“Esperei no terminal das 11h40 até as 15h40 e nada”: eleitores da zona leste de São Paulo relatam dificuldade com transporte coletivo para votar no 2º turno
Com 51,79% dos votos totais, Lula é reeleito em 2º turno que teve falhas no transporte público e sessões fechadas antes da hora em regiões periféricas de São Paulo.
Após três semanas desde o primeiro turno das eleições de 2026, em meio a diversas mobilizações online e nas ruas, no último domingo (25), Luiz Inácio Lula da Silva (PT) foi reeleito Presidente, com 64.256.232 votos, o que representa 51,79% do total. Flávio Bolsonaro (PL), também candidato ao cargo, somou 59.826.041 votos, ou seja 48,21%. Na maior parte dos distritos de regiões periféricas da capital, Lula ganhou a disputa.
Confira como foi a votação em alguns distritos da zona norte, sul e leste de São Paulo
O segundo turno teve um número menor de abstenções, ou seja, mais pessoas se apresentaram às urnas no último domingo se comparado ao 1º turno. De 21,08% de abstenção, o percentual baixou para 19,22%, uma diferença de quase três milhões de eleitores que foram votar no 2º turno.
No Estado de São Paulo, segundo o TSE, no primeiro turno a abstenção foi de 7.690.900 (22,54%). Já no segundo, esse número caiu para 6.759.202 (19,81%). No Município, foram em média 276 mil abstenções a menos, ou seja, mais pessoas foram às urnas. Também na capital paulista, Lula ganhou o segundo turno com 55,50% dos votos, frente a 44,50% de Flávio
Problemas no transporte público
O dia de votação foi complicado para muitos moradores de regiões periféricas em São Paulo. Mesmo com a determinação judicial para que o transporte coletivo no município funcionasse com 100% da frota de ônibus praticada em dias úteis, sob pena de multa de R$ 100 mil, diversos eleitores relataram problemas, como demora de ônibus que resultou no aumento da espera.
Gabriel Araújo, 27, morador do bairro Jardim Centenário, em São Mateus, zona leste de São Paulo, conta que levou quase três horas em um trajeto que, em outros dias, leva em média, uma hora. O local de votação dele fica em Itaquera, na EMEF 8 de Maio, para realizar o trajeto é necessário utilizar dois ônibus.
“Como já tinha me complicado no primeiro turno, ontem [domingo de eleição] tentei fazer um caminho diferente. Saí às 11h30 de casa e peguei o 407J – Jd. Soares na Av. Rio das Pedras, ele demorou bastante para chegar, veio super cheio e peguei um trânsito absurdo na Avenida Líder”, conta.
Gabriel Araújo é morador do bairro Jardim Centenário, em São Mateus, zona leste de São Paulo, e vota em Itaquera.
Nesse trajeto, ele desceu no centro de Itaquera para pegar o segundo ônibus e aí ficou mais um tempo esperando na chuva. “Nesse momento confesso que fiquei com receio, porque o centro de Itaquera costuma alagar quando a chuva aperta. Fui chegar, mais ou menos, 15h perto de onde eu voto”, diz.
Gabriel conseguiu votar. Ele ressalta que no primeiro turno também teve dificuldades, mas não como no último domingo.
“Eu não tinha a possibilidade de pedir uber, estava muito caro, então só restava aguardar. O caminho da minha casa para onde voto é normalmente uma hora em um dia ruim. Passar tanto tempo como ontem indo para lá foi surreal. E isso acumula com ônibus cheio, chuva, trânsito e briga por lado político. Foi bem complicado, mas consegui votar. Na volta, me impressionei com o tanto de RESERVADO que passava.”
Gabriel Araújo é morador do bairro Jardim Centenário, em São Mateus, zona leste de São Paulo, e vota em Itaquera.
Ônibus da linha 263J – José Bonifácio/Penha com sinalização de Reservado, na Avenida Águia de Haia. Foto: Gabriel Araújo, no trajeto de volta após votação.
Outra eleitora, também do distrito de São Mateus, que encontrou dificuldades para chegar ao local de votação foi a Milena Lopes, 24, moradora do bairro Cidade Centenário. Ela vota no mesmo distrito em que mora, mas em outro bairro, no Jardim da Conquista, no CEU São Mateus.
Milena conta que seu trajeto começou às 11h, ao pegar um ônibus próximo à sua casa com destino ao Terminal São Mateus, o 2290-10 Term. Pq. D. Pedro II. Ao chegar no terminal, às 11h40, o segundo ônibus do seu trajeto seria o 4012-10 Jd. Iguatemi, porém, a jovem permaneceu no local até às 15h40, ou seja, quatro horas de espera, e ainda não havia ônibus disponível.
Milena Lopes, 24, moradora do bairro Cidade Centenário, que vota no mesmo distrito em que mora, mas no bairro Jardim da Conquista, no CEU São Mateus.
“O pessoal da fila começou a conversar e todo mundo praticamente estava indo votar, mas acabaram voltando para casa pela demora, [foram] umas 20 pessoas mais ou menos que desistiram de votar”, relata.
Segundo ela, com a demora, os passageiros foram pedir informações ao fiscal e não encontraram o profissional responsável.
“Por ‘coincidência’ só os ônibus que iam para favela que não estavam chegando e descobrimos depois que eles estavam numa rua sem saída num bairro perto. Como o uber estava 70 reais, e nos dias normais é no máximo 18, eu tive que ligar para minha mãe para ela me buscar de carro, se não eu ia ter que ir embora. Aí ela conseguiu ir me buscar.”
Milena Lopes, 24, moradora do bairro Cidade Centenário, que vota no mesmo distrito em que mora, mas no bairro Jardim da Conquista, no CEU São Mateus.
Com a ajuda da mãe, a eleitora chegou no seu local de votação às 16h30. Ela conta que vota desde os 16 anos e que nunca passou por nenhuma situação parecida em outras eleições. “Sinceramente, muitas pessoas à minha volta deixaram de votar, e os poucos que foram acabaram não conseguindo por conta disso, então acho que impacta sim que a classe baixa, que não tem um carro para se locomover, seja impactada com esse tipo de situação”, avalia Milena.
No primeiro turno, a eleitora teve um tempo de espera menor, cerca de duas horas, mas na ocasião, precisou se deslocar de carro de aplicativo. “Eu tinha compromisso com a faculdade depois e não poderia me atrasar, então tive que pegar um uber, caso eu não conseguisse pagar eu teria deixado de votar também”, diz.
No segundo turno, após conseguir votar, Milena voltou para casa de carona com seu pai, pois, segundo ela, o ônibus ainda estava com uma hora de atraso, isso por volta das 19h.
Para Abraão Aguilera, mestre e doutorando em políticas públicas, existiu uma má-vontade das prefeituras em cumprir a decisão da justiça eleitoral e viabilizar o voto, que aponta ser a realização máxima da democracia.
“As notícias de que, no caso da cidade de São Paulo, a redução das frotas do transporte coletivo foi mais intensa nas regiões em que Lula venceu no primeiro turno, o que pode nos induzir a essa percepção — mesmo compreendendo que, sendo estas regiões periféricas, há de se considerar que é sempre lá que a corda arrebenta”, diz o especialista.
Abraão Aguilera, mestre e doutorando em políticas públicas pela Universidade Federal do ABC (UFABC), coordenador do CAMPP (Centro de Análise e Monitoramento de Políticas Públicas), também da UFABC.
Ele aponta que, em Salvador, na Bahia, local que também houve registros de problema no transporte, o problema foi generalizado: “Os ônibus barrados nas garagens simbolizam bem o cerceamento do direito à decisão de parte do povo, que estava com muita vontade de decidir, vide resultado”, aponta.
A partir de diversos casos envolvendo eleitores com dificuldades para chegar até seu local de votação, o ministro Cristiano Zanin, do Supremo Tribunal Federal (STF), estendeu o horário de votação do segundo turno até às 19h, em todo Brasil. A orientação do Tribunal Superior Eleitoral foi para que, nas seções eleitorais com urnas já encerradas, as seções ainda deveriam permanecer abertas. Já aquelas com urnas em andamento, deveriam seguir com a votação até às 19h.
A decisão da prorrogação, após solicitação direta das duas campanhas que evidenciaram os impactos das chuvas e da locomoção para o eleitor, foi emitida por volta de 16h30, o que impactou na comunicação geral do procedimento correto a ser seguido em todas as seções eleitorais do país, comunicado que aconteceu após às 17h.
Em escolas no Capão Redondo e em outros bairros da zona sul de São Paulo, eleitores encontraram locais de votação com portão fechado antes do horário determinado após prorrogação.
Abraão pontua que a prorrogação do horário aconteceu de forma tardia. “Os impactos foram de uma pequena mitigação da aguerrida redução histórica da abstenção, fenômeno inédito que favoreceu Lula: os números mostram que, os dois municípios citados [São Paulo e Salvador], estão no top três de diminuição de abstenção: São Paulo lidera; Salvador fica em terceiro atrás do Rio de Janeiro, capital”, analisa.
A cidade de São Paulo liderou o ranking de municípios brasileiros que reduziram o número de abstenções. Informações do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), mostram que no primeiro turno 2.137.873 deixaram de votar, já no segundo turno, 1.861.898 eleitores não foram às urnas. O Rio de Janeiro aparece em segundo lugar com 156.041 abstenções, enquanto Salvador ocupa a terceira posição, com uma redução de 85.353 eleitores que se abstiveram do voto no segundo turno.
Morador do distrito de Santo Amaro, zona sul de São Paulo, que foi mesário nas eleições de 2026 e que preferiu não se identificar, atuou no colégio eleitoral da Unisa – Universidade de Santo Amaro, e relata que descobriu sobre a prorrogação em um grupo da faculdade, após às 17h.
O mesário conta que já havia encerrado a seção e seguido com todos os procedimentos finais da urna junto com a equipe responsável pela sala, exatamente às 17h06, e enquanto se preparava para ir embora, recebeu a mensagem de uma amiga sobre a mudança de horário e foi pesquisar, de forma autônoma, se era real a informação.
“Eu fui procurar uma das pessoas do apoio logístico, que é a galera de fato do cartório. Eu mostrei para ela as reportagens. E aí ela falou para mim que não tinha tido orientação nenhuma, mas aí ela foi conferir também no celular. [Nisso] ela foi para o grupo que o pessoal do apoio logístico estava em comunicação com o cartório e eles tinham falado às 16h41 que não teria prorrogação.”
Morador do distrito de Santo Amaro, zona sul de São Paulo, foi mesário nas eleições de 2026 e preferiu não se identificar. Atuou no colégio eleitoral da Unisa – Universidade de Santo Amaro.
Ele relata que, após essa conversa, chegou a falar com pelo menos mais três pessoas do apoio logístico até chegar no coordenador, que confirmou a informação que recebeu do cartório às 16h41 sobre não ter prorrogação.
“O coordenador falou que a orientação era só todo mundo voltar para casa, que tinha acabado a votação e era isso, e que isso era coisa com o cartório e que o cartório que tinha essa responsabilidade e não a gente”, detalha sobre o encaminhamento dado pelo Cartório da 246ª Zona Eleitoral de Santo Amaro.
Ele conta que foi embora do colégio eleitoral por volta das 17h40 e na saída, encontrou pelo menos quatro eleitores que estavam chegando no portão para votar, mas não conseguiram porque o colégio eleitoral já estava fechado.
“Eu achei muito estranho essa falta de orientação do cartório, meio que eles terem ignorado a ordem assim do STF. Mas eu achei também que a ordem do STF veio muito em cima, pelo menos pelo que foi publicado na mídia”, relata o mesário.
“A mobilização digital e das ruas deu uma resposta ao revés do ir e vir afetado: Lula virou, aumentando a vantagem de 2022, conquistada sobre o pai de Flávio, atualmente preso por tentativa de golpe de estado. Essa informação não está posta à toa: o não reconhecimento do derrotado após a apuração deve manter o povo que escolheu a democracia de guarda alta”, finaliza Abraão.
@_evelynvilhena
Jornalista e pós-graduanda em Mídia, Informação e Cultura, há nove anos colabora para a construção de um jornalismo comprometido com as pessoas e os territórios periféricos. No Desenrola, transforma diretrizes institucionais em prática editorial, desde a estratégia à produção de conteúdos conectados às realidades dos territórios.
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Dificuldades em descartar resíduos domésticos com a superlotação das caçambas e a convivência com o lixo acumulado nas ruas e vielas do bairro estão entre os relatos.
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Imagine só: você tem várias peças de roupas que não usa mais, que estão paradas há algum tempo, e talvez até um pouquinho velhas, mas, ao invés de jogá-las fora, você transforma tudo em peças totalmente novas e únicas.