Desenrola reúne organizações de jornalismo para aplicação de novo modelo de produção e distribuição de conteúdos

Criado pelo Desenrola e Não Me Enrola, com correalização da Periferia em Movimento e Território da Notícia, a iniciativa aponta caminhos para combater a hegemonia das Big Techs no jornalismo e fortalecer a integridade da informação no Brasil.
Agentes da Integridade da Informação do Conquista Repórter, Vitória da Conquista/BA. Agosto/2026.
Compartilhe

O Desenrola e Não Me Enrola, organização de jornalismo periférico de soluções e educação midiática antirracista, lançou no mês de agosto o “Fellowship de Mudanças Exponenciais no Jornalismo”, como parte de uma nova metodologia para fortalecer o jornalismo de interesse público territorial. O programa, que conta com a participação de mídias de Pernambuco, Bahia e Pará, irá difundir no país uma abordagem inovadora de escuta qualificada e mensuração de impacto das produções jornalísticas.

O cenário do jornalismo no Brasil, mas não somente, é pautado fortemente a partir dos interesses das grandes empresas do setor de tecnologia, que controlam quais informações as pessoas têm acesso, como conta Ronaldo Matos, Diretor Executivo do Desenrola: “O Desenrola tem mais de uma década de atuação no jornalismo feito a partir das periferias. Nos últimos cinco anos, estamos vendo os desertos de informações e o analfabetismo midiático crescerem junto com a desinformação e a desconfiança no jornalismo. Diante deste contexto, a gente não se conforma com o papel submisso que as Big Techs nos impõem”, afirma. 

“Se a Meta e o Google forem como a Uber, nós, jornalistas, somos os motoristas. Queremos transformar o jornalismo no Brasil para que ele opere a partir de um sistema soberano de tecnologia nacional. Esse é o papel da metodologia que desenvolvemos: ela coloca os interesses das pessoas na frente dos interesses dessas empresas.”
Ronaldo Matos, Diretor Executivo do Desenrola e Não Me Enrola

Ronaldo se refere a metodologia criada pelo Desenrola e Não Me Enrola em 2025 a partir das bases da mudança exponencial e metodologia de impacto sistêmico elaborada e distribuída em países do Sul Global,  a partir do trabalho realizado pelo Centre for Exponential Change, da Índia, e aqui no Brasil pelo Centro para Mudanças Exponenciais e Instituto Beja. A partir desse novo método de produção e distribuição de conteúdo, os moradores de territórios periféricos, indígenas e quilombolas são o elo fundamental entre a notícia e seus desdobramentos. 

Participam desta edição do Fellowship as mídias Conquista Repórter, de Vitória da Conquista – BA; Sargento Perifa, de Recife-PE; e Tapajós de Fato, de Santarém – PA.

Tecnologia territorial, alcance nacional

Para orientar e sistematizar os aprendizados e produções do programa, foi desenvolvida uma plataforma digital que conta com o apoio de outros atores, como os Agentes de Integridade da Informação (pessoas que realizam a escuta territorial e de impacto nos territórios) e Agentes Produtores de Conteúdo ( responsáveis pela produção jornalística orientados pelo interesse dos moradores). Essa plataforma permite a visualização das demandas coletadas em campo, a distribuição direta da produção realizada pelas mídias para os moradores e o espalhamento do impacto gerado pelos conteúdos. 

Agentes da Integridade da Informação da Periferia em Movimento, São Paulo/SP. Agosto2026.
Agentes da Integridade da Informação da Periferia em Movimento, São Paulo/SP. Agosto2026.

Essa é a infraestrutura digital, criada com tecnologia 100% desenvolvida pelo Território da Notícia, organização que nasceu em 2021 e hoje é gerida pelo Desenrola e pela Periferia em Movimento, que une escuta comunitária e comunicação territorial para fortalecer o acesso à informação, aos direitos e à participação democrática.

“O Território da Notícia acumulou muitos saberes com a distribuição de conteúdo nas periferias de São Paulo a partir de totens digitais instalados em comércios locais. Por ano, são 4 milhões de pessoas alcançadas. No entanto, entendemos que o jornalismo no Brasil precisa de mais ferramentas que façam a notícia chegar a quem mais precisa. Por isso, inauguramos um novo marco em nossa história, testando agora no fellowship o protótipo tecnológico que oferecerá as bases da Infraestrutura Digital para o jornalismo no país”, conta Thiago Borges, Gerente de Produtos da Território da Notícia e cofundador da Periferia em Movimento.

O Território da Notícia possui 10 totens espalhados por 17 distritos da cidade de São Paulo, que disponibilizam notícias de 19 veículos independentes, entre eles: Agência Mural, Alma Preta, Azmina, Desenrola e Não Me Ernola, Periferia em Movimento. Foto: Território da Notícia / Gsé Silva

A partir dessa nova plataforma em fase de teste, as iniciativas terão acesso a ferramentas como:  Mapa de Interesses, com uma camada de escuta ativa conduzida por Agentes de Integridade da Informação, que coletam relatos, demandas e percepções da população por meio de formulários geolocalizados; mapas de calor das urgências identificadas; um banco de notícias e o gerador de pautas, que transformam demandas territoriais em produção jornalística contextualizada com pautas estratégicas voltadas ao acesso a direitos.

A plataforma também conta com um painel Avançado de Impacto, responsável por monitorar mudanças na relação dos moradores com a informação, os serviços públicos e os direitos sociais. Para além de medir alcance, a plataforma acompanha indicadores ligados à educação midiática, à confiança informacional e à transformação de práticas cotidianas. 

Agente da Integridade da Informação do Conquista Repórter, Vitória da Conquista/BA. Agosto/2026.
Agente da Integridade da Informação do Conquista Repórter, Vitória da Conquista/BA, utilizando a plataforma criada pelo Território da Notícia durante Escuta Territorial. Agosto/2026.

O Território da Notícia desenvolve ainda um modelo de Inteligência Artificial (IA) generativa, que interpreta os dados para sugerir abordagens com maior ‘match’ com a população de cada local. Dessa forma, as notícias podem ser anguladas de acordo com interesses e prioridades territoriais, além da interatividade personalizada com cada morador ou moradora. 

Ao unir essas etapas dentro de uma infraestrutura digital, o objetivo é assegurar que o jornalismo esteja voltado para os interesses das pessoas, que combata notícias falsas e ataque às desigualdades informacionais.

Metodologia de inovação social voltada ao jornalismo

Para implementar essa mudança no jornalismo, o Desenrola desenvolveu uma metodologia específica para impactar os atores do ecossistema de notícias, que foi implementada oficialmente em 2025, em Guaianases (na zona leste de São Paulo) , e aprimorada ao longo dos últimos meses. Rompendo com o modelo tradicional, a jornada proposta foca em escutar as pessoas, produzir conteúdo, verificar aprendizagens para produzir novamente, gerando um ciclo em espiral ascendente.

Agente da Informação em Guaianases, zona leste de São Paulo, em 2025. Foto: Pedro Paquino | Desenrola e Não Me Enrola
Agente da Informação em Guaianases, zona leste de São Paulo, em 2025. Foto: Pedro Paquino | Desenrola e Não Me Enrola

“Nossa metodologia foi desenhada de forma a garantir que a audiência, as pessoas, não sejam só o público final, que elas sejam reconhecidas como donas de saberes, de conhecimento”, conta Thais Siqueira, Diretora de Articulação Política do Desenrola e que coordena a equipe de educação midiática. 

Outro destaque é o fomento à cidadania, por reconhecer que o jornalismo não se encerra com a produção da notícia, mas na reverberação desse conteúdo na vida das pessoas. 

“A metodologia foi pensada para que as pessoas reconheçam no jornalismo um aliado da democracia e da participação social. No jornalismo, tradicionalmente, nosso papel enquanto jornalistas se encerra quando o conteúdo está distribuído. Nós nos perguntamos ‘qual o impacto disso na vida das pessoas?’. Em um mundo dominado pela enxurrada de conteúdos que recebemos na tela do celular, queremos que o que produzimos gere impacto, gere aprendizagem, para nós e para as pessoas”, finaliza Thais. 

Agente da Integridade da Informação do Desenrola e Não Me Enrola, em São Bernardo do Campo/SP. Agosto/2026.
Agente da Integridade da Informação do Desenrola e Não Me Enrola, em São Bernardo do Campo/SP. Agosto/2026.
Mais sobre →

relacionadas

últimas

Em Guaianases, projetos impactam autonomia e a vida de quem envelhece na periferia

Compartilhe

Ao contrário do que muita gente pensa, envelhecer na periferia pode significar vitalidade e pertencimento. Pelo menos é o que têm comprovado os frequentadores do projeto Dia Total e da Academia Black Brothers. Com atividades específicas para a população idosa, as iniciativas têm impactado não só a rotina, mas a saúde física e mental de muita gente pela região.

Acessar o conteúdo