Os moradores do condomínio Parque das Árvores, situado na Avenida Ellis Maas, no Capão Redondo, distrito de mesmo nome, na zona sul de São Paulo, têm se preocupado com a situação das obras na avenida ao lado de suas casas. A construção que teve início no ano de 2022 tem a missão de criar um piscinão para ajudar no escoamento das águas da chuva na região.
O prazo de finalização da obra estava previsto para terminar em três anos, conforme cronograma inicial da prefeitura. Porém, o processo teve dificuldades no momento da escavação. Segundo a Subprefeitura do Campo Limpo, foram encontradas rochas no fundo do que seria a estrutura.
Inicialmente a Subprefeitura alega que está realizando o desmonte dessas rochas sem o uso de explosivos para não impactar as regiões vizinhas. Porém, Silvana Ribeiro, síndica e moradora do condomínio Parque das Árvores, relata que a situação não ocorre dessa maneira. Além do barulho das explosões, a síndica reclama dos estilhaços que atingem as residências. “Já faz um bom tempo que os estilhaços começaram a atingir o condomínio e, desde que uma pessoa foi atingida na avenida, eles passaram a interditar”, conta.

A síndica diz que após um dos estilhaços quase ter atingido uma das moradoras do condomínio no mês de maio, ela entrou em contato com o representante da Secretaria Municipal de Infraestrutura e Obras – SIURB, Marcos Monteiro. “Eu falei direto com o secretário, e ele esteve aqui no piscinão logo em seguida. Ele ficou de criar um grupo no WhatsApp para quando houver as explosões eu ser avisada quinze minutos antes, e também acionarem uma sirene. Nessas últimas explosões não houveram o acionamento da sirene, pelo menos eu não escutei”, relata.

Silvana reclama dos danos que a obra traz para os moradores do condomínio, como o excesso de poeira nas casas e lembra que em 2022, quando a obra teve seu início, não foi realizado o laudo cautelar da vizinhança, documento técnico recomendado para prever os impactos da construção.
A síndica explica que apenas no final daquele ano, após a mobilização dos moradores, e depois de conversas com a SIURB, foi feita uma vistoria cautelar. Ela também afirma que os operários que trabalham na obra não utilizam equipamento de proteção. “Se está ruim pra mim, imagina pra eles que estão ali”, diz.
As casas do condomínio, que existem desde 1992, apresentam rachaduras da fachada até a parte da lavanderia. Dona Lia, aposentada, é uma das moradoras que sofre com as rachaduras. Ao entrar em sua casa é possível perceber as marcas na sala até o fundo da casa, que formam um vão entre sua residência e a do vizinho.



Ainda nos fundos da casa de Dona Lia, há um desnível no piso do chão da cozinha quando comparado ao piso da área de serviço. Ela explica que seu encanamento já estourou e o piso da casa está cedendo, por isso um conhecido refez as tubulações de água e trocou os azulejos a senhora alega que gastou entre 20 a 25 mil reais na obra.
Por quê construir um piscinão?

Segundo o engenheiro civil, membro do Observatório Nacional dos Direitos à Água e ao Saneamento (ONDAS), Ricardo Moretti, um piscinão é construído quando a cidade se expande sem respeitar adequadamente os ritmos da natureza. Ele ressalta a importância das áreas de várzea que cumprem mais ou menos o mesmo papel do piscinão.
“Quando o rio fica cheio e transborda, a calha maior do rio enche espaços que ficam no entorno desse rio, com o tempo, devagarinho essas lagoas vão retornando ao leito, como se fosse uma esponja”, diz o engenheiro.
“Quando eu impermeabilizo tudo, inclusive as várzeas, eu perco essa capacidade da água se espalhar e descer devagarinho para baixo. Com isso começam a acontecer grandes processos de enxurradas, alagamentos, inundações, etc.” – Ricardo Moretti, engenheiro civil membro do Observatório Nacional dos Direitos à Água e ao Saneamento (ONDAS)
Ricardo diz que, em regiões periféricas, o piscinão é afetado pela falta de saneamento e de varrição de ruas nessas áreas, serviços que deveriam ser promovidos pela prefeitura da cidade. “Um piscinão enche e depois ele esvazia devagar, se ele enche de esgoto e lixo, quando esvazia o que fica no fundo é o esgoto”, descreve ao alertar que se o reservatório não for limpo periodicamente, o remanescente de água pode apresentar riscos de doenças para a vizinhança.


“Começar uma obra e não terminar é o pior dos mundos”, diz o profissional quando se refere à construção na Avenida Ellis Maas. Ao analisar as imagens de satélite das obras do piscinão, o engenheiro civil explica que a terra presente na obra, quando chove, impede o escoamento na região, isso agrava as enchentes que ocorrem periodicamente na avenida.
As consequências da construção
Em janeiro de 2026, os moradores do condomínio Parque das Árvores passaram por mais um momento de dificuldade. A enchente que se limitava à Avenida Ellis Maas, onde se localiza o condomínio, ultrapassou os portões e começou a entrar no conjunto de casas.

“Era tragédia anunciada”, diz a síndica Silvana Ribeiro. A gestora do local diz que em novembro de 2025 já havia alertado para as modificações feitas pela obra do piscinão que se localiza há aproximadamente 17 metros do condomínio de casas. Naquele mês, a síndica cobriu completamente a porta da frente de sua casa com concreto para evitar que em uma possível enchente a água invadisse o local.
“Aqui tudo alagou, os vasos saíram boiando, a guarita. Nós perdemos a nossa mesa de interfone, foi um prejuízo de trinta mil [reais]. O porteiro ficou aqui dentro, ele não conseguiu sair, ele teve que subir em cima da bancada e o que deu pra salvar, salvou.” – Silvana Ribeiro, síndica e moradora do Condomínio Parque das Árvores
Em janeiro de 2026, Silvana também teve prejuízos. Ela explica que no dia da enchente, o seu carro, um Fiat Strada (modelo caminhonete) estava parado na frente de sua casa, ela e seu marido fizeram de tudo para tirar o veículo para evitar a perda, que foi parcial, mas quando chegou a vez do outro carro que estava na garagem da casa, não deu tempo. O veículo registrou perda total e está até hoje no mesmo local que estava há cinco meses.

Na mesma avenida do Condomínio Parque das Árvores, encontramos a loja de doces Ki Bolo, da doceira Liliane Santos. A profissional diz que o problema das enchentes pioraram após as obras do piscinão. Ela se mudou para o ponto atual em 2018, após sofrer com alagamentos em outro ponto na mesma avenida. “Como eu já tenho uma clientela aqui, eu decidi ir para um lugar maior e teoricamente mais seguro, mas não foi o que aconteceu”, lamenta.

A doceira afirma que as enchentes aumentaram após a construção e que o prejuízo vem para o seu comércio, pois quando chove os clientes não conseguem chegar até sua loja. No mês de janeiro de 2026, o prejuízo de Liliane foi maior quando a água invadiu seu estoque e ela perdeu parte dos insumos para sua produção: “O valor que perco faz muita diferença no final do mês”, relata.
“Eu não quero ser expropriada”, afirma Silvana, síndica do condomínio Parque das Árvores. Ela vive no local desde a sua entrega, e diz estar conversando com a administradora do conselho participativo do município para entender quais as próximas tratativas sobre o piscinão.
O condomínio Parque das Árvores não é o único a sofrer as consequências das enchentes causadas após o início das obras do Piscinão. Em fevereiro de 2025, após uma chuva forte, o jovem de 24 anos, Erick Santos Silva, foi arrastado por uma enxurrada junto de seu carro para dentro do córrego Água dos Brancos, na região da Cohab Adventista, até hoje o jovem continua desaparecido.
A síndica do condomínio, Silvana relata: “O que aconteceu com o Erick, é que o córrego tem uma largura que deveria ser de quatro a sete metros. Ele tem três. Se eles não abrirem ali, não dá vazão e a água vem pra cá consequentemente”, relata.
Silvana também esteve presente durante reunião do próprio conselho no início do ano, e diz que o secretário da SIURB, Marcos Monteiro, afirmou publicamente que os afetados pelas enchentes seriam indenizados. “Ele falou meu nome lá, ele falou que todas as tratativas que a Silvana trouxe são pertinentes, houve um erro na construção. Agora quando isso vai ser consertado?”, indaga ela, que até hoje, assim como outros moradores e comerciantes da região, esperam retorno.
Em nota, a subprefeitura do Campo Limpo afirmou que: “No Capão Redondo será entregue este ano o reservatório Morro do S. Também está em andamento a canalização de 3 km do córrego Água dos Brancos, as intervenções vão beneficiar 870 mil moradores da região.”
“A previsão de entrega do piscinão Morro do S foi alterada em função da complexidade no desmonte controlado das rochas identificadas no fundo da estrutura, realizado sem uso de explosivos a fim de evitar impactos nas áreas vizinhas”, situação que exigiu mais tempo do que o inicialmente estimado, segundo a nota.
Sobre as enchentes, a subprefeitura explica: “As equipes da Subprefeitura Campo Limpo estão na Avenida Ellis Maas realizando os serviços de limpeza de boca de lobo manualmente e com apoio de hidrojato, lavagem da pista, limpeza e retirada de detritos do córrego” e afirma que a via recebe os serviços de varrição periodicamente.
A subprefeitura, porém, não cita em nenhum momento de sua nota a indenização prometida pela SIURB para afetados pelas enchentes.