“Mudou minha percepção sobre desigualdade no mundo”, pedagogias Hip-Hop ampliam repertório de jovens periféricos

Mais de uma década após o primeiro contato com as pedagogias Hip-Hop, ex-alunos contam como os aprendizados da adolescência continuam presentes em suas trajetórias.
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Durante a adolescência, a escola foi mais do que um lugar de aprendizados para Anderson Ferreira, 30, e Victória Bassan, 29. Foi também nesse período que os dois tiveram o primeiro contato com as pedagogias Hip-Hop e passaram a compreender questões como racismo, desigualdade social e identidade a partir das próprias trajetórias. Mais de uma década depois, já adultos, ambos dizem que as vivências e os aprendizados daquele período continuam influenciando a forma como entendem questões sociais e como se relacionam com a comunidade.

“Mudou completamente a minha percepção sobre a desigualdade no nosso mundo, seja ela social, de classe, de raça ou de qualquer outra coisa”, comenta Victória Bassan, administradora pública e dançarina do estilo urbano Krump, moradora da Penha de França, zona leste.

Foi durante o Ensino Médio, em uma aula de Educação Física chamada “Corpo”, que Victória teve o primeiro contato com a metodologia. “Eu lembro que, na época, eu super amei e falei: ‘Caramba, aula de Hip-Hop, vou querer me inscrever”. Só que foi bem diferente do que eu imaginava, porque ela [a professora] trouxe muito a questão teórica.” Lembra.

Victória Bassan, administradora publica e dançarina de Krump, teve o primeiro contato com as pedagogia Hip-Hop no ensino médio. Foto: Felipa Anastácia/Desenrola e Não Me Enrola.

O Tratado de Paz do Bronx, a história do Hip-Hop e seus elementos foram alguns dos conteúdos trabalhados ao longo de um semestre. A experiência despertou em Victória o interesse de conhecer mais sobre a cultura para além da sala de aula. Foi assim que ela chegou à Casa de Cultura do M’Boi Mirim, na zona sul de São Paulo.

“Eu vim para cá [Casa de Cultura do M’Boi Mirim] e comecei a me interessar cada vez mais pela cultura. Ela [a professora] sempre falava sobre a história, explicava fundamentos para além da aula de dança em si, sempre falava para a gente de eventos que estavam tendo pela cidade para a gente ir, e eu comecei a frequentar”, conta Victória.

A aproximação com a cultura afro-brasileira também transformou a maneira como Victória enxergava as relações raciais. “Eu comecei inclusive a me perceber como uma pessoa branca numa sociedade racializada que a gente vive e também comecei a querer trabalhar mais em prol de uma mudança social de acordo com o que eu passei a perceber”, afirma.

Victória seguiu a adolescência frequentando a Casa de Cultura todos os sábados e também eventos ligados à cultura Hip-Hop ao longo da semana. A experiência não marcou apenas aquele período. Anos depois, ela ainda enxerga o Hip-Hop como uma ferramenta de transformação social.

Anderson Ferreira, conhecido como Basq, foi aluno da ONG Casa do Zézinho, onde participava da oficina chamada Hip-Hop. Durante a adolescência, também frequentou a Casa de Cultura do M’Boi Mirim, espaço que utilizava para os encontros do grupo de dança urbana o qual fazia parte. Hoje, atua como designer gráfico e reconhece que os aprendizados daquele período continuam presentes em diferentes áreas da sua vida.

“A pedagogia Hip-Hop impactou muito na minha vida, né? Tanto no cotidiano histórico quanto de aprender sobre a cultura, de aprender sobre o movimento hip hop. E ela meio que moldou tanto meu estilo de vida, quanto o que eu conheço hoje, o que eu acredito hoje na minha vida, no meu trabalho”, conta Anderson.

Morador do Capão Redondo, na zona sul de São Paulo, ele chegou a se tornar monitor da oficina que frequentava. Mas antes de se aproximar do movimento, precisou lidar com o estigma que cercava a cultura Hip-Hop.

Anderson conheceu a cultura Hip-Hop atrás do Rap, Racionais MC’s era seu grupo favorito. Foto: Felipa Anastácia/Desenrola e Não Me Enrola.

“Conheci essa cultura através do rap, né? Foi o primeiro contato que a gente teve direto com o Hip-Hop e a cultura. E aí, dentro disso, também tem a marginalização de quem escuta, e o Hip-Hop acaba sendo mais generalizado. E eu tive um pouco de receio até me conectar de fato e ter esse primeiro acesso”, conta.

À medida que se aproximava das aulas e passava a atuar como monitor, Anderson também começou a buscar mais conhecimentos sobre a cultura afro-brasileira. Segundo ele, esse contato preenchia uma lacuna que não encontrava na sala de aula. “Quando você não tem história, você não tem lembrança do seu povo, você não tem nada. Então, quando se tira a história, você tira a cultura”, relata.

As pedagogias Hip-Hop

Antes de chegar às salas de aula, o Hip-Hop nasceu como uma expressão cultural nas periferias do Bronx, nos Estados Unidos, na década de 1970. Movimentado principalmente por jovens negros, a cultura reuniu diferentes linguagens artísticas, como a música e a dança.

Cristiane Dias, a Big-Girl Cris,  é dançarina de Breaking e arte-educadora, do Jardim São Luís, zona sul de São Paulo,  ela pesquisa as pedagogias Hip-Hop e acompanhou de perto essa experiência como professora de Victória, em 2014, e Anderson, 2012. Autora dos livros “A pedagogia Hip-Hop: consciência, resistência e saberes em luta” e “Hip-Hop: pedagogias e as vozes periféricas”, ela explica como essa abordagem pode transformar a relação entre estudantes, cultura e conhecimento.

Segundo Cristiane, o Hip-Hop entra no mundo acadêmico na década de 1990, a partir da consolidação de um campo de estudos chamado Hip-Hop Studies. Essa pedagogia atua utilizando uma metodologia chamada “docência compartilhada”, que consiste na construção coletiva do plano de aula ou das atividades, reunindo educadores, artistas e pesquisadores.

Cristiane, a Big-Girl Cris, realiza pesquisas com o conceito de pedagogias Hip-Hop dentro da Universidade de São Paulo. Foto: Facebook/Pedagogias Hip-Hop.

Enquanto arte-educadora, Cristiane já desenvolveu essa proposta em diferentes disciplinas. Em Língua Portuguesa, ela trabalhou o rap e a poesia a partir de músicas e produções de artistas periféricos. Na Educação Física, área em que é formada, levou o Breaking para discutir o corpo e suas relações com a identidade. Já em Geografia, trabalhou os territórios periféricos a partir da realidade em que os alunos estão inseridos, questionando os estigmas e os preconceitos associados a esses espaços.

“A gente entendeu que era importante ter essa ideia de estar dentro da escola, mas não dentro numa atividade extracurricular, dentro do currículo junto com o professor, ali dentro de alguma disciplina, seja ela qual fosse”, afirma.

Cristiane também destaca a necessidade de olhar para o entorno da unidade escolar e para as culturas presentes naquele território. Para ela, a aplicação das pedagogias Hip-Hop passa por um processo de escuta e diálogo com os estudantes, entendendo as realidades e experiências que atravessam aquele espaço. Nesse processo, o mapeamento do território se torna uma ferramenta para que educadores conheçam melhor o contexto em que a escola está inserida e possam construir práticas que dialoguem com essa realidade.

“Se eu não dialogo com o que tá em torno, com as culturas juvenis em torno, como que eu vou atuar dentro de sala de aula? As pedagogias Hip-Hop só fazem sentido se também você trouxer a sua experiência de vida. Então, independentemente se você é do Hip-Hop, vai ter um trecho da sua história que vai impactar a vida daquele estudante”, pontua.

Cristiane atuando junto com outros artistas e educadores na Emef Professora Célia Regina Lekevicius Consolin, Parque Novo Mundo, zona leste. Foto: Facebook/Pedagogias Hip-Hop.

Ao longo de sua trajetória, Cristiane levou as pedagogias Hip-Hop para mais de 50 escolas da Grande São Paulo, além de também atuar em polos de cultura, como a Casa de Cultura do M’Boi Mirim, na zona sul. 

Entre essas experiências, uma das mais marcantes, segundo ela, aconteceu na EMEF Saturnino Pereira, em Cidade Tiradentes, na zona leste de São Paulo. Em uma turma do 7º ano, Cristiane construiu, junto com a direção escolar, artistas e educadores, uma proposta voltada ao protagonismo dos estudantes, abordando também questões de raça e gênero e incentivando a participação dos alunos no cotidiano escolar.

“Era uma sala lida como um problema que no final eles encerram na formatura sendo exemplo para escola. Então, ajudou, melhorou muito o desempenho escolar, nas notas, no comportamento, essa questão do protagonismo”, relembra a arte-educadora.

Cristiane Dias junto com os alunos da EMEF Saturnino Pereira, em 2016. Foto: Facebook/Pedagogias Hip-Hop.

Para Cristiane, os elementos da cultura Hip-Hop atuam como ferramentas de transformação na trajetória dos estudantes. A partir dessas linguagens, ela observa possibilidades de ampliar as perspectivas dos jovens dentro e fora do espaço escolar. 

“As pedagogias hip hop, ela tem impactado diretamente na vida dos estudantes positivamente, digamos assim, é fazendo com que eles criem perspectivas futuras dentro do espaço educacional e acadêmico, a auxiliando ao protagonismo, ao engajamento, ao empoderamento e a uma educação equânime e de qualidade”, finaliza.

A educação antirracista e a Lei 10.639/03

Professora e historiadora, Silvane Silva atua na formação de educadores sobre relações étnico-raciais. Natural de Presidente Prudente, no interior de São Paulo, ela defende que a educação antirracista deve fazer parte não apenas dos conteúdos ensinados em sala de aula, mas também das práticas que orientam o cotidiano escolar.

“A educação antirracista surge com o objetivo de fazer com que as relações raciais possam ser niveladas dentro do currículo da escola, que elas possam também orientar as práticas educacionais. Para que todas as pessoas, independente do seu pertencimento racial, sejam brancas, negras, indígenas, mas que busquem a partir da sua prática pedagógica, construir relações raciais mais saudáveis, mais igualitárias.” afirma.

Silvane atua na formação de professores na educação antirracista e étnico-raciais. Foto: Arquivo pessoal.

A atuação de Silvane na formação de professores também parte de uma lacuna que ela identifica nos espaços de ensino: a preparação dos educadores para trabalhar as relações étnico-raciais. Para ela, construir uma educação antirracista é um processo que depende da formação e da intencionalidade das práticas pedagógicas. 

Isso passa, também, pela necessidade de conhecer a história para além das perspectivas que, segundo a professora, foram ensinadas de forma enviesada e hierarquizada ao longo dos anos. Nesse processo, Silvane defende que as Secretarias Municipais de Educação tenham papel fundamental na oferta de formações que preparem os educadores para trabalhar essas questões em sala de aula.

“Então, tem uma parte que é do indivíduo, do interesse, do compromisso e da responsabilidade de cada educadora e de cada educador, mas tem uma parte que é dos governos, das secretarias de educação, de também promover a formação dessas profissionais de educação”, comenta a professora.

Foi justamente nesse contexto que Silvane, ao lado da professora Jussara Santos, participou da elaboração do “Currículo da Cidade: Educação Antirracista – Povos Afro-Brasileiros”, construído coletivamente por um grupo de professores da Secretaria Municipal de Educação de São Paulo. O material reúne orientações pedagógicas para a educação das relações étnico-raciais e, segundo Silvane, tem como objetivo ser disseminado em todos os territórios da cidade, abrangendo desde a Educação Infantil até o Ensino Médio.

O documento atualiza orientações pedagógicas que já haviam sido construídas anteriormente, incorporando novos conceitos e perspectivas sobre as relações étnico-raciais e considerando também os desafios para a implementação da Lei 10.639/2003.

“Um dos principais objetivos do currículo da cidade é fazer com que as demais áreas de ensino, os professores de matemática, os professores de ciência, professores de filosofia, geografia, todas as disciplinas e áreas possam compreender qual é o seu papel e como é que eu posso fazer essa abordagem”, afirma.

Apesar de mais de duas décadas desde a sua implementação, a pesquisa “Lei 10.639/03: a atuação das Secretarias Municipais de Educação no ensino de história e cultura africana e afro-brasileira“ mostra que a história e cultura africana e afro-brasileira são bordadas majoritariamente apenas no mês em que se celebra o Dia da Consciência Negra. Na mesma pesquisa, 53% das secretárias admitiram que não realizam ações consistentes, e 18% delas não realizam nenhum tipo de ação ou atividade relacionada com o tema.

“[Durante] 12 anos na educação básica a gente fica praticamente na escola, somente aprendendo sobre a cultura branca de base europeia, você realmente vai pensar que existe uma hierarquia entre os povos. Então, é importante para as pessoas para as crianças, adolescentes, adultos, brancos, negros e indígenas que conheçam a formação histórica e social desses três povos. Então, não apenas a base de uma cultura, sendo vista e estudada, porque a hierarquização vem justamente disso”, comenta Silvane sobre a legislação que institui o ensino sobre povos africanos, afro-brasileiros e indígenas.

A pedagogia Hip-Hop também aparece no Currículo da Cidade como uma das metodologias que podem auxiliar os educadores na implementação da Lei 10.639. No documento, ela é apresentada na seção de Musicalidades.

“Uma grande parte das educadoras e educadores das escolas de periferia, especialmente aqui em São Paulo, utilizam a pedagogia Hip-Hop como uma importante ferramenta para a educação antirracista e que funciona muito bem nas escolas, porque tem uma identificação muito forte com os estudantes”, compartilha Silvane. 

Atividade desenvolvida pelos alunos no projeto “A Telescopia Histórica do Breaking”, na EMEF Saturnino Pereira, em Cidade Tiradentes, zona leste de São Paulo. Foto: Facebook/Pedagogias Hip-Hop.

“Então, a gente se utiliza dessa pedagogia para partir do conhecimento do próprio território, do seu próprio corpo, da história do seu povo, os estudantes se sintam fortalecidos e aí eles possam ampliar esses conhecimentos”, detalha. Para Silvane, a presença da metodologia no currículo reforça a possibilidade de utilizar referências próximas aos estudantes para trabalhar a educação das relações étnico-raciais.

Esta matéria foi produzida como resultado do projeto ‘Raízes e Educação: cobertura de conteúdos para promoção da equidade racial periférica, quilombola e indígena na educação brasileira’, realizado pela Coalizão de Mídias e Imagine Futures.

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