“Ampliar a reflexão sobre a importância do cuidado”: Projeto do Campo Limpo reúne jovens para falar sobre saúde sexual

A iniciativa atende qualquer pessoa – criança ou adolescente – na puberdade com ações que ensinam sobre cuidados com o corpo, menstruação e saúde ginecológica.
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A questão da sexualidade ainda ser um tabu, sobretudo entre meninas e mulheres, faz com que haja uma dificuldade para falar abertamente sobre sexualidade e corpo. É o que afirma a psicóloga, educadora de gênero e sexualidade Elânia Francisca: “A desinformação faz com que as meninas, muitas vezes sem perceber, coloquem suas vidas em risco”, observa a educadora que também coordena o Espaço Puberê, que atua com crianças na faixa dos 8 aos 12 anos de idade, na região do Campo Limpo, zona sul de São Paulo, além de realizar atividades nas regiões leste e norte do município.

Elânia Francisca é psicóloga, educadora de gênero e sexualidade. Foto: reprodução/arquivo pessoal.

Umas das problemáticas da desinformação citada pela psicóloga é a barreira em relação à saúde ginecológica. Elânia relata que a dificuldade está no acesso das mães das crianças que são atendidas à informação, ela diz ainda que conhece pessoas adultas que nunca foram ao ginecologista. “Pessoas adultas muitas vezes acham que a primeira ida ao ginecologista é depois do ato sexual. Então muitas meninas de 17 anos que conhecemos nunca foram à uma consulta ginecológica”, lamenta. 

A psicóloga explica que a ida ao ginecologista é incentivada após o aparecimento das mamas ou da primeira menstruação, porém, ainda há uma resistência das famílias para que entendam a importância da consulta com o profissional.

Segundo pesquisa feita pela Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo) em 2019, a maioria das consultas realizadas por jovens acontecem apenas aos 20 anos, para prevenir doenças, esclarecer um problema ginecológico ou por suspeita de gravidez. 

O papel da saúde sexual contra a desinformação

O Espaço Puberê, utiliza a pedagogia pubertária – abordagem que transforma a educação em sexualidade e o acolhimento pedagógico em uma prática libertadora, informativa e segura para as crianças e adolescente que vivenciam a puberdade –  para pensar na ideia de adolescência como um marco político-corporal. Em suas rodas de conversa e oficinas, a psicóloga explica e desconstrói conceitos, como por exemplo, a contracepção. A educadora diz que muitas vezes o implante contraceptivo é oferecido às jovens sem que outros métodos sejam disponibilizados.

O Espaço Puberê utiliza a pedagogia pubertária em sua abordagem com crianças e adolescentes. Foto: reprodução/arquivo pessoal.

Elânia critica a atuação do poder público no combate à desinformação sobre saúde feminina, mesmo que tenham acontecido alguns avanços, como a expansão da aplicação do implante contraceptivo subcutâneo de forma gratuita na rede de saúde para mulheres com idades entre 18 e 49 anos. “De um lado, a gente tá vivendo um passo para frente, que é a questão do Implanon e 10 passos para trás, que é essa questão de proibir a discussão sobre gênero e sexualidade em qualquer espaço.”

Ao falar sobre a liberação do implante para adolescentes entre 14 e 17 anos no SUS, aprovada em julho de 2025, a psicóloga lembra: “A gente tem que entender que a contracepção tem que ser uma escolha, não uma imposição. Quando eu digo: ‘Olha, você vai colocar o implante porque sua mãe engravidou na adolescência, então você também vai engravidar’, é como se a gente tivesse prevendo um futuro para a menina periférica”, aponta.

“A ausência da educação sexual gera vários desdobramentos e a gente está vivendo agora esses desdobramentos. Um [deles] é a desinformação sobre a importância da ginecologia, do autocuidado, do olhar para o teu corpo independente do ato sexual com a outra pessoa.” 
Elânia Francisca, psicóloga e educadora de gênero e sexualidade, Coordenadora do Espaço Puberê.

A restrição que muitas meninas têm sobre temas relacionados à saúde sexual também pode apresentar um perigo sobre o acesso de informações ao tema. Elânia relata que muitas vezes esse assunto fica restrito à família, e que quando a jovem não conversa, acaba buscando na internet ou pedindo ajuda à Inteligência Artificial, que pode organizar as informações de forma que não faz sentido. Esse cenário não é o mesmo para meninos, que aprendem desde cedo sobre sexualidade e a sexualizar o corpo feminino, segundo ela.

Elânia ressalta que a luta contra a desinformação é conjunta. Foto: reprodução/arquivo pessoal.

Para a psicóloga, essa desinformação sobre saúde sexual causa vários riscos ao bem estar e à saúde de meninas e mulheres, como aumento de casos de violência sexual, aumento de infecções sexualmente transmissíveis (ISTs) e risco de não usar métodos de prevenção adequados. “A desinformação faz com que as meninas, muitas vezes sem perceber, coloquem suas vidas em risco. Se vive um risco de contrair uma IST mais com maior frequência, por exemplo, a sífilis”, ressalta.

A análise das Infecções Sexualmente Transmissíveis (ISTs), com base nos dados de 2024 e 2025 do Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas (INI/Fiocruz), revela um aumento expressivo nas notificações. A sífilis aparece em primeiro lugar no total de doenças de notificação compulsória no país em 2025, com um crescimento de 80,9% nas notificações, saltando de 603 casos em 2024 para 1.091 casos em 2025 no país. A infecção concentra-se majoritariamente em jovens e adultos entre 18 e 49 anos, com um pico na faixa de 18 a 29 anos para ambos os sexos. No ano de 2024, foram registrados 12 casos de sífilis em crianças e adolescentes com idades entre 0 e 17 anos, sendo 8 em indivíduos do sexo masculino e 4 do sexo feminino. Já em 2025, foram notificados 8 casos, com 5 registros no sexo masculino e 3 no sexo feminino.

Quando fala sobre caminhos possíveis para enfrentar a desinformação, Elânia aborda a construção de referências a partir da periferia, coletivamente. “O nosso papel é contribuir numa luta [contra desinformação] que nunca foi individual, sempre foi coletiva. Não nos interessa ser influencer, ter um monte de seguidores. Mas nos interessa, junto com outros grupos e coletivos, de produzir conhecimentos a partir da borda”, diz. 

“A maioria das coisas que a gente têm sobre saúde sexual e reprodutiva de adolescentes, vêm de alguém que não vive a realidade que a gente vive. Nosso papel é fomentar a existência de mais grupos e espaços que falem de saúde sexual e reprodutiva de crianças e adolescentes a partir da borda.”

Elânia Francisca, psicóloga e educadora de gênero e sexualidade, Coordenadora do Espaço Puberê

Elânia explica que o Espaço Puberê e suas ações informam pais, crianças e jovens sobre a puberdade e as mudanças desse período. Para isso, além das rodas de conversa e oficinas, o Espaço entrega para meninas de oito anos que participam de uma escolinha de futebol comunitária voltada para meninas do Campo Limpo, chamada Pé de Moleca, um material nomeado como “kit saúde”, que contém: sabonete, pasta e escova de dentes, pó antisséptico para colocar no tênis, top, desodorante, absorventes, creme hidratante e uma necessaire para guardar tudo.

Kit saúde entregue para as meninas que participam da escolinha de futebol Pé de Moleca. Foto: reprodução/arquivo pessoal.

“A partir daí, a gente começa a desmistificar a primeira menstruação, os mamilos que vão surgindo e o cheiro do corpo. A nossa metodologia é disponibilizar recursos para acolher puberdade como forma de iniciar uma conversa”, detalha. 

A psicóloga diz que através desse momento é promovida uma discussão com crianças, adolescentes e adultos sem afastá-los, mesmo com as pessoas mais conservadoras, porque segundo ela: “uma coisa que todo adulto acha importante é a criança ter a sua saúde preservada, então quando mostramos [o kit] para o adulto, com tudo voltado para a infância as pessoas dizem: ‘nossa, que legal’.”

Atualmente, além da parceria com reuniões semanais na escolinha de futebol, Pé de Moleca, o Espaço Puberê tem parceria com instituições de assistência social, associações de moradores, saúde e educação que se mostrem dispostos a falar sobre sexualidade. 

Nesses locais, as reuniões são esporádicas. “O nosso desejo não é encerrar o diálogo com quem pensa diferente, mas se aproximar para, inclusive, essa pessoa adulta ampliar a reflexão dela sobre a importância do cuidado. É isso que a educação sexual faz”, coloca Elânia. 

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