“O que mais nos incomoda aqui é a questão do lixo”. A fala de Júlio Rocha (nome fictício) representa uma preocupação compartilhada por moradores do Montanhão, especificamente na região dos Cafezais, bairro localizado em São Bernardo do Campo.
Morador do território há 35 anos, Júlio percebeu o problema ainda na infância. Enquanto brincava com os amigos na rua, já reparava na quantidade de resíduos espalhados pelo bairro. Hoje, vivendo em uma das cerca de 19 vielas da região, ele continua convivendo com a situação.
Na rua onde mora, existem duas caçambas que deveriam dar conta de atender as residências próximas. Na prática, o morador conta que não ocorre dessa forma. “As caçambas enchem muito rápido. Com um ou dois dias, elas já estão transbordando de lixo”, comenta.

No bairro do Montanhão, são geradas mais de 50 toneladas de resíduos domiciliares por dia, segundo o mapa de geração de resíduos por bairros publicado no Plano Municipal de Gestão Integrada de Resíduos Sólidos (PMGIRS) de São Bernardo do Campo.
As caçambas não atendem apenas uma única rua onde estão instaladas. Elas também são utilizadas por moradores do entorno que não possuem um espaço adequado para o descarte dos resíduos. Para chegar até o ponto de coleta mais próximo, moradores das vielas precisam percorrer trajetos estreitos e com escadas irregulares, que em dias de chuva, também precisam lidar com o caminho molhado e escorregadio, podendo sofrer um acidente.
Dependendo de onde a casa está localizada no morro, o percurso até a caçamba pode ser ainda mais longo. No caminho até elas, também é comum que sacolas rasguem e parte dos resíduos fique espalhados pelas vielas. “Às vezes, na hora de levar o lixo, acaba rasgando [a sacola] na viela. Os cachorros acabam pegando, vira uma bagunça cotidiana”, se queixa o morador.

Além de morar no território, Júlio também tem um comércio no bairro. Desde que abriu o negócio, há cerca de dois anos, percebeu que o acúmulo de resíduos também passou a afetar sua rotina de trabalho.
Segundo ele, parte do lixo acaba chegando até bueiros e contribuindo para o entupimento. E com chuva, é certeza de alagamento. O acúmulo de resíduos também, segundo o morador, contribui para o aparecimento de animais como ratos e baratas, que chegam até as casas e comércios. Júlio também relata preocupação com animais peçonhentos, como aranhas e escorpiões, principalmente pela presença de áreas de mata próximas ao território.
“Eu me sinto prejudicado, porque é o lugar que eu tenho. É minha casinha, meu trabalho. Eu não tenho para onde ir. Eu moro aqui há muitos anos e sigo tentando.”
Júlio Rocha (nome fictício) é empreendedor e morador do Montanhão há 35 anos.
“Eu acredito que, se não tivesse essa quantidade de lixo, a minha qualidade de vida seria melhor”, acrescenta o morador.
Como o lixo pode afetar nossa saúde e qualidade de vida?
Helena de Freitas, de São Carlos, no interior de São Paulo, é mestranda em Comunicação e Saúde pela Universidade Federal de São Carlos, em parceria com o Instituto de Saúde do Estado de São Paulo. Segundo ela, os impactos do acúmulo de lixo podem afetar não só a saúde, mas também o bem-estar de quem vive no território.
Helena explica que o lixo doméstico é composto, em sua maioria, por resíduos sólidos, que podem se decompor ou permanecer no ambiente por longos anos. Entre eles estão os resíduos orgânicos, como restos de alimentos que comemos no dia a dia, como frutas e verduras, que podem apodrecer e favorecer a formação de fungos, e os não perecíveis, como plásticos e metais, como garrafas PET e latas de refrigerante, que levam centenas anos para se decompor.
Entre os impactos provocados pelo acúmulo de resíduos, ela cita a poluição olfativa, causada por odores gerados pela decomposição da matéria orgânica, a poluição visual nas ruas e vielas e, principalmente, os riscos voltados à nossa saúde. “O lixo, principalmente o orgânico, contém restos de comidas que podem atrair animais, como ratos, saguis e pombos, que podem trazer muitas doenças”, alerta.

O risco pode ser ainda maior para crianças pequenas e pessoas idosas. Segundo Helena, esses grupos estão entre os mais vulneráveis por questões relacionadas ao sistema imunológico.
“A gente tá falando de duas faixas etárias que são imunologicamente muito vulneráveis. Às pessoas idosas, porque já estão diminuindo seu sistema imune, e as crianças, pequenas por estarem se desenvolvendo ainda”, reforça sobre os riscos de doenças para esses grupos.
Animais como ratos podem estar relacionados à transmissão de doenças como a leptospirose. Helena também conta sobre a Toxoplasmose, que pode ser transmitida por meio da ingestão de alimentos ou água contaminados. O maior risco de contrair essa doença é para as gestantes, pois ela pode causar má formação congênita no bebê, prejudicando a formação do mesmo. Segundo ela, os sintomas podem ser semelhantes aos de uma gripe, o que contribui para que a doença seja pouco reconhecida. Condições ambientais, como umidade e temperaturas mais altas, também podem favorecer a proliferação de animais e de alguns agentes causadores de doenças.
Para Helena, a responsabilidade pelo descarte adequado dos resíduos não pode ser colocada apenas sobre os moradores. A forma como esses resíduos são coletados ou não interferem diretamente nesse processo.
“Não adianta o morador coletar seu lixo, fazer seu saquinho, colocar do lado de fora se realmente não tem um lugar adequado para ele fazer esse aporte do lixo.”
Helena de Freitas é mestranda em Comunicação e Saúde pela Universidade Federal de São Carlos.

Para Helena, o combate a essas doenças não depende apenas da conscientização dos moradores, mas também da atuação do poder público. Entre as medidas recomendadas, ela destaca a testagem e o acompanhamento de pessoas doentes nas Unidades Básicas de Saúde (UBSs), além do monitoramento da circulação dessas doenças no território.
“Não vai ser uma ação individual que vai prevenir essas doenças de acontecerem, elas são multifatoriais. A gente fala de uma articulação entre sociedade civil e pública”, reforça.
Como é possível ter essa articulação?
A partir da Lei nº 12.305, conhecida como Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), foi criado o Plano Nacional de Resíduos Sólidos. O Ministério do Meio Ambiente é responsável por coordenar e elaborar sua implementação. O documento reúne o conjunto de princípios, objetivos, metas, diretrizes e ações adotadas pelo Governo Federal, em cooperação com os estados, municípios e o Distrito Federal.
A Lei orienta o manejo dos resíduos sólidos nos estados e municípios. O plano também estabelece mecanismos e procedimentos que garantem à sociedade acesso à informação e participação nos processos de formulação, implementação e avaliação das políticas públicas relacionadas aos resíduos sólidos.
Segundo a Secretaria Nacional de Saneamento, a lei orienta o manejo dos resíduos sólidos nos estados e municípios. Cada município pode elaborar seu próprio plano para ter acesso a recursos federais destinados a empreendimentos e serviços relacionados à limpeza urbana.
É o caso da Prefeitura de São Bernardo do Campo, que possui o Plano Municipal de Gestão Integrada de Resíduos Sólidos (PMGIRS). Lançado em 2011 e atualizado em 2023, o plano prevê projetos e ações voltados para a gestão dos resíduos sólidos no município.

Porém, não são todos os projetos que chegam e ou se mantêm no bairro do Montanhão. Como é o caso do MotoLixo, criado especialmente para auxiliar coletas em locais de difícil acesso. Segundo relatos do morador Júlio, o serviço passou apenas duas vezes pela região, há anos.
“A participação social é importante para a manutenção desse plano. Os moradores podem participar das reuniões sobre como será feito o manejo desses resíduos sólidos e, inclusive, levar suas demandas para esses encontros”, afirma Helena.
Mora na região do Montanhão ou em São Bernardo do Campo? Saiba mais sobre os principais serviços de coleta que você pode acessar.
COLETA DOMICILIAR
Para utilizar a Coleta Domiciliar porta a porta você deve depositar seus resíduos na porta de sua casa, ou na caçamba que estiver perto da sua residência, o mais próximo do horário em que o caminhão passa para coletar.
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A Coleta Seletiva porta a porta recolhe todos os materiais recicláveis como papel, plástico, metal e vidro, e os envia às Centrais de Triagem. Para utilizar esse serviço, deixe o lixo reciclável separado do lixo comum na porta de sua casa, ou na caçamba de lixo reciclável mais próxima.
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BOTA FORA
O Bota Fora foi feito para que os moradores possam se desfazer de entulhos como móveis velhos, colchões e utensílios domésticos, dando um fim certo para esses materiais. O Bota-Fora acontece em determinadas épocas do ano, e passa por todos os bairros da cidade.
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ECOPONTO
Os Ecopontos facilitam o descarte correto dos resíduos gerados pelos moradores. É permitido descartar nestes Ecopontos materiais de construção civil, resíduos volumosos e sem utilidade e materiais recicláveis. Se você perdeu o dia da coleta do Bota-Fora ou da Coleta Seletiva, utilize o Ecoponto para o descarte.
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