“Construindo imaginários”: coletivo criado no bairro do Jaçanã dá aulas de teatro para pessoas encarceradas na cidade de São Paulo

CiA dXs TeRrOrIsTaS possibilita que pessoas encarceradas possam vivenciar novas realidades e construir autonomia.
Compartilhe

Para quem está encarcerado, muitos direitos como cidadãos são retirados, além da privação da imaginação e da liberdade. Contra a lógica proposta pelo Estado, o coletivo CiA dXs TeRrOrIsTaS, desde o ano de 2016, desenvolve um curso de extensão para formar professores de teatro, que fazem o trabalho de, nas palavras de seu criador, Murilo Gaulês, “fortalecer quem está no cárcere”.

Murilo Gaulês, cofundador da CiA dXs TeRrOrIsTaS. Foto: Arquivo Pessoal.

“Tem um primeiro benefício que é poder estar semanalmente encontrando com essas pessoas [encarceradas] para poder fazer a manutenção da integridade. O segundo é que essas atividades podem virar remissão de pena, então as atividades geram menos dias que essas pessoas vão ficar presas. E o terceiro, que aquele é um lugar de produção de imaginário”, explica.

Murilo é artista e pesquisador de teatro, ele também é cofundador da CiA dXs TeRrOrIsTaS. O coletivo foi fundado no ano de 2016, e utiliza artes e música em seus trabalhos. “É um grupo aqui da zona norte de São Paulo, a gente começou na região do Jaçanã e é um grupo formado por pessoas LGBTQIA+, de periferia.”

Pesquisador conta que há sete anos o coletivo trabalha com egressas do sistema prisional. Foto: Arquivo Pessoal.

O artista fala sobre a ideia de surgimento do coletivo há dez anos: “Tinha uma coisa que a gente entendia na zona norte naquele período: é um lugar muito conservador, inclusive nas periferias. E é o território da cidade que tem o maior número de equipamentos militares por metro quadrado, tem o Campo de Marte, a Associação dos Oficiais da Polícia Militar e a penitenciária do Carandiru. A gente tá repleto desses equipamentos militares num espaço de muita vigilância”, relata. 

Dentro da lógica exposta por Murilo Gaulês, ele conta que muitos dos que conheceu sofreram com o encarceramento.

 “Quando uma pessoa que se ama está presa, você fica preso junto. Porque é um pedaço muito imenso e precioso do seu coração que o Estado tranca dizendo que vai ressocializar quando, na verdade, ele só está terminando de exterminar o que sobrou da humanidade daquela pessoa pela própria ausência de políticas públicas.”

Murilo Gaulês, artista, pesquisador de teatro e cofundador da CiA dXs TeRrOrIsTaS

Por isso, Murilo conta que há sete anos a CiA dXs TeRrOrIsTaS trabalha com pessoas egressas do sistema prisional. O artista diz que existe um pacto entre o coletivo e essas pessoas para não serem capturadas novamente. 

“Com o trabalho de arte, a gente consegue gerar renda para essas pessoas, criar um espaço de construção de debate abolicionista, porque as pessoas vão para cadeia e elas saem de lá acreditando que a cadeia funciona, porque é um espaço de lavagem cerebral”, reflete. 

“Eu pensava que para mim só restava a prostituição”

A atriz Carla Mendes, conheceu a CiA dXs TeRrOrIsTaS em 2019, no início da pandemia, após oito anos de cárcere. Ela conta que a companhia trouxe outra perspectiva de vida para ela naquele momento, e que não se imaginava trabalhando. “Fui me formando como atriz no começo da pandemia. Porque eu não tinha mais nenhuma expectativa de vida, eu jamais poderia imaginar que poderia trabalhar. Eu só pensava que para mim só restava prostituição”, diz.

 “[Eu estava] num abrigo do governo, lá conheci o Murilo e a CiA dXs TeRrOrIsTaS. A gente começou a fazer o primeiro projeto, foi como recuperar o fôlego gritando, um livro e eu aprendi a fazer várias coisas. Eu não sabia mais me maquiar, então eu aprendi a me maquiar, aprendi a fazer o curso de teatro com o Murilo.”

Carla Mendes, atriz e membro da CiA dXs TeRrOrIsTaS

Carla Mendes durante performance artística no Instituto Tomie Ohtake. Foto: Arquivo Pessoal.

Hoje, Carla, que tem 36 anos, trabalha como atriz e diz que criar novos imaginários é muito importante para poder começar a ver o mundo de outra forma e para lutar pelos próprios interesses.  

“Eu me descobri no teatro, hoje em dia eu trabalho, faço freelance. A vida não tá fácil com essa gestão que está agora, com o Ricardo Nunes [prefeito de São paulo], eu faço muito pouco trabalho com o teatro. Mas antigamente eu vivia só do teatro, passei praticamente quatro anos só com o Murilo, vivendo só da arte, desse trabalho que é super gratificante”, conta Carla Mendes.

Teatro no cárcere e abolicionismo

A metodologia de trabalho do artista no curso de extensão aplicado nas prisões é baseada na autora americana, Walidah Imarisha. Murilo explica que, ao se referenciar em Imarisha, utiliza exercícios de imaginar novas realidades – a ficção visionária – para sair de uma lógica reformista.

“O que eu tenho defendido é um teatro abolicionista que olha principalmente para a prática de ficções visionárias, e que vai olhar para uma metodologia de trabalhos e de práticas antirracistas, anti-escravistas, porque a abolição é sobre isso.”

Murilo Gaulês, artista, pesquisador de teatro e cofundador da CiA dXs TeRrOrIsTaS

“Eu não gosto de usar o termo abolicionismo penal, me recuso. Porque para mim e para alguns outros pesquisadores, quando a gente põe o penal no termo, parece que a abolição, que a era da escravidão, acabou, que resolveu. E aí a prisão é um problema à parte, quando na verdade a prisão é uma atualização da senzala”, explica o artista.

Murilo diz que o processo de pesquisa e prática de formação dos professores que irão lecionar para os encarcerados vai desde a conscientização do que é abolicionismo (seu conceito e prática), e também pensar as práticas de teatro.

“[O curso] não é pra dar autoestima para a pessoa sofrer menos na prisão. A gente está falando em construir comunidade, produzir autonomia, em pensar outras organizações possíveis de sociedade, de justiça.” 

Murilo Gaulês, artista, pesquisador de teatro e cofundador da CiA dXs TeRrOrIsTaS

As oficinas de teatro para os encarcerados ocorrem em várias regiões da cidade de São Paulo: na Fundação Casa II, em Santo André, na Penitenciária Desembargador Adriano Marrey, em Guarulhos, ambos municípios localizados na região metropolitana de São Paulo, Penitenciária Feminina de Santana, no bairro de Santana, zona norte da capital, Penitenciária Feminina do Butantã, no Butantã e no Centro de Detenção Provisória II, em Pinheiros, na zona oeste.

Murilo durante as aulas do curso de extensão. Foto: Arquivo Pessoal.

Murilo compartilha o processo de humanização que ocorre com os que participam de suas aulas: “Eu lembro de um menino que veio da Fundação [Casa] e foi fazer as aulas com a gente lá na USP, e a gente tinha uma cena que a turma tinha criado, e eu achava aquilo muito estranho. Porque a gente estava tentando criar novos imaginários e o universo ficcional que eles fizeram acontecia dentro de um bunker, com todo o mundo trancado”, relembra. 

Na cena que Murilo relata, os que estavam contracenando tinham que ficar pedalando bicicletas para alimentar o bunker com energia e plantar batatas, mas o artista relata a participação de um rapaz egresso da Fundação Casa, que fez uma improvisação durante a cena. 

“Esse rapaz, sai da fundação e ele vai fazer uma improvisação das cenas. Ele vai para um canto separado, e é uma cena que eles estão fazendo sem fala. Teve uma hora que eles acharam que ele não estava entendendo, e falaram: ‘Ô, fulano, você vem aqui que a gente está plantando batata’. Aí ele falou assim: ‘Eu não estou plantando batata’. E aí eles falam: ‘Mas o que que você está fazendo, então?’, e o rapaz responde: ‘Eu estou plantando uma rosa porque não tem nada bonito aqui’”, conta o artista.  

Murilo descreve o que o jovem fez como um show de humanidade: “Esses saberes, que são ignorados pelo saber hegemônico, a universidade ignora, a escola ignora e a gente tem um jovem gênio que tem uma visão de uma percepção estética e de narrativa do mundo apuradíssima, mas aquilo não é levado em consideração porque ele não escreve”, diz. 

Murilo conta que é importante fortalecer quem está no cárcere para além do projeto, já que percebeu que nas saídas temporárias que ocorrem na Penitenciária Feminina do Butantã o processo era muito solitário. 

“Você vai na penitenciária masculina em dia de saidinha ou em dia de visita é lotado de mulher na fila, tem muita comida e muita coisa. [Quando] Você vai na feminina, do Butantã, não tem ninguém, as mulheres saem com a roupa do corpo de lá”, diz. 

Murilo com grupo de mulheres durante o sarau. Foto: Arquivo Pessoal.

Por isso, o artista conta que o coletivo se junta a cada três meses com outros movimentos para levar comida e arte até no momento da saída das mulheres que vão deixam o cárcere temporariamente.

“A gente se junta lá a cada três meses com vários coletivos para levar comida. Teve edição que a gente fez sarau. Era muito bonito ver essas mulheres muito felizes declamando poema pro boy delas – um homem trans – que está lá preso e não podia sair”, conta ao lembrar um episódio específico que se transformou em uma declaração de amor. 

Murilo reflete sobre o lugar que o coletivo se põe, frente à institucionalidade que o Estado serve: “Esse espaço de transgredir as limitações que foram dadas para a gente com a imaginação são lugares muito poderosos porque a imaginação é algo que nenhuma instituição pode sequestrar”, conclui.

Mais sobre →

relacionadas

últimas

Em Guaianases, projetos impactam autonomia e a vida de quem envelhece na periferia

Compartilhe

Ao contrário do que muita gente pensa, envelhecer na periferia pode significar vitalidade e pertencimento. Pelo menos é o que têm comprovado os frequentadores do projeto Dia Total e da Academia Black Brothers. Com atividades específicas para a população idosa, as iniciativas têm impactado não só a rotina, mas a saúde física e mental de muita gente pela região.

Acessar o conteúdo