“O ato de estar na cozinha também é um ato de amor, de luta, cura e resistência”. Ao conversar com a cozinheira e criadora da Coletiva Tempero de Oyá, Priscila Rezende, podemos entender um pouco sobre como a cozinha pode reunir as pessoas, e também como comer pode ser ato político dentro das periferias.
Moradora da zona noroeste da cidade de São Paulo, no bairro de Perus, a Coletiva criada por Priscila lançou no mês de junho de 2026 uma cartilha que conta com receitas e registros dos encontros feitos durante o projeto, chamado Sabores do Tempo – Conexões entre o Saber e o Fazer.

A Coletiva Tempero de Oyá foi criada pela chef de cozinha e produtora cultural em 2015. Priscila conta que em suas receitas na coletiva utiliza alimentos e temperos naturais como uma reverência às tradições. A coletiva realiza trabalhos de buffet e catering (serviço que fornece alimentação para eventos).
Entre os meses de fevereiro e abril de 2026 a iniciativa realizou rodas de conversa, na Comunidade Cultural Quilombaque, em Perus. Esses encontros abordaram temas como: alimentação saudável, nutrição, saúde, soberania e racismo alimentar. “[os encontros] Eram conduzidos por convidados que compartilhavam seus conhecimentos e experiências sobre cada temática”, conta a chef de cozinha.

“O projeto buscou criar um espaço acolhedor e acessível, onde diferentes gerações puderam compartilhar experiências e aprender umas com as outras”, diz Priscila.
Quando fala sobre a cozinha feita no Tempero de Oyá, tanto no buffet quanto em seu projeto, a chef resgata memórias de sua própria família.
“Eu trato a cozinha como lembrança, como cura, reconectar com os meus que já se foram. Eu não deixo isso morrer, desde o bolo do café da tarde com os meus filhos à reunião na casa do meu avô, que tem 94 anos, é onde a gente consegue esquecer os nossos problemas e unir forças, jogar conversa fora”.
Priscila Rezende, fundadora da Coletiva Tempero de Oyá e moradora de Perus.
Ela ressalta que o ato de comer transforma a união entre as pessoas, principalmente dentro das reuniões de família onde cada pessoa traz um elemento diferente para compor o almoço de domingo.
É através de sua coletiva que Priscila compartilha em seu território os saberes ensinados pela sua avó, Iracema. “O projeto da Tempero de Oyá sempre foi um sonho meu”, explica a cozinheira, que largou o trabalho em regime CLT após a morte da avó para investir no projeto.

O afeto pela avó, que faleceu em 2015, acompanha Priscila no nome de sua coletiva, já que Iracema – assim como a neta – era filha de Oyá, orixá que representa raios, tempestades, ventos e fogo nas religiões de matriz africana, como o Candomblé, na qual a fundadora da coletiva é iniciada.
“Minha avó era brava que só. Ela ensinou tudo que eu sei, principalmente o respeito com o alimento, você chegar e pedir licença para o fogão que vai te ajudar a cozinhar. Pedir agô para sua mão, saudar o alimento que você vai preparar, né? Porque o alimento é cura, e ele curou a minha avó e foi na cozinha que eu tive as melhores trocas com ela.”
Priscila Rezende, fundadora da Coletiva Tempero de Oyá e moradora de Perus.
Comer como um ato político
Priscila aponta o racismo como um dos atravessamentos da cultura alimentar. “Às vezes não temos acesso a um alimento de qualidade, um alimento orgânico é muito fora do comum pra gente, periférico, pessoas pretas, indígenas. Quando eu digo que cozinhar é um ato político, é que a gente também tem que ter acesso, não só à alimentos ultraprocessados.”
Entre as oficinas realizadas pela Coletiva Tempero de Oyá, a chef de cozinha trata o tema do racismo alimentar como fundamental. Ela conta que debater o tema é importante para reconhecer a importância da culinária ancestral e compreender que alimentação também é cultura, identidade e justiça social.

“O racismo alimentar nos ajuda a compreender como determinados alimentos, práticas e culturas foram desvalorizados por causa do racismo estrutural”, diz.
Para ela, o ato de cozinhar, soberania alimentar e o direito de consumo dos alimentos andam juntos: “Falar de comida sem falar de acesso, desigualdade e história é contar apenas uma parte dessa história. A soberania alimentar nos convida a refletir sobre o direito de cada povo decidir o que produz, o que consome e como preservar seus saberes”, conclui.