Pobre de direita? Um convite à reflexão sobre a caricatura do eleitor brasileiro

Neste artigo, escrito após o primeiro turno das eleições, avalio o uso do termo “pobre de direita” e o preconceito com pessoas periféricas a partir dos dados sobre o eleitorado brasileiro.
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Nas últimas semanas houve uma grande mobilização nas redes sociais, é fato que os resultados do 1º turno eleitoral geraram reações nas campanhas de Luiz Inácio Lula da Silva e de Flávio Bolsonaro, mas em todos os memes que encontrei, algo me chamou a atenção: muitos vídeos afirmando que as pessoas que votam em Lula cursaram ensino superior e quem vota em Flávio não.

Essas afirmações me fizeram pensar: nós compreendemos quem é o eleitor brasileiro?

Então, decidi escrever esse texto extremamente resumido para que nós possamos reproduzir menos preconceitos e assim seja possível dialogar com mais pessoas. 

A figura caricata do “pobre de direita”

Bom, há tempos esse termo é utilizado para se referir a pessoas das periferias que votam na família Bolsonaro ou em candidatos correlatos, o primeiro questionamento que devemos fazer é: o eleitor de Lula automaticamente é de esquerda? E o eleitor de Flávio automaticamente é de direita? Bom, afirmo que não.

Ser eleitor nem sempre significa entender e se posicionar em prol de tal espectro, embora constate algum tipo de identificação, essas eleições foram um exemplo clássico: tivemos pessoas assumidamente de direita afirmando voto em Lula estrategicamente porque Flávio ataca a democracia.

Além disso, a população periférica ainda é periférica, um governo social democrata (que combina políticas de inclusão social em meio ao liberalismo econômico) não derruba o sistema capitalista e é justamente por isso que as relações de trabalho continuam problemáticas, pessoas continuam passando fome e o mundo continua flertando continuamente com a miséria. 

Dentro da realidade capitalista a pessoa é responsável por tudo, inclusive pelo seu fracasso, o peso está sob ela, algo que explicaria bem porque acabamos tendo uma identificação com discursos que parecem “libertar”, mas só aprofundam nossas desigualdades socioespaciais, a verdade é que o sistema capitalista não prevê liberdade ao trabalhador, mas o novo modelo neoliberal reforça o quão somos livres, quanto custa a liberdade?

O bolsonarismo vem fazendo um forte trabalho de base, não necessariamente através do PL (Partido Liberal), mas sim de suas coligações, há candidatos que trabalham com projetos sociais, há candidatos em constante comunicação em diferentes regiões e há uma construção junto às lideranças das periferias.

O pobre de direita vira somente uma forma de atacarmos um igual, mas a maior parte do Brasil é composta por pessoas trabalhadoras, e aqui já afirmo que como divulgado em diferentes mídias periféricas, muitas periferias de São Paulo votaram no Lula já no 1º turno, então porque o ataque sempre recaí sob a figura do pobre?

A reprodução do preconceito e escolaridade do eleitor brasileiro

Algo que me assustou em algumas análises em relação ao 1º turno, foi a ausência de compreensão sobre o eleitor brasileiro. Bom, já começo afirmando que segundo os dados do TSE (Tribunal Superior Eleitoral) a maior parte do eleitorado brasileiro é composta por pessoas com ensino médio completo (27,90%), pessoas com ensino superior somam (11,20%). 

Porém, isso é um dado histórico, tendo em vista que em outras eleições a maior parte do eleitorado possuía ensino fundamental, ou seja, estamos avançando em termos de educação e é justamente por isso que precisamos compreender qual é o perfil geral desse eleitor. 

Em relação ao ensino superior, o número que parece pequeno é na verdade uma vitória em relação aos outros anos, resultado das políticas públicas como as cotas nas universidades públicas e privadas.

Flávio Bolsonaro teve votação expressiva em quase todas as regiões do país no 1º turno, a única exceção foi o nordeste em que Lula teve um destaque importante, a pergunta é: com quem falamos nesse tempo? Talvez estivéssemos falando com um eleitor inexistente e esse é um problema.

O eleitor não tem a obrigação de aderir ao voto simplesmente porque existem políticas públicas, há muitas outras situações envolvidas. Compreender a própria classe social também não torna ninguém automaticamente de esquerda, pelo contrário, essa compreensão pode levar a pessoa à identificação com um discurso meritocrático. As políticas ampliaram o acesso, mas a população ainda está enfrentando inúmeros desafios, a adesão de um discurso mais compreensivo com a angústia do trabalhador foi o que fez diferença no 2º turno.

Realizar discursos constantes de que o bolsonarismo é burro também é um erro, uma falta de compreensão de que a inteligência nem sempre é ética e muitas vezes pode ser subvertida, no livro de Ustra (coronel e torturador na ditadura militar) uma das primeiras páginas traz uma citação que fala sobre os que cumpriram o dever de se oporem aos agitadores de armas nas mãos para que a nação não fosse levada à anarquia. 

No dia 11 de outubro fizeram uma imagem de Flávio Bolsonaro com referência à uma propaganda de Mussolini (fundador do fascismo), eles tentaram dar um golpe porque sabem o que estão fazendo e é com essas pessoas que o Congresso está.

Procurar um problema constante na população já é por si só um erro, talvez essa ideia do pobre de direita, nada mais seja que uma criação egocêntrica nossa para não compreender com quem estamos falando ou tentando falar. 

A reprodução de alguns preconceitos só mostra que adquirimos uma fala colonizada e um olhar simplista para o povo brasileiro.

Quero viver até o fim o que me cabe…

– Maiakovski

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