Os principais veículos de mídia do Ocidente (The Economist, The Guardian e The New York Times) reconhecem: o destino político do Brasil deixou de ser um assunto estritamente doméstico para se tornar a chave que redefinirá os rumos da América Latina e do próprio sistema internacional.
“Terras raras” é o nome dado para identificar os 17 elementos químicos essenciais para o desenvolvimento de tecnologia de última geração (carros elétricos, smartphones, microchips, semicondutores, data centers de alta performance), por esse motivo, são conhecidos também como “minerais críticos”. Logo, “críticos” para o avanço tecnológico na era digital e “raros” por dois motivos principais: (1) são difíceis de serem extraídos e trabalhados pois costumam ser encontrados misturados a outros minerais e (2) geralmente são encontrados em pequenas quantidades, ou seja, jazidas são muito valiosas.
A China tem tanto a maior planta industrial do planeta como também a maior concentração natural desses minerais. Esse fator é uma vantagem estratégica gigantesca: os chineses controlam a maior parte do fornecimento dessas commodities para o mundo inteiro e também contam com fácil acesso a esses minerais para o desenvolvimento industrial deles próprios.
Basicamente, toda produção de tecnologia de ponta depende de matéria-prima que vem da China; não obstante, o avanço da indústria dos EUA depende da China. Dado que o processo revolucionário chinês impede que o território deles seja quintal de garimpo para a livre exploração estadunidense dos recursos chineses, para que os EUA não percam a disputa pela hegemonia econômica para os chineses, eles precisam de uma alternativa: se a China detém a maior reserva de terras raras conhecidas do mundo, o segundo lugar é o Brasil. Em suma: a China é a fábrica do mundo, os EUA, o rei que está nu, e o Brasil, a fazenda do mundo (ainda).

Tecnocolonialismo
Até virarem mercadoria, essas 17 commodities (matérias-primas com alto valor agregado potencial no mercado internacional) precisam ser extraídas e transformadas por um ecossistema produtivo que fabrica em escala dispositivos técnicos.
Na divisão internacional do trabalho do segmento de tecnologia de ponta, o Brasil é majoritariamente consumidor de tecnologias de última geração (importador), não vendedor (exportador). Enquanto o Brasil ainda engatinha na exploração dos seus recursos (vantagem estratégica no século 21), os EUA (governado por Donald Trump) se alia aos Bolsonaro para se apropriar das jazidas brasileiras e sabotar a soberania nacional e a prosperidade do povo brasileiro.
Esse potencial represado de pesquisa de ponta, desenvolvimento de patentes, alavancagem industrial, geração de empregos e impulsionamento do fluxo circular de renda doméstico está ameaçado pelo viralatismo de uma extrema-direita que está disposta a abrir mão do protagonismo brasileiro na dinâmica geopolítica do comércio internacional e se contentar com o papel de lacaio do Ocidente. O projeto de Brasil defendido por Flávio Bolsonaro é claro: tornar-se colônia dos EUA e, assim, reproduzir a dinâmica colônia-metrópole no contexto da divisão internacional do trabalho no século 21. Em outras palavras: priorizar o abastecimento aos EUA em detrimento do desenvolvimento industrial brasileiro.
Ameaça imperialista na América Latina
A ofensiva imperialista dos EUA deve intensificar seu modus operandi nos próximos anos à medida que amplia seus frontes de disputa (via hard power bélico) e articula múltiplos subterfúgios (via soft power midiático) para explorar a vocação natural do território brasileiro e latino-americano, sendo um primeiro exemplo já muito explícito o esforço em classificar as facções criminosas como narcoterrorismo para no futuro apresentar uma proposta de incursão militar por terra ao Conselho de Segurança da ONU. Portanto, o segundo turno das eleições presidenciais do Brasil é um momento crucial capaz de redefinir os rumos geopolíticos e sistêmicos do jogo capitalista.
Fato relevante: em carta ao Secretário de Estado dos EUA, Flávio Bolsonaro enviou proposta que oferece a equipe de transição diretamente ao governo em Washington, caso vença as eleições presidenciais.
Colonialismo digital e erosão da esfera pública
O colonialismo digital opera sob uma nova dinâmica extrativista: a transferência contínua de dados da “colônia” para a “metrópole”, convertendo a experiência social e a subjetividade do povo brasileiro em insumo de valor para conglomerados sediados no Norte Global. Sob essa estrutura, consolida-se um processo de ventriloquismo das massas, no qual interesses geopolíticos e corporativos dos EUA passam a vocalizar, pautar e manipular o debate político nacional de fora para dentro (da metrópole para a colônia).
Essa arquitetura acelera a erosão da esfera pública brasileira por meio de uma engenharia algorítmica desenhada para engajar pelo afeto negativo: a viralização sistemática de ideias reacionárias e a formação de um verdadeiro sectarismo (apartheid) digital confina brasileiros em bolhas de desinformação no WhatsApp, Facebook e Instagram que (re)produzem a figura do “inimigo interno”.
Essa estratégia orquestra uma lógica autoimune de dependência no corpo social brasileiro: induz o povo a atuar contra seus próprios interesses em um movimento de auto-ódio, enquanto idealiza o colonizador estadunidense sob a mística de um novo “tecnodestino manifesto”. Essa narrativa ideológica visa naturalizar e legitimar os EUA como “poder coercitivo tutor militar na América Latina”.

Trata-se de uma simbiose entre o poder das infraestruturas das Big Techs ocidentais (como o ecossistema da Meta) e as táticas de guerra psicológica de informação aprimoradas pela extrema-direita global e articuladores como Steve Bannon. Sendo o Brasil um dos países mais cronicamente conectados do planeta e o epicentro geopolítico da América Latina, as redes sociais digitais, então, atuam como ferramentas permanentes de desestabilização democrática, corroendo as bases do contrato social e a soberania do país. Isto é, são aparatos da desestabilização democrática que fragiliza o tecido civilizatório para dividir e conquistar o país — que se hiperdigitalizou antes de ter superado o analfabetismo.