O bem viver que nos reconecta com nossas raízes e nossa liberdade

Entre a ancestralidade, o cuidado coletivo e a luta por direitos, encontramos a força de seguir juntas.
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Na sessão de hoje, quero compartilhar uma reflexão que vem me acompanhando a partir das experiências que tenho vivido nas rodas com mulheres e ao observar a força do povo e das comunidades quando se unem. Tenho percebido o quanto essas vivências coletivas podem ser revitalizadoras, curativas e potentes. Há algo que se transforma quando nos encontramos, falamos, ouvimos e reconhecemos umas nas outras histórias que também são nossas.

Foi nesse movimento que me deparei com o livro Tekoá: uma arte milenar indígena para o bem viver, de Kaká Werá. Fiquei pensando nessas sincronicidades da vida, nesses encontros que parecem chegar no momento em que precisamos ampliar nosso olhar. Pessoas, situações e leituras vão se aproximando e, de alguma maneira, nos ensinam e nos fortalecem na caminhada.

A leitura me trouxe uma pergunta: como falar em bem viver quando somos atravessadas por uma vida dura, por desigualdades e pela falta de perspectivas? Não quero acreditar que viver seja apenas cumprir obrigações e sobreviver às dificuldades. Precisamos de algo que nos mova, nos dê sentido e nos permita experimentar alegria, dignidade e paz.

O pensamento de Kaká Werá me fez refletir sobre a importância de estarmos conectadas conosco, com as pessoas ao nosso redor e com a natureza da qual fazemos parte. Os princípios do bem pensar, bem sentir e bem fazer nos convidam a olhar para a coerência entre aquilo que pensamos, sentimos e colocamos em prática. Como podemos agir com sabedoria se não paramos para nos escutar? Como construir relações mais saudáveis se não reconhecemos nossos sentimentos e a maneira como nossas atitudes afetam outras pessoas?

Tenho sentido isso de maneira muito especial nas vivências do feminino, ao me conectar com irmãs pretas que compartilham comigo não apenas a experiência da raça, mas também saberes, memórias e uma profunda força ancestral. Quando nos reunimos, abrimos espaço para acolher nossas dores, cuidar umas das outras, confiar e construir juntas. É reconhecer nossas potências sem precisar diminuir a potência de ninguém.

Estar em roda, na natureza, junto à terra e seus elementos, também me faz pensar na sabedoria dos povos que preservaram suas tradições, sua cultura e sua memória. Nossos antepassados resistiram para que suas histórias não fossem apagadas. A ancestralidade não está apenas no passado: ela vive nas escolhas que fazemos hoje, naquilo que cuidamos e nos caminhos que abrimos para quem virá depois de nós.

Quando ouvimos umas às outras, começamos a nos enxergar de outra maneira. Reconhecemos nossas histórias, nossas feridas e nossas possibilidades. Sentimo-nos vistas, valorizadas e pertencentes. Compreendemos que não estamos sós e que existe uma força imensa em saber que podemos contar umas com as outras.

Mas esse cuidado não se limita às nossas rodas. Ele também está nas comunidades que se organizam e nas pessoas que vão às ruas para defender direitos ameaçados. A mesma força que nos permite acolher uma irmã pode nos impulsionar a lutar por liberdade, dignidade e justiça. O cuidado não significa se afastar do mundo, mas encontrar forças para transformá-lo.

Precisamos, porém, cuidar dessa força. A desunião, a competição e a dificuldade de reconhecer a potência umas das outras podem nos afastar dos nossos propósitos. Precisamos de consciência, coerência e responsabilidade para não esquecer aquilo que nos reúne.

Conquistamos muito, mas ainda há muito pelo que lutar. Conhecer nossa história, reconhecer nossos direitos, valorizar nossa cultura e cuidar de nós mesmas são conquistas que não podemos tratar como garantidas. Elas carregam a resistência de tantas pessoas que vieram antes de nós e lutaram para que pudéssemos existir com mais liberdade.

Hoje, compreendo cada vez mais que o bem viver também passa por essa conexão com nosso corpo, nossos sentimentos, nossa ancestralidade e nossa comunidade. Passa pela capacidade de transformar o que sentimos e aprendemos em atitudes que fortaleçam a vida.

Seguimos juntas, juntos e juntes, aprendendo com quem veio antes, cuidando do presente e construindo o futuro que desejamos. Porque nossa liberdade também se fortalece quando reconhecemos quem somos, honramos nossas raízes e não soltamos as mãos umas das outras.

Não soltar as mãos é também lutar para garantir direitos humanos que foram conquistados por quem veio antes, senti isso de forma muito intensa fazendo parte da manifestação em frente ao Centro Cultural da Juventude (CCJ), no bairro da Cachoeirinha, na zona norte de São Paulo, no último domingo (18), quando a população se juntou ao chamado do rap se conectando de forma linda, unindo tantas pessoas conscientes deste momento crítico atual. 

Milhares de pessoas conscientes e a força do povo, uma posição diante dos direitos para todos. Sabem que podemos perder tudo isso, e desmontado por pessoas que não querem nosso bem estar, pelo contrário, eu vivi e senti, fiz parte, é isso que Kaká Werá fala, o bem sentir, o bem pensar e o bem fazer. Isso só pode ser vivido se nos unirmos em prol de uma posição política coerente com a raiz, a cor e identidade que carregamos.

Não podemos nos esquecer da força que temos quando caminhamos juntas. Nossa história nos trouxe até aqui, e é com ela que continuaremos abrindo caminhos para a liberdade. Não podemos mais perder, agora que já sabemos quem somos e quem fomos e o que seremos, ninguém mais vai nos calar…

Acompanhem os canais de acolhimento e cuidado do Núcleo Obará:

https://www.obaranucleo.com.br

Contato: (11) 9 6587-2050 Whatsapp para acolhimento e encaminhamento para atendimento psicológico

E-mail: nucleoobara@gmail.com

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