Comunidades se organizam para criar estratégias próprias de enfrentamento a enchentes e deslizamentos

Especialistas contam como as chamadas zonas de sacrifício se relacionam com a falta de políticas públicas e efeito das crises climáticas.
Na imagem homens retiram detritos de encosta que desabou após chuva intensa em Pernambuco.
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Ao pensarmos em crise climática, geralmente a imagem que temos é aquela transmitida pela televisão: catástrofes ambientais, tsunamis e furacões, fenômenos que geralmente não ocorrem no Brasil. No nosso país a crise climática acontece no dia a dia, que cada vez mais apresenta secas, ondas de calor e chuvas que impactam os territórios mais vulneráveis. Tudo isso ocorre por conta da ação humana no meio ambiente, através da queima de combustíveis fósseis. 

Segundo relatório feito pelo Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), no ano de 2025, mais de 336 milhões de pessoas no Brasil foram afetadas por desastres climáticos. O relatório ainda indica que no mesmo ano o país passou por sete ondas de chuvas. 

Coordenadora geral da Associação Gris, espaço solidário que trabalha no bairro da Várzea em Recife, Pernambuco, Joice Paixão conta que presta atenção nas chuvas desde o ano de 2022, quando Pernambuco enfrentou fortes chuvas, deixando vítimas fatais. “A gente considera esse período um divisor de águas, foi um período que matou ao extremo. Sabia-se que ia chover muito, mas não sabia que ia ser esse estrago”, lembra a coordenadora da Associação Gris.

A imagem mostra cidade alagada após fortes chuvas.
Chuva que ocorreu entre maio e junho de 2022 causou deslizamentos, e alagamentos. Foto: Thiago Sampaio/Portal Oficial do Governo do Estado de Alagoas

Porém, o estado de Joice tem um longo histórico com chuvas e alagamentos. Segundo artigo divulgado pela Fundação Joaquim Nabuco, o primeiro alagamento registrado oficialmente foi ainda durante o período colonial, quando o rio Capibaribe transbordou por conta de um temporal, no ano de 1632. Recentemente, os alagamentos em Pernambuco têm vindo em intervalos de tempo menores, e atingido territórios mais vulneráveis. 

Em fevereiro de 2025, segundo dados da Prefeitura do Recife, a cidade registrou em apenas três horas, 96 milímetros de chuva, deixando mais de 130 pessoas desalojadas e ao menos três mortos. Um deles morava no bairro da Várzea, André Fernandes tinha 43 anos e foi arrastado pela correnteza. Três meses depois, as chuvas intensas voltaram a assolar a capital pernambucana, desta vez com um deslizamento de terra atingindo o bairro da Bomba do Hemetério, na Zona Norte. A mesma encosta já havia desmoronado no ano de 2015, provocando a morte de dois homens, também durante um temporal.

Zonas de Sacrifício, lugares historicamente negligenciados

Segundo a geocientista Maíra Silva, o conceito de Zonas de Sacrifício nasce nos Estados Unidos em 1993 através do cientista Robert Butler. Ele conceituava esses locais como territórios habitados por comunidades de baixa renda, territórios majoritariamente negros ou minorias raciais e com grupos marginalizados pela sociedade, que recebem uma carga desproporcional de poluição industrial, esses grupos também podem sofrer com riscos e degradação ambiental que pode afetar sua saúde.  

Em Recife, de acordo com dados levantados pelo Instituto Pólis em 2025, 60,4% da população era composta por pessoas pretas e pardas, porém nas favelas esse número era superior chegando a 73,8%. 

Para Joice as zonas de sacrifício são locais historicamente negligenciados e vulnerabilizados. São nesses territórios que ocorrem grandes violações de direitos básicos, como: o direito à moradia, saúde, educação e ao bem viver. “As pessoas que vivem nesses territórios, elas param de esperançar, param de sonhar”, relata.

“O recorte racial ele não é um elemento ou um dado, mas passa a ser uma categoria analítica para que a gente possa fazer a leitura desses processos.”

Joice Paixão, coordenadora geral da Associação Gris.

Maíra Silva detalha que, no Brasil, as Zonas de Sacrifício podem se concentrar nas periferias urbanas ameaçadas pela falta de políticas públicas efetivas que geram a ausência de adaptação climática, e também pela ameaça do setor imobiliário. 

Em territórios indígenas e comunidades tradicionais, a poluição pode vir pelo ar e pela água e com locais que têm a ausência de saneamento. Já nas comunidades rurais há um efeito direto causado pela coexistência com outros setores da indústria (agropecuária, mineral e de energia).

“A responsabilização pelo desenvolvimento das zonas de sacrifício deveria ser conjunta entre o setor político e o empresarial, com o melhoramento das leis e monitoramento de leis pré-existentes. Porque por parte do governo há uma baixa na fiscalização e afrouxamento das leis necessárias para monitorar a conduta das empresas [mineração, agronegócio e outras].”

Maíra Silva, geocientista

Um exemplo, é o PL 2159/2021, apelidado como “PL da devastação”, o texto aprovado pela Câmara flexibiliza o licenciamento ambiental no país, permitindo o autolicenciamento através de formulário na internet, a lei também isenta o licenciamento ambiental para várias atividades e empreendimentos econômicos como agricultura e pecuária.

Planos Comunitários de Redução de Risco e a devolução do pertencimento

Joice explica que após as chuvas de 2022 houve a necessidade de organização e letramento climático através de territórios que sofriam com a ausência do Estado. Por isso a Associação Gris em parceria com a Rede de Governança para o Enfrentamento ao Racismo Ambiental (GERA), no ano seguinte começaram a implementar os Planos Comunitários de Identificação, Gestão de Risco e Adaptação (PCRA). 

Os PCRA consistem em formar os moradores de um determinado território no processo de letramento digital, para que as pessoas consigam ler dados como: imagens de satélite com nuvens que preveem chuvas, e se preparar para as possíveis adversidades, com planos de ação e evacuação de um território. 

Além disso, o PCRA atua em conjunto com trabalhadores do ramo da cultura, que fazem vídeos instruindo as pessoas sobre o que fazer em situações de emergência. Para a coordenadora geral da Associação Gris, o PCRA faz com que os territórios se conheçam, porque no início do processo é feito um mapeamento completo do local para identificar os riscos.

Integrantes da Associação Gris realizam o mapeamento de território no Recife durante atividade de Planos Comunitário de Identificação, Gestão de Risco e Adaptação
Processo de mapeamento de território. Foto: Arquivo Pessoal/Joice Paixão

Em Vila Arraes, a implementação do plano começou em 2025 com a aplicação de um longo questionário no território, para que fosse traçado o perfil da comunidade, também foram feitas assembleias para a implementação do PCRA. Diante das chuvas, os moradores são treinados para evacuação segura de suas casas, o bairro também conta com o sistema de Família Guardiã, que cuida de outras em situação mais vulnerável, ou seja essa família auxilia as demais que tenham pessoas idosas, com deficiência, gestantes que estão no último trimestre e mulheres puérperas diante de possíveis chuvas.

Em 2024 a iniciativa dos Planos Comunitários de Identificação, Gestão de Risco e Adaptação recebeu o prêmio Periferia Viva, já no ano seguinte os planos foram transformados em Política Pública, atualmente sendo aplicados em três territórios da capital de Pernambuco (Vila Arraes, B13 e Beira Rio). “Eu quero expandir para as outras comunidades até chegar na divisa”, diz Joice compartilhando seus planos para o futuro.

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