“Nunca fui magrinha”: entrevistadas falam do uso de canetas emagrecedoras e pressão estética nas periferias

Especialistas comentam que o padrão de beleza nas periferias também está associado à renda, escolaridade, condições de trabalho, mobilidade urbana e racismo alimentar.
A imagem mostra canetas emagrecedoras das cores azuis e cinzas com o fundo de caixas de remédio. Caroline Morais/Ministério da Saúde
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Em 2019, chegava no Brasil um medicamento que inicialmente tinha como objetivo tratar a diabetes tipo 2, o Ozempic. Nos últimos anos o uso da medicação tomou novos rumos: seu princípio ativo, a semaglutida, tem sido utilizada para fortalecer antigos padrões estéticos de emagrecimento, para além do seu objetivo inicial. Somado com outras canetas emagrecedoras, o uso desses medicamentos saltou 88% em 2025, segundo o Conselho Federal de Farmácia.

A descoberta dos benefícios do uso das canetas para emagrecimento, também trouxe problemas ligados à compra e aplicação do medicamento sem prescrição médica.  Joana Almeida (nome fictício), mora no Campo Limpo, zona sul de São Paulo, trabalha como auxiliar administrativo, e viu nas canetas emagrecedoras a chance de perder peso mais rápido. 

“Eu já estava em processo de emagrecimento por conta própria, havia perdido dez quilos, trabalho em uma clínica e uma pessoa que trabalha aqui e numa farmácia conseguiu pra gente o medicamento”, conta. 

Joana resolveu começar a usar a caneta emagrecedora Mounjaro, que tem a tirzepatida como princípio ativo, em dezembro de 2025. Ela diz que cada caneta era original e custava mil reais, ao todo, a auxiliar administrativo utilizou quatro canetas durante os quatro meses seguintes. “Não fez diferença o valor na minha renda, pois consegui parcelar”, descreve a moradora da zona sul sobre como custeou o uso do medicamento.

Ela tomou o remédio sem orientação médica, e conta que mesmo confiando no vendedor, ainda não tinha segurança de usar o medicamento sem a indicação de um especialista.

“O que eu fiz não recomendo, porque é a saúde da gente. Eu não aconselho a tomar remédio nenhum sem prescrição médica.” Joana Almeida (nome fictício), Auxiliar Administrativo moradora do Campo Limpo .

A auxiliar administrativo deixou de aplicar a medicação e hoje segue fazendo dieta e exercícios físicos. Joana relata que sempre sentiu pressão em relação ao seu corpo, por isso buscou o tratamento para, em suas palavras, melhorar. “Nunca fui magrinha, e dentro de casa, mãe, irmã ou amigos sempre faziam algum tipo de brincadeira que minavam a minha confiança”, conta.

A retomada da cultura da magreza

Liamar de Oliveira, psicóloga clínica e coordenadora executiva do AMMA Psique e Negritude – centro de formação, pesquisa e referência em relações raciais – explica que a história é cíclica e que se há um tempo atrás havia o discurso de aceitação de todos os corpos, atualmente, é diferente.

A psicóloga comenta que através desse dado é possível perceber o apagamento do corpo diverso pela indústria, que impõe o padrão do corpo magro, branco e jovem. 

A psicóloga explica que nas periferias o imaginário sobre padrões de beleza é transformado no crescimento. “Esse imaginário é povoado pelo território que eu pertenço, no terreiro que vou ou na escola de samba, nas mulheres ou outros corpos que tenho à minha volta. Ele é muito importante, esse lugar de pertencimento, a gente se faz nessa relação”, coloca. 

“Essa ideia é de uma construção de uma identidade, ela se dá nesse encontro com outras pessoas. Enquanto eu estou nesse grupo menor, eu estou vendo em alguma medida pessoas parecidas comigo. Então eu tenho essa ideia de que aquilo em alguma medida, é o ideal”, afirma Liamar.

De acordo com psicóloga, padrão de emagrecimento pode ser percebido através dos desfiles de moda. Foto: Reprodução/Arquivo Pessoal

Ela acrescenta que, ao longo do tempo, as pessoas são bombardeadas por muitas imagens, seja de pessoas ou experiências que não condizem com a sua própria realidade. “Esse atravessamento entre classe, raça e gênero é vital para entender o que é apresentado ou bombardeado mesmo para todos os imaginários, do que é esse corpo ideal”, explica Liamar.  

Ela relata o racismo como mais uma das camadas desse debate e seus impactos na subjetividade, pois além das violações e violências, um corpo que no passado já foi diretamente desumanizado, agora reivindica sua existência. 

“Então, para que esse corpo exista, esse ideal posto eurocentrado precisa ser completamente desconstruído, reposicionado, excluído, eliminado. Para que os corpos de fato sejam livres, a gente precisa concentrar na sua diversidade mais ampla, né? Então, a raça é mais um fator que exclui e distancia as pessoas negras do que é esse suposto ideal que nem deveria existir.”

“A caneta silencia a minha fome, o meu desejo de comer. Muitas vezes o desejo de comer não é simplesmente de se alimentar do churrasco, daquele bolo que minha avó fez, que é uma delícia. É de estar junto, porque quando eu recebo o bolo, eu recebo a febre, este é o momento em que a gente está conversando. Se eu silencio essa fome, eu estou silenciando essa nutrição que eu tenho, não só a nutrição do alimento,  mas da partilha, a nutrição do encontro.” Liamar de Oliveira, psicóloga clínica 

As nutricionistas Ana Luiza Moraes e Indira Ramos, da Rede Ajeum – Coletivo de Nutricionistas e Estudantes de Nutrição Negras e Negros, alertam para o risco de transformar as canetas emagrecedoras em um atalho, sem a avaliação clínica adequada por conta de pressões estéticas e promessas de resultados rápidos, e como isso obscurece os riscos que esses medicamentos podem oferecer à saúde.

A auxiliar administrativo, Joana, diz que as reações foram mistas entre os seus amigos, quando souberam que ela estava tomando a medicação. “Algumas pessoas não acharam certo tomar sem prescrição, outras falaram pra tomar mesmo pra ajudar [a emagrecer], mas eu respondia que como já tinha muita gente tomando, e a própria pessoa que vendeu tomava não tinha problema”, relata.

O padrão de beleza nas redes sociais

“As pressões estéticas criam uma ideia de que secar rápido é uma obrigação pessoal e um sinal automático de sucesso e saúde. Isso favorece decisões apressadas e que podem resultar em graves consequências. Nesse cenário, medicamentos originalmente desenvolvidos para tratar doenças passam a ser usados com finalidade estética, o que levanta questões éticas e de segurança.” – Ana Luiza Moraes e Indira Ramos, representantes da Rede Ajeum – Coletivo de Nutricionistas e Estudantes de Nutrição Negras e Negros

O papel de perfis nas redes sociais também é um sinal de alerta, segundo as profissionais. “Posts e relatos de influenciadores e celebridades que usam o medicamento, ampliam o desejo por um corpo que atenda aos padrões estéticos considerados ideais e, assim, indiretamente estimulam o uso dessas medicações, mesmo quando não há indicação médica. Fato que coloca em risco a saúde dessas pessoas, visto que os riscos e efeitos adversos da medicação são, muitas vezes, negligenciados”, detalham.  

Redes sociais com relatos de influenciadores que usam o medicamento, ampliam o desejo por um padrão, dizem as nutricionistas representantes da Rede Ajeum. Foto: Reprodução/Arquivo Pessoal
Foto: Reprodução/Arquivo Pessoal

Nas redes é possível encontrar personalidades que propagandeiam procedimentos, como lipoaspiração, rinoplastia – cirurgia de reparo do nariz, bichectomias para retirar a gordura das bochechas, entre outros. 

Tem também aqueles que optam por esconder seus procedimentos ou vender estilos de vida inacessíveis, é o que diz a psicóloga clínica Liamar Oliveira: “Essas pessoas influencers podem produzir efeitos danosos quando apresentam soluções rápidas e supostamente mágicas para produzir uma sensação do tipo: ‘Caramba, como que essa pessoa conseguiu tão rápido e eu tô fazendo tudo que ela disse que é para eu fazer e não tá dando o mesmo resultado?’”. 

Segundo ela, por vezes pode acontecer desse influenciador ocultar quais tratamentos ou procedimentos realizou, “ou muitas vezes demonstrar esses procedimentos produzindo nas pessoas uma incapacidade porque não têm dinheiro para comprar o que ela fez”, afirma.

Saúde: orientação médica para processos de emagrecimento

As nutricionistas representantes da Rede Ajeum indicam que o SUS organiza ações com foco na recuperação da saúde, prevenção de agravos e promoção do bem estar. Elas destacaram a iniciativa das Linhas de Cuidado do Sobrepeso e Obesidade em São Paulo, o programa é oferecido pelas Unidades Básicas de Saúde (UBS) e orientam do ponto de vista de gestão o itinerário de cuidado para os usuários das UBS. 

A iniciativa busca garantir o acesso a diferentes ações e serviços de saúde, com níveis variados de cuidado e complexidade articulados entre si para promover o cuidado integral dos pacientes. 

As nutricionistas também lembraram da Estratégia Intersetorial de Prevenção da Obesidade, que também é realizada por parte do governo e propõe a articulação entre setores da sociedade para promover ambientes mais saudáveis e garantir o direito humano à alimentação adequada. Combinando ações de educação alimentar e nutricional, ampliação do acesso a uma alimentação adequada e saudável, incentivando a atividade física, fortalecendo políticas de segurança alimentar e a melhoria das condições urbanas, com atenção especial às populações mais vulnerabilizadas. 

Porém, a dupla ressalta que é fundamental reconhecer que o setor de saúde, isoladamente, não dá conta de responder a um fenômeno social complexo como a obesidade. Além da necessidade de entender a doença como expressão das desigualdades sociais e econômicas que estruturam a sociedade. 

“Ela pode se expressar de forma mais intensa em populações em situação de vulnerabilidade, sendo fortemente influenciada por determinantes como renda, escolaridade, ambiente alimentar,condições de trabalho, mobilidade urbana, racismo alimentar e exposição à publicidade de alimentos ultraprocessados. Por isso, as respostas mais efetivas passam necessariamente por uma abordagem intersetorial”, pontuam Ana Luiza e Indira Ramos. 

Já a psicóloga, Liamar de Oliveira, ressalta o cuidado multidisciplinar em áreas periféricas: “Não dá para a gente ouvir o sintoma, ouvir a queixa e negligenciar todos os outros profissionais que também precisam e devem ser incorporados nesse cuidado. Desde a orientação nutricional, orientação médica, enfim, todas as outras orientações que apoiam ainda mais a efetividade desse cuidado”, conclui.

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