“Meu dia começa às 5 da manhã, preparando minha filha para pegar a van e ir à escola. Depois me troco e sigo para o trabalho, que fica a cerca de 30 minutos de casa. Chegando lá, tomo um café, pego meu carrinho, minhas ferramentas de trabalho e já começo a limpar exatamente no local onde bato o ponto”, essa é a dinâmica de um dia na vida da Maria Lopes, 52, que a sete anos trabalha como gari em Rio Grande da Serra.
Moradora de Oasis Paulista, em Rio Grande da Serra, município localizado na região metropolitana de São Paulo, ela acumula histórias de desafios e vivências trabalhando na área de limpeza urbana.
Maria divide o serviço com um colega, responsável pelas tarefas mais pesadas. “Fico com a varrição, enquanto ele cuida das lixeiras, ensaca o lixo e tira do carrinho o que for mais pesado”, explica.
Segundo Maria, muitos moradores a abordam no dia a dia para questionar por que suas ruas não são cuidadas, algo que a prefeitura justifica como escassez de funcionários.
“O nosso trabalho é limpar o centro e a avenida [principal]”. Nos bairros, varrição não existe. Só os roçadores vão roçar o mato, onde rastelam, já aparece o lixo. Fica claro pra gente que isso tem a ver com o fato de ser um bairro mais pobre. Ninguém faz nada”, diz.
Dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) mostram que o Brasil possui hoje cerca de 400 mil catadores de resíduos sólidos. Esses profissionais são responsáveis pela coleta de resíduos, capina e manutenção da limpeza urbana e enfrentam desafios como calor intenso, chuvas, trânsito e riscos à saúde. Entretanto, o estudo não especifica aqueles trabalhadores responsáveis pela varrição das ruas.
Reconhecimento e desafios
Para a trabalhadora, estar perto de casa é um diferencial. “No começo, os vizinhos estranharam me ver nas ruas e comentavam ‘isso é serviço pra homem’. Mas sigo sempre firme, enfrentando [os desafios] e os comentários positivos e negativos, sempre com um sorriso no rosto”, lembra.
“Conseguir acompanhar o crescimento da minha filha é o melhor do meu dia. O tempo passa rápido, e nossos filhos crescem ainda mais rápido. Quem trabalha fora chega cansado e muitas vezes não consegue dar atenção, mas a criança precisa disso. O meu trabalho me possibilita estar presente na vida dela”
Maria Lopes, 52, gari.
No entanto, sua atuação também revela outras histórias de vida que atravessam a dinâmica da cidade. “O que mais me marca no dia a dia é ver pessoas em situação de rua. Muitas vezes me sinto impotente, principalmente nos dias de frio, e isso corta meu coração. Não posso ajudar todo mundo — também sou assalariada e passo o dia na rua. Levo meu lanche para não passar mal, mas me toca muito ver quem necessita.”
Por outro lado, ressalta as trocas que adquire: “Na rua, a gente conhece muita gente. Há pessoas que passam todos os dias de manhã para ir trabalhar, conversam com a gente, abraçam, desejam um bom dia, trocamos contato e acabamos criando laços e vínculos com muita gente bacana”, celebra.
Ela encara com naturalidade e firmeza o fato de ser uma mulher na área. “Arregaço as mangas e faço o que precisa ser feito. Muitas vezes faço até mais do que esperam de uma mulher”, afirma.
Ao contrário do que muitos pensam, para Maria, o preconceito não mora nas ruas, mas nas pessoas que ocupam cargos elitizados, enquanto o público com quem ela cruza diariamente costuma respeitar seu trabalho com afeto e reconhecimento.
“Acredito que quem passa por nós, nas ruas não têm tanto [estigma]. Elas elogiam, reconhecem, dão parabéns, dizem que a cidade está limpa graças ao nosso esforço. Mas quem realmente deveria reconhecer, não reconhece e nem nos valoriza. Na rua, sim, o respeito existe.”
Maria Lopes, 52, gari.
Maria aponta a precarização do trabalho como um dos principais desafios da profissão e compartilha os sonhos para o futuro. “Eu gostaria que tivéssemos melhores condições de trabalho e salário. Sou assalariada, então, se quero ganhar um pouco mais, preciso trabalhar no fim de semana ou fazer hora extra. Mesmo cansada, acabo indo aos fins de semana, pois preciso”, afirma.
Vivências individuais, experiências coletivas
Filha de uma família grande, lembra que, na época, somente o pai trabalhava. Aos poucos, os irmãos conseguiram trabalho e cada um seguiu seu caminho. Seu primeiro emprego veio aos 13 anos, na feira, aos domingos.
Depois, passou por algumas empresas: primeiro numa metalúrgica e, mais tarde, em uma empresa de alimentos, onde trabalhou por duas décadas. Foi durante esse período que Maria formou sua própria família: teve dois filhos, um que atualmente tem 30 anos e a mais nova de 11 anos.
“É a fé que me move, porque trabalhar na rua, debaixo de chuva e de sol, não é fácil. Há dias que o cansaço bate forte, mas sigo. Não posso desistir. Eu sustento meu lar. Por isso, não posso desanimar e nem tenho outra escolha”, destaca.
Um dos pontos positivos para ela, é a estabilidade. “Sou muito feliz naquilo que faço e grata por ser uma servidora pública e ter estabilidade no meu trabalho […], e pra mim, essa estabilidade me garante segurança, principalmente pela minha idade, que torna mais difícil voltar ao mercado de trabalho.”
“Quando estou na rua, muita gente elogia, diz que dá pra ver na minha cara que eu gosto do que faço, porque estou sempre sorrindo. Nunca faço nada mal-humorada ou de má vontade”, conta.
A partir de seu tempo nas ruas, Maria também desenvolveu outras habilidades, principalmente de comunicação e relacionamento. “Eu sempre fui muito tímida e tinha dificuldade para me comunicar. Trabalhar fora me ajudou a mudar”, diz ao citar também seu trabalho anterior com limpeza de hospital, no qual lidava com pacientes e colegas.
“Tenho sonhado com minha aposentadoria, que não está tão longe. Quando me aposentar, meu desejo é morar e seguir trabalhando na roça, que gosto muito. Quero ter essa paz, esquecer um pouco o povo e essa loucura de São Paulo, relaxar”, compartilha.



