“O momento do benzimento é para acreditar em si mesmo”, diz benzedeira que atua há 40 anos na zona leste de São Paulo

Conhecida como “madrinha”, Dona Maria Salete é dona de um Centro Espírita de Umbanda e mantém tradição de benzimento viva na região.
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Em uma sala nos fundos de uma casa no Conjunto Residencial José Bonifácio, localizado no distrito de Itaquera, zona leste de São Paulo, encontramos uma senhora de cabelos vermelhos e olhos claros. Os mais próximos a chamam de madrinha, já os desconhecidos a conhecem como a costureira Maria Salete. A costureira de 72 anos se apresenta como dona de um Centro Espírita de Umbanda. É lá que Dona Maria Salete incorpora a Vó Cambinda que benze a todos que chegam em seu portão. 

“Há quarenta anos que eu tenho o Centro Espírita de Umbanda aberto, eu incorporo uma entidade que é uma preta velha, a Vó Cambinda, ela benze criança, adulto, cuida de senhora gestante”, conta.

“Todos que vem, já vem ruim, às vezes vão ao médico e ele não encontra a solução. Trás aqui no benzimento e ela [preta velha, a Vó Cambinda] faz uma simpatia, um cházinho, orienta e pronto.” 

Maria Salete, benzedeira, moradora do Conjunto Residencial José Bonifácio, em Itaquera.

A história de Dona Maria Salete com o benzimento a acompanha desde a infância, em Pernambuco, quando com um ano de idade ela adoeceu com crises convulsivas ou, como coloca,  “ataque de vermes”. Nessa época, ficou com metade de seu corpo paralisado e isso resultou em um ano sem andar, mas seu pai, que era trabalhador do campo, a levou em uma benzedeira que fez uma simpatia. Após isso, ela conta que voltou a andar.

Dona Maria Salete abre as portas de sua casa para os benzimentos todas as segundas-feiras às 18 horas. Foto: Felipa Anastácia/Desenrola e Não Me Enrola

Atualmente, ela abre as portas de sua casa para os benzimentos todas as segundas-feiras às 18 horas, e os motivos para benzer são diversos. “[Benzo para] Aguamento, quebrante, mau-olhado. O que é o mau-olhado? A criança fica esmorecida, só quer dormir, enjoadinha. Você passa a mão na moleira, que é o topo da cabeça e está fundo. E o mau-olhado dá uma olheira e a criança fica cansada, benzo para susto também”, conta sobre suas práticas.

Benzimento e religião

Antes da Umbanda a costureira era católica e se descreve como “beata” na igreja. “De tudo eu participava”, conta ao lembrar que ajudava o padre durante as missas, dava cursos de batismo, para noivos e liderava os chamados encontros de casais com Cristo. 

A relação de Dona Maria Salete com a Umbanda começou no ano de 1979, quando sua família tinha acabado de comprar a casa em que mora atualmente, na zona leste de São Paulo, por isso passavam por dificuldades financeiras. Foi nesse momento que sua mãe resolveu levá-la para um Centro de Umbanda. 

“Eu já costurava para essa mãe de santo desde os treze anos de idade, quando menos esperei, eu me vi dentro desse centro espírita. Nesse dia, eu cheguei lá e ela falou para mim ‘moça, você quer recuperar tudo o que você perdeu? Se dedica à sua missão,’ e eu fiz o juramento que enquanto vida eu tiver, nunca negarei caridade a ninguém. Graças a Deus, depois de cinco anos consegui pagar a minha casa”, relata.

Além dos benzimentos, o espaço também realiza encontros com a comunidade todas as quartas-feiras às 20 horas. Foto: Felipa Anastácia/Desenrola e Não Me Enrola.

A tenda de Umbanda de Maria Salete foi aberta no ano de 1984. Ela conta que nunca cobrou nada por seus benzimentos ou outras práticas feitas no espaço, apenas pede que a pessoa providencie os insumos que serão utilizados no momento, como as velas, usadas. 

“Não tem dinheiro que pague uma caridade, e eu sempre fui procurada, todos que vêm aqui, quando voltam é para agradecer. Nunca explorei ou enganei ninguém, tudo o que fazemos é em nome de Deus e das treze almas santas, benditas e poderosas”, conta a benzedeira.

“O momento do benzimento é para acreditar em si mesmo e confiar. Tem que falar ‘Eu acredito que o que estou querendo é verdadeiro, eu confio e aceito, e o Senhor me ajuda’, tudo vai da fé e da confiança. Isso não é ensinado, não dá pra procurar na internet quem foi Vó Cambinda nas vidas passadas, existem várias.”

Maria Salete, benzedeira, moradora do Conjunto Residencial José Bonifácio, em Itaquera

Além dos benzimentos, o espaço também realiza encontros com a comunidade todas as quartas-feiras às 20 horas. Dona Maria Salete também comemora datas típicas de sua fé, como o dia de São Cosme e Damião, celebrado dia 27 de setembro. Durante a celebração, produz um almoço comunitário, que segundo ela é frequentado por mais de 300 pessoas. 

Relação com o território

Enquanto explicava sobre as suas práticas, Dona Maria Salete contava as histórias de seus benzimentos na vizinhança, como quando recebeu uma criança de nove meses desacordada. 

“A mãe saía com ele para a casa da avó e ele tinha o costume do cachorrinho vir pulando nele, brincando. Nesse dia, ele vinha dormindo no ombro da mãe, quando chegou no portão o cachorrinho começou a latir, e a criança começou a chorar, a moça entregou pra mãe dela e foi trabalhar. Mas depois a mãe dela ligou e falou: ‘filha, vem ele tá morrendo de febre’. Depois de levar o bebê em vários hospitais, os médicos desenganaram a criança”, lembra ela. “Essa moça mora bem em frente da minha casa, eu sempre via ela saindo com ele brincando, nesse dia ela chegou com o bebê enrolado em um xale”, relata

Dona Maria Salete conta que não tem celular e nem WhatsApp. Foto: Felipa Anastácia/Desenrola e Não Me Enrola
Foto: Felipa Anastácia/Desenrola e Não Me Enrola

Maria Salete continua: “Minha vizinha tinha falado que o bebê estava no hospital, então fui ver. Eu perguntei ‘Seu bebê está bem?’ e a mãe dele nem conseguia falar do tanto que chorava contando que ele desenganou, essa moça era evangélica, eu sou espírita. Mas, disse pra ela ‘eu sei que você é evangélica, mas pra Deus não existe religião. Você se importa se a gente entrar lá pra benzer ele?’, a mãe do bebê disse que por seu filho faria qualquer coisa. No benzimento, a vó [Cambinda] falou que foi um susto que o bebê teve, era só com benzimento”, destaca.

“A avó benzeu, ela pediu um copinho de água e dava duas colherzinhas, o bebê queria engolir elas. Mas ela disse que tinha que ser aos poucos, no final da tarde ela trouxe o bebê de volta pra benzer de novo, e ele já estava em pézinho, pulando e rindo. Hoje, ele já tem 21 anos, passa aqui na rua, me pede benção e me dá beijinhos no rosto.”, sorri lembrando. 

Mas Dona Maria Salete reconhece que às vezes algumas pessoas que realizam benzimento na mesma região podem vê-la como concorrência, principalmente por ela não fazer cobranças: “Já aconteceu de outra mãe de santo vim do terreiro dela para o meu em dia de atendimento falando que só queria conversar, pedindo explicações sobre porquê eu não cobro”, lembra. 

A benzedeira reflete sobre o desaparecimento de seu ofício, que para ela hoje concorre com informações encontradas na internet. A senhora, que não tem celular nem WhatsApp, diz que “hoje não existe a essência de incorporar e de ser inconsciente”. Para ela, além dos benzimentos, todo o lado ritualístico corre o risco de desaparecer por conta da falta de privacidade existente nas tecnologias. “Se fosse para o mundo lá fora saber, não fazia dentro de um terreiro, aqui é o cantinho do Orixá”, conclui.

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