Em Perus, moradores do Sítio Botuquara se organizam para elaborar plano de bairro

Estratégia construída junto à urbanista local traça estratégia de urbanismo periférico.
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O que você faria se não encontrasse o seu endereço no mapa? Em 2018, durante a graduação, a urbanista Thaline Rocha buscava dados sobre o bairro onde mora, o Sítio Botuquara, no GeoSampa, mapa digital oficial da Prefeitura de São Paulo e sistema de informações geográficas utilizado por arquitetos, engenheiros e pesquisadores. A constatação de que o bairro, que conta com 3 mil moradores e fica localizado no distrito de Perus, zona noroeste da capital paulista, na área da Serra da Cantareira, não aparecia no sistema de geolocalização chamou sua atenção. 

A partir disso, a urbanista passou a questionar o apagamento da região e os impactos dessa invisibilidade na implementação de políticas públicas, especialmente de urbanização, diante de problemas como risco de deslizamentos, quedas de encostas e enchentes.

Foi durante a graduação que a urbanista Thaline Rocha passou a questionar o apagamento de seu bairro e os seus impactos. Foto: reprodução/arquivo pessoal.

A região tem um histórico de atravessamentos. Em 2013, parte dos moradores do Sítio Botuquara sofreram com o processo de desapropriação de suas casas, isso por conta da construção do trecho norte do Rodoanel.

“[O abandono da obra] causou um ilhamento social extremo, antes [o Sítio Botuquara] já era um bairro isolado pelas suas condições morfológicas, ou seja, por estar dentro de uma área de serra. Depois desses processos, em relação ao Rodoanel, isso ficou muito mais aprofundado”, conta a urbanista sobre as obras que resultaram em oito anos de abandono. 

“Tinham áreas que com esses anos de abandono se tornaram totalmente inseguras, porque era uma área de mata e muito ermo”, relembra. 

Plano de bairro em construção

Ao finalizar a graduação, em 2021, a urbanista conta que continuou com o seu processo de pesquisas. Em 2024, Thaline, junto com o coletivo Filme Sem Nomes, lançaram o documentário “Com Quantas Barreiras Se Constrói Um Território?”. O curta-metragem conta a trajetória histórica do bairro Sítio Botuquara, e investiga a memória do território, apagada pelas obras do Trecho Norte do Rodoanel. 

Imagem feita em obra abandonada do Trecho Norte do Rodoanel. Foto: reprodução/arquivo pessoal.

Ela explica que durante as filmagens, a comunidade foi se mobilizando novamente sobre as questões do bairro: 

“O documentário começa a mobilizar essa comunidade novamente, sabe? Ao mesmo tempo em que eu me candidato como conselheira do Conselho Participativo Municipal de Perus/Anhanguera. Eu estou nessa figura, como articuladora entre o território e o conselho”.

Thaline Rocha, urbanista, moradora do Sítio Botuquara

Thaline expõe que após ser eleita conseguiu entender que projetos isolados não resolveriam as demandas de seu território. Seria necessário um plano que organizasse as ações que seriam realizadas a curto, médio e a longo prazo, e também atribuir esses feitos dentro do sistema de planejamento da prefeitura, para conseguir os recursos necessários. Isso viria através de um plano de bairro. 

Thaline explica que o plano pode prever alterações de zoneamento, criando áreas de preservação e patrimônio cultural. O documento também faz previsão de uso de equipamentos (como hospitais e escolas), tudo isso com a participação da comunidade.

O plano de bairro do Sítio Botuquara começou a ser construído no ano de 2025 e ainda está em desenvolvimento. A urbanista explica que o documento é uma estratégia de permanência e resistência frente às vulnerabilidades de seu território.

Thaline explica que o plano de bairro é uma estratégia que tenta entender quais são as necessidades da população do território e que também faz o planejamento para o futuro da comunidade. A urbanista diz que com a repercussão junto aos moradores do território e do conselho participativo, algumas ações já estão ocorrendo, direcionando obras para o Sítio Botuquara.

“Enquanto [o plano de bairro] não estiver pronto essas ações ainda não são tão indicadas. Mas eu entendo que a questão dos equipamentos devem ser implantados pela demanda local, a gente tá falando de escola, de creche, UBS, um ecoponto que possa cuidar da questão dos resíduos. [É sobre] obras de infraestrutura que devem ser feitas para a redução de risco como a contenção de áreas ou obras de drenagem, a questão da regularização fundiária e principalmente sobre o controle da ocupação quando a gente olha para um território ambientalmente frágil”.

Thaline Rocha, urbanista, moradora do Sítio Botuquara. 

Thaline explica que, inicialmente, quando foi elaborar o plano de bairro do Sítio Botuquara com os membros da comunidade, a subprefeitura alegava que já existia um documento para o território: “A subprefeitura falava que a gente já tinha um plano de bairro, que foi o elaborado pelo professor Cândido Malta no início dos anos 2000. Tem esse nome ‘plano de bairro’, mas não é um plano de bairro. É um plano regional que olha para o planejamento do distrito”, afirma.

Foto aérea do bairro demonstra o ilhamento social relatado pela urbanista. Foto: reprodução/arquivo pessoal.

Após tentar articular o plano na subprefeitura, a urbanista conta que realizou  negociações com a Secretaria Municipal de Urbanismo e Licenciamento, apresentando o contexto de seu território. No mesmo ano, a primeira parte do plano de bairro foi iniciada, porém, ainda sem a participação ativa da comunidade por conta do escopo proposto pela Secretaria Municipal de Urbanismo e Licenciamento e prazo de entrega da primeira fase.

“A primeira fase do projeto foi feita sem a participação ativa porque não era o escopo da contratação naquela época. Nesse formato de contratação foi a SPUrbanismo contratada e tinha um limite de prazo para entrega desse produto, então ficamos um pouco reféns disso, por isso não foi possível. Mas a primeira fase foi um diagnóstico socioterritorial”, explica a urbanista. 

A segunda fase, que é desenhada atualmente, tem a participação ativa dos moradores da região: “Hoje o Sítio está com uma mobilização muito grande justamente porque a gente também conseguiu reunir um outro instrumento que é o Plano Comunidade de Redução de Risco e Adaptação Climática. A gente tem mobilizado muita gente, fazendo ações semanais, que vão de certa forma preparando o Sítio para receber esses processos de participação “, diz. 

Além das reuniões do PCRA a urbanista conta que existem outras mobilizações feitas semanalmente com a comunidade como roda de mulheres, oficinas propositivas e atividades táticas semanais. 

“Normalmente a gente tem uma regularidade de fazer reuniões semanais com temas diferentes. Então não necessariamente é só sobre o plano de bairro [que as reuniões ocorrem] é para as questões territoriais”, expõe a urbanista.

Primeiros moradores do Sítio Botuquara durante a década de 1970. Foto: reprodução/arquivo pessoal. 

Outra questão que está sendo discutida atualmente no plano de bairro do território, junto com o Plano Comunitário de Redução de Risco e Adaptação Climática é a demarcação do Parque da Serra da Cantareira. Thaline explica que inicialmente foram propostas remoções de moradia na área. Por isso, a curto prazo, uma equipe está tentando traçar um contra projeto que prevê a permanência da comunidade e viabilize o parque, garantindo a dignidade dos moradores do território. 

O projeto será finalizado ainda em 2026 e será incorporado ao plano de bairro, já que para a urbanista um dos objetivos imediatos do plano é olhar para a questão do risco e a segurança nas habitações de seu território.

“A gente vai ter um aprofundamento técnico comunitário de excelência que tem sido feito com o PCRA, e que vai poder subsidiar essa dimensão do plano de bairro. Que é quase como se fosse uma fase anterior, e que isso seja incorporado no sistema de planejamento do município, porque o plano de bairro, tem essa legitimidade”, conclui.

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