abriu o último encontro de 2023 da Jornada das Pretas. De forma virtual, 30 mulheres se reuniram para uma troca sobre o enfrentamento à violência política de raça e gênero, no último encontro do ano que aconteceu na manhã do dia 28 de outubro.

A Jornada das Pretas é um projeto que promove capacitação, formação e acolhimento para mulheres negras cis, trans e travestis, que são lideranças políticas em diferentes partes do Brasil. Essa iniciativa é realizada desde 2021, pela Oxfam Brasil, em conjunto com o Instituto Alziras, Mulheres Negras Decidem e o Instituto Marielle Franco.

O encontro de encerramento proporcionou trocas de informações sobre a Lei de Violência Política de Gênero, a fim de identificar os avanços e desafios para o enfrentamento e a prevenção das várias situações de violência política que vem atingindo parlamentares, candidatas e ex-candidatas, negras cis e trans.

Para debater sobre o assunto, foram convidadas: Fabiana Pinto, coordenadora de pesquisa e de incidência política do Instituto Marielle Franco, e a Doutora Raquel Branquinho, que é Procuradora Regional da República, coordenadora do núcleo de ações criminais originárias e do grupo de trabalho de prevenção e combate a violência política de gênero.

A facilitadora do encontro foi Mônica Oliveira, que é assessora parlamentar e integrante da Rede de Mulheres Negras de Pernambuco, e que abriu o dia com um breve resgate dos dois encontros anteriores, que abordaram respectivamente sobre Fundo Eleitoral e Estratégias de comunicação para campanhas eleitorais.

CONTEXTO

Fabiana Pinto ressaltou que esse é um tema difícil de ser tratado, considerando que, provavelmente, muitas das mulheres presentes no encontro já haviam vivenciado experiências de violência política de gênero e raça, mas apresentou ações e estratégias criadas através do Instituto Marielle Franco, a fim de auxiliar no combate dessas violências.

“Em 2020, foi a primeira eleição municipal onde o Instituto Marielle Franco existia, foi a primeira eleição municipal desde o assassinato da Marielle. Num primeiro momento a gente queria poder fomentar o debate e entender o que é defender o legado da Marielle e dar instrumentos para a candidatura de mulheres negras”, trouxe Fabiana sobre o contexto em que a Agenda Marielle Franco foi criada.

“A violência política é algo quase inerente dos processos eleitorais brasileiros há anos, só que a forma que a violência política vai operar contra corpos de mulheres negras, trans, travestis e mais do que isso, as possibilidades de proteção e de acolhimento são distintas para esse grupo de mulheres”

Fabiana Pinto, coordenadora de pesquisa e de incidência política do Instituto Marielle Franco.

Raquel Branquinho apontou alguns tipos de violência que afetam as mulheres no âmbito da política. “A violência política se reproduz por várias formas. Subliminar, verbal e não verbal, patrimonial, econômico, na parte do financiamento, discriminação das mulheres nos seus espaços de trabalho, nas Câmaras Municipais, nas Assembleias Legislativas e isso é um contexto social. Muitas vezes as próprias vítimas não identificam essas situações”, alertou a Procuradora Regional da República.

Dados apresentados pela Fabiana, produzidos pelo Instituto Marielle Franco, apontam que apenas 32% do total de candidatas negras já fez algum tipo de denúncia, considerando como denúncia, além do ato de ir à delegacia, o fato de tornar público o episódio ocorrido. Segundo os dados, 46% das candidatas negras justificaram que não se sentem seguras para poder denunciar, por entenderem que isso poderia vulnerabilizar a campanha delas.

Foi a partir de 2021, com a aprovação da lei 14.192, que a violência política de gênero passou a ser classificada como crime.

Antes, essas denúncias ficavam sob a responsabilidade da Polícia Civil, e, por vezes, acabavam se perdendo no volume de situações para serem investigadas, o que não gerava resultados, conforme a fala da Raquel.

“Quando for assédio, perseguição, humilhação, constrangimento, qualquer um daqueles verbos que estão descritos no artigo 326-B do código eleitoral, que tem como alvo candidatas ou detentoras de mandato eletivo, é um crime eleitoral que deve ser apurado pela polícia federal e pelo Ministério Público eleitoral brasileiro”, traz Raquel.

ESTRATÉGIAS E DIREITOS POLÍTICOS ELEITORAIS PARA AS MULHERES

Em 2020, a partir de denúncias e da busca frequente de ajuda das candidatas, Fabiana relata que o Instituto passou a mapear quais tipos de violência política eram cometidos contra as mulheres e como esses casos estavam sendo encaminhados. Verificando também os problemas que há no sistema político e nas instituições que poderiam acolher essas mulheres.

Desse mapeamento, foram feitos os seguintes levantamentos: 8 a cada 10 candidatas negras sofreram violência virtual, em 2020. 6 a cada 10 candidatas naquela eleição sofreram violência moral e psicológica.

Com base no mapeamento, Fabiana relatou também que 5 a cada 10 candidatas sofreram violência institucional. Ela destaca que as violências institucionais, geralmente, ocorrem no interior dos partidos políticos, no próprio sistema eleitoral e também em outras instâncias.

A coordenadora de pesquisa e de incidência política do Instituto Marielle Franco, apontou que, diante dessas informações, o Instituto Marielle Franco identificou que as ações de combate a violência política de gênero teriam que ocorrer em diversas frentes, já que os agentes agressores também operam em diferentes áreas.

Uma das estratégias apontadas por Raquel Branquinho para lidar com as violências políticas que as mulheres negras enfrentam, passa pelo conhecimento. “Temos tentado reforçar o conhecimento pelas próprias vítimas, o reconhecimento pelo sistema, pela advocacia e pelos grupos de apoio dos direitos para que a gente possa cobrar do sistema jurídico respostas mais eficazes”, comenta.

A Procuradora Regional da República também menciona que esse sistema, por vezes, reproduz as práticas de exclusão da sociedade e que desse modo não têm a capacidade necessária para fazer as análises na perspectiva de gênero.

“Muitas vezes há uma revitimização dentro do próprio sistema. Quando nós temos o maior conhecimento possível das situações envolvendo os nossos direitos é mais fácil cobrar que se aplique a legislação”, reforça Raquel Branquinho.

Como forma de viabilizar a obtenção desses conhecimentos, a Procuradora Regional da República indica o site do Ministério Público Federal como fonte de acesso à informação.

Fabiana comenta que ao identificar que mulheres negras, principalmente mulheres trans e travestis, mesmo após serem eleitas, seguiam sendo alvo de ameaças e que a institucionalidade não representava mais proteção para esse grupo de mulheres, o Instituto Marielle Franco, nessa dimensão de proteção, lançou a campanha Não Seremos Interrompidas.

“[Essa campanha] atua, sobretudo, no processo eleitoral, no acompanhamento de candidatas e de parlamentares negras já eleitas, adotando estratégias para alcançar proteção [através do] reconhecimento das parlamentares negras como defensoras de direitos humanos”, comenta Fabiana. Ela explica que o Programa de Proteção de Defensores de Direitos Humanos é o mecanismo que tem viabilizado essa tática.

Outra ferramenta que o Instituto tem utilizado para viabilizar a proteção de mulheres negras atuantes na política é o acesso ao Fundo de Ação Urgente e ao Fundo Brasil de Direitos Humanos.

Fabiana cita que a mobilização para a criação de legislações específicas que contemplem mulheres negras atuantes na política, é mais uma das estratégias do Instituto. Ela comenta também que, conforme a lei 14.192, é previsto que todos os partidos alterem o próprio estatuto indicando mecanismos para o enfrentamento a violência política, e o Instituto Marielle Franco atua para que os partidos políticos cumpram essas determinações da lei.

Durante o encontro, Fabiana e Raquel mencionaram a importância da criação e do uso de canais de denúncia como ferramentas para acompanhar e encaminhar os crimes notificados. A Sala de Atendimento ao Cidadão, do Ministério Público Federal, assim como a Ouvidoria da Mulher, do Tribunal Superior Eleitoral, foram alguns dos canais citados.

O canal Fale Conosco da Câmara dos Deputados; a Procuradoria Regional Eleitoral; a Procuradoria Regional dos Direitos do Cidadão de São Paulo; a Secretaria da Mulher, da Câmara dos Deputados e o próprio Ministério da Mulher são canais indicados para recebimento de denúncias. 

Além disso, as profissionais ressaltaram a importância de acompanhar e cobrar o resultado dos casos.

REDE DE APOIO

Em determinado momento as 30 participantes foram divididas em quatro grupos, para que todas pudessem falar de suas vivências e impressões sobre o tema. Em seguida, se reuniram e uma porta-voz de cada grupo apresentou os principais pontos abordados nessas conversas.

Conhecer bem como o partido funciona, ocupar cargos de liderança no partido, participar de movimentos sociais, buscar adesão popular, colocar afetividade no centro das candidaturas, fortalecer as redes de cuidado e de apoio, buscar capacitações e formação política, se articular com outras mulheres e cuidar da saúde mental foram algumas das estratégias citadas pelas participantes.

“Uma candidatura de mulheres negras não é um projeto individual, porque nós nem temos força individual, nem familiar para segurar uma campanha. Ou as nossas campanhas são coletivas ou elas não acontecem” , afirma em entrevista Zuleide Queiroz, 56, sobre estratégias que têm utilizado para se manter atuante na política partidária desde 2003.

Zuleide Queiroz participa da política partidária desde 2003 (foto: Eline Luz)

Zuleide é professora de pós-graduação, pesquisadora, militante, integra a diretoria e a coordenação Estadual do Movimento Negro Unificado (MNU) no Ceará, é do Grupo de Valorização Negra do Cariri (GRUNEC) e ocupa a presidência do Sindicato dos Docentes da Universidade Regional do Cariri (Urca), região localizada no Ceará, onde Zuleide mora.

Buscar ocupar vários espaços é um movimento que a professora tem feito para se articular politicamente, assim como se organizar em redes e participar dos movimentos sociais.

Zuleide Queiroz mora no Ceará, é professora de pós-graduação, pesquisadora e militante (foto: Eline Luz)

“A experiência na Rede Mulheres Negras para mim foi fundamental, para [eu] me reconhecer negra, ter estrutura, ter condições para disputar um cargo na política e discutir em audiências públicas as políticas públicas para a população negra”, conta Zuleide.

Essa também tem sido a movimentação de Nazaré Cruz, 43, que atua na política partidária desde 2007. “Uma das [minhas] estratégias é ter redes de apoio e me relacionar com outras mulheres negras e com outros companheiros negros. Tendo essa articulação mais interna, como também fora do partido. Dentro dos movimentos sociais tem muito esse apoio”, relata em entrevista.

Nazaré, é de Belém do Pará, militante do movimento negro, mãe, trancista e historiadora de formação. Atualmente, trabalha como diretora de assistência social na Secretaria de Estado, do Governo do Pará.

Nazaré Cruz atua na política partidária desde 2007 (foto: Jhonny Russel)

Embora conheça a lei 14.192, tenha feito e participado de pesquisas sobre violência de gênero, Nazaré diz que desconhecia os mecanismos e os canais de denúncia apresentados no encontro, e que também não sabia das informações que pode obter no site do Ministério Público Federal.

Assim como Nazaré, antes do encontro, Zuleide não sabia da possibilidade de fazer as denúncias. “Agora com essa legislação a gente sabe que a Justiça Eleitoral está atenta a essas questões [de gênero]”, pontua Zuleide, que será candidata em 2024. O ponto principal do encontro, para ela, foi aprender a reconhecer o que é a violência política.

Nazaré comenta que não sabe se vai concorrer às eleições de 2024, mas menciona que as candidaturas de mulheres negras são construídas aos poucos, ao longo das gerações, e que é preciso ocupar os espaços na política mesmo tendo que enfrentar as violências que existem. Para ela, entender os processos burocráticos, assim como buscar conhecimentos em diversas áreas, é algo necessário para as campanhas de mulheres negras que, geralmente, possuem pouco recurso e precisam cumprir várias demandas.

“É imprescindível que, principalmente nas eleições de 2024, se tenha um olhar mais atento para as campanhas femininas, para que nos municípios a gente possa ocupar espaço nas Câmaras de Vereadores [e] nas Prefeituras, porque [a quantidade de mulheres negras que há] é muito aquém da realidade da sociedade brasileira, que tem mais da metade de mulheres e mais da metade nesse segmento de pessoas pretas”, trouxe Raquel Branquinho em suas considerações finais na Jornada das Pretas 2023.

Jornada das pretas: encontro promove trocas sobre comunicação para campanhas eleitorais de mulheres negras

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O segundo encontro da Jornada das Pretas 2023, que aconteceu em formato virtual no dia 21 de outubro, iniciou no ritmo do Cacuriá, dança típica maranhense, apresentada pelo coletivo Cacuriá de Dona Teté. A dança abriu os caminhos para as trocas de ideias que se estenderam pela manhã de sábado, e que teve como tema principal as estratégias de comunicação para campanhas eleitorais.

Desde 2021, a Oxfam Brasil, em parceria com o Instituto Alziras, Mulheres Negras Decidem e o Instituto Marielle Franco, reúnem organizações, especialistas e mulheres negras atuantes na política partidária, com o objetivo de promover espaços de formação e fortalecimento de agendas políticas lideradas por mulheres negras cis, trans e travestis de várias regiões do Brasil.

O segundo encontro da Jornada contou com a mediação de Mônica Oliveira, assessora parlamentar e integrante da Rede de Mulheres Negras de Pernambuco, que em sua fala inicial apresentou um resumo de como foi o encontro anterior.

As convidadas que trocaram sobre o tema foram Mariana Nogueira, profissional da área de marketing, que pesquisa sobre política e já atuou em campanhas, e Jheniffer Ribeiro, coordenadora de comunicação do Mulheres Negras Decidem.

Ao longo do encontro, as convidadas apontaram estratégias, exemplos teóricos e práticos sobre como fazer o planejamento de comunicação para campanhas. Nesse processo, ressaltaram as particularidades e as possibilidades das candidaturas de mulheres que possuem limitações de recursos e de tempo.

Mariana Nogueira apontou que o período de pré-campanha – que vai até o dia 16 de agosto de 2024 – já começou, e com isso, vários homens, especialmente homens brancos, já estão fazendo campanha desde a última eleição. “[Eles] não param porque têm toda uma rede de apoio, de recursos, que faz com que possam se dedicar exclusivamente à política”, coloca a especialista em marketing.

Definição de estratégias

Em sua fala, Mariana menciona que para começar uma pré-campanha é importante que as pré-candidatas e a equipe de comunicação estejam cientes e atualizadas sobre a lei de comunicação eleitoral que muda com frequência.

A profissional explica que é proibido pedir voto no período de pré-campanha, assim como transmissão ao vivo por emissoras de rádio das prévias partidárias. Outro ponto que é vetado, é a realização de publicidade por meio de outdoor, seja físico ou eletrônico, tanto na pré-campanha, como no período eleitoral, que acarreta em multa no caso de descumprimento das regras. 

Mariana também apresentou o que é permitido e recomendado: fazer menção à candidatura e exaltar as próprias qualidades como alguém que vai se colocar como candidata, não configura como campanha antecipada. 

“Participar de entrevistas, programas e de encontros para debater o que essa candidata defende, quais são as suas ideias, participar de debates em rádio, televisão e internet também é permitido. Discutir políticas públicas, planos de governo e alianças partidárias, essas coisas também podem ser divulgadas”, exemplificou Mariana.

A construção de imagem também é uma das etapas da comunicação. Essa é uma fase que antecede a divulgação da pré-campanha, segundo Mariana: “É preciso traçar estrategicamente a imagem dessa pessoa que vai concorrer à eleição, que não necessariamente deve ser a mesma imagem que você propaga em alguns ambientes da sua vida pessoal”. A profissional do marketing também destaca que essa imagem precisa ter permanência e coerência.

Segundo Mariana, a permanência tem a ver com símbolos adquiridos ao longo da trajetória e que as pessoas associam à imagem da candidata, como alguma pauta social. “É importante construir essa permanência porque as pessoas vão saber que, de fato, você é uma pessoa que faz política mesmo antes da eleição”, coloca. 

No aspecto da coerência, a especialista em marketing explica: “Ainda que a sua imagem enquanto candidata não seja a mesma que você propague em determinados ambientes do âmbito familiar ou da sua militância, essa imagem precisa ter uma coerência com aquilo que você é, com aquilo que você representa, com o que você acredita e as suas atitudes”, pontua.

Jheniffer Ribeiro salienta a importância de traçar um planejamento de comunicação com foco na construção de uma narrativa. 

“Ter esse controle da narrativa de nós mesmas, [é importante para definir] o que a gente quer colocar na rua e como a gente quer conversar com o nosso eleitorado”

Jheniffer Ribeiro é coordenadora de comunicação do Mulheres Negras Decidem

A coordenadora ressalta que o planejamento traz a liberdade de ter, a partir da narrativa, o controle do que se deseja transmitir. Para ela, um diferencial potente que há nas campanhas de mulheres negras são as narrativas. “É como as nossas histórias, em alguma medida, se aproximam do nosso eleitorado”, menciona.

Mariana afirma que toda campanha precisa ter pelo menos um público-alvo e uma pauta principal bem direcionada. “Para [saber] como a gente atinge o eleitorado que a gente quer trazer para perto”. 

Jheniffer aponta que é preciso ter um foco na comunicação. “Se você falar de tudo não consegue focalizar e ser explícita e objetiva [sobre] onde a sua campanha vai levar as pessoas, porque as pessoas têm que votar em você”, pontua.

“É importante que você defina com quem quer falar e a partir disso [desenvolva] estratégias para poder conversar com essas pessoas, porque essas estratégias não são uma coisa uníssona”

Jheniffer Ribeiro

Ambas as convidadas apontaram sobre a necessidade de traçar um projeto político que demonstre como se pretende melhorar a vida das pessoas. Definir o eleitorado também foi um ponto destacado pelas comunicadoras.

Possibilidades na comunicação online

Mudar o nome da rede wi-fi pelo o nome e número da candidata, pois isso pode se espalhar entre os vizinhos. Estar em eventos, não necessariamente políticos, ajuda a furar a bolha de contatos. Criar núcleos de apoiadores locais que fortaleçam e ampliem o alcance das propostas de campanha. Essas foram algumas das dicas para a comunicação tanto online, como nas ruas.

Jheniffer trouxe táticas voltadas para a comunicação online, além do planejamento amplo de campanha. Segundo ela, é preciso ter um planejamento das redes sociais com cronograma e postagens regulares. Ela aponta que nas redes, as informações essenciais sobre o projeto político e sobre a trajetória da candidata precisam estar em destaque, assim como o número da candidatura. 

“As pessoas passam a associar a sua campanha a determinadas cores, a um jeito de falar e isso também vai criando mais conexão com o seu eleitorado”, comenta a comunicadora, que também colocou sobre dar preferência aos vídeos na produção de conteúdo, sendo a comunicação visual um elemento que dialoga com o eleitor.  

“A chave para uma campanha eleitoral eficaz é a autenticidade e a conexão com o eleitorado. É importante manter uma comunicação clara, ética e focada nos valores e propostas das candidatas, demonstrando comprometimento com a melhoria da vida das pessoas e a defesa dos direitos humanos”, ressalta Jheniffer.

Comunicação associada às vivências

Após as falas das convidadas, as 37 participantes foram divididas em quatro salas para que pudessem compartilhar suas experiências e percepções sobre o tema. Após essas trocas em grupos, todas voltaram a se reunir, e uma representante de cada grupo listou os principais pontos que surgiram dessas interações. 

A dificuldade de falar sobre si foi uma questão que surgiu em todos os grupos e também na fala de Gabriella Borges, que em entrevista, comentou que no início de sua candidatura tinha muita dificuldade para falar em público.

Gabriella Borges, mulher preta, travesti e moradora da periferia de Porto Seguro. (foto: Lorena Nubia)

“Foi um desafio enorme para mim fazer campanha, pedir voto, falar, porque eu tenho uma disforia da minha voz, mas hoje eu estou conseguindo me libertar dela e me superar”, comenta Gabriella, 43, mulher preta, travesti, moradora da periferia de Porto Seguro, cidade da Bahia, estudante universitária de química e que foi a primeira travesti eleita a presidenta de um partido político no Brasil.

Gabriella iniciou sua trajetória política em 2020, e no mesmo ano saiu como cabeça de chapa em uma campanha coletiva concorrendo ao cargo de vereança. Em 2022, concorreu às eleições como deputada estadual, e pretende se candidatar para as eleições de 2024. 

Durante o encontro, Mariana citou como essa dificuldade de falar de si é uma questão estrutural, fruto dos processos de racismo e da misoginia, e indicou o que pode ser feito diante dessa dificuldade. “Sempre tem um público que vai se conectar com aquilo que a gente tem de vivência e isso é muito importante para vocês que são candidatas, porque isso cria laços afetivos”, afirma. 

Jheniffer trás que as vivências e história das mulheres são diferenciais nessa comunicação. “O que tem de diferencial nas nossas campanhas é a nossa própria trajetória. Como nós chegamos até aqui, o que fez com que a gente chegasse até aqui, como isso se aproxima de um projeto de país, que de fato mude a vida das pessoas. Então é muito importante que você se apresente. Não tenha vergonha de contar sua história”. 

Estratégias de comunicação offline

Mariana trouxe indicações que podem ser colocadas em prática presencialmente, como o lançamento de campanha com panfletos e em lugares estratégicos. “Fazer um panfletaço é você se colocar enquanto um candidato presente que está próximo dos problemas daquela localidade em que você vai concorrer”, comenta.

Esse foi um ponto em comum apresentado entre os grupos, a importância de realizar ações de campanhas presenciais e estar perto do eleitorado. Em entrevista, Gabriella comenta que conseguiu expandir o alcance de suas propostas de candidatura através do apoio e do seu envolvimento com os movimentos sociais. Ela aponta que com o apoio da Coalizão Negra por Direitos, pode circular em diferentes regiões da Bahia, na pré-campanha, acompanhando os comitês antirracistas.

Através de sugestões das participantes, Mariana trouxe uma estratégia que foge da lógica das redes sociais, que é a possibilidade do uso da mala direta, considerando que nem todo mundo de fato tem acesso à internet. Ela também aponta sobre a relevância da TV nas campanhas. “O meio de informação mais utilizado pelo brasileiro é a televisão, a televisão ainda não foi superada por nenhum outro veículo de comunicação”, pontuou Mariana.

Ludimilla Teixeira, em 2020, concorreu a uma vaga na câmara municipal, e em 2022, disputou uma eleição para deputada estadual. (foto: Renan Peixe)

Em entrevista, Ludimilla Teixeira, coloca que, para ela, as campanhas presenciais são essenciais nas periferias. “Eu acredito que as rodas de conversa dentro das comunidades, o boca a boca, o disse me disse e o WhatsApp hoje consegue atingir melhor as pessoas que estão nas periferias, nos bairros mais empobrecidos e mais precarizados do que a gente ficar focado em rede social e internet”. Ela complementa: “Se possível brigar no partido pelo horário eleitoral também, porque engana-se quem acha que as pessoas não assistem”.

Mulher negra, de origem periférica, Ludimilla, 41, é natural de Salvador, na Bahia, graduada em publicidade e propaganda, e atua como servidora pública federal do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). Ludimilla é fundadora do grupo Mulheres Unidas Contra o Bolsonaro, que deu origem ao movimento Ele Não, em 2018.

Ludimilla Teixeira criou o grupo Mulheres Unidas Contra o Bolsonaro, que deu origem ao movimento Ele Não. (foto: arquivo pessoal)

Em suas ações políticas, Ludimilla, que foi candidata à vereança em 2020, e em 2022, ao cargo de deputada estadual, destaca sua preocupação em falar de modo acessível com mulheres.

“Eu quero falar com aquela parte da população feminina que está perdida aí na alienação do patriarcado. E a gente vai falar sobre Simone de Beauvoir e Angela Davis? Não, eu vou falar da minha mãe com ela, eu vou falar das mais velhas da comunidade”

Ludimilla Teixeira

Ludimilla comenta, com exemplo próximo a estratégia apresentada pela Mariana e Jheniffer sobre a adaptação da comunicação de acordo com o público-alvo.

Formar redes de apoio foi mais uma das estratégias citadas pelas convidadas e pelas participantes. Nesse sentido, Ludimilla diz que caso não concorra à eleição em 2024, irá ajudar na campanha de outra mulher. “Não sendo candidata, pretendo estar trabalhando ativamente na campanha de alguma companheira, porque não adianta só ter uma de nós lá”, comenta.

Jornada das Pretas: organizações e mulheres negras atuantes na política partidária dialogam sobre Fundo Eleitoral

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“Não é de hoje e não vai acabar agora, vamos invadir teus discursos, recriar nossas memórias”. Foi com versos como esse, da canção “Contrato Assinado”, que Jaísa Caldas, artista piauiense, abriu a Jornada das Pretas 2023. A iniciativa, que está na 3ª edição, é uma realização da Oxfam Brasil em parceria com o Instituto Alziras, Mulheres Negras Decidem e o Instituto Marielle Franco.

O primeiro encontro da iniciativa ocorreu na manhã do dia 07 de outubro, online,  e reuniu 37 mulheres de vários estados do Brasil envolvidas e atuantes na política nacional, para trocarem experiências e dialogarem sobre o Fundo Eleitoral, tema central do primeiro encontro. A Jornada continua nos dias 21 e 28 de outubro.

“São mulheres negras de todo o Brasil, trans, cis e travestis, que desejam fortalecer as suas agendas políticas, que desejam um espaço seguro e fortalecedor para falar sobre participação política de mulheres negras”, menciona Bárbara Barboza, coordenadora da área de Justiça Racial e de Gênero da Oxfam Brasil.

Iasmin Barros, representante do Mulheres Negras Decidem, fala como o movimento se relaciona enquanto parceiro da Jornada, e menciona o objetivo geral da iniciativa. “Tentamos qualificar e promover agendas lideradas por mulheres negras buscando fortalecer a democracia e acreditamos que esses espaços de formação são fundamentais para que isso aconteça”, coloca.

“A gente sabe o quanto é difícil mulheres negras chegarem na política e aqui a gente vai tentar desmontar essas barreiras, tanto com a formação política, mas também com acolhimento”

Iasmin Barros, representante do Mulheres Negras Decidem.

O encontro, que teve como temática central o Fundo Eleitoral e como garantir o cumprimento da lei eleitoral no que se refere às cotas para as mulheres negras, contou com a participação de diversas mulheres que atuam no tema, como Mônica Oliveira, integrante da Rede de Mulheres Negras de Pernambuco e facilitadora da Jornada das Pretas, além das convidadas Carmela Zigoni, assessora política do Instituto de Estudos Socioeconômicos (Inesc); Tauá Pires, diretora do Instituto Alziras, e Estela Bezerra, assessora especial de articulação interministerial do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA), que também foi deputada estadual com mandatos entre 2015 a 2022.

LINHA DO TEMPO

Antonieta de Barros, Luiza Bairros, Beatriz Nascimento, Benedita da Silva, Creuza Oliveira, Marielle Franco e outras mulheres negras, atuantes na política, foram lembradas e tiveram suas falas citadas no vídeo intitulado Mulheres Negras – Consciência Negra, apresentado por Carmela Zigoni, antes do início de sua fala, referenciando mulheres que lutaram e abriram caminhos na política para outras mulheres negras.

Assim como outras convidadas, Carmela traçou uma linha do tempo para apresentar a trajetória com os principais pontos sobre o Fundo Eleitoral. “Foi em 2014 que o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) passou a pedir a declaração de raça, cor, segundo as categorias do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), para as candidaturas, e isso é um marco importante, porque é a partir dessa estatística que a gente começa a dar conta de pedir mais direitos nos processos eleitorais, maior democratização e institucionalidade”, menciona Carmela. 

Tauá Pires, relembrou que em 2015, aconteceu uma reforma política que proibiu o financiamento de campanhas por empresas. “E aí vem esse debate sobre ter um fundo público que permita o financiamento de campanhas e a gente vai ver o quanto isso é importante para o aprofundamento da democracia e para a participação de mulheres negras”.

O que é o Fundo Eleitoral? Exclusivo para o financiamento de campanhas, é um recurso distribuído para os partidos apenas no ano de eleição. A definição do fundo eleitoral é feita pela LOA (Lei Orçamentária Anual) e ele é transferido pelo Tesouro Nacional para o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), conforme explicou Tauá durante o encontro.

Na eleição de 2016, para cargos de vereança e Prefeituras, Carmela menciona que foi fixada a regra dos 30% de cotas para as mulheres. “Mas ainda não tinha uma regra específica para o financiamento de campanhas. Menos de 1% das candidaturas de mulheres negras nesse pleito, e menos de 0,1% de declaradas pretas”, conta.

Em 2018, uma nova regra do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) definiu que os partidos deveriam repassar 30% dos recursos do fundo especial de financiamento de campanha para as candidaturas de mulheres.

Tauá, Carmela e Estela relembraram a importância de Benedita da Silva, que atualmente é deputada federal e referência no que diz respeito às conquistas de espaços e direitos de mulheres negras na política. Junto aos movimentos negros, em 2020, Benedita fez com que fosse direcionada uma parte do fundo eleitoral para as candidaturas de mulheres e pessoas negras, conforme a proporcionalidade total dessas candidaturas no partido. 

“Benedita realizou uma consulta ao TSE em 2019 e o TSE acatou a aplicação, mas para eleição de 2022. E aí o STF interferiu e determinou que [a decisão] já seria para eleição de 2020”, relata Carmela. Segundo a assessora política do Inesc, os partidos, por sua vez, alegavam não saber como aplicar a sobreposição de cotas de mulheres e de pessoas negras, o que gerou uma desigualdade ainda mais acentuada nas candidaturas. 

Carmela aponta que enquanto o recurso para as pessoas brancas foi liberado no primeiro dia de candidatura, o de mulheres e pessoas negras demorou cerca de 15 dias para ser repassado, o que é um prejuízo significativo, considerando o tempo de campanha de 45 dias para o primeiro turno.

“Mesmo com essa identificação do problema que se deu internamente nos partidos para fazer o repasse, os partidos entraram com uma PEC, um Projeto de Emenda Constitucional, para anistiar os partidos, ou seja, para perdoar os partidos que não tinham feito repasse corretamente e foi aprovado”, conta Carmela sobre os desdobramentos que ocorreram após as eleições de 2020. 

Em sua fala, Carmela menciona também que houve a tentativa de implementar  uma minirreforma eleitoral, que não foi aprovada, e portanto, não vale para a próxima eleição. Mas ela pontua o que estava em jogo nessa proposta. 

“A cota seria por coligação e não por partido, teria uma redução de 20% dos recursos para mulheres e pessoas negras. Os recursos para mulheres poderiam ser utilizados por candidaturas de homens. Essa minirreforma favoreceria partidos maiores”, conta Carmela, demonstrando que direitos conquistados ainda não são garantias e seguem em disputa. 

Com falas complementares que apresentavam perspectivas e acontecimentos relacionados ao fundo eleitoral, as convidadas mencionaram que ter acesso aos dados, conhecimento sobre como os partidos políticos funcionam, se articular em coletivo para os enfrentamentos de disputas, construções dentro e fora dos partidos e manter-se informadas são estratégias fundamentais para as mulheres que querem ser eleitas. “A gente tem que ter conhecimento para poder viabilizar as nossas candidaturas”, aponta Estela.

COTA DO FUNDO ELEITORAL PARA MULHERES NEGRAS

Ao longo do encontro, as participantes puderam expor suas questões e experiências a partir de algumas perguntas orientadoras acerca dos desafios para acessar o Fundo Eleitoral. Algumas participantes compartilham os mesmos desafios em sua atuação, como a insatisfação de se sentirem usadas apenas para a garantia de um coeficiente da legenda do partido na obtenção de recursos. 

“Há uma falta de responsabilidade com a candidatura das mulheres. Porque os partidos políticos nos querem candidatas, mas eles não nos querem eleitas. Eles precisam da cota de mulheres para poder garantir a [campanha] de homens, mas eles não dão condições para que a gente vá para uma disputa de igualdade, para que a gente minimamente consiga ter uma votação expressiva”, aponta Ana Cleia Kika, liderança da região Norte e que vem refletindo sobre a sua experiência como mulher negras acessando os recursos do fundo eleitoral.

Foi em 2020, quando se candidatou pela primeira vez, concorrendo ao cargo de vereadora e passou a participar da Jornada das Pretas, que Kika pôde entender melhor como tudo isso funcionava na prática.

“Não temos as mesmas condições que os homens brancos têm dentro dos partidos, de ter apoio político, mas foi através dos movimentos sociais, através da Jornada das Pretas, do Estamos Prontas que está ligado ao Instituto Marielle Franco e outras organizações, que eu vim entender como que os partidos políticos funcionam”

Ana Cleia Kika

Ainda durante o encontro, Tauá apresentou dados sobre as desigualdades entre os financiamentos de campanhas. “Segue sendo muito determinante a questão do autofinanciamento. Ou seja, pessoas ricas, que já estão na política tradicionalmente, muitas vezes são filhos, netos, pessoas que se perpetuam na política e conseguem fazer o autofinanciamento da campanha”. 

Tauá aponta que existe um limite de 10% do teto previsto para cada cargo em disputa. Mas, segundo ela, os candidatos investem em média 36,3 milhões em dinheiro do próprio bolso para campanha. “Quais mulheres negras têm recursos próprios para poder fazer um auto financiamento?”, questiona a diretora do Instituto Alziras.

Durante o encontro, com base na pesquisa realizada pelo Inesc, Carmela comentou sobre a diferenciação de financiamentos conforme classe social, gênero e raça. “2020 foi o ano principal da pandemia, e identificamos, cruzando os dados da Receita Federal com [os dados do] auxílio emergencial, que muitas candidatas negras estavam acessando o auxílio emergencial porque precisavam, [sendo que] 30% das candidatas negras recorreram a esse auxílio. Elas realmente precisavam desse benefício”, aponta Carmela. 

Com relação a necessidade de auxílio financeiro, em entrevista, Kika conta sobre uma situação semelhante que passou em 2022, quando se candidatou a deputada estadual. “Era bolsista do mestrado e quando registrei a minha candidatura perdi a bolsa, aí fiquei em um desespero só e tomando de conta da campanha”, conta.

Ana Cleia Kika no Encontro Nacional do Estamos Prontas Rio de Janeiro 2022 (foto: Ludmila Almeida)

Ela relata que o que ajudou nesse momento foi a seleção que participou através do Instituto Marielle Franco e do movimento Mulheres Negras Decidem, para ser uma liderança do projeto Estamos Prontas. “Cada estado tinha uma liderança, que era apoiada pelo Instituto e a gente tinha uma bolsa de auxílio financeiro. Inclusive, para ajudar a gente nesse período de pré-campanha, porque muitas de nós às vezes acaba passando dificuldades, sendo que às vezes não tem nem o que comer”, pontua.

Kika foi uma das mulheres negras prejudicadas por não receber o fundo eleitoral de forma adequada. “Eu participei de várias reuniões e eles [integrantes da secretaria de finanças do partido] falavam assim: ‘vai ser depositado inclusive adicional das candidaturas negras’. E esse adicional não foi depositado. Só foi depositado a primeira distribuição que foi da cota de gênero, eles depositaram uns 15 dias depois que tinham começado as eleições, então eu saí em desvantagem em relação a outros candidatos”, aponta. 

Andreia Deloizi, liderança pernambucana, mulher negra trans, quilombola, sacerdotisa, se candidatou em 2022 à deputada estadual, sendo cabeça de chapa em uma candidatura coletiva. Andreia também faz parte da Jornada das Pretas desde 2022 e enfrenta desafios semelhantes para acessar o fundo eleitoral.

Andreia Deloizi participou do primeiro encontro da Jornada das Pretas 2023, que teve como tema o Fundo Eleitoral.
Andreia Deloizi, liderança pernambucana, mulher negra trans, quilombola, sacerdotisa, candidata em 2022 à deputada estadual (foto: Bira Fotógrafo Caruaru).

Ela conta que ainda não sabe se vai se candidatar para as eleições de 2024, e relata que a experiência não é tão boa. “Fazer política sendo uma pessoa periférica, quilombola, em uma cidade que para política é muito violenta e para vereadora é mais violenta ainda, isso requer cuidado”, finaliza Andreia, que também confirma a participação nos próximos encontro da Jornada das Pretas.

Corre Coletivo usa história em quadrinhos para transformar educação de jovens nas periferias

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O Corre Coletivo, grupo localizado no distrito do Grajaú, zona sul de São Paulo, está transformando processos pedagógicos para educar jovens nas periferias, por meio da introdução de história em quadrinhos para promover letramento crítico e social. A iniciativa também aposta na criação de uma comunidade voltada para o acolhimento e troca de artistas iniciantes na área de arte educação.

“Nós temos uma enorme possibilidade de utilizar quadrinhos como uma linguagem pedagógica, porque ela é acessível para a juventude”, explica Wesley Silva, coordenador pedagógico do O Corre Coletivo.

Segundo Silva, quadrinhos como a Turma da Mônica ajudaram a alfabetizar muita gente, fora os clássicos, como Ziraldo, mas o universo digital possibilita outras abordagens de impacto nos leitores. “Além deles, têm os quadrinhos digitais que chegaram com muita força, principalmente as webtiras”, afirma.

Wesley Silva, o Lelo, como é conhecido nas periferias do Grajaú, é formado em artes visuais, pós-graduando em Arte educação: Teoria e Prática na ECA-USP e atua em rede com outros coletivos de arte educação nas periferias do Grajaú, um território com grande diversidade de saberes territoriais.

Cofundador do Corre Coletivo, Lelo foi o idealizador do projeto que deu vida à HQ Inimigo Invisível. Foto: Ana Pra Rua

Combate à desinformação

Em 2020, no auge da segunda onda de Covid-19, O Corre Coletivo, em parceria com o SESC Interlagos, criou o projeto ‘Inimigo Invisível’, iniciativa no começou como uma reunião de artistas para criação de desenhos para colorir, distribuídos para crianças, mas durante o avanço da pandemia de Covid-19, tornou-se uma HQ com super heróis que explica os riscos, traz dados e apresenta métodos de segurança para prevenção de contágio com o vírus.

“Para além de ser um quadrinho, ele ainda é muito educativo. Eu trago a política nas coisas que eu faço, para fazer com que as pessoas reflitam. Só que ao mesmo tempo, eu to ligado que a galera gosta de consumir comédia, besteirol. Eu quero criar coisas assim, que as pessoas achem da hora, só que ao mesmo tempo elas se vejam, porque no geral a gente não se vê, não são feitas por nós, nem para nós”, conta Ciano Buzz, educador e artista visual que participou da criação do Inimigo Invisível.

Ilustrador desde a infância, Ciano atua como educador de desenho e quadrinhos desde os 16 anos. Foto: Corre Coletivo

O artista visual Ciano, morador da Cidade Líder, zona leste de São Paulo, se define como um “griô do futuro” e busca trazer para dentro de processos educativos em escolas públicas uma visão multisciplinar em relação a arte e ao contexto de ancestralidade da população negra e periférica.

A HQ teve tanto sucesso que recebeu o chamado Oscar dos Quadrinhos, o troféu HQ Mix, na categoria Projeto Especial na Pandemia. Com isso, abriu espaço para o coletivo incentivar novas ações que não somente educassem crianças e jovens por meio dos quadrinhos, mas também abrisse um espaço de diálogo para que eles também pudessem contar suas histórias por meio das HQs, ampliando a representatividade nesta mídia.

Selo Lajota

A Base Nacional Comum Curricular, o BNCC, documento que define os direitos de aprendizagem de todos os alunos das escolas brasileiras, aponta que as HQs podem ser utilizadas, do 1º ao 5º ano do ensino fundamental para “Construir o sentido de histórias em quadrinhos e tirinhas, relacionando imagens e palavras e interpretando recursos gráficos (tipos de balões, de letras, onomatopeias)”.

Foi assim que nasceu, em 2023, o selo Lajota, espaço dedicado a ser uma comunidade de acolhimento para jovens que produzem histórias em quadrinhos nas periferias e que possuem o desejo de contar suas próprias histórias por meio dessas revistinhas. Além disso, é uma iniciativa editorial que democratiza o acesso por meio das webcomics, HQs online acessadas gratuitamente por meio do aplicativo Funktoon.

“O momento que eu juntei ciência na arte foi no quadrinho que eu estou produzindo agora [no selo Lajota], uma webcomic chamada ‘Mizu’, que é sobre uma menina gamer que retrata que a sua quebrada está passando por uma grande seca”, conta o biólogo e ilustrador, Lucas Andrade, o Lukera, um dos criadores da HQ Inimigo Invisível.

“Eu tento fazer isso no sentido da periferia se apropriar da pauta ambiental, porque eu acredito que é para ontem isso. Quando acontecem secas, somos os mais afetados por rajadas de vento, alagamentos”, contextualiza Andrade.

De forma pedagógica, cuidadosa e sensível, o Corre Coletivo busca construir diálogos com jovens estudantes de escolas públicas nas periferias, partindo de elementos culturais presente na construção da identidade cultural dos jovens.

“A gente procura chegar em uma zona próxima para falar de coisas importantes. Quando a gente fala do Miles Morales, um homem aranha negro caribenho, a gente consegue falar sobre esse recorte de ser uma criança preta na adolescência que gosta de grafiti e hip hop e está em descoberta, se sente abandonado e sozinho, e dialoga muito com o que a juventude vive”, explica Lelo.

A premissa de abordar um contexto cultural e social vivenciado pelos jovens moradores das periferias também é apontada pela a quadrinista Marília Marz, criadora da HQ curta “Zebra”, que fez parte da 8ᵃ edição da revista Ragu, vencedora do prêmio HQ MIX 2022 na categoria “Projeto Editorial”.

Para ela “pessoas negras, periféricas, indígenas e lgbtqiap+ , estão acostumadas a se verem representadas nas mídias pelo olhar, muitas vezes enviesado. A história em quadrinhos é um recurso muito importante para que as pessoas possam se enxergar, possam enxergar as próprias histórias e as próprias vidas”, conclui.

“A gente ficou 40 anos proibidas de jogar”: Maria Amorim propõe reparação histórica para o futebol feminino

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Para além dos resultados obtidos com a bola em campo, a Copa do Mundo Feminina, 2023, explicitou as diferentes e acentuadas dificuldades e desigualdades que os times femininos, ainda hoje, enfrentam. “O futebol feminino profissional quanto a investimento, não está nem 1% comparado com o masculino”, afirma Maria Amorim, 38.

Apaixonada por futebol, Maria é uma mulher preta, cearense, periférica, mãe do Lucas, de 18 anos, da Ana, de 13, e companheira do Beto. Ela é moradora de Parelheiros, extremo sul de São Paulo, joga futebol desde criança e como educadora social viabiliza que meninas e mulheres da periferia pratiquem esse esporte, que frequentemente é dito como masculino.

Moradora de Parelheiros, além de jogadora, Maria também é ativista em defesa do futebol feminino (foto: arquivo pessoal)
Moradora de Parelheiros, além de jogadora, Maria também é ativista em defesa do futebol feminino (foto: arquivo pessoal)

“Eu diria que [sou] ativista da modalidade feminina, sempre buscando ocupar lugares majoritariamente masculinizados, que nunca sonhou em ser jogadora profissional, mas que sempre teve dentro de si a luta pela modalidade, que decidiu brigar por esses espaços, que não é só meu, mas de todas as mulheres que querem jogar e praticar futebol independente de se profissionalizar ou não”.

Maria Amorim. educadora social de Parelheiros.

O futebol de várzea, predominante nas periferias, é a principal área de atuação de  Maria. Ela é fundadora, junto com seu companheiro Beto, do time Apache Feminino e da Liga Feminina de Futebol Amador de Parelheiros, que reúne 110 equipes. Maria também é técnica e diretora do time masculino Onze Veteranos. Em 2019, ela criou e hoje conduz o projeto FutVida, que insere crianças de 6 a 15 anos no esporte.

As treinadoras, Maria Amorim e Cecília Bringel, e as crianças do projeto FutVida (foto: arquivo pessoal)

Futebol de base: peneira e investimento

No entanto, Maria também contribui com perspectivas sobre o futebol feminino profissional, somando com as visões e as realidades que há nas periferias. “O futebol feminino hoje, falando desde o profissional, que respinga no amador, eu acho que tem muito uma [questão de] reparação [histórica], né? A gente ficou 40 anos sem jogar futebol, 40 anos proibidas de jogar.” a educadora traz um contexto histórico e desdobramentos atuais sobre o assunto.

“A Federação [Paulista de Futebol], recentemente, criou a peneira sub 17. Isso é muito bom, porque na minha época não tinha peneira. Uma peneira sub 17 da Federação oportuniza as meninas a participarem e [serem visibilizadas e analisadas pelos] responsáveis de clubes. Só que tinha uma questão muito forte, que era o atestado médico”, menciona a treinadora.

Maria também relata sobre uma constatação que ela expôs em uma reunião, que ocorreu na Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp), solicitada pela Deputada Leci Brandão, em defesa do futebol feminino, que reuniu integrantes do futebol de várzea, do profissional e a ex-coordenadora da Federação Paulista de Futebol, Thais Picarte, em 2022.

“Na minha fala, eu trouxe que entendo totalmente que o atestado médico seja necessário, mas a forma como ele é pedido é muito burocrático. Uma mãe de Parelheiros não vai faltar um dia de trabalho, para levar a menina ao médico, para conseguir um atestado.”

Maria Amorim, fundadora da Liga Feminina de Futebol Amador de Parelheiros.

Ela ressalta que a demora para ter atendimento é outro problema que surge ao levar meninas ao médico, no SUS, para conseguir o atestado médico. “Para ter esse atestado, o médico vai pedir exames. Então, estava tendo menos meninas pretas nas peneiras. E aí, eu trouxe essa reflexão: onde é que estão as meninas pretas? Na periferia, esse caminho para a menina chegar até à peneira é muito longo.” complementa.

Maria acrescentou também, nesta reunião, que uma realidade recorrente nas periferias é a situação das mães solos, que não podem arriscar a fonte de renda da família, faltando ao trabalho, para acompanhar as filhas nesses processos. Ela destacou e reivindicou que, “as instituições, a confederação têm que achar um caminho”.

Reunião na Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp) realizada em 2022, em defesa do futebol feminino. (foto: arquivo pessoal)

As colocações da educadora social trouxeram resultados. “Esse ano de 2023, na própria peneira, eles colocaram um médico à disposição, então a menina podia ir sem um atestado médico, lá passava pelo médico da Federação e fazia o atestado na hora. Então, já foi uma possibilidade que encurtou muito o caminho das meninas”, conta Maria.

Apesar da conquista, iniciativas e dos demais feitos realizados, a educadora social diz que se preocupa muito com o cenário do futebol feminino devido à falta de valorização. “Na periferia tem muita menina boa de bola. Então, qual seria o futuro ideal para o futebol feminino? Clubes grandes, instituições como a Federação, olhar para o futebol feminino e implantar projetos, fazer parcerias com projetos já existentes”, sugere Maria. Ela menciona que o ideal é ter investimento e suporte para que no futuro essas meninas sejam selecionadas para jogar profissionalmente.

“Hoje, cada clube profissional só tem um time feminino, porque é obrigatório, ou seja, se vai participar de uma Libertadores, se o clube tá dentro da Conmebol, ele precisa ter um time feminino. Por isso que os grandes clubes têm, porque senão, não tinha”

Maria Amorim é técnica e diretora do time masculino Onze Veteranos.

Em contrapartida, a educadora social, através do projeto FutVida, busca aproximar e tornar possível o acesso de meninas e adolescentes, dos bairros Jd. São Norberto e Nova América, na zona sul de São Paulo, ao futebol. “A gente que é de periferia, quando decide montar um projeto e trazer as meninas para o esporte, a gente tem que buscar estratégias para que ela continue praticando, juntamente com a família”, argumenta a educadora, mencionando que é preciso fortalecer os vínculos com os pais como um caminho para tornar esses processos colaborativos, a fim de criar redes de apoio para as meninas que sonham em jogar futebol.

“Tem um ditado africano que a gente leva muito pra vida [que diz], ‘que é necessário toda uma aldeia para cuidar e educar uma criança’. E é isso que a gente faz com os nossos movimentos. A gente precisa estar junto. A gente precisa fazer essa construção coletiva”, conclui Maria.

Mulheres atuam dentro e fora de campo no futebol feminino na quebrada

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Técnica, jogadora e pesquisadora atuam a partir do futebol de várzea femino nas periferias e ressaltam a importância desse esporte para além das quatro linhas do campo.

“A gente sabe que o esporte transforma e cura muitas coisas”. Esse é um dos motivos que fazem com que a técnica Cecília Bringel, atue com o futebol. Técnica do projeto FutVida e jogadora do time Chelsea Feminino, Cecília acredita na importância do futebol feminino de várzea para além dos jogos, por ser um espaço de socialização, acolhimento e humanização do esporte e de quem o pratica.

Cecília é mãe, educadora social e moradora do bairro Nova América, em Parelheiros, zona sul de São Paulo, território onde fundou, em 2022, o time de futebol Chelsea Feminino. Na região, ela também atua como diretora e treinadora do projeto FutVida.

“Eu entendo que o futebol me tirou da depressão. E no rachão eu já ouvi meninas falar, ‘eu não sei jogar bola, não sei nem chutar’, mas só do tempo que elas estão com a gente jogando, dando risada, correndo um pouco, elas já falaram, ‘isso aqui tá me fazendo tão bem’. A gente sabe que o esporte transforma e cura muitas coisas.”

Cecília Bringel técnica do projeto FutVida, fundadora e jogadora do time Chelsea Feminino.
Cecília Bringel com os filhos Isaac, 6, e Ana Clara, 10. (Foto: arquivo pessoal)

A técnica aponta que o futebol feminino de várzea opera para além do campo de futebol, com reflexos que são notados ao longo do tempo. Ela conta que, assim como muitas meninas, sua ligação com o futebol aconteceu jogando bola com meninos.

“Desde quando era criança eu já jogava bola na rua com os moleques. Eu sempre joguei com os meninos. A maioria das meninas começam assim. A minha filha acabou de chegar e foi jogar bola com os meninos, [por exemplo]”, conta Cecília Bringel.

Jogadoras do Chelsea Feminino em momento de descontração (Foto: arquivo pessoal)

Atualmente, ela divide as responsabilidades do time Chelsea Feminino com o companheiro, Ricardo, e os jogos do time acontecem toda sexta à noite. 

“Tinham muitas meninas que jogavam bola antigamente e pararam por causa da correria do dia a dia de nós, mulheres, trabalhar, cuidar de filho, de casa, essas coisas”, conta Cecília sobre como surgiu a ideia de criar o time, que hoje é formado por 28 mulheres.

Cecília também é diretora e técnica do projeto FutVida, iniciativa criada em 2019, pela Maria Amorim, também moradora de Parelheiros e uma das lideranças socioculturais do território.

Maria Amorim é fundadora e jogadora do time Apache Feminino. (Foto: arquivo pessoal)

Educadora social e pedagoga, Maria, junto com o seu companheiro, o Beto, fundou o time Apache Feminino e a Liga Feminina de Futebol Amador de Parelheiros.

Nascida no Ceará, Maria sempre jogou futebol, desde a infância. Ao se mudar para São Paulo, com 8 anos, passou a ter maior contato com o esporte dentro da escola. “Não por vontade dos professores, mas por insistência minha, porque eu lembro de diversas vezes em que o professor me colocava para sentar ou me dava outra opção esportiva enquanto os meninos jogavam futebol”, compartilha Maria.

Maria sempre gostou de futebol e hoje entende que pode trabalhar de diversas formas a partir do esporte. Ela aponta que a importância e resistência da presença de mulheres no futebol vai além de estar em campo jogando.

“Na várzea eu posso jogar, eu posso gerir um time, ser técnica, ser responsável de um campo. Posso vender meu churrasquinho para tirar a minha renda. Posso estar inserida ali independente dos olhares, das críticas e do preconceito. Eu consigo e eu posso ocupar esse lugar de alguma forma”

Maria Amorim é técnica e diretora do time masculino Onze Veteranos, criadora do time Apache Feminino e da Liga Feminina de Futebol Amador de Parelheiros.
Equipe do Apache Feminino. (Foto: arquivo pessoal)

Além de criadora do time Apache Feminino e da Liga Feminina de Futebol Amador de Parelheiros, a profissional também é técnica e diretora do time masculino Onze Veteranos.

Além das quatro linhas

Os desdobramentos do futebol de várzea feminino vão além do jogo. Alguns times, por exemplo, organizam rodas de conversas para auxiliar na saúde física e mental de mulheres. Por vezes, competir e vencer não é o mais importante na várzea feminina. 

Crianças do projeto FutVida. (foto: arquivo pessoal)

Juntas, Cecília e Maria tocam o projeto FutVida que busca inserir crianças no esporte. “Hoje, a gente atende mais de 100 crianças em duas comunidades aqui no Jd. São Norberto e Nova América”, conta Maria. A iniciativa é gratuita e atende crianças de 6 a 15 anos.

Atualmente, 15 dessas crianças são meninas, sendo que as entrevistadas apontaram vários motivos para a baixa participação de meninas, como a falta de apoio ou a proibição dos pais, por vezes essas meninas são responsabilizadas pelas tarefas domésticas e pelo cuidado dos irmãos desde cedo.

Todas as jogadoras que participaram da 3ª edição do “Maior Festival Feminino de Várzea do Mundo” receberam medalhas.

Outra iniciativa que também tem uma mulher à frente, é a Liga Feminina de Futebol Amador de Parelheiros, criada pela Maria e o Beto, seu companheiro, que reúne mais de 100 equipes. “A Liga surge para entender onde estão essas equipes, como a gente faz para se unir, para se organizar e competir também”, conta Maria sobre a criação da Liga em 2016.

A partir da atuação da Liga, em 2022, junto com a historiadora Aira Bonfim, em um projeto de extensão da universidade PUC, várias equipes femininas de futebol de várzea foram mapeadas. “O mapeamento surge a partir da pergunta que muitas pessoas faziam, ‘mas tem futebol feminino?’. Foi a partir dessa pergunta também que eu decidi fazer o festival”, coloca Maria.

“A gente quer ver meninas de 13 anos jogando, mas a gente quer ver mulheres de 50 anos jogando também. Então, a liga surge para essa organização do futebol de várzea”, afirma.

Confira o mapeamento produzido pela Aira Bonfim e a Liga Feminina de Futebol Amador de Parelheiros.

A 3ª edição do festival foi realizada em julho de 2023, no Parque Sete Campos, em São Paulo. O evento foi totalmente gratuito, reuniu 80 times de futebol feminino e mais de 1.000 jogadoras.

Apoio e articulação

A historiadora Aira Bonfim, lembra que, no Brasil, o futebol feminino foi proibido por lei durante quase 40 anos, entre 1941 até 1979. “O futebol ajuda a entender muitas realidades desse período. As mulheres já estavam fazendo as mesmas coisas que a gente faz hoje, de tensionar essas questões na sociedade”, coloca a historiadora.

Aira ressalta a necessidade de olhar essa atuação para além do ato de jogar. “É importante essas meninas terem sim o sonho de se tornarem profissionais, mas por vezes, o sonho é apenas jogar futebol, que nem isso às vezes é acessível”, coloca.

Mesmo com as diversas ações realizadas dentro e fora de campo, Maria aponta a falta de investimento ainda como uma das dificuldades na prática do futebol feminino, seja ele na várzea ou profissional. Ela também ressalta que os comércios locais que apoiam financeiramente os times de várzea masculino, não dão valor quando se trata do futebol feminino.

“Ninguém quer investir e a gente está falando de política pública também, porque hoje o futebol masculino tem investimento de políticas públicas e a várzea feminina não tem”, reforça Maria.

“Tem discriminação principalmente se for uma doula preta”, doulas refletem sobre a regularização da profissão

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Sem regulamentação, o trabalho de Doulas ainda se caracteriza como uma atividade informal e com poucas garantias, principalmente para profissionais de regiões periféricas. 

A doulagem é um trabalho de cuidado com a pessoa gestante antes, durante e depois do parto, oferecendo suporte e acompanhamento nesse processo de gestar. Em 2022, aconteceu a audiência pública na Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher da Câmara dos Deputados sobre a aprovação do Projeto de Lei 3946/21, que busca regulamentar a profissão de doula no país.

Doula é uma assistente de parto, que não necessariamente possui formação em ciências da saúde. Seu trabalho é realizar um acompanhamento para o cuidado e bem estar da pessoa gestante durante o período da gestação, ao longo do parto e até os primeiros meses pós parto.

Isabela Lima, 31, atua como benzedeira, artesã e doula. Nascida em São Vicente, baixada santista, atualmente mora no bairro Parque Bristol, distrito do Sacomã, zona sul de São Paulo. Ela conta como, por ainda não ser regulamentado, o trabalho de doula apresenta dificuldades, como falta de piso salarial e remuneração fixa.

“A doula que administra essa parte financeira de quanto cobrar, como e se vai. Tem muitas doulas que fazem esse trabalho de forma social para pessoas em vulnerabilidade, assim como eu. Acredito que esse projeto sendo aprovado vamos realizar nosso trabalho de forma mais segura e efetiva, sem que precise bater de frente com as instituições de saúde”, afirma a doula Isabela Lima, que também é mãe do Gabriel de 6 anos e do Bento de 3 anos.

A profissional aponta que além da discriminação por ser uma profissão considerada informal e não existir uma regulamentação, também enfrenta discriminação racial dentro das unidades de saúde.

“[Estamos] ali para auxiliar, não para atrapalhar como muitas vezes escutamos [da] assistência médica. Nós não somos vistas com bons olhos, temos que lidar com discriminação, principalmente se for uma doula preta. Além de lidar com a rejeição do corpo médico, ainda precisei lidar com a discriminação racial.” 

Isabela Lima, mora no bairro Parque Bristol, distrito do Sacomã, zona sul de São Paulo, é benzedeira, artesã e doula.

A doula conta que antes mesmo de estudar e iniciar a sua atuação profissional na doulagem, já fazia um trabalho de apoio emocional com pessoas gestantes a sua volta e buscou esses estudos a partir da sua primeira gestação, período que tinha medo de sofrer violência obstétrica ou passar por alguma negligência médica. “Hoje eu me encontro como parteria tradicional, tentando fazer um resgaste de saberes ancestrais que foram tirados do nosso imaginário”, afirma. 

Isabela pontua que a doulagem é uma das funções que compõem uma equipe de assistência para pessoas gestantes. “Trabalhando justamente nesse lugar de bem estar. [Doula] traz esses saberes em relação aos cuidados com a saúde do responsável do bebê e do bebê, mas é diferente da parte técnica da assistência médica, da assistência de enfermagem. [Doula] não faz nenhum procedimento técnico de enfermagem como ausculta, exame de toque, não realizamos nada disso”, coloca.

“Enquanto pessoa preta [e] periférica atuo na quebrada, como forma de enfrentamento do medo que senti na minha gestação de sofrer alguma violência ou ser negligenciada, já que sabemos que os corpos pretos são os mais violentados. Também proporcionar a ideia de uma qualidade de vida e bem viver para as pessoas da quebrada que não tem acesso ao sistema de saúde que ferramentalize o bem viver.”

 Isabela Lima, é benzedeira, artesã e doula.

Isabela atua de forma autônoma, mas também faz parte da Associação Doula Solidária, uma iniciativa que facilita o contato da pessoa gestante com doulas de vários locais, como uma forma de democratizar e entender esse trabalho como um direito de saúde e assistência.

Regulamentação para garantia de direitos

“Desde que houve flexibilização da pandemia, os únicos hospitais do SUS que têm permitido entrada de doula é o hospital de Parelheiros e o Amparo Maternal que recentemente recebeu uma pressão da ADOSP – Associação de Doulas do Estado de São Paulo, para que pudéssemos voltar a atuar, pois também vínhamos enfrentando dificuldades”, coloca Hanny Rodrigues, 29, doula e moradora de Pirituba, região noroeste da cidade de São Paulo. Para a profissional, a regulamentação afeta diretamente as doulas que são moradoras e atuam nas periferias. 

“A galera que pode pagar por um hospital ou tem convênio, seja ele particular ou pela empresa, já consegue acessar nosso serviço sem maiores problemas, porque a maioria dos hospitais particulares permite o nosso acesso sem grandes dificuldades. É uma escolha política barrar a gente nos hospitais públicos.

Hanny Rodrigues, doula e moradora de Pirituba, região noroeste da cidade de São Paulo.

A doula conta que iniciou o trabalho de doulagem por influência da irmã, logo depois foi estudar e em 2018 começou a atender na área. Ela é membro da ADOSP (Associação de Doulas SP) e aponta que atualmente existe um acordo informal de uma contribuição de R$ 1.900 para um acompanhamento de encontros pré-natal, partos e pós-partos. A doula enfatiza que é apenas um acordo ético e que na prática as doulas recebem muito menos. 

“Não basta realizar um curso preparatório de doulas, embora hoje existam muitas formações disponíveis no mercado, tanto de forma presencial, quanto online. Não só sobre o parto em si, mas sobre a importância real da doula. Avaliar qual é a sua disponibilidade de tempo para dedicar à sua gestante e também a sua saúde mental”, compartilha Hanny.

Articulação em rede

A busca pela regulamentação do trabalho das doulas tem sido articulada por diversos movimentos, entre eles a Fenadoulas Brasil, organização que reúne associações de doulas do Brasil e busca articular o campo de defesa da atenção multidisciplinar com inserção de doulas nesse cuidado, além de apoiar entidades filiadas que atuam para fortalecer o protagonismo da pessoa no ciclo gravídico puerperal, a partir do acesso a informações de qualidade e atendimento humanizado, respeitoso e digno.

Morgana Eneile é doula, pesquisadora, presidenta da Fenadoulas Brasil, e pontua que não existe uma restrição para se tornar doula, mas uma orientação para pessoas que tenham o ensino médio completo e seja maior de idade. Além de uma formação de doula que atualmente é feita através de cursos livres, privados ou públicos, coordenados por profissionais que atuam com doulagem.

“A prática da profissão já está organizada formalmente na CBO (Classificação Brasileira de Ocupações), mas ainda há diferentes leituras que tendem a ser mais uniformizadas a partir da aprovação de uma legislação nacional que possibilite a compreensão geral do universo de trabalho”, pontua a pesquisadora em referência a importância de regulamentar a profissão.

Para Kau Marua, doula representante da Adosp (Associação das Doulas de São Paulo), é extremamente importante que aconteça a regulamentação para que possam ser reconhecidas como profissionais. “Doula é profissão há muitos anos. [É] importante esse reconhecimento como profissional até mesmo no campo financeiro. Outro ponto importante é ter coerência e coesão principalmente na base das formações”, afirma. 

“Através da regulamentação, além de equalizar minimamente as formações, considerando os critérios necessários para formação de qualidade [e] reconhecimento das profissionais, nos permite acesso aos locais onde as pessoas gestantes estão parindo seus filhos. Com a regulamentação, as Doulas têm livre acesso aos hospitais – sejam eles públicos e/ou privados rede suplementar.”

Kau Marua, doula representante da Adosp (Associação das Doulas de São Paulo)

“A presença da doula no cenário de parto é uma ferramenta extremamente importante para o cuidado das parturientes, inclusive em relação à proteção contra a violência obstétrica”, pontua Kau Marua.

Ao Padre Jaime Crowe: um agradecimento da juventude

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Temos experiências que são frutos de sua luta pelo direito à vida da juventude, com o relato de alguns jovens que foram atendidos por seus projetos e seguem seu legado.

 “Quem sabe faz a hora, não espera acontecer”

Pra não dizer que não falei das flores – Geraldo Vandré

São Paulo, Jardim Ângela, zona sul de São Paulo. Ali dos lados que Mano Brown se refere quando canta “dá ponte pra cá”. Casas demais, gente demais, talentos demais, jovens demais e oportunidades e direitos de menos. Nas nossas quebradas, sempre foi assim. Mas não sem a voz do nosso povo reivindicando pela garantia mínima de condições de vida.

E dentre essas vozes teve uma que se levantou, mas não era das mulheres que enterravam seus filhos jovens vítimas da violência, era uma diferente: de um senhor padre, branco, estrangeiro, que chegara à região. 

Levando a sério a passagem bíblica de que “a fé sem obras é morta”, Jaime foi agente de várias e várias obras, algumas lembradas pelo Rafael Cícero neste artigo:

Quando os distritos Jd. Ângela, Capão Redondo e Jardim São Luís passaram a ser conhecidos como Triângulo da Morte por ser a região mais violenta do mundo inteiro, o Padre rezava missas e missas de 7º dia pelos corpos das diversas vítimas de violência, em sua maioria jovens e negros da periferia. Mas não achava isso normal: sentia um incômodo e a partir daí percebeu a necessidade de lutar para reverter este quadro de homicídios na região. 

Jaime nos deixou em fevereiro de 2023 e felizmente podemos dizer que sua luta em vida não foi em vão: hoje temos experiências que são frutos de sua luta pelo direito à vida da juventude com o relato de alguns jovens que foram atendidos por seus projetos e hoje seguem seu legado. 

Ingryd Boyek, Sociedade Santos Mártires.

Ingryd Boyek tem 25 anos, é psicóloga e atua como assistente técnica no SCFV – Centro para Criança e Adolescente Riviera da instituição Sociedade Santos Mártires. Também é coordenadora da Rede Ubuntu de Educação Popular e psicóloga do coletivo Ubuntu de Saúde e Cidadania. Segundo ela: 

“Falar do Padre Jaime e do seu trabalho é falar sobre esperança, principalmente para a nossa juventude. A sua obra tem um impacto enorme na minha vida, porque desde quando tinha 8 anos fui acolhida pelo Centro de Formação e Recreação São José, participando ativamente das atividades do ozen, que com a mudança de nomenclatura passou a ser Centro para Criança e Adolescente (CCA), e dos cursos e oficinas do Centro para Juventude Riviera (CJ)”.

E completa: “O espaço que ocupo como indivíduo e como profissional existe porque pessoas como o Padre Jaime acreditaram que eu conseguiria e impulsionaram-me a conquistar. Orgulho-me de ser agente de transformação positiva, de poder retribuir nos lugares que percorro tudo que aprendi com esse grande homem e com tantas outras pessoas que lutam para não termos nenhum direito a menos. Agradeço por ele ter insistido no nosso território e na nossa juventude.”

Saulo Vilanova, Sarau Apoema.

Saulo Vilanova tem 24 anos, é morador do Jardim Ângela, estudante de Letras na USP e membro do Sarau Apoema. Desde 2018, é coordenador e professor da Rede Ubuntu de Educação Popular. Em suas palavras:

“Num terreno de vulnerabilidades, não há forma de se progredir sem cultivar sonhos e de lutar coletivamente. Apesar disso, são poucas as pessoas que conseguem juntar o povo oprimido e elevar nele a sua autoestima, que historicamente é esmagada. Padre Jaime, ao lutar incansavelmente por essa auto-estima, é um marco na história de muitos periféricos, sabendo eles ou não disso. Nesse bonde, é preciso incluir a juventude favelada do Jardim Ângela, a quem ele foi um incansável defensor por gerações e gerações.”

Ele continua: “É preciso dizer, porém, e é claro, que o Sarau Apoema, tão recente na história da arte periférica do Jardim Ângela, não foi o primeiro movimento a ser acolhido e incentivado dessa forma. Era também através de Jaime que batalhas de rima, apresentações de teatro, lançamento de livros e outros movimentos artísticos ganharam fôlego. Jaime acreditava na arte como forma de valorização e resgate da vida, e nisso passamos a acreditar também”. 

Saulo ressalta que nessa guerra que Jaime escolheu combater com sua sobrevivência e vitalidade, a juventude do Jardim Ângela, seja qual geração permanecer, terá sempre um espírito de gratidão.

Juntos num só lema! Saudações, Jaime!

Isabella Souza, Rede Ubuntu de Educação Popular.

Isabella Souza tem 21 anos, é estudante de Psicologia, moradora do Jardim Ângela, ex-aluna e atualmente coordenadora na Rede Ubuntu de Educação Popular. Para ela:

“Não tem como lembrar do Padre Jaime sem lembrar dos sábados em que ele visitava o cursinho e nos cumprimentava com ‘saudações corinthianas’ e um sorriso no rosto. Lembrar do Padre Jaime é lembrar do significado de Ubuntu: eu sou porque nós somos.” 

Ela completa: “Sem a ajuda e presença do Padre Jaime eu não estaria na faculdade, com bolsa 100%, no 4º ano do curso da minha vida e podendo retribuir (mesmo que minimamente) todo o esforço e trabalho que os voluntários do cursinho tiveram para que eu pudesse sonhar. A Rede Ubuntu carregará sempre a chama de esperança que o Padre Jaime acendeu em nós e essa chama ficará cada vez mais forte. Obrigada por tudo, Padre!”

No país em que um jovem é assassinado a cada 17 minutos (Atlas da Violência 2021), a continuidade de toda a mobilização segue sendo necessária. 

Nós, jovens periféricos, merecemos o direito à vida e a uma vida com oportunidades. 

Por ter levantado sua voz em nossa defesa, deixamos aqui ao padre Jaime Crowe o nosso muito obrigada.


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Campanha Elas Transformam: construindo caminhos e ações

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O movimento Elas Transformam é uma iniciativa do projeto MUDE com Elas que mobiliza ações e campanhas de combate ao racismo e ao sexismo no processo de inserção juvenil no mundo do trabalho.

Antes de tudo peço licença aos leitores de minhas colunas, meus temas são gerais e desde 2020 busquei trazer reflexões para possíveis debates, contudo, resolvi também falar sobre ações que implementam importantes mudanças e podem ser nossa nova forma de criar diálogos com as juventudes.

Sendo assim, vim apresentar o Mude com Elas, um projeto que nasceu em 2020 e é implementado pela Ação Educativa, tem colaboração com a Câmara de Comércio e Indústria Brasil-Alemanha em São Paulo (AHK São Paulo) e possui apoio da Terre des Hommes Alemanha (TDH), responsável pela coordenação geral do projeto e co-financiadora junto com o Ministério para Cooperação e Desenvolvimento da Alemanha. 

O projeto foi planejado pensando a entrada desigual dos jovens no mundo do trabalho e junto a isso os marcadores de gênero e raça, dentro do cenário da falta de políticas públicas, inserção desigual, sobrecarga, racismo entre outros, seria necessário criar estratégias para garantia dos direitos dos jovens e principalmente das jovens mulheres negras que são extremamente afetadas negativamente por essa dinâmica.

Assim o Mude se estruturou em algumas frentes envolvendo: incidência com a criação de uma parceria multiatores, envolvendo a sociedade civil, poder público e setor privado, e também uma iniciativa piloto de inserção de jovens mulheres negras nas empresas parceiras da AHK, prevendo formação técnica e cidadã e sensibilização de colaboradores de empresas alemãs.

Desde o lançamento, o projeto vem se unindo a diferentes atores sociais e políticos, além de refletir sobre a formação das jovens que fizeram parte desse aprendizado e suas entradas no mercado de trabalho.

Em 2021, o projeto conseguiu atuar para a criação de uma Subcomissão de Juventude dentro da Comissão de Finanças e Orçamento e desde então a Comissão instalada tem sido uma maneira de levar até o poder público as problemáticas enfrentadas pelos jovens de periferia, em especial as jovens mulheres negras.

Pensando em toda essa trajetória, o projeto construiu a maravilhosa Campanha Elas Transformam que foi lançada em 1 de Maio, o dia do trabalhador.

O movimento Elas Transformam é uma iniciativa do projeto MUDE com Elas que mobiliza ações e campanhas de combate ao racismo e ao sexismo no processo de inserção juvenil no mundo do trabalho. O projeto MUDE com Elas tem como realizador a Ação Educativa, Câmara de Comércio e Indústria Brasil-Alemanha em São Paulo (AHK São Paulo) e o escritório de Terre des hommes Alemanha (Tdh).

A Campanha busca um diálogo com as empresas e seus pares para que sejam realizadas mudanças efetivas dentro do mercado de trabalho como um todo, não somente no RH.

Falar sobre jovens mulheres negras e mercado de trabalho também é tocar na trajetória das nossas jovens de periferia que estão agora iniciando a sua jornada. Então convido aos leitores interessados a procurarem e apoiarem essa luta! 

Por fim, deixo o convite para o evento “Encontro de Juventudes “Orçamento e Políticas Públicas” que acontecerá no dia 24 de Junho de 2023, das 13h30 às 17h, no Auditório 1º de Maio, no 1º andar da Câmara Municipal de São Paulo: Viaduto Jacareí, 100 – Bela Vista, São Paulo – SP, Palácio Anchieta. 

Que um dia nossos jovens possam sonhar

Que a morte desencontre nossa vida

Para que o horizonte seja um passo para construção 

E não o fim cinza

Agnes Roldan

“A demarcação de terra é baseada no modo de vida do não indígena”, denúncia Thiago Djekupe

Luta pela demarcação de terras criminaliza povos indígenas e impede ações coletivas, que poderiam unir as periferias, favelas e quilombos. (Foto: Dan Agostini)
Manifestação reúne lideranças indígenas guarani para protestar contra o Marco Temporal. (Foto: Dan Agostini)

Na última terça-feira (30/05), a Câmara dos Deputados, em Brasília, aprovou o projeto de lei 490, que estabelece o Marco Temporal, um conjunto de regras jurídicas que dificulta a demarcação de terras indígenas. No mesmo dia, em reação a esta decisão, inúmeros protestos dos povos indígenas se espalharam pelo Brasil.

Em São Paulo, lideranças indígenas guaranis do território Jaraguá, localizado na região noroeste da cidade, ocuparam a Rodovia dos Bandeirantes e foram brutalmente repreendidos pela polícia militar.  

“A demarcação de terra é baseada no modo de vida do não indígena, na sua crença geográfica, porque nós se entendemos como um povo livre e não proprietário de terra, nos entendemos como parte da terra, parte de toda vida que se encontra aqui”

Thiago Djekupe, liderança guarani do território indígena Jaraguá

O texto do projeto de lei do Marco Temporal só reconhece as terras indígenas legalmente ocupadas ou que estavam em disputa para serem demarcadas quando a Constituição Federal foi promulgada, em 5 de outubro de 1988, momento reconhecido na história do país como período de redemocratização após o fim da ditadura militar.

Com 283 votos a favor do Marco Temporal, os parlamentares do PL, PSD, PP, PSDB, PODE, MDB, AVANTE, PV, PSC, PDT, União Brasil, Republicanos, Cidadania, Patriota e Solidariedade, partidos que representam o centrão e a extrema direita, contribuíram para o PL 490 avançar para o Senado Federal. Agora, o projeto de lei tramita com a numeração 2.903/2023.

A terra indígena Jaraguá possui 1,7 hectares, ou seja, mais de 10 mil metros quadrados. Essa região é cercada pelo Rodoanel, Rodovia dos Bandeirantes e Anhanguera. Atualmente, os povos indígenas desta região seguem na disputa política para demarcação dos 534 hectares, uma luta coletiva e  histórica que pode ser completamente inviabilizada pela aprovação em definitivo do Marco Temporal.

“O pico do Jaraguá é sagrado para nós. Chamamos de Itawera, porque o ‘Ita’ é das pedras e o ‘wera’ é a força dos raios. O pico do Jaraguá no mundo é o lugar que mais tem ascendência do raios, que diverge né, ao invés de ele descer, ele sobe, e para nós, isso é o natural, e nós caminhamos sempre em busca da Yvy marã e’ỹ, que significa ‘Terra Sem Males’. Então esse é o caminho que fazemos seguindo a espiritualidade, seguindo a nossa fé”, contextualiza o líder indígena do povo Guarani.

A sobrevivência dos ancestrais do presente

O líder indígena Thiago Jekupe lembra que a sobrevivência faz parte da sua infância, momento em que uma família de empresários imobiliários tentou se apropriar de forma criminosa das terras sagradas do Jaraguá.

“Quando eu era criança, a família Pereira Leite veio aqui para tentar comprar a terra com uma mala de dinheiro. Colocou aqui um monte de homens armados com fuzil, metralhadora, calibre 12, cercaram nossa comunidade para nos ameaçar, e eu era só uma criança, e mesmo no tempos de agora com a gente provando que a nossa existência que garante as demais vidas, a gente teve o governo do estado, governador do palácio dos bandeirantes, um bandeirante chamado Geraldo Alckmin, entrou com um mandado de segurança contra o processo de demarcação da terra indígena Jaraguá”, revela.

“Lutar por demarcação é lutar pelo pouco que sobrou para que sobrevivamos. Quando estamos falando de demarcação, não é só demarcação de terra indígena, tem que se lembrar que as terras quilombolas mal são faladas. Não se fala sobre demarcação de terra quilombola, terra caiçara, vários movimentos têm a visão e movimento de querer aquilombar a periferia, mas não querem garantir os quilombos”

Thiago Djekupe, liderança guarani

A demarcação da terra indígena Jaraguá foi conquistada em 2015, reconhecendo os 532 hectares como área pertencente ao povo guarani, mas logo em seguida aconteceu o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff, um fato que mudou totalmente a vida dos mais de 1 mil indígenas que viviam no território naquela época.

Neste contexto, o Ministro da Justiça, Torquato Jardim, do governo do presidente sucessor Michel Temer, revogou a Portaria Declaratória n°581, de 2015, que reconhecia os 532 hectares de ocupação guarani na região metropolitana de São Paulo. Desta forma, o território passou a ter somente 1,7 hectares.

Periferias, favelas e territórios indígenas juntos pelo direito à terra

Luisa Silva Rafacho, 24 anos, agente cultural e ambiental, moradora do Jaraguá, afirma que as periferias têm uma forte relação na luta pelo direito com os territórios indígenas. “Eu acredito que as lutas por terra na quebrada e na aldeia se relacionem ao ponto que são formas de pensar em futuros coletivos, em soluções de reflorestamento, de bioconstruções, e principalmente a forma que você constrói sua casa, capta água e luz, poderia ser uma luta muito mais compartilhada, principalmente no campo das políticas públicas”, argumenta.

Para a agente ambiental, essa seria uma forma coletiva de promover um desenvolvimento cultural e ambiental que poderia evitar a separação destas lutas dentro da cidade. “Ser uma pessoa preta e periférica vivendo em um território de preservação dos últimos remanescentes da mata atlântica do Brasil, e ainda ter a cidade como parte disso, é compreender essa relação que a cidade está inserida dentro da mata, e foi crescendo assim, e só de pensar nisso, eu me adapto nessa condição, acredito que a floresta pode ser o futuro”, ressalta a moradora do Jaraguá. 

Jekupe também acredita nessa correlação de luta e diz que a quebrada se unir à demarcação também é uma forma de independência das periferias. “Imagina a periferia aproveitando seus espaços para trazer saneamento ecológico, saneamento barato, prático, se você tem agrofloresta na quebrada, entende que pode se investir em placas solares e parar de pagar energia, você sai da mão dos bandeirantes, da mão do palácio dos bandeirantes, eles não querem que a periferia entenda que a quebrada forte, que uma memória pode despertar a independência do seu território”, analisa.

Ao parar por alguns momentos e refletir sobre tudo o que tem acontecido no contexto do Marco Temporal, o líder indígena faz uma comparação sobre o impacto da criminalização da vida nas periferias, favelas e nos territórios indígenas.

“Nós estamos em situação precária que nem nas favelas e nas quebradas, sem saneamento básico, abandono de animais, por isso temos que lutar juntos e não dividir nossas lutas, as pessoas nos criminalizam pra dividir, a gente só tá buscando uma terra sem mal, e porque o não indígena não pode também buscar uma terra sem mal?”, questiona o líder guarani.

Moradora da Vila Medeiros, doceira concilia estudos, trabalho e a produção de ovos de Páscoa para compor renda

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Em uma viela no bairro Jardim Brasil, no distrito de Vila Medeiros, na zona norte de São Paulo, encontramos uma casa animada com crianças dançando e um cachorrinho acompanhando o ritmo da canção. É na cozinha dessa casa que a doceira Carolina Gonçalves, 39, prepara os produtos para a Páscoa de 2026. 

“Eu comecei vendendo copo da felicidade, com brownie e frutas, geralmente [com] morango [dentro]. Esse é meu carro chefe, todo mundo pede”, conta sobre o início das vendas de doces aos 25 anos.

Carolina é mãe de cinco filhos, sendo três deles ainda em idade escolar, além do cuidado com os filhos, ela também trabalha na UBS Jardim Julieta como auxiliar administrativo. Pela manhã, frequenta o curso de enfermagem no Senac do Tatuapé. 

A filha mais nova foi sua motivação pelo interesse na área da saúde. “Ela ficou internada desde os quatro meses de idade até um ano na UTI. Então hoje eu quero ajudar as pessoas do mesmo jeito que minha filha foi ajudada”, conta Carolina.

“[A rotina] Não é fácil”, diz depois de sair de uma ligação com o marido que estava no mercado comprando ingredientes para a sua produção. O único tempo que tem para fazer os seus doces, inclusive na época da Páscoa, é durante a noite. Ela começa a produção após às 22 horas, e termina por volta das três da manhã.

História entrelaçada com os doces

“[Eu comecei] desde criança, porque minha mãe trabalhava, e para complementar a renda ela também fazia bolos para fora. Então, ela ia trabalhar e pedia pra mim ‘Vai colocando um bolo pra assar?’”, relembra ao contar que sua história sempre esteve interligada com os doces. 

No começo foi ajudando a mãe com as vendas, hoje, como a mãe, ela também usa o dinheiro ganho com as sobremesas  para complementar sua renda e aprender mais do mundo da confeitaria.

“[Essa] é a minha terapia, é o meu momento. Eu fico mais relaxada, minha mente abre mais, eu consigo pensar com mais fluidez, eu relaxo. Fazer chocolates é uma coisa que gosto.” 

Carolina de Araújo Gonçalves, auxiliar administrativo, estudante de enfermagem e doceira.

“Já cheguei a ter 100 clientes”, lembra orgulhosa de seu trabalho. É ela que divulga as produções via Instagram, Facebook e também no seu WhatsApp pessoal. Hoje em dia, por conta de sua rotina de trabalho, estudo e criação dos filhos, ela posta menos nas redes sociais, e aceita menos pedidos que antigamente.

Como os preparos são feitos apenas por ela, essa diminuição no fluxo de venda contribui para conciliar sua rotina. “Eu nem ia fazer os ovos para essa páscoa, decidi fazer mesmo na semana passada. Então estou fazendo poucas encomendas”, diz.

Valorização do doces artesanais

Em 2026 as encomendas de ovos de Páscoa de Carolina foram um sucesso entre os seus clientes. Mesmo com a limitação que colocou para as produções, já foram vendidos 68 ovos de páscoa. Por noite, Carolina consegue fabricar 20 ovos de chocolate recheados. Também são feitas 200 mini-casquinhas de ovos, campeão de vendas durante essa época do ano, vendidos a dez reais cada.

Carolina diz que, atualmente as pessoas estão mais abertas para a compra de doces artesanais, em 2026 ela investiu aproximadamente 1.300 reais na produção de páscoa e prevê lucrar em torno de 3.500 reais. 

Entre os principais fatores considerados para a escolha dos pequenos negócios na hora da compra dos produtos de Páscoa, 41% dos consumidores consideraram o preço, 35% afirmam que a qualidade do produto influencia na escolha e 31% escolhe os pequenos negócios pelas ofertas e promoções.

“Eu tenho um sonho de abrir um espacinho”, conta sobre seu objetivo. Mesmo com as encomendas limitadas, a doceira continua se aperfeiçoando com cursos, equipamentos e em busca de espaço somente para as produções.

Suzi Soares, cofundadora do Sarau do Binho, no Campo Limpo, lança livro “Palavras e Sabores” com receitas afetivas

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Comida como território de memória, encontro e afeto, essa é a essência de “Palavras e Sabores – receitas afetivas de Suzi Soares”, primeiro livro da produtora cultural Suzi Soares, cofundadora do Sarau do Binho, que será lançado no dia 16 de abril, no Sesc Campo Limpo, em São Paulo.

O livro reúne 20 receitas, dez doces e dez salgadas, acompanhadas por histórias, lembranças e textos de pessoas que passaram pela cozinha de Suzi ao longo de décadas de encontros culturais. 

Mais do que um livro de culinária, a obra é um retrato afetivo da vida cultural da zona sul de São Paulo. Conhecida por alimentar quem passa por sua casa, por reuniões de produção cultural ou pelos encontros do Sarau do Binho, Suzi construiu ao longo dos anos uma cozinha que funciona como espaço de acolhimento coletivo.

“É a realização de um sonho antigo, que muitos amigos me pediam”, conta Suzi.

“Neste livro as pessoas vão encontrar receitas simples que podem fazer em casa para a família e, mais do que isso, vão encontrar afetos.” – Suzi Soares, moradora do Campo Limpo, produtora cultural e cofundadora do Sarau do Binho.

As receitas reunidas no livro, como bolo de fubá cremoso, curau, carne de panela com mandioca, farofa de cebola ou brigadeirão, não pretendem ser sofisticadas ou inéditas. São pratos do cotidiano, daqueles que passam de mão em mão, de geração em geração, preparados com ingredientes simples e com um toque pessoal que transforma o trivial em memória. 

Ao longo das páginas, cada receita é acompanhada por pequenos textos escritos por pessoas que experimentaram esses pratos em diferentes momentos da vida. Em vez de depoimentos, Suzi prefere chamá-los de “afetos”, registros de lembranças, encontros e histórias que nasceram ao redor da mesa.

O livro também revela como a cozinha de Suzi se entrelaça com a história cultural da periferia paulistana. Durante anos, muitos desses pratos circularam entre artistas, poetas e amigos ligados ao Sarau do Binho e a outros movimentos culturais da zona sul, onde comida, poesia e conversa sempre caminharam juntas.

No prefácio do livro, a pesquisadora Diana Sales aproxima culinária e literatura ao lembrar que nenhuma receita pode ser reproduzida exatamente da mesma maneira: o sabor também carrega o contexto, o momento e os afetos envolvidos em cada preparo. 

A publicação conta ainda com projeto gráfico e diagramação de Silvana Martins, do Estúdio Aruêra, fotografias de João Claudio de Sena e ilustrações de Carolina Itzá, compondo um livro visualmente delicado que aposta em imagens naturais, distantes da estética artificial da gastronomia de vitrine. 

Entre receitas, lembranças e histórias compartilhadas, “Palavras e Sabores” convida o leitor a algo cada vez mais raro: cozinhar para alguém e sentar à mesa sem pressa.

SERVIÇO

Lançamento do livro “Palavras e Sabores – receitas afetivas de Suzi Soares”

Sesc Campo Limpo – São Paulo
Data: 16 de abril
Horário: 19h30 
Entrada gratuita

Informações: https://www.instagram.com/suzi_a.soares/ 

Com regulação em debate, trabalhadores de aplicativo relatam rotina nas plataformas

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No Brasil, no primeiro trimestre de 2024, 1,7 milhão de pessoas trabalhavam por meio de plataformas digitais e serviços de aplicativos, de acordo com dados do “Trabalho por meio de plataformas digitais 2024”, divulgados pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Um crescimento de 335 mil pessoas (25,4%) em relação ao ano de 2022, quando 1,3 milhão de trabalhadores estavam nessas ocupações.

O transporte de passageiros concentra 58,3% (964 mil) dos trabalhadores, seguido por serviços gerais, realizado por 17,8% (294 mil) trabalhadores. O sudeste é a região que ocupa o maior número de plataformizados.

Outro dado destacado pelo estudo é que 91,2% dos motoristas de aplicativos e entregadores sentem que, apesar da flexibilidade de horário e de poderem escolher os dias de trabalho, dependem das plataformas por conta de promoções e bônus oferecidos aos passageiros, como consequência, muitos deles precisam trabalhar por mais horas.

Rubens Moreira, 57, morador do Jardim Inamar, em Diadema (SP), utiliza do trabalho via aplicativo para complementar a renda. Ele conta que faz seu próprio horário e concilia duas jornadas para dar conta das despesas. “Eu tenho um outro trabalho de manhã, trabalho com uma Fiorino agregada em uma empresa de alimentação. Saio cedo e volto cedo, daí financiei meu carro e comecei na Uber. Tô há uns dois anos nisso”, compartilha.

Ele conta que paga uma prestação mensal de R$ 2.400 do carro, e que apesar de uma dinâmica que escolhe os horários, a realidade do trabalho na rua é desafiadora. “Quanto mais gente, mais difícil fica de fazer uma corrida boa. A porcentagem que o aplicativo tira da gente é grande, às vezes chega a 40%. No mínimo é 30%, com certeza.”

O motorista afirma que não existe suporte da plataforma para custos com o carro: “Não temos nenhum tipo de proteção, seguro, benefícios, nada. A gente paga tudo: prestação do carro, manutenção, gasolina, e se acontecer algo, é por nossa conta”, afirma.

Como pensar em relações de trabalho dignas e com direitos garantidos? #26 

A relação com os passageiros é outro ponto que, segundo Rubens, pesa no dia a dia. “A gente sofre bastante. A Uber, por exemplo, só escuta o passageiro. Se der problema, ela puxa sempre para o lado deles: “Conheço muitos [motoristas] que foram bloqueados à toa. E pra reverter [o bloqueio], é difícil. Não acreditam no motorista”, diz sobre penalizações impostas aos motoristas de aplicativos. 

Para Rubens, a falta de melhores oportunidades no mercado de trabalho formal é o principal motivo para tantas pessoas migrarem para os carros de aplicativo. 

“Tem gente que não tem profissão nenhuma. Por exemplo, o cara era ajudante, ganhava uma merreca, não dava para sobreviver, daí tira a carteira de habilitação e entra na Uber. Hoje em dia, até para quem tem faculdade, quem tem curso, está difícil. Imagina para quem não tem nada.”

Rubens Moreira, motorista, morador do Jardim Inamar, bairro localizado em Diadema, município da região metropolitana de São Paulo.

Ele, que também trabalha como motorista de aplicativo para compor a renda enquanto sua remuneração fixa não permite arcar com todas as despesas, continua: “Gostaria que melhorasse tudo, mas principalmente a relação com a plataforma. Acredito que não deveriam bloquear a gente de qualquer jeito, sem ouvir o motorista. E essa taxa que tiram da gente, é pesada demais.”

Até janeiro de 2026, 7 em cada 10 brasileiros perceberam que o custo de vida aumentou nos últimos 12 meses, revela levantamento realizado pelo Serasa, em parceria com o Instituto Opinion Box. O aumento foi maior observado no Sul (75%) e Sudeste (72%), e menor no Norte (65%) e no Centro-Oeste e Nordeste (68%). 

As despesas mais difíceis de pagar são: supermercado (31%), contas de água, luz e internet (23%) e moradia, incluindo aluguel ou financiamento (20%). O custo médio mensal de vida foi estimado em R$ 3.520, evidenciando que muitos brasileiros têm recorrido a algum tipo de renda extra ou fonte alternativa para conseguir equilibrar o orçamento.

A burocracia é mais um dificultador. “Já tentei trabalhar também por outras plataformas, tipo a 99, mas mesmo com o nome limpo e com carro no meu nome, estava dando problema. Não consegui e fiquei só com a Uber mesmo”, destaca Rubens.

Isaac Saragosa, 24, motoboy, também enfrenta desafios semelhantes aos de Rubens. Morador de Diadema, no ABC Paulista, ele trabalha quase sempre em turnos intercalados. “Trabalho em dois períodos, tenho rodado na parte da manhã e na parte da noite. Antes, estava em um trabalho CLT. Comecei a trabalhar na rua mais por conta da disponibilidade de horário, pois eu quero prestar concurso público e seria mais fácil [estudar] estando nessa dinâmica de comandar o meu horário”, conta.

O motoboy pontua que, mesmo com essa dinâmica de horários que imaginou, se sente refém das imposições feitas pela plataforma. “No meu caso, o iFood impõe um ritmo de trabalho que preciso seguir para ter um bom rendimento e fico preso também ao tempo que a plataforma impõe”, diz.

“Tem horário de pico específico. Pelo menos na minha região, que é Diadema e ABC como um todo, no horário noturno ela canta bastante [solicitações de entrega]. No horário das sete, oito horas, até umas duas da manhã. Isso em dia útil, final de semana e feriado”, conta Isaac.

Ele também fala sobre a falta de suporte no cotidiano, especialmente para a categoria de motoboys. “Não há nenhum tipo de seguro de vida. É tudo por conta e risco mesmo. Isso me preocupa, essa falta de segurança. E a gente sabe como o suporte é. A longo prazo, não é algo que eu quero continuar, é só uma fase até conseguir passar no concurso.”

Isaac conta que a depender da situação tem alguém de suporte da plataforma para responder em tempo real, mas geralmente o retorno é via inteligência artificial. “Até o momento não tive nenhum problema de saúde ou acidente no trânsito, mas eu acho que seria muito importante que não só os motoboys, mas todos os trabalhadores da rua, tivessem mais proteção”, reforça.

“Concordo que deveria ter direito a 13º, um seguro, uma licença médica, pois é um trabalho como qualquer outro. Não é porque não é CLT que não deveria ter direitos, porque [estamos] falando de seres humanos.”

Isaac Saragosa, motoboy, morador de Diadema, no ABC Paulista.

Apesar dos desafios, Isaac aponta uma atuação coletiva para esse cenário. “Eu espero que a classe mantenha a união, para que isso venha se concretizar, venha trazer à tona mesmo essa questão da falta de segurança no trabalho. Ir pra rua não é fácil, é muito complicado. Nunca sabemos quem está do outro lado do volante e do guidão. Que a gente se una em prol de uma melhora real”.

Câmara dos Deputados vota regras para trabalho com plataformas digitais

A discussão sobre a regulamentação do trabalho por aplicativo está na pauta da Câmara dos Deputados. No dia 10 de março, o presidente da casa, o deputado Hugo Motta, comunicou que o Projeto de Lei Complementar 152/25, deve ser votado no início de abril. O PL estabelece normas para o funcionamento de serviços de transporte individual de passageiros e de entrega operados por plataformas digitais.

O PL determina que os trabalhadores tenham cadastro pessoal e intransferível, contrato escrito com a empresa, certidão negativa de antecedentes criminais e comprovação de que o veículo atende à legislação de trânsito. Enquanto as plataformas ficam impedidas de impor relação de exclusividade, jornada mínima de trabalho,  tempo mínimo conectado ao aplicativo, disponibilidade mínima obrigatória, restrições a períodos de ausência ou a escolha de horários e também não deve impor frequência de uso aos trabalhadores.

A contribuição previdenciária do trabalhador plataformizado deve ser recolhida pela empresa, que também é responsável por inscrever os trabalhadores no Regime Geral de Previdência Social (RGPS). Além disso, o contrato entre trabalhador e plataformas digitais deve esclarecer como e quando os serviços serão pagos, se existem taxas que o trabalhador precisa pagar e como a cobrança será feita, além de detalhar quais são os direitos e deveres do trabalhador.

Ao analisar a proposta de regulamentação, o cientista social, professor e educador popular, Sandro Barbosa de Oliveira, afirma que motoristas e outros profissionais que dependem de aplicativos agora passam a ser reconhecidos como autônomos, com direitos mínimos garantidos, mas sem vínculo empregatício. “Diferente da propaganda ideológica do ‘empreendedor’”, destaca.

“O texto tem um foco na questão da Previdência Social, num valor mínimo por hora que os trabalhadores receberão e em seguro contra acidentes, mas ainda sem reconhecer vínculo empregatício CLT e todos os demais direitos que ela garante”, fala.

O cientista social afirma que as mobilizações dos motoristas de aplicativos, são essenciais para avançar na luta por direitos e melhores condições de trabalho, pois servem para pressionar autoridades e dar visibilidade às reivindicações. “As categorias de motoristas e entregadores precisam se organizar sindicalmente, construir uma unidade, como foi a tentativa do Breque dos Apps, e avançar com a pauta em relação aos direitos e proteção trabalhistas para suas atividades”, reforça.

Para ele, a mobilização em torno do fim da escala 6×1, prevista na Proposta de Emenda Constitucional nº 8/2025, pode contribuir com a articulação de outras pautas importantes para os trabalhadores. “Será fundamental também articular outras pautas dos trabalhadores para colocar fim a essa superexploração do trabalho e diminuir a jornada de trabalho sem redução de salários”, continua.

O motorista de aplicativo, Rubens Moreira, afirma que caso se concretizem, as medidas previstas na regulamentação podem representar avanços importantes, minimizando dificuldades relacionadas à remuneração, às taxas cobradas e à falta de suporte geral. 

“Acho que será algo muito bom, pois a gente não tem benefício de nada. A gente [trabalha] com o nosso carro próprio, paga o combustível, às vezes prestação do carro, manutenção, etc. Se uma corrida custa 30 reais para o passageiro pagar, recebemos uns 20 reais. A taxa [retirada pela plataforma] é muito alta”, afirma.

Acesso a direitos

Mallu Côrtes, geógrafa e atuante na pauta da mobilidade urbana e idealizadora do Projeto Tarifa Zero RJ, destaca que o fenômeno da plataformização evidencia uma crise social mais profunda, que reflete a desvalorização do trabalho e da classe trabalhadora de modo geral. 

O crescimento do trabalho informal e a precarização disfarçada de autonomia #31 

Ela ressalta que a pandemia de Covid-19 acentuou um problema que já existia. “Muitas pessoas recorreram a trabalhos informais que agora, a longo prazo, têm mostrado que caem em várias dificuldades, desde a precarização do trabalho como um todo. Porém, o trabalho informal coloca [o trabalhador] em situações extremamente delicadas”.

“Hoje, se você não trabalha de carteira assinada e fica doente, você não tem nenhum tipo de direito à vida garantido. Então, como é que as pessoas se mantêm a partir disso?” 

Mallu Cortês, geógrafa e atuante na pauta da mobilidade urbana.

Segundo ela, essa precarização do trabalho deixa claro que o trabalhador fica exposto à falta de direitos trabalhistas básicos, como 13º salário, acesso à previdência, férias remuneradas, dentre outros direitos fundamentais. Além disso, contribui para reforçar a ideia de autonomia promovida pelas plataformas, que quando analisada de perto se mostra equivocada e ilusória.

Curta aborda precarização e informalidade de trabalhos ocupados por jovens negros e periféricos

“É impossível pensar numa realidade onde a população queira trabalhar sem ter direitos trabalhistas mínimos e sem ter acesso a uma previdência, ao INSS, etc. São direitos tão simples e básicos que [milhares de trabalhadores] não acessam”, destaca.

Ao citar o perfil racial da maioria dos motoristas de aplicativo e entregadores, Mallu referencia o levantamento sobre o Trabalho de Entregadores e Motoristas, realizado pelo FUNDACENTRO em parceria com a Universidade Federal da Bahia (UFBA), que aponta a categoria com 96,9% de homens, sendo 93,2% negros. 

Ela destaca que é fundamental reconhecer o caráter estrutural do problema, considerando as diversas desigualdades. “Precisamos pensar em desenvolvimento econômico como um todo, com fomento para mais trabalho digno, mais garantia de renda. Além disso, a juventude precisa voltar a acreditar na universidade e que o ensino superior muda vidas”.

Formação do trabalho no Brasil 

Sandro Barbosa também analisa o fenômeno da plataformização do trabalho, seus impactos e a forma como este modelo de “uberização” reorganiza as relações de trabalho no Brasil.

Para ele, desigualdades sociais e raciais atravessam historicamente os trabalhadores nos territórios e criam barreiras que os separam por classe, raça e território. “Esse [processo] se baseou na escravidão de populações africanas e indígenas como trabalho compulsório, desumanizador, racializado e brutalizado”, explica ao tratar das origens históricas do grande latifúndio.

Essa herança colonial e escravocrata, ajuda a explicar o perfil social dos motoristas e entregadores de aplicativo, formado em sua maioria por homens negros e periféricos, bem como a forma como o trabalho é organizado no Brasil para essa população. 

“Surge das condições estruturais, mas também do avanço da economia de plataforma, que se apresenta como uma “alternativa” à crise do emprego formal e informal, mas se constitui como expressão da crise estrutural do próprio capital”, diz.

De acordo com o pesquisador, também é importante entender o cenário a partir de outros fatores históricos, como a reestruturação dos meios de produção, o toyotismo (modelo de trabalho criado no Japão que prioriza eficiência e produção sob demanda), além do avanço das tecnologias da informação e comunicação e das novas formas de exploração do trabalho humano.

“Hoje, a ponta de lança dessa tecnologia está na relação entre os algoritmos nas redes sociais e aplicativos, muito comum no dia a dia das pessoas que levam no bolso smartphones [com] acessos à economia de mercado, além da Inteligência Artificial, que faz a integração em frações de segundo de bancos de dados imensos e informações armazenadas nas nuvens e Internet, tecnologia resultado da chamada Indústria 4.0 (quarta revolução industrial)”, detalha.

“Essas novas formas de organização do trabalho oriundas das Tecnologias da Informação e Comunicação e empresas de plataformas se apresentam como uma organização de trabalho associado e de parceria, mas são na realidade estratégias de contratação e gestão do trabalho que mascaram o [baixo] assalariamento e driblam a legislação trabalhista por meio de contratação direta sem vínculo empregatício, sob o véu da autonomia e da escolha de quem realiza essa atividade”

Sandro Barbosa de Oliveira é professor, cientista social, educador popular e pesquisador do Centro de Estudos Periféricos na Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), campus zona leste.

Ele ressalta que a economia de plataforma ampliou as formas de trabalho intermitente sem garantir vínculo empregatício e direitos básicos como: férias, 13º salário, licença maternidade, licença saúde, dentre outros. 

“O argumento central dessas empresas é que elas, enquanto benfeitoras e boas samaritanas, estão conectando produtores e consumidores por meio de transportes de passageiros e entregas de produtos”, diz.

“Mas o que elas não explicam ao público é que fazem isso sob as condições mais problemáticas de precarização e subordinação do trabalho, com regras e punições de conduta que beiram o absurdo, além de utilizarem o discurso que estão contribuindo para que esses trabalhadores desempregados e na informalidade se tornem empreendedores”, finaliza.

Quatro razões para entender por que o dia 21 de março é uma data especial

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21 de março foi uma data muito especial do calendário: I) Dia Mundial da Poesia; II) Dia Nacional e Mundial da Síndrome de Down; III) Dia Internacional de Luta Pela Eliminação da Discriminação Racial; IV) Dia Nacional das Tradições das Raízes de Matrizes Africanas e Nações do Candomblé. 

A data simboliza lutas que, institucionalizadas no sábado passado, perduram por todos os dias (horas, minutos, segundos) do ano, da vida. Como ensina o poeta Sérgio Vaz, no poema “Novos Dias”, “não confunda briga com luta. Briga tem hora para acabar, a luta é para uma vida inteira” (Literatura, pão e poesia).

Para permanecer nas lutas demarcadas em 21 março, nesta publicação do Desenrola e Não Me Enrola de hoje, sintetizo noções básicas sobre cada uma delas. Aproveito a oportunidade, inclusive, para também sugerir algumas referências das artes e da mídia, de modo a municiar os leitores em guerras que, efetivamente, valem a pena lutar.

Dia Mundial da Poesia

 Imagem: ONU News: <https://news.un.org/pt/story/2021/03/1745042>. Disponível: 17 de mar 2026. 

O Dia Mundial da Poesia se estabeleceu em 1999, durante a 30.a Sessão da Conferência Geral da Unesco. A data escolhida para celebrar o gênero literário não teve nada de aleatório: coincide com o início da Primavera no Hemisfério Norte; ou seja, associa-se ao renascimento, à renovação, à mudança.

Segundo a entidade, em suas publicações, a datação tem “o objetivo de promover a diversidade linguística e dar às línguas ameaçadas mais oportunidades de expressão. O Dia Mundial da Poesia é também uma oportunidade para homenagear poetas e reviver a tradição oral da leitura de poesia”.

Imagem: “Novos Dias”: <https://www.youtube.com/watch?v=Ak6bIKWm1QA&list=RDAk6bIKWm1QA&start_radio=1>. Disponível: 17 de mar 2026.

Para celebrar a ocasião, uma recomendação: “Novos Dias”, do poeta Sérgio Vaz. Sugestiva indicação, pois se homenageia a poesia oralizada (periférica), em uma diversidade de vozes, bem como se presta tributo a um poeta contemporâneo e, por fim, evoca-se um tempo melhor do que o que vivemos atualmente.

Dia Nacional (e Mundial) da Síndrome de Down

O Dia Mundial da Síndrome de Down foi instituído pela Síndrome de Down Internacional (Down Syndrome International), em 2006. A ONU (Organização das Nações Unidas) oficializou a data, em Assembleia Geral, no ano de 2011, após propositura feita pelo Brasil (comemorando-se a partir de 2012, sempre em 21 de março); no nosso país, a Lei 14.306/22, instituiu o Dia Nacional da Síndrome de Down.

A Biblioteca Virtual em Saúde, do Ministério da Saúde, explica que “a data escolhida representa a singularidade da triplicação (trissomia) do cromossomo 21 que causa esta ocorrência genética”. A Síndrome de Down, vale ressaltar, não é uma doença, mas uma mutação do material genético.

Para conscientização sobre as pessoas com Down como sujeitos de direitos (superando a visão estereotipada delas como objetos), duas dicas: uma arte audiovisual para crianças que tem muito a ensinar aos adultos também; uma reportagem sobre a arte do Graffiti como instrumento de inclusão social. 

Dia Internacional de Luta pela Eliminação da Discriminação Racial

A ONU oficializou 21 de Março como o Dia Internacional de Luta Pela Eliminação da Discriminação Racial, em 1966. Tal marco alude aos fatos ocorridos em Sharpeville, bairro periférico de Johanesburgo, na África do Sul. Em 21 de março de 1960, a polícia branca reprimiu um protesto pacífico de pessoas negras, assassinando 69 manifestantes e ferindo cerca de outros 180.

A manifestação dos habitantes de Sharpeville tinha, dentre outros objetivos, a pretensão de acabar com a lei do passe, a qual exigia que pessoas negras com mais de 15 anos portassem um documento (assinado por brancos) para circular pelos bairros habitados, exclusivamente, por brancos e de extirpar a obrigatoriedade de as crianças negras usarem a língua “Africânder” nas escolas.

Para fazer jus à luta antirracista, duas indicações: um reel, do site Mundo Negro, e a música “Ismália”, do rapper Emicida. Relembro dois casos e ampla repercussão em março deste ano (só para não me alongar): da médica Andréia Marins Dias (assassinada no Rio) e, também, das irmãs estudantes de uma escola municipal de São Paulo (uma xingada de “macaca”, outra – quando foi interpelar o agressor – esmurrada na boca).

Dia Nacional das Tradições das Raízes de Matrizes Africanas e Nações do Candomblé

Mães da Boa Morte, obra da artista Aline Bispo: da exposição Somatória Forças. Para fazer um tuor virtual, clique em: <https://luismaluf.com/en/past/aline_bispo_somatoria_forcas/>. Acesso em 18 mar 2026.

Inicialmente, o PL (Projeto de Lei) 2053/22 previa 30 de setembro, Dia de Xangô (o Orixá da justiça, do trovão, do fogo e dos raios), para ser o Dia Nacional das Tradições das Raízes de Matrizes Africanas e Nações do Candomblé. Mas, no decorrer de sua tramitação, optou-se por celebrá-lo em 21 de março, no Dia Internacional de Luta Pela Eliminação da Discriminação Racial.

Trata-se de um marco legal para fortalecer o combate ao racismo religioso. Embora exista o Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa,  celebrado em 21 de janeiro, a maioria dos casos de ataques às religiões se dá contra aquelas de matriz africana, em decorrência de uma história de 400 anos de perseguições aos povos negros, suas culturas e suas manifestações.

Para pensar sobre a questão, recomendo a leitura (também pode-se assistir à matéria audiovisual, do Jornal Nacional da Globo) de uma reportagem, bem como visitar virtualmente a exposição Somatória de Forças, da renomada artista visual Aline Bispo.

Este é um conteúdo opinativo. O Desenrola e Não Me Enrola não modifica os conteúdos de seus colaboradores colunistas. 

O enfrentamento das sombras interiores

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A sessão de hoje ainda segue com conteúdos densos, mas como seguimento do último tema e seus desdobramentos, do que as violências, abusos, sofrimentos contínuos podem causar nas pessoas.

Uma delas é a depressão que nem sempre chega rápido, após um acontecimento súbito. Muitas vezes ela se instala lentamente, como uma sombra que cresce silenciosa dentro da vida. 

Quando a dor se torna profunda, é comum surgir a sensação de que o mundo continua girando enquanto tudo permanece paralisado por dentro. 

O tempo passa, as pessoas seguem vivendo suas rotinas, mas algo parece interrompido no interior de quem atravessa esse estado. A alegria perde o sentido, a fé enfraquece e até mesmo o desejo de continuar  a viver pode parecer distante.

Muitas experiências difíceis da vida são guardadas em silêncio — memórias, perdas, violências ou sentimentos que não encontraram espaço para serem expressos. 

Com o tempo, aquilo que não pôde ser dito ou elaborado pode encontrar outras formas de se manifestar. Primeiro atinge o pensamento, as emoções, o corpo, e depois a esperança. Aos poucos, aquilo que antes parecia simples — levantar, respirar, seguir — passa a exigir um esforço imenso. Nesses momentos, um aspecto importante costuma aparecer: quando o corpo fala aquilo que a mente silenciou

Quando não encontram espaço para serem reconhecidos, esses conteúdos permanecem ativos, adoecendo,  influenciando as emoções, escolhas e formas de se relacionar com o mundo.

Ainda assim, dentro desse território escuro existe uma dimensão pouco falada: o enfrentamento das próprias sombras. Enfrentar essas camadas não é simples. Exige coragem para olhar para dentro e reconhecer aquilo que foi negado ou escondido por tanto tempo. É um processo que pode ser doloroso, mas também profundamente transformador.

A depressão, pode surgir como um sinal de que algo dentro de nós pode estar quebrado, precisa ser cuidado. Entender isso, não como fraqueza, mas como um chamado para reconhecer partes da própria história que ficaram esquecidas ou escondidas.

Esse processo, no entanto, raramente acontece sozinho. Enfrentar as próprias sombras exige suporte, escuta e cuidado. Por isso, outro movimento fundamental nesse caminho é a coragem de pedir ajuda. Buscar apoio terapêutico e profissional, espiritual, apoio comunitário pode abrir caminhos para que a dor deixe de ser enfrentada em isolamento.

Quando existe acolhimento, torna-se possível começar a compreender aquilo que parecia apenas sofrimento difuso, assustador. 

Muitas vezes, nesse percurso, surge também a percepção de que memórias habitam o corpo. Experiências antigas permanecem registradas na forma como sentimos, reagimos e nos relacionamos com o mundo.

Reconhecer essas marcas não significa ficar preso ao passado, mas compreender melhor a própria história. Ao trazer consciência para essas camadas, novas formas de viver com cuidado e reconstrução podem surgir.

Assim como na natureza, processos intensos também podem gerar transformação. O fogo queima purifica. A água que aquece limpa e renova. A terra acolhe o que precisa ser reorganizado. O ar movimenta aquilo que estava parado.

Com o tempo, quando as sombras começam a ser reconhecidas, algo lentamente se reorganiza. A dor não desaparece de imediato, mas deixa de dominar completamente a existência. Pequenos sinais de leveza voltam a aparecer. O riso retorna com mais verdade.

Falar sobre depressão, portanto, não é apenas falar sobre sofrimento. É também abrir espaço para compreender que, mesmo nas fases mais difíceis da vida, pode existir um caminho de reencontro consigo mesmo.

E, às vezes, esse caminho começa com um gesto simples e profundamente humano: a disposição de olhar para dentro e reconhecer as próprias sombras.

Acompanhe os canais de acolhimento e cuidado do Núcleo Obará: 

https://www.obaranucleo.com.br

Contato: (11) 9 6587-2050 – WhatsApp para acolhimento e encaminhamento para atendimento psicológico.

E-mail: nucleoobara@gmail.com

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“Está se multiplicando”; filhos e sambistas celebram impacto de Tia Cida dos Terreiros para o samba de São Paulo

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“Há músicos que começaram no quintal de casa que hoje têm repercussão nacional e internacional. Há artistas no exterior, como alguns nos Estados Unidos, outros na França, etc. Um celeiro de músicos que passaram pelas mãos de minha mãe, também de tia Filó, dona Chica, vó Severina… através desse cuidado que ela proporcionou, esse celeiro de bambas se formou”, resume Marcelo Ercilio, conhecido por Tocão do Banjo, um dos quatro filhos, sobre a rotina no quintal da mãe, Tia Cida dos Terreiros, em São Mateus, zona leste de São Paulo.

No distrito, muitas histórias começam a partir de um mesmo nome: Maria Aparecida da Silva Tarjan. Referência cultural e afetiva para quem cresceu em São Mateus, falar de cultura, de samba e movimento negro é falar necessariamente de Tia Cida.

Memórias periféricas na história da cidade

Responsável por abrir caminhos e inspirar trajetórias que seguem se desdobrando até hoje, ficou conhecida por sua generosidade, liderança e força comunitária que mais tarde, transformaram o território em um celeiro do samba de bambas. 

Tia Cida, que mora no mesmo bairro que cresceu, revolucionou e manteve vivo o movimento musical paulistano mesmo nos tempos mais difíceis marcados pela ditadura militar no Brasil. Isto pois, fez do seu próprio quintal de casa um espaço de encontro, acolhimento e proteção. 

Ali, diversos moradores, especialmente meninos negros, se reuniam para tocar, aprender e confraternizar em torno do samba, encontrando um ambiente seguro em meio às tensões da época. Com o tempo, o quintal se tornou uma segunda casa para eles e se consolidou como um importante espaço de convivência, aprendizado e fortalecimento da cultura local que continua a inspirar familiares e sambistas.

Legado que atravessa gerações

Tia Cida é filha do cantor e compositor brasileiro Blackout, famoso pelos sambas e marchinhas de Carnaval nas décadas de 1940 e 1950. Ao crescer, também se tornou cantora e compositora e formou sua própria trajetória e família, que hoje fala das marcas de crescer tendo a matriarca como referência musical e de vida, seja dentro ou fora de casa.

“Lembro de onde tudo começou, das nossas idas às igrejas, como a Igreja de São Mateus Apóstolo, na zona leste, do contato com o samba desde aquela época, do campo de futebol atrás da igreja, da casa onde se ouvia samba aos domingos, do quintal, onde muita gente se reunia. Também lembro da chácara e dos rios que frequentávamos”, recorda Tocão, que também integra o Berço do Samba de São Mateus, grupo que surgiu a partir das rodas e encontros realizados na comunidade, sobre as memórias que atravessaram sua infância até meados de 1975.

Pouco depois, em 1977, o filho de Tia Cida iniciou os estudos, quando já havia uma escola de música na região. “Minha mãe precisava trabalhar. Os irmãos mais velhos cuidavam da gente, e depois cada um foi crescendo. Em casa, minha mãe criava três filhos pequenos, mas a comunidade sempre nos ajudou muito”.

Um ano antes, em 1976, moradores começavam a estruturar a organização política e comunitária do bairro. Aos sete anos de idade, Tocão já participava das reuniões, ao lado de sua mãe.

Além do carnaval: comunidades de samba atuam o ano inteiro nos territórios

“Minha mãe, naturalmente, se tornou uma líder comunitária, pois o bairro era pequeno, com poucas casas. Fomos uma das primeiras famílias a chegar e se estabelecer ali. Ela organizava reuniões em casa para discutir questões [de infraestrutura], como os problemas com a água e energia elétrica”, lembra, destacando que outras articulações eram realizadas de forma mais discreta, devido ao tensionamento da ditadura que acabou no país, formalmente, em 1985.

“Aos 11 anos, comecei a ter mais autonomia e a me interessar mais pelas coisas. Logo, percebi que minha afinidade era com o samba. Fui acolhido por todos. Nossa casa se tornou um ponto de encontro para a música”. Foi nesse ambiente que o incentivo de sua mãe foi decisivo para que mergulhasse no mundo do samba profisionalmente. 

Ainda adolescente, entre 14 e 15 anos, foi quando Tocão começou a trabalhar, mas para atuar com música, precisava ter experiência, e ainda era menor de idade, Tia Cida foi fundamental nesse cenário. “Eu devo muito a ela”, compartilha

“Minha mãe sempre me ajudou muito a estudar: comprava meus discos, fazia as contas e até conversava com a gerente de uma loja aqui em São Mateus sobre os discos que eu precisava. Ela me incentivava a estudar em vez de ficar na rua. Essa era a forma dela, acredito, de me proteger [e de demonstrar seu amor].”

Marcelo Ercílio (Tocão do Banjo), é cantor, compositor, percussionista, integrante do Grupo Berço do Samba de São Mateus e um dos quatro filhos de Tia Cida dos Terreiros.

A década de 1980, reforça Tocão, foi a fase mais difícil para Tia Cida, seus filhos e parceiros de caminhada no samba. O período foi marcado por problemas com o militarismo, além de muitas dificuldades financeiras e sociais. 

Ao longo de sua trajetória, ao lado da mãe, tudo foi sendo construído passo a passo, com muita persistência e paixão pelo samba. “As coisas que aconteceram aqui, pelo menos na minha família, foram naturais, sempre sem artifícios e sem querer obter vantagens. Tudo de forma muito natural para nós. E permanecemos até hoje assim, fiéis à nossa essência”.

Múltiplas atuações

Ao falar sobre a mãe, Tocão compartilha que, em casa, essa força e cuidado estava também no cotidiano com os filhos. “Eu não tive muita presença do meu pai, conheci já adulto. Então [ela] foi nossa mãe e pai ao mesmo tempo. Cresci com esse buraco [paterno] na minha vida”, diz, ao agradecer a mãe por toda a dedicação na criação dele e de seus irmãos.

“Até os dias de hoje, a Tia Cida dos Terreiros, minha mãe, apenas com um olhar mostra o que preciso fazer. Ela me ensina a ter mais paciência. Sempre tem consciência do que diz e do que sabe. Observa tudo com muita atenção, e quando a palavra surge, ela flui. Às vezes, precisa nos tranquilizar, assegurando que [tudo dará certo] e se preocupa até hoje com cada um dos seus filhos.”

Marcelo Ercílio (Tocão do Banjo), é cantor, compositor, percussionista, integrante do Grupo Berço do Samba de São Mateus e um dos quatro filhos de Tia Cida dos Terreiros.

Tocão ainda conta que existia uma certa proteção social, por ser filho de quem é, que lhe blindou de algumas das violências. “No meio do samba, por exemplo, isso me protegia. À beira de campo [de futebol] também. Quem estava ali era a Tia Cida. Todos sempre respeitaram muito minha mãe.”

O sambista ainda recorda a presença de vizinhos que ajudaram a cuidar dele e de seus irmãos em meio à maternidade solo de Tia Cida. Entre eles estava Seu João, que frequentemente se preocupava em saber se as crianças haviam se alimentado e, quando surgiam problemas, procurava entender a situação e ajudar, sendo uma rede de apoio que podiam diariamente contar.

Com a chegada de novas famílias ao bairro, em meados dos anos 1970, a casa de Tia Cida passou a ser ponto de encontro para reuniões em que vizinhos discutiam soluções para problemas da coletividade. Nesse ambiente de organização popular e convivência comunitária, também se fortaleceu a cultura do samba no território. Após concluir a faculdade de Serviço Social, nos anos 1980, Tia Cida ampliou sua atuação na educação, tornando-se diretora de escola e, por quase duas décadas, diretora da creche do bairro, com uma liderança nata.

“O samba nos deu dignidade”: Sambistas lutam para manter tradição do gênero nos territórios

“Eu cantava trechos de músicas e, muitas vezes, ela apontava que aquela canção, em específico, não era mais adequada. Era ela quem providenciava as músicas [do meu repertório]. Antigamente, quem cantava dependia muito de outras pessoas para ter acesso às canções, mas hoje a internet oferece um vasto conteúdo”, lembra Tocão. 

“Minha mãe, com todo o conhecimento musical que tem, era essencial. A gente tinha um orçamento e pensava em gravar com uma cantora e outras músicas. Ela tem uma sensibilidade musical muito profunda, e esse amor pela música está no sangue”, diz.

Os filhos do quintal

O sambista e produtor musical Leandro Mattos é mais um filho de Tia Cida dos Terreiros, só que daqueles que não são de sangue, mas de caminhada. No território de São Mateus, ele bebeu dos ensinamentos e da convivência com a matriarca.

“Tia Cida entrou na minha vida do jeito que entram certos personagens de samba: pela porta da imaginação. Nem conhecia a sua casa, nem conhecia o cheiro do café passando na cozinha, nem o batuque ecoando no quintal de São Mateus. Mas já sabia que ali existia alguma coisa diferente. Culpa ou mérito das fotos no encarte do primeiro disco do Quinteto em Branco e Preto, ‘Riquezas do Brasil’ (2000)”, recorda com afeto.

Memórias periféricas na história da cidade

“Aquelas imagens me pegaram desprevenido. Nas rodas de samba na casa dela, era gente apertada, instrumento no colo, sorriso aberto, aquele clima que a gente reconhece de longe: lugar onde o samba não é visitante, é morador antigo”, diz ao compartilhar que depois veio o segundo disco do quinteto “Sentimento Popular” (2003), e novamente, lá estava ela, transformada em samba. Ele conta que o samba intitulado “Pela Graça Divina”, composição de Magnu Sousa e Maurilio de Oliveira, é uma homenagem ao seu legado.

“Foi assim que a Tia Cida começou a existir pra mim: primeiro como figura quase mítica, dessas que parecem morar no mesmo bairro onde moram as histórias do samba. A vida, no entanto, tem suas malandragens silenciosas e vai empurrando a gente devagarinho, como quem conduz um bloco pela rua, até que um dia você percebe que entrou dentro da própria história que estava ouvindo”, conta.

Os caminhos do samba, através do seu compadre Gerson Martins Dias, o levaram até São Mateus e quando menos percebeu, lá estava ele frequentando assiduamente o quintal que antes era só fotografia de encarte. “Agora era mais do que isso: estava convivendo com ela”, recorda emocionado.

“Tia Cida não é dessas pessoas que aparecem com diploma de professora de música debaixo do braço. Nada disso. Ela faz outra coisa e muito mais difícil: cria o ambiente. A casa dela é um desses lugares onde o samba parece nascer naturalmente, como goiabeira no quintal. Ninguém planta exatamente e quando percebe, já tem fruto, sombra e passarinho.”

Leandro Mattos, cantor, compositor, sambista e produtor musical, teve sua trajetória musical formada a partir de Tia Cida dos Terreiros, em São Mateus, zona leste de SP.

Segundo Leandro, foi naquele espaço, que entendeu cedo o que nenhum conservatório ensina: “o samba não é só música, o samba é memória que anda, é comunidade, resistência, festa e acima de tudo, cuidado.”

Respeitar quem veio antes foi outro ensinamento que forjou o sambista. “No mundo da música, especialmente quando somos jovens, existe muita ansiedade para aparecer, para provar valor, para acelerar os processos, mas Tia Cida ensinava outra lógica. Ela nos mostrava que o samba é uma corrente longa. Cada um segura um elo. Ninguém é dono da corrente. Ela também ensinava algo que hoje eu entendo ainda mais: o talento só floresce onde existe acolhimento”, diz.

O sambista também conta sobre o olhar da Tia Cida para os jovens do território. “Às vezes a pessoa nem acreditava em si mesma ainda, mas ela já acreditava.”

Para ele, quem olha de fora, pode ver apenas uma roda de samba, um projeto cultural ou um espaço comunitário. No entanto, existem dimensões que somente quem vivenciou percebe: Tia Cida construiu um território de pertencimento.

“Em muitas periferias, os jovens crescem ouvindo o que não podem ser. Em São Mateus, pelo trabalho dela, muitos começaram a descobrir o que podiam se tornar. Tudo acontecia de forma natural, sem discursos grandiosos, com foco em cuidar das pessoas”

Leandro Mattos, cantor, compositor, sambista e produtor musical, teve sua trajetória musical formada a partir de Tia Cida dos Terreiros, em São Mateus, zona leste de SP.

Entre as lembranças, conta como ela sempre observa tudo em silêncio. “Às vezes a roda estava acontecendo, música rolando, gente conversando e ela ali, olhando. Parecia simples, mas era um olhar de quem estava zelando pelo ambiente. Como uma guardiã”, diz.

“Em um show que fizemos juntos, mediado pelo mestre Moisés da Rocha, ela me disse algo que ficou guardado comigo: ‘meu filho, o samba precisa de gente que cuide dele.’ Aquilo ficou ressoando dentro de mim, pois cuidar do samba não é só tocar bem, escrever arranjos ou produzir discos. É cuidar das pessoas que fazem o samba existir”, acrescenta sobre os ensinamentos.

Hoje, olhando para a sua trajetória, Leandro carrega muito do legado da matriarca em seu trabalho e na forma como se relaciona com a vida, com o território e com o samba. 

“Na casa da Tia Cida, o samba acontecia porque antes de qualquer pandeiro existir ali, existia uma coisa muito mais importante: gente sendo acolhida e quando isso acontece, o samba nasce, se cria, senta na cadeira e começa a batucar na mesa.”

Leandro Mattos, cantor, compositor, sambista e produtor musical, teve sua trajetória musical formada a partir de Tia Cida dos Terreiros, em São Mateus, zona leste de SP.

Quase aos 90 anos, Tia Cida testemunha a continuidade do seu legado e luta. “Quando vejo a nova geração chegando com as crianças, jovens sambistas, sinto claramente que aquilo que ela construiu não termina nela. Pelo contrário, está apenas se multiplicando”, diz Leandro.

Tocão conta que, depois de um longo período de dedicação e trabalho, a família hoje vive um momento de maior cuidado com a mãe. Tia Cida, que se aproxima dos 90 anos de vida, agora recebe mais atenção para preservar sua saúde física e também poder descansar contemplando os frutos de seu trabalho. Ela ainda comparece a algumas rodas de samba, além de ceder entrevistas, participar de bate-papos e outros encontros, de forma pontual. No território, mantém a proximidade com quem cruza pelo caminho, oferecendo seu carinho e sabedoria, mas principalmente, de casa, tem se colocado no lugar da observação, acompanhando o que construiu.

“Temos nos dedicado mais a proteger minha mãe. Antes havia muita correria com trabalhos e compromissos. Hoje está tudo mais tranquilo, mas somos gratos por tudo que nasceu aqui em casa, de onde saíram tantos músicos e projetos”, ressalta.

“Queremos gratuidade e qualidade no transporte público”: estudante da zona sul relata desafios do deslocamento em SP

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O trajeto inicia às 5h da manhã, em um percurso a pé de 15 minutos, para embarcar no ônibus sentido Terminal Grajaú. Próximo ao ponto final, o segundo transporte do dia é o trem da linha 9 – Esmeralda com destino a estação Pinheiros, que é o local da baldeação para a linha 4 – amarela do metrô. 

De lá, a baldeação seguinte é da estação República até o Anhangabaú, na linha 3 – vermelha, até chegar na saída do Largo São Francisco, no Centro, e assim caminhar até a faculdade. “Ou, como geralmente faço por questões de segurança e policiamento, ir até a estação da Sé e caminhar por qualquer uma das saídas até a faculdade”, pontua.

Esse é parte do cotidiano da estudante de Direito, Sarah dos Santos Pimenta, 21, moradora do bairro Parque Novo Grajaú, zona sul de São Paulo, que concilia trabalho e estudos, no centro da cidade.

A rotina da estudante vai de encontro à experiência de muitos moradores da capital. Dados da pesquisa Viver em São Paulo (2024) mostram que, em média, os paulistanos gastam 2 horas e 30 minutos por dia em seus trajetos. Entre quem depende do transporte público, esse tempo chega a quase 3 horas, exatamente a média diária de Sarah.

O levantamento também comparou outras nove capitais brasileiras, ouvindo pessoas com 16 anos ou mais, das classes A, B, C, D e E, que moram na capital há pelo menos dois anos. O tempo médio de trajeto subiu para os moradores do Centro da cidade de São Paulo (+13 minutos) e das zonas Sul (+22 minutos) e Oeste (+14 minutos), enquanto caiu nas regiões Leste (-21 minutos) e Norte (-15 minutos).

A privatização do transporte público #16

Entre os usuários do transporte coletivo, os deslocamentos duram, em média, 2 horas e 47 minutos — 10 minutos a mais que no levantamento anterior. Quem utiliza automóvel, por sua vez, gasta cerca de Dados do estudo Economia Criativa e Carnaval de Rua, de 2023, liderado pelo Bloco do Beco/Ibira 30, apontam que, na zona sul da cidade, os blocos periféricos/comunitários, em sua grande maioria, são recentes, criados principalmente a partir dos anos 2010. Apesar da relevância cultural e social, muitos ainda funcionam com alto grau de informalidade. 2 horas e 28 minutos, 18 minutos a menos do que em 2023.

Há pouco mais de dez anos, em 2014, os trajetos na cidade tinham duração semelhante. Segundo o levantamento, isso evidencia uma dificuldade histórica do poder público em enfrentar o problema e investir de forma consistente em infraestrutura e mobilidade urbana.

Mais tempo no trajeto, menos qualidade de vida

A jovem conta que nos dias em que vai direto para o trabalho, o percurso é maior. “Na linha esmeralda desço na estação Presidente Altino e faço baldeação para a linha prata até a Barra Funda. Lá, pego qualquer ônibus que passe na frente do Fórum em que trabalho”, conta sobre esse outro percurso que, por depender apenas do trem, dura duas horas.

Sarah tenta equilibrar a rotina que começa na ida à faculdade pela manhã e com estágio no período da tarde, além de conciliar um curso extracurricular de idiomas à noite em uma escola na região onde mora. Em um dia de estudos e trabalho, ela fica em média de 17 horas fora de casa, sendo que chega às 21h30. 

Além de chegar tarde em casa, a estudante ainda precisa cuidar das necessidades básicas, como higiene e alimentação, além de preparar marmita e organizar os demais itens do dia seguinte antes de conseguir descansar. Quando consegue se deitar para dormir, muitas vezes já passa das 23h. Poucas horas depois, precisa sair de madrugada para recomeçar os desafios do dia.

“Geralmente, estou cansada demais no transporte para usar o tempo de forma produtiva. Tento me sentar para dormir, e, quando não consigo, fico alerta a tudo para não ter problemas no transporte público com homens, como acontece com muitas mulheres.”

Sarah dos Santos Pimenta, 21, estuda na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco (USP), trabalha na Barra Funda e é moradora do Parque Novo Grajaú, na zona sul de SP.

A estudante ressalta que a rotina intensa, a privação de sono e o tempo gasto no deslocamento impactam diretamente na sua qualidade de vida e desempenho acadêmico. Com o deslocamento prolongado, sobra menos tempo para dormir com qualidade e também para estudar fora da sala de aula. 

Na prática, segundo ela, o ideal seria conseguir dedicar períodos específicos para cada atividade. No entanto, o tempo gasto no trajeto e o cansaço acumulado ao longo da rotina acabam comprometendo o equilíbrio entre estudos e descanso. Sarah fala que mesmo durante o período no transporte, que poderia ser usado para adiantar leituras ou tarefas, as condições do percurso e o desgaste físico e mental dificultam esse aproveitamento.

Sarah conta que, enquanto colegas de classe conseguem aproveitar melhor o tempo por viverem em regiões centrais, ela, que mora na periferia, sente diariamente o peso da distância na produtividade e no processo de aprendizagem.

“Três horas do meu dia poderiam ser dedicadas à atividade física, a me preparar melhor para as aulas, ter mais sono e até a passar tempo de qualidade com a minha família, que, apesar de morar na mesma casa, só consigo ver para dar boa noite e, às vezes, nem isso, por causa do cansaço de todos.”

Sarah dos Santos Pimenta, 21, estuda na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco (USP), trabalha na Barra Funda e é moradora do Parque Novo Grajaú, na zona sul de SP.

Sarah lembra que são os moradores da periferia os que mais sofrem com as dificuldades de acesso a transporte público de qualidade e gratuito. “Ainda assim precisa trabalhar nas regiões centrais, onde se concentra a maior parte dos investimentos estatais”, diz. 

“Tudo isso serve ao propósito da burguesia de nos manter cansados o suficiente para não termos tempo de buscar informação, e muito menos de questionar, reforçando um ciclo que nos mantêm reféns das bases do sistema capitalista, sem possibilidade de ascensão [social]”, diz.

Tarifa zero no transporte público: é possível?

Ela coloca a gratuidade e qualidade do transporte público como prioridade e aponta: “Com a privatização em massa, essa realidade é quase utópica.” 

 “Apesar de cansada, não sou só eu que estou passando 3 horas no transporte para ter mais oportunidades, é a minha base toda que lutou para que eu pudesse estar onde estou, então independente do cansaço, não posso parar até conseguir melhorar a minha realidade e a deles”, finaliza. 


Cartas para Joyce

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Me lembro que conheci o trabalho de Joyce Prado antes mesmo de conhecê-la, era 13 de maio de 2018 e alguém me mandou o link de um dos vídeos da websérie “Cartas de Maio”, onde ela, cineasta de um talento e sensibilidade profunda, costurava leituras de textos de pessoas de hoje para seus ancestrais escravizados no ano da efeméride dos 130 anos da abolição da escravatura.

Fui arrebatado pela sensibilidade do trabalho, pela força dos depoimentos, pela fotografia entre os escombros, ainda hoje revisitando para escrever esse texto sou pego pela força do projeto, inclusive pelas pequenas fraturas e questões técnicas, escombros do que somos.

Fui atrás de saber quem era a cineasta, e pra minha surpresa na verdade eu já havia estado com ela em uma outra situação, porém a natureza do encontro não permitiu uma apresentação formal. 

Era por volta de 2016 e uma série de cineastas negros e periféricos se organizava para uma manifestação audiovisual em repúdio à chachina dos jovens de Costa Barros no Rio de Janeiro, projetando dizeres na fachada do prédio da justiça federal na Praça Franklin Roosevelt, eu estava com meu projetor lançando as frases na empena cega e Joyce com os demais chamando palavras de ordem na praça cercada de policiais, nenhum de nós sabia, mas aquele momento seria o pontapé para uma articulação imensa que posteriormente ganharia o nome de APAN (Associação dos Profissionais do Audiovisual Negro).

A verdade é que nossos caminhos se cruzaram e se cruzariam muitas outras vezes depois disso, pelo compromisso e pelo respeito que nossas pautas em comum nos envolviam, mas também em atividades outras diversas, como jurados no festival Super Off, como militantes na ocupação da Funarte, no Aparelha Luzia, nos encontros do vídeo popular e nos sets da vida, o respeito e o entendimento às diferenças sempre foi a tônica, mesmo sabendo das origens distintas, da diferença de percepção sobre a forma de se fazer cinema, sobre como lidar com a indústria, sempre compreendemos a importância da existência de um e de outro no seu campo de atuação audiovisual, e nos fortalecíamos sempre que possível. 

Nosso último encontro foi numa dessas, em 2024, quando foi em casa gravar o podcast da Caramuja, e foi um barato tomar uma no quintal depois da entrevista, fumar “um” e conversar sobre as suas primeiras experiências fazendo videoclipes de bandas EMO, e toda sua vivência no universo do hardcore-punk, identificações que a humanidade complexa da artista transbordava. 

Joyce foi e será sempre uma pessoa fundamental para se pensar cinema negro nessa cidade tão racista, machista e desigual.

Por isso hoje, para além de recuperar momentos importantes e afetivos, quero abrir um canal para que outros e mais novos cineastas falem de suas vivências contigo e digam algumas palavras que talvez você não tenha ouvido em vida, você ancestralizou de forma repentina, mas sua obra e sua postura seguem vivas na existência dos que seguem no Àiyé, hoje as cartas são para você!

(Fotografia: Arquivo Festival Super Off)

São Paulo, 08 de fevereiro de 2026,

Oi, Joyce, como você está? Sei que é uma pergunta idiota, mas não saberia começar de outra maneira. Me lembro da vez que nos encontramos à propósito da gravação do episódio do podcast que apresentei “Na Bolinha Du Zóio”. Eu voltei de trem, precisava andar duas estações. Você também voltou de trem, mas no seu caso, você atravessaria a cidade.

Tenho nítida a memória de papear com você naquela estação no extremo sul de São Paulo. Por muitas vezes me perguntei se alguém que nos visse de longe poderia imaginar que uma grande personalidade do cinema e do ativismo negros paulistanos estava bem ali, esperando o trem. A verdade é que você sempre foi uma referência para mim, acho que isso se expressava na falta de traquejo com a qual eu me comportava quando te encontrava.

Para minha sorte, você sempre emanou uma tranquilidade tão profunda que apaziguava qualquer ansiedade. Por mais nervosa que eu ficasse ao seu lado, era fácil conversar com você. Uma mulher de tamanha dimensão, de repente, em duas palavras, se colocava à minha frente apenas como mais um ser humano. Isso é grandeza. Naquela estação conversamos sobre as rodas de samba aqui do Grajaú. Fizemos como duas boas brasileiras: combinamos de combinar de marcar. E não é que a senhora realmente apareceu?

Um mês após sua passagem, você veio me visitar em sonho, me convidou para co-dirigir um filme seu. Me lembro de te ver trabalhando, de me silenciar diante da sua experiência no set, de me estimular com a confiança que você me passava. Você colocou a câmera nas minhas mãos, me orientou como posicionar a personagem. Não me recordo do tema, mas ainda vejo mulheres negras e um documentário.

Na saída do set você me arrastou para tomar uma cerveja, num bar onde se formava uma roda de samba bem encorpada. Danada! Não é que a senhora me levou para o samba mesmo? Eu, contando para mim, fico sem acreditar. Se não fosse a espiritualidade que nos acompanha, acharia que é papo de maluco. Ao mesmo tempo, me vejo perplexa de saber que, no meio de tantas pessoas que te admiravam e te respeitavam, você separou um tempo para mim. Foi estranho acordar. Tem sido estranho aceitar a vida sem você. A frase “muito jovem” fica ecoando na minha cabeça.

Mas eu sei porque você veio. Assisti seu curta no Encontro do Zózimo em 2024: “Mestra Anicide – Eu Ando Remando com o Tempo” e fiquei de comentar. Te encontrei na entrada do Cine Odeon, rodeada de um milhão de pessoas e, como já é do meu costume, indiquei que conversássemos em outro momento, quando você estivesse mais disponível.

Hoje eu vejo que, além de fugir da multidão, essa foi também uma estratégia de me permitir sentir o filme e elaborar alguma coisa. Esta foi nossa última conversa presencial. Ensaiei de mandar mensagem para falar minhas impressões, mas fiquei retraída ao pensar que minhas observações fossem bobas diante do trabalho. Mas a senhora realmente veio atrás (e aqui eu já estou rindo de nervoso).

Pois bem. Saiba que até hoje não tenho nenhuma análise extraordinária para fazer do filme. Na verdade, acho o trabalho de uma simplicidade assombrosa. E é aí que ele me pega. Mestra Anicide nos conta da origem do seu canto popular e da importância da preservação dessa manifestação cultural. Em seguida, acompanhamos a gravação do álbum no estúdio.

Se na primeira parte do filme a estrutura documental parece bastante tradicional, com uso estratégico de cabeças falantes, no qual a pessoa espectadora se concentra principalmente no conteúdo relatado, na segunda parte do filme, porém, nossa atenção é mobilizada pela forma. Mestra Anicide se senta no estúdio diante do microfone e canta cantiga após cantiga. Não há grandes elipses. Você nos obriga a assistir a gravação do álbum inteiro.

O ritmo do filme se arrasta a tal ponto que, num certo momento, nos perguntamos a razão de estarmos tanto tempo olhando a mesma ação. É isso. Mestra Anicide estava muito velhinha e tendo feito sua passagem, talvez o máximo de convivência que estabelecemos com essa ancestral foi o tempo que compartilhamos com ela no seu filme. Na saída do Cine Odeon, me recordo de encontrar colegas cineastas e escutar comentários insatisfeitos sobre o ritmo da obra, enquanto isso, o título do trabalho martelava na minha cabeça: “Eu Ando Remando com o Tempo”. É isso, é um filme sobre tempo, sobre percepção de tempo, a matéria-prima do cinema e meu maior motivo de incômodo criativo nos últimos anos.

Uma vez ouvi a psicóloga, Ligia Py, discursar sobre a finitude (precisei desses diálogos internos durante a pandemia), e houve uma afirmação dela que se impregnou à minha consciência: “a morte é uma ponte para uma vida com sentido”. Pensar sobre a morte naquele momento foi importante para que minha alma se preparasse para as perdas de 2025, para me dar conta de que nossa passagem tem prazo de validade, de que vida é tempo.

Perdi um tio, perdi meu pai, perdemos você. Mãe Oxum me ensina que não há outro caminho a não ser para frente, por isso, lutamos para continuar apreciando o sabor da vida. Mas nem nas minhas abstrações mais ansiosas imaginaria que você me ensinaria tanto sobre o tempo. Muito jovem…

Pronto, finalmente te entrego a grande análise que prometi (risos). Para que tanto suspense, não é mesmo? E agora é agradecer, pelos momentos partilhados em vida e em sonho. Foi muito bom estar com você. Sempre. Eu agradeço pelo ensinamento doloroso, mas necessário, de que a vida pode acabar a qualquer momento e que não podemos temer nossa grandeza.

Conto com a sua luz sobre nossas cineastas, realizadoras, pesquisadoras, intelectuais, ativistas, mestras.

Você vai fazer falta por aqui, mulher, mas contamos com você daí. A missão não acaba, ela só muda.

Um beijo, Joyce, e bons trabalhos!

Natasha Rodrigues
(Pesquisadora e Cineasta do Grajaú-SP)

(Fotografia: Daniel Fagundes)

Para Joy

Joy, escrevo essa carta alguns dias depois de desembarcar em Luanda. Esse tempo aqui sem você ainda é tão novo, difícil de entender. Quando o avião aterrissou me vieram à cabeça tantos momentos, acho que queria saber o que você sentiria chegando aqui. Joy, você tinha tanta pressa. 

Era bonito ver a forma que seus olhos brilhavam em fazer o que fosse necessário pelos nossos. Fazia eu me mover também. Sua pressa em ação era exatamente o oposto do que causava a qualquer um. Voz calma, segura, sempre me fez te perceber como um farol. Te ver chegar mais longe era conseguir enxergar o meu caminho indo mais longe também.

Alguns meses atrás estávamos juntos na Colômbia e lembro exatamente do momento que cheguei e te vi no saguão do hotel. Foi como encontrar minha irmã mais velha. Você me deu um abraço forte e confortável e mal sabíamos que esse seria um dos nossos últimos. Ao longo dos nossos dias por lá era notável o quanto você é referência pra gente no Brasil e fora dele. Este foi mais um dos encontros nos quais te ouvir por cinco minutos era como sair de uma aula de horas. 

Aliás, falando em aula, você foi uma das minhas primeiras professoras nessa escola do cinema negro. O que sei hoje sobre tudo isso vem grande parte de você. Obrigado por abrir caminhos! Mas como eu disse, você sempre teve muita pressa. Pressa em transformar esse mundo em um lugar menos desigual, pressa em conquistar espaços negados aos nossos, pressa em poder contar as histórias que você tinha vontade (e sabemos que nisso você é mestra). Só não tinha entendido ainda que essa pressa também passava pelo seu tempo nesse plano. Ainda não consigo aceitar que a sua passagem se deu de forma tão repentina. 

Escrever essa carta é um pouco um processo de lidar com essa perda, de tentar reunir minhas forças falando com você, porque sei que está presente.

Você está eternizada em cada um de nós que te amamos. Em cada filme que você deu de presente para esse mundo. Em todas as batalhas que você travou pra gente. Sua passagem por esse plano foi um presente, daqueles que a gente ganha e nunca mais esquece. Dos que a gente leva com a gente pra todo o sempre. Sempre ouvi dizer que os iniciados no mistério não morrem e é com essa certeza que sigo honrando toda sua trajetória que segue viva em mim, na sua obra e na história do nosso povo.

Te amo Joy, agora e sempre!

Well Amorim
(Cineasta – Maloka Filmes)

O cinema que você me ensinou

Há 11 anos, eu estava entrando em uma escola de cinema, ganhando meu primeiro edital e tendo a minha primeira consultoria de roteiro para documentário com você.

Lembro como se fosse hoje. Eu estava recebendo aquela chuva de ensinamentos sobre como construir e moldar o meu olhar e a minha linguagem cinematográfica. Cada palavra que você dizia valia ouro. Eu sabia que estava sendo muito abençoada naquele momento, não só pelo seu vasto conhecimento, mas também pela honra de poder ter te conhecido ali, pela grande conexão que criamos, pela construção da minha maior referência no cinema até hoje. 

O seu cuidado com as palavras, a sua delicadeza e o seu enorme desejo de nos ver vencer e conquistar os nossos sonhos. Amiga, obrigada por acreditar tanto, mas tanto em mim, por me escutar e despejar uma cachoeira de cuidado e amor.

Depois de alguns anos, você me fez um convite para participar da gravação da série “Cartas de Maio”. Eu nem sabia o que dizer. Estava muito feliz e honrada por estar em um projeto seu. Eu era muito jovem, ainda estava no início da minha carreira, mas, como sempre, isso nunca foi um impeditivo para você me enxergar como uma profissional, como uma pessoa capaz. Você colocou o som do seu projeto nas minhas mãos e confiou em mim, dando-me essa oportunidade de crescer e me desenvolver.

Rodamos pelo centro de São Paulo ouvindo histórias, conhecendo pessoas e nos conectando com a nossa própria história. Mas, naquele dia, o que mais me chamou a atenção foi a forma como você tratava a equipe, os entrevistados e a sua narrativa. Era uma verdadeira aula de cinema. Um cuidado, um carinho e uma direção calma e objetiva, que sabia exatamente o que estava buscando. 

Eu aprendi muito. Não só sobre como gravar melhor ou operar os equipamentos, mas sobre que tipo de cinema eu quero fazer, que tipo de olhar eu quero construir, que tipo de histórias eu quero contar.

Eu nunca imaginei que, anos depois, você continuaria me escolhendo para fazer o som do seu primeiro longa. Eu estava em um turbilhão de felicidade. Como assim Joyce Prado me chamando para o seu filme? Como ela está me chamando para construir o som do seu filme? 

Que privilégio foi sonhar Chico Rei com você. Vivemos dias memoráveis e divertidos, nos aproximando cada vez mais. Foram 15 dias em Ouro Preto buscando representações do Chico Rei, esse símbolo de luta, resistência e liderança do povo negro. Quinze dias nos perguntando se Chico Rei existiu ou não. Pra mim, você foi e sempre será a nossa representação do Chico Rei entre nós. Você fez história e ficou para a história, minha amiga.

Depois de Chico Rei, nos aproximamos ainda mais. Nos víamos quase todos os dias e conversávamos muito, sobre tudo. E, como você mesma dizia brincando, adorava que eu fosse geminiana e falasse muito. Eu te via como uma irmã mais velha, para quem eu sempre poderia recorrer para qualquer coisa, sabendo que seria acolhida. Te contei sobre o meu sonho de estudar Som na EICTV, em Cuba, e você me deu toda a força do mundo, porque esse também tinha sido um sonho seu.

Quando passei na escola, você enchia a boca para dizer que estava orgulhosa de mim e que eu seria a primeira mulher preta que você conhecia estudando Som. E dizia: “Vai, mas volta, porque nós precisamos de você aqui. O cinema precisa de você aqui.” Minha amiga, eu fui para Cuba, me formei e voltei. E fizemos o seu último filme, Calmon, um curta de ficção sobre uma história da sua família. Um filme íntimo, de ritmo calmo, mas potente e certeiro como você.

Fizemos um trabalho lindo juntas, amiga. Que prazer foi aquele dia em que criamos e pensamos o som de cada cena, e, nas pausas, você me contava as histórias da sua família. Mais uma vez, eu me sentia honrada por estar nesse processo criativo de mais uma obra sua, que me transformaria, como todas as outras. 

Eu nunca imaginaria que essa seria a minha última contribuição com você em vida, que a nossa última conversa seria você me agradecendo pela entrega da master do som, que o seu último áudio seria você dizendo que amou muito. Ainda é difícil pensar que vou ver a estreia desse filme sem você, sem a pessoa que idealizou tudo aquilo, sem a minha maior referência do que é fazer cinema, sem a minha amiga.

A sua partida fez muito barulho. Foi um dia inconsolável. Todos, sem exceção, choraram a sua partida, pensaram em você e te homenagearam. Você impactou inúmeras vidas e empoderou diversas mulheres pretas no cinema. Você abriu caminhos. Você seguirá eterna no coração de cada pessoa que te conheceu.

Vá em paz amiga, Eu te amo muito.

Lyn Santos

(Cineasta e Sonoplasta)

(Fotografia: Joyce Prado)

Para ver Cartas de Maio: https://www.youtube.com/watch?v=uJh81um17pw

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Volta às aulas expõe permanência de estruturas ultrapassadas nas escolas públicas

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Volta às aulas na comunidade, milhões de crianças e jovens retornando para suas atividades letivas. Na rede pública se inicia com a famosa reunião de pais para que tenham conhecimento de como a escola está, quem faz parte da gestão e para que sejam repassadas as normas e o cronograma escolar. Mas o que vemos ainda com esse reencontro com as escolas são problemas estruturais que se repetem ano após ano e que ainda impactam diretamente as condições de ensino e aprendizado. 

Entre salas superlotadas, ventilação insuficiente e manutenção irregular, lá continua presente, em algumas unidades, um elemento antigo, a lousa verde com uso de giz. Apesar de parecer um recurso simples e tradicional, o material representa riscos à saúde e reforça o atraso na modernização das escolas públicas. 

A poeira liberada pelo giz pode causar alergias e agravar problemas respiratórios como rinite, bronquite e asma.  Professores estão entre os mais afetados, já que passam horas em contato direto com o pó, escrevendo e apagando conteúdos ao longo da jornada. 

O impacto também atinge os estudantes, especialmente em salas fechadas ou com pouca ventilação. As partes de ferro da lousa que são usadas como suporte para deixar apagador e giz, muitas com desgaste e ferrugem, evidenciando ainda mais a falta de manutenção.

Médicos especialistas em alergia e imunologia alertam que o pó de giz no ambiente escolar pode causar reações alérgicas, irritações crônicas na garganta, olhos e pele, a inalação constante gera processos irritativos na mucosa e pode levar ao afastamento profissional.

A permanência de recursos que já deveriam ter sido substituídos evidencia a lentidão nos investimentos em infraestrutura e na atualização dos ambientes escolares.

Não há uma lei específica que proíba o uso de giz nas escolas de São Paulo. No entanto, normas gerais de saúde e segurança do trabalho e de vigilância sanitária estabelecem a obrigatoriedade de ambientes escolares salubres e com qualidade do ar adequada. 

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), por meio de orientações sobre qualidade do ar em ambientes coletivos, recomenda a redução de partículas em suspensão e a garantia de ventilação adequada para prevenir problemas respiratórios. Além disso, a legislação trabalhista e as diretrizes de saúde ocupacional determinam que empregadores — no caso, o poder público — devem adotar medidas para minimizar riscos à saúde dos trabalhadores.

A realidade das salas de aula evidencia que o desafio da educação pública vai além do conteúdo, envolve assegurar condições dignas, seguras e atualizadas para quem ensina e para quem aprende.

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Blocos denunciam falta de banheiros químicos e violência policial durante Carnaval de rua na periferia de SP 

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A falta de banheiros químicos nos blocos de rua foi uma das reivindicações durante o Carnaval de São Paulo, principalmente em blocos organizados nos territórios periféricos, com relatos de organizadores e foliões sobre problemas de estrutura, em contradição ao que havia sido anunciado previamente pela Prefeitura como infraestrutura para a festa na capital, que aconteceu de 14 a 17 de fevereiro.

Carlos Junior Churras, educador popular, um dos organizadores do Bloco do Hercu — agremiação que existe há mais de 10 anos na região do M’Boi Mirim, zona sul de São Paulo — e representante do Fórum de Carnaval M’Boi Mirim, conta episódios que ocorreram na edição deste ano. Ele aponta entraves que impactaram desde o planejamento, até a demora para resolver pendências que garantisse a saída do bloco com tranquilidade.

“Tivemos uma resposta muito demorada [por parte da Prefeitura] em relação ao cadastro [dos blocos de rua] para o Carnaval. A gente se cadastrou em outubro do ano passado [2025] e só recebemos confirmação em janeiro [de 2026], o que atrapalhou muito a nossa logística, pois precisamos de um tempo mínimo para nos organizar”, relata.

Churras conta que a demora na resposta da administração municipal atrasou a organização de atividades básicas como limpeza da via, manutenção, poda de árvore e toda a estrutura necessária para que o desfile do bloco do Hercu, acontecesse no dia 15 de fevereiro, domingo de carnaval. 

“Tocamos tudo na correria, o que já é difícil, inclusive por segurança, pois o próprio aparato do Estado vem com muito mais força e com [um nível de armamento desproporcional] para um carnaval de rua”, lamenta o organizador que destaca não ser uma operação de alto risco e que ver agentes com fuzis passa a sensação de uma abordagem muito mais pesada do que o necessário para um contexto festivo.

Na região do M’Boi Mirim e em outras áreas periféricas de São Paulo, alguns dos principais blocos de rua animam a programação carnavalesca, ao unir festa e elementos da cultura local. Com concentração na Casa de Cultura do M’Boi Mirim, o Bloco Afro É Di Santo, por exemplo, desfila na segunda de carnaval e celebra a ancestralidade africana, através da percussão.

Além do carnaval: comunidades de samba atuam o ano inteiro nos territórios

O Bloco do Hercu, no Jardim Herculano, atrai moradores com sambas ao vivo, bateria e DJs. Também na zona sul de São Paulo, o Bloco do Beco, no Jardim Ibirapuera, destaca o convívio e a relação construída com a comunidade, entre outros blocos de diferentes regiões que atuam no território ao longo do ano.

Dados do estudo Economia Criativa e Carnaval de Rua, de 2023, liderado pelo Bloco do Beco/Ibira 30, apontam que, na zona sul da cidade, os blocos periféricos/comunitários, em sua grande maioria, são recentes, criados principalmente a partir dos anos 2010. Apesar da relevância cultural e social, muitos ainda funcionam com alto grau de informalidade. 

Segundo o levantamento, apenas 45% possuem CNPJ e somente 27% contam com equipe remunerada. Metade recebe apoio de comércios locais. Em relação ao poder público, 40% já receberam algum tipo de fomento nos últimos três anos e apenas 20% acessaram leis/editais de incentivo como, por exemplo, ProAC ou PROMAC, o que sugere que a maioria opera com pouca estrutura formal e com recursos financeiros limitados. 

A pesquisa analisou o Carnaval de Rua de M’Boi Mirim e entorno, com foco na economia criativa e no impacto social e econômico da festa. Foram estudados 11 blocos, 326 foliões e 33 comércios locais. O objetivo foi entender quem organiza o carnaval, como ele se sustenta, quanto dinheiro movimenta e qual é seu papel no território.

Policiamento ostensivo 

O organizador do Bloco do Hercu relata que, neste ano, com a presença de policiamento armado ostensivo, criou-se um clima de tensão e intimidação, o que segundo ele, expõe as pessoas, sobretudo crianças e famílias, a situações de medo e sensação de insegurança. “Não foi em todos os blocos, mas vimos agentes policiais armados de fuzil em plena luz do dia, ao meio-dia, circulando em um bloco cheio de crianças”, diz.

Ele afirma que o uso desproporcional da força policial no momento de dispersão dos foliões também coloca em risco a integridade física da população. 

“Em vários momentos, a polícia já chega com aparato de dispersão, como bombas e armas menos letais, pronta para agir. Isso torna tudo mais tenso. Esvaziar uma rua não é simples. As pessoas ainda estão conversando, bebendo, encerrando [a festa] do Carnaval”.  

Carlos Junior Churras, educador popular, um dos organizadores do Bloco do Hercu e representante do Fórum de Carnaval M’Boi Mirim, na zona sul de São Paulo.

“Normalmente, se faz a concentração, o trajeto com a bateria, retorna ao ponto inicial e precisa de um tempo para dispersar a multidão. Fazer isso em 30 ou 40 minutos é muito difícil. Essa pressão de horário atrapalha tanto a experiência do público quanto o desenvolvimento econômico do evento”, aponta.

Conforme mostrou a pesquisa Economia Criativa e Carnaval de Rua, o evento tem impacto positivo significativo para a economia local. Entre os ambulantes, quase 60% afirmaram que o desfile impactou positivamente as vendas, que em média triplicaram nesse dia. Entre os comerciantes fixos, 60% também relataram aumento nas vendas, que dobraram em média no dia do desfile. Muitos afirmam que os ensaios ao longo do ano já aumentam o movimento.

Ao ressaltar que a combinação de fatores como rua cheia e consumo de álcool torna a dispersão do bloco um dos momentos mais tensos, ele afirma que se houvesse mais diálogo sobre o tempo de dispersão, facilitaria o processo de encerrar a celebração de forma mais tranquila e cordial. 

Nesse contexto, até o momento, não houve registros de acidentes graves, mas Churras reforça que o clima é de insegurança. “Negociar ali na hora com sargento ou comandante, no meio da [festa], é complexo, eles estão cuidando da tropa e a situação fica confusa. Além disso, varia muito de bloco para bloco”, analisa.

“No Bloco do Beco, havia policiais com fuzil. Já no Bloco do Hercu, o próprio sargento que chegou com a tropa disse que não queria ninguém com fuzil, pois não se tratava de operação. Então depende muito também da experiência e sensibilidade de quem está à frente da condução de cada evento”, exemplifica.

Outro ponto levantado é que falhas na organização — como atrasos no credenciamento dos blocos — dificultam o diálogo com os moradores e podem aumentar a resistência ao Carnaval de rua. “Isso tudo ganha ainda mais peso porque geralmente já é difícil articular com a comunidade para receber o Carnaval [na região], até mesmo por questões religiosas e escolhas pessoais”, detalha. 

Para ele, o atraso no credenciamento também dificulta a aproximação com os moradores que não frequentam o bloco e impede a construção do vínculo com a comunidade, indispensável para a convivência respeitosa com todos.

Ao longo do ano, os blocos também têm despesas estruturais. O estudo do Bloco do Beco/Ibira 30, mostrou que o total médio de gastos anuais dos 11 blocos chegou a pouco mais de R$ 127 mil, considerando produtos, serviços e parte da remuneração de profissionais. 

Quando se observa especificamente o trabalho na economia criativa, cerca de 572 pessoas atuam nas atividades dos blocos ao longo do ano. Porém, apenas 11% recebem algum tipo de remuneração; 89% trabalham de forma voluntária. No dia do desfile, aproximadamente 640 pessoas atuam, e 13% são remuneradas. O gasto total com remuneração de profissionais ao longo do ano e no desfile foi de cerca de R$ 280 mil.

“Quando um bloco faz barulho na porta de alguém, isso já gera algum transtorno. E, se isso se agrava, pode prejudicar a realização do bloco no ano seguinte”, explica.

O artista e produtor cultural, Fernando Couto, do território de Guaianases, distrito situado na zona leste de São Paulo, também fala sobre a experiência dos blocos de Carnaval dos quais participa. O primeiro é o Unidos da Madrugada. Ele explica que o bloco tem sede no Jardim Triana, no bairro da Patriarca, um espaço que existe há cerca de 25 anos. No entanto, o bloco em si é mais recente: começou a se articular entre 2009 e 2010, somando hoje mais de 15 anos de trajetória.

Em tom de protesto, o Unidos da Madrugada ocupou as ruas neste ano com um enredo que fala sobre a luta dos territórios contra a especulação imobiliária, a perda de espaços tradicionais e culturais e sobre as dificuldades do cotidiano da população periférica.

O segundo é o Bloco Carnavalesco Boca de Serepesqué, com sede localizada em Guaianases, que tradicionalmente desfila pela rua do Mercadão de Guaianases. Neste ano, porém, o bloco não saiu. “O grupo está passando por uma série de questões, discutindo como será sua reorganização interna para um novo formato, que ainda não está definido”, compartilha sobre a atual situação do bloco, que existe há mais de 18 anos.

Fernando lamenta e frisa que o tipo de apoio prestado por parte da atual gestão na cidade acentua as dificuldades para o bloco desfilar, e cita problemas antigos e estruturais, como o que chama de “endurecimento” dos editais públicos culturais na capital paulista. Segundo ele, está cada vez mais difícil disputar recursos por meio das leis de incentivo, especialmente no contexto do Carnaval. 

O artista conta ainda que já escreveu projetos, individualmente e na coletividade, para viabilizar atividades no âmbito do Serepesqué, mas atualmente, nenhum dos blocos de que faz parte recebeu incentivos públicos, mantendo suas ações de forma totalmente independente, com os recursos que conseguem mobilizar.

“Conseguir sair para o Carnaval na rua já é, por si só, um desafio que cria um debate com a Prefeitura. Por aqui, na periferia de Guaianases e na rua da Patriarca, sempre há insatisfação quando se fala em fechar vias que eles consideram importantes para o fluxo de trânsito”, conta. 

“A própria rua do Mercadão, aqui em Guaianases, é um lugar em que sempre há disputa para conseguirmos sair com o desfile. Esse é sempre foi um diálogo difícil de fazer”, afirma, sobre os desafios de viabilizar desfiles de blocos comunitários.

Distribuição d’água e banheiros químicos

A falta de distribuição de água também foi apontada como problema durante a folia. Com altas temperaturas e grande aglomeração, a hidratação era essencial, mas não foi garantida pela Prefeitura de São Paulo no M’Boi Mirim, para o Bloco do Beco, Bloco do Hercu, Bloco do Rei, Galera da Rampa, Unidos da Macieira, entre outros.

“Os próprios blocos tiveram que arcar com isso. O Bloco do Beco, por exemplo, gastou mais de R$ 3 mil só com água, distribuindo gratuitamente. Outros blocos fizeram o mesmo. Não houve nenhuma iniciativa pública de distribuição de água às pessoas.”

Carlos Junior Churras, educador popular, um dos organizadores do Bloco do Hercu e representante do Fórum de Carnaval M’Boi Mirim, na zona sul de São Paulo.

Sobre os banheiros químicos, Carlos Churras fala a partir de estimativas orgânicas de que “pelo menos 70% dos blocos [localizados em regiões periféricas] não tinham [sanitários]. E, mesmo nos casos em que houve a instalação, a quantidade foi insuficiente dentro dos parâmetros necessários. Em relação aos banheiros, todos os blocos tiveram problemas”.

No caso de Fernando, ele não se recorda de sua coletividade ter enfrentado questões específicas com relação à quantidade de banheiros. Porém, chama à atenção: “No Serepesqué, por exemplo, fazemos um percurso grande. Então a distribuição dos banheiros precisa ser [bem planejada e descentralizada], o que também se torna um desafio”.

Os problemas estruturais geram ainda tumulto no momento da dispersão dos blocos e atritos com a comunidade local. “A gente pensa nos moradores, nos bares, no sentimento das pessoas que convivem com o bloco ali. Quando há problemas estruturais, como falta de banheiro, isso tensiona ainda mais a relação com a comunidade”, diz Carlos Churras.

“O policiamento é realmente sempre mais [ostensivo] para nós e para quem está construindo o bloco, do que para a própria segurança do carnaval. Existe uma pressão sobre os componentes do bloco, porque você vai batucar, ter alegria, beber — e sim, vai ter bebida nesse tipo de festa popular, pois a bebida sempre fez parte e é algo ancestral para nós”, acrescenta Fernando Couto.

“Inclusive, muitas vezes nos sentimos melhor sem a polícia, porque sua presença costuma ser mais repressiva do que protetiva, como se estivesse nos vigiando e não garantindo a realização da arte e do festejo. Por isso, preferimos organizar nossa própria segurança, em diálogo com foliões, pais, mães e ritmistas, etc. No Unidos da Madrugada, organizamos um cordãozinho de crianças que saem com a gente”, detalha.

“Trabalhamos sempre com uma estimativa baseada no que temos de registros. Houve bloco com cerca de 600 pessoas, outros com 1.500, e alguns chegando a 5 ou 6 mil. Essa variação faz parte da realidade e contexto de cada território”, explica Carlos Churras, representante do Fórum de Carnaval do M’Boi Mirim, ao frisar que, independente do tamanho, o impacto econômico do Carnaval enquanto economia criativa é igualmente relevante para as periferias.

A fala do organizador vai de encontro ao que traz a pesquisa do Bloco do Beco/Ibira 30, que destaca que o Carnaval não é apenas uma festa, mas também uma rede de apoio comunitário.

Durante a pandemia de Covid-19, mais de 90% dos blocos realizaram ações culturais e sociais em seus territórios, incluindo doação de cestas básicas, marmitas, máscaras de proteção e atividades culturais, impactando aproximadamente 27 mil pessoas. Isso reforça o papel dos blocos como agentes de solidariedade, desenvolvimento local e de fortalecimento cultural nas comunidades.

Churras reforça a força que o carnaval possui e a importância de apoio, principalmente nas periferias. “O Carnaval movimenta a economia da cidade, atrai marcas, gera renda local, porém o incentivo público ainda é muito limitado. Existe um fomento da Prefeitura, mas é insuficiente diante do tamanho e da importância do Carnaval nos territórios”, analisa.

“Foi a partir do momento em que começamos a puxar esse debate sobre a valorização do Carnaval [nos territórios periféricos] que algumas marcas passaram a se aproximar. Um exemplo é o Bloco do Beco, que, neste ano, recebeu patrocínio, com aporte financeiro.”.

Carlos Junior Churras é educador popular, um dos organizadores do Bloco do Hercu e representante do Fórum de Carnaval M’Boi Mirim, na zona sul de São Paulo (SP).

Fernando também reforça que o Bloco Carnavalesco Boca de Serepesqué e o Unidos da Madrugada decidiram se afastar dos editais também por problemas recorrentes e dificuldades na execução. 

“Outra coisa importante de estarmos fora do edital é a parceria com os bares, que movimentam a economia local. Tem ambulantes, gente que monta barraca para vender artesanato, churrasquinho e a gente sempre conversa antes com essas pessoas. São parceiros do território, que já conhecemos e que precisam estar ali para trabalhar. Abre-se uma janela econômica muito interessante, que também foge do edital”, destaca

Ele lembra que o edital não impede essa relação com os empreendedores locais, “mas muitas vezes nos formata dentro de um modelo econômico em que o dinheiro é pouco, quase nada”, explica.

O artista avalia que fortalecer o diálogo entre coletivos é fundamental. “E estamos fazendo isso”, afirma ao dizer que a proposta é intensificar as visitas às sedes de cada coletivo da zona leste e ampliar o debate sobre os editais, dentro e fora do contexto carnavalesco. “Com isso, queremos tentar uma incidência maior, uma organização mais estruturada e, por consequência, uma pressão maior sobre a Prefeitura para melhorar a estrutura”, explica.

“Não somos contra os editais, muito pelo contrário. Também não somos contra a SPTrans, nem contra a polícia. O que acontece é que temos questões com esse modelo que está sendo apresentado para a coletividade”, destaca Fernando Couto.

 “Os editais são importantes e precisam existir, mas precisam ser ampliados, com mais recursos e mais blocos contemplados. O valor atual, de cerca de 25 mil reais por bloco, com apenas 100 selecionados, é insuficiente. Por isso, precisamos fortalecer nossa organização coletiva para ampliar essa [política pública]”, reforça.

Mas chegou o carnaval, e ela não desfilou!

Ainda sobre os banheiros químicos, Churras alerta que o valor contratado pela Prefeitura Municipal, no âmbito da SPTuris (pasta responsável pela articulação do Carnaval), foi o mesmo do ano passado, mas com menos unidades previstas. “Ou seja, pagou-se o mesmo por menos estrutura e isso foi uma escolha da gestão municipal”, afirma Churras.

“Carnaval não se organiza em janeiro. Esse processo precisa começar meses antes, lá por setembro, para garantir estrutura adequada”, finaliza.

Denúncias de contratos sem concorrência

Nos últimos dias, têm circulado na imprensa suspeitas envolvendo a Agência Quarter, fundada em 2022, que supostamente teria recebido contratos milionários da Prefeitura Municipal de São Paulo, totalizando cerca de R$ 183 milhões, para a gestão do Carnaval de Rua e outros eventos. O rápido crescimento da empresa e a falta de estrutura despertaram questionamentos sobre sua atuação. 

Entre as denúncias, uma das mais citadas é a gestão dos banheiros químicos durante o Carnaval de 2026. Foliões e organizadores apontaram que os equipamentos foram inexistentes em alguns pontos, insuficientes em outros, mal posicionados e apresentaram problemas de higiene, gerando filas e desorganização. 

As suspeitas motivaram investigações no Ministério Público, a partir de vereadores da Bancada Feminista do PSOL, que protocolaram representações no MP e no Tribunal de Contas do Município (TCM), levantando possíveis irregularidades, incluindo indícios de superfaturamento em serviços como guias de turismo e insumos. 

Há também relatos de que a empresa possui ligações com pessoas de outras entidades que já receberam recursos da Prefeitura, o que sugere um possível esquema de terceirização inadequada. Outra suspeita também paira sobre o crescimento meteórico da empresa após nomeação de um de seus sócios, Rodolfo Marinho, como secretário de turismo da gestão Ricardo Nunes.

Até o momento, todas as informações correspondem a denúncias e suspeitas, sem confirmação formal ou condenação.

Outro lado

O Desenrola e Não Me Enrola procurou a SPTuris e a Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo, e em nota, a Secretaria Especial de Comunicação (Secom), órgão responsável pela comunicação da Prefeitura, informou que o Carnaval 2026, movimentou 17,3 milhões de pessoas, e que o Carnaval de Rua registrou a maior edição. Segundo a nota, a festa movimentou R$ 4 bilhões na economia da cidade e cerca de 55 mil empregos diretos e indiretos. “A programação se espalhou por bairros de todas as regiões da capital, consolidando a cidade como um dos principais destinos do Carnaval brasileiro”, diz um dos trechos. Nada foi citado sobre as situações relatadas.