“Ansioso e deprimido”, Morador de Itapevi conta sobre sua rotina de trabalho na escala 6×1

Dados do Ministério do Trabalho e Emprego mostram que 14,8 milhões de pessoas no Brasil trabalham seis dias na semana. Redução da escala aguarda votação no senado.
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Atualmente, a política brasileira está em debate sobre o fim da escala 6×1. O movimento, que teve início com o então balconista de farmácia e atual vereador da cidade do Rio de Janeiro, Rick Azevedo, atualmente mobiliza o poder legislativo em torno da aprovação do texto que busca reduzir a jornada de trabalho dos brasileiros para 40 horas semanais, sem redução salarial e com dois dias de descanso na semana, com um desses dias sendo preferencialmente aos domingos. 


Segundo dados divulgados pelo Ministério da Previdência Social no ano de 2025, o Brasil bateu recorde de afastamentos de trabalho por motivo de saúde mental, foram 546.254 benefícios concedidos. Naquele ano, os afastamentos por ansiedade e depressão cresceram 15% em relação ao ano anterior. Somados, já formam o segundo maior motivo de afastamento do trabalho no Brasil. São Paulo é o estado com maior número de afastamentos, chegando a 149.375, em 2025.

Matheus Souza (nome fictício), de 22 anos, morador de Itapevi, região metropolitana de São Paulo, trabalhou dos 18 aos 21 anos em escala 6×1. Ele explica que não precisou se afastar por conta da ansiedade diagnosticada, mas que sofria diariamente com o sentimento.

“Eu ficava todo o tempo cansado, acordava já meio fatigado, falando: ‘Meu Deus, o dia vai começar de novo’. Eu ficava ansioso e deprimido, em alerta o tempo todo.” 

Matheus Souza, universitário, morador de Itapevi.

Rotina de trabalho

A jornada de Matheus com o trabalho na escala 6×1 começou depois da pandemia, no ano de 2022, era seu primeiro emprego, Matheus trabalhava em um galpão de uma empresa de logística localizada em Osasco, região metropolitana de São Paulo.  A empresa realizava entregas para o e-commerce de uma famosa rede de supermercados. “Foi o meu primeiro trabalho depois da pandemia, então eu estava meio desesperado para encontrar algo. Eu não tinha nenhuma experiência, nada que me destacasse no mercado”, conta. 

A princípio, Matheus era encarregado pela separação das encomendas que iriam para os clientes, mas após um tempo ele também começou a trabalhar com a separação de frutas que recebiam no galpão.

“A gente tinha uma meta a bater. Por exemplo, tínhamos que separar de 400 a 800 frutas em um só dia de trabalho. Dependia muito da demanda, geralmente eu conseguia bater a meta, mas às vezes não”, o universitário relata que a pressão para bater a meta era desproporcional por parte da chefia da empresa, mesmo que os funcionários ganhassem por hora trabalhada.

“Eles nos pressionavam muito, como trabalhávamos com frutas, muitas vezes elas estragavam no caminho para o consumidor. Eram frutas mais delicadas como pera e caqui que mofavam, então o consumidor reclamava, né? Por comprar algo e chegar estragado, mas acabava que a chefia descontava na gente.” 

Matheus Souza, universitário, morador de Itapevi.

Durante a sua jornada no setor logístico, Matheus estava estudando para prestar o vestibular. Em sua rotina, o atual universitário conseguia estudar pelas manhãs, mas quando foi prestar a prova do vestibular, em um domingo, o dia acabou interferindo na escala prevista pela empresa.

“Apesar da minha escala ser de segunda à sábado, eles tinham um esquema de rodízio que uma vez por mês a gente trocava o sábado pelo domingo, ou trabalhávamos a semana toda para poder folgar em dois dias na semana”, explica sobre a rotina na época.

“Na primeira vez que fui fazer o vestibular calhou de ser um desses domingos de trabalho, por isso perdi a primeira oportunidade de entrar na faculdade, porque tinha que escolher se trabalhava ou fazia a prova. Se eu faltasse, eles descontariam três dias de trabalho do meu salário.”

Matheus Souza, universitário, morador de Itapevi.

Após deixar a empresa de logística em 2024, Matheus foi trabalhar para uma fábrica do setor têxtil. A empresa, localizada em Itapevi, município da região oeste de São Paulo, trabalha fabricando isolamentos acústicos e produtos têxteis para a indústria e construção cívil. 

“Desde o primeiro momento eu já sabia que não conseguiria trabalhar lá, porque a escala era extremamente puxada. Trabalhávamos de domingo à sexta, e como a indústria é têxtil, a produção funciona de maneira extremamente dinâmica, ou seja, as máquinas não param”, lembra o rapaz.

Sua rotina de trabalho começava pelas manhãs, quando o estudante pegava um ônibus e demorava cerca de quarenta minutos para chegar na indústria, mesmo localizada no mesmo município que mora. Ao chegar, Matheus administrava máquinas de alta-tecelagem para fabricar tecidos para o setor automobilístico. 

“Para ir embora a dificuldade era um pouco maior, ainda mais aos domingos. Porque não tinha ônibus, então eu tinha que esperar cerca de duas horas até passar o transporte”, relembra. 

O estudante lamenta a falta de segurança ao operar as máquinas e poucos equipamentos de proteção individual (EPI’s). “As máquinas eram abertas e não tinham equipamentos de proteção o suficiente, as pessoas poderiam perder os dedos e parte do corpo”, conta. 

“Os auxiliares não recebiam treinamento específico, na minha introdução na empresa, durante o meu treinamento, me falaram: ‘Você tem que tomar cuidado com tal e tal máquina porque já aconteceu de um maninho perder os dedos lá ou ficar paraplégico, você tem que pensar na sua vida’, mesmo as máquinas não tendo segurança nenhuma.”

Matheus Souza, universitário, morador de Itapevi.

Enquanto ainda trabalhava para a empresa têxtil, Matheus passou no vestibular para o curso de Gestão Ambiental no Instituto Federal de São Paulo, ele faria o curso em São Roque, cidade localizada a 26,1 km de distância de Itapevi.

 Rotina de Matheus (nome fictício) envolvia acordar às 5h da manhã todos os dias para ir à faculdade. Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

“Eu perguntei para o pessoal da empresa se isso interferia [no trabalho] e acabou que interferiu indiretamente, porque eu tinha problemas com a condução. No primeiro semestre eu ia inteiramente de ônibus, tinha dias que chegava atrasado por isso”, lembra. 

“Nesse momento eles até entendiam, mas quando chegou o segundo semestre, eles começaram a descontar um monte desses atrasos. Um dia eu estava trinta minutos atrasado, porque estava fazendo uma prova na faculdade e a gerente do RH não deixou eu entrar na empresa”, relata.

“Eu tinha que acordar umas 5h da manhã para pegar o ônibus e ir para a faculdade. No segundo semestre eu achei alguém que me dava carona e aí conseguia acordar às 6h. Quando acabava a aula eu saía correndo pra pegar o ônibus na hora certa, senão chegava atrasado e saía da empresa às 22h ou 23h porque o tempo de dormir também era contado.” 

Matheus Souza, universitário, morador de Itapevi.

“Se eu saísse trinta minutos mais tarde da fábrica, eu já perdia o ônibus e poderia perder uma ou duas horas de sono. Nessa época eu era meio desesperado, saía correndo para chegar na hora, pegar o ônibus, dormir e continuar nesse ciclo”, conta.

Depois de não conseguir entrar no trabalho por conta de seu atraso, Matheus pensou melhor, e resolveu priorizar seus estudos, por isso tentou fazer um acordo com o setor de recursos humanos da fábrica. 

“Eu não quero trabalhar aqui o resto da vida, eu conversei lá se dava para eles me demitirem ou fazermos um acordo para eu procurar um estágio. Eles negaram, então eu tive que ficar mais um ano e cinco meses na empresa até ter um corte geral para me mandarem embora”, conta. 

Durante o tempo que permaneceu trabalhando na fábrica, o estudante alega que foi designado para os piores serviços e, quando se acostumava, era trocado de setor a cada mês. “Quando eu me acostumava com o que eu tava fazendo, me trocavam. Ficavam me colocando em áreas que eu não compreendia nada”, relembra. 

Matheus trabalhou durante um ano e três meses na fábrica têxtil. Atualmente, o estudante que está no quinto semestre do curso de Gestão Ambiental no Instituto Federal de São Paulo, trabalha como jovem aprendiz em um frigorífico.  Matheus trabalha de segunda à sexta das 13h às 22h, e supõe que reação teriam os funcionários de seu antigo emprego se houvesse o fim da escala de trabalho 6×1. 

“Na sexta-feira o pessoal iria explodir de felicidade, eles já ficavam animados quando só tinha um dia para descansar, é outra coisa tendo dois. Vão explodir de felicidade”, imagina sorrindo. 

Porém, para o estudante a luta pela redução de jornada ainda está só no começo: “Para mim o ideal seria a 4×3, mas a elite brasileira e empresários lutam contra todo esse tipo de escala. Eles querem produção a todo o custo, mesmo as pessoas mostrando que a 4×3 é a ideal e extremamente eficaz, [mesmo] que as pessoas se mostram mais produtivas e muito mais alegres na empresa”, conclui.

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