Eu tô sozinho na minha pele. Quando saio de casa e piso na rua, para além da paisagem, as pessoas que habitam o espaço é que fazem o lugar que habito. O que a minha vizinhança aqui na zona leste de São Paulo está produzindo e reproduzindo? Quando eu vou para o extremo da minha zona, o centro, o outro lado da cidade, o interior do estado: o que está sendo (re)produzido por lá?
Adiante, vamos ver que o centro da cidade (onde circula e se amplia o capital financeiro) vota do mesmo jeito que o interior do estado (que agrário e quatrocentão, herdeiros construíram o patrimônio de hoje há pelo menos 400 anos, são donos de hectares que movimentam a economia de municípios inteiros). Na selva de pedra, a lógica territorial é tribal.
A circulação do capital cultural acontece num sistema fechado, eles têm os códigos e os pactos deles: ou você é parte da elite (“escolhida por Deus”), ou você é a ralé (“à Deus dará”). É uma seita.
Eu sou preto num estado que mata sistematicamente pessoas negras sem remorso, sem justiça penal devida. Nunca bobeei e agora não vai ser diferente. O fato é o seguinte: se você é preto em São Paulo, não se engane, você está em território inimigo; porque você é o inimigo que eles querem amedrontar e, se não conseguirem, levar pro saco. Esquecer disso te torna a presa/vítima perfeita. Quando eu saio de casa, essa é a cara do lugar em que eu estou. (Não é alarmismo banal, nas entrelinhas desses dados existem histórias e também uma engenharia que alastra a banalidade da opressão entre os civis e constrói o avesso das racionalidades dos sujeitos.)
Abstenções, nulos e brancos
O comportamento do eleitorado paulista quanto a flutuação dos votos brancos e nulos nas eleições para o governo do estado entre 2018, 2022 e 2026 é evidente: uma tendência clara de retração nesses índices. Há menos indecisão.
No primeiro turno de 2018 para o governo estadual, o cenário foi marcado por patamares elevados de insatisfação ou indecisão, com os votos brancos registrando 6,95% e os votos nulos atingindo um expressivo patamar de 13,71%. No primeiro turno das eleições de 2022, esse quadro começou a se retrair de forma gradual: os votos em branco recuaram de 6,9% para 6,06% e os nulos caíram drasticamente de 13,71% para 7,92%. Essa trajetória de queda continuou no ciclo de 2026, quando os brancos recuaram para 5,11% e os nulos chegaram a 7,3%.
Essa retração contínua e sequencial nos votos nulos e brancos ao longo do período sinaliza um eleitorado progressivamente menos incerteza no que quer e mais polarizado em torno das opções apresentadas para o Executivo estadual.
À medida que o debate político se consolidou em torno de projetos bem definidos de desmonte, sucateamento, privatização e militarização — culminando na consolidação da força do grupo político liderado por Tarcísio de Freitas —, a parcela do eleitorado que optava pela rejeição simbólica por meio do voto nulo ou em branco diminuiu, refletindo um engajamento maior dos eleitores nas urnas e uma adesão mais direta.

A desesperança aumentou, vide a variação de +1% de 2018 para 2026 na abstenção, enquanto o extremismo alastrou pelo estado.
Governo do Estado
Em 2018, João Doria foi eleito governador do estado de São Paulo ao derrotar Márcio França (PT) no segundo turno com 51,7% dos votos contra 48,3%, consolidando a sétima vitória consecutiva do PSDB, que completava 24 anos no comando do estado; no entanto, em 2022, Doria renunciou ao cargo para tentar a presidência da República, abrindo caminho para uma mudança histórica no cenário político paulista. Em 2022, Tarcísio de Freitas (Republicanos), ex-ministro da Infraestrutura e apoiado por Jair Bolsonaro, venceu Fernando Haddad (PT) no segundo turno com 55,3% dos votos a 44,7%, encerrando um ciclo de 28 anos de hegemonia tucana. Em 2026, reencenou-se o mesmo embate de 2022 e, dessa vez, a vitória de Tarcísio de Freitas foi ainda mais expressiva: reeleito com uma margem de 62,7% dos votos contra 36,4% de Haddad; tendo dessa vez empresário Felício Ramuth (MDB) como vice-governador.

Esse quadro reflete uma reviravolta gigantesca no mapa eleitoral do estado. Se em 2018 Doria venceu em 392 municípios contra 253 de França, em 2026, Tarcísio expandiu o domínio conservador para 639 dos 645 municípios paulistas frente a apenas 6 conquistados por seu oponente, arrebatando inclusive a capital, que anos antes havia votado em França. A sensação do eleitor paulista de esquerda é, portanto, de hipervigilância em território cercado pela direita.
Na capital paulista, as periferias votam diferente do centro da cidade. Os extremos (o sub-mundo) da cidade não estão de acordo e rejeitam a gestão que foi reeleita.

Na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo (Alesp), sediada em frente ao Parque Ibirapuera, a dinâmica dos 94 deputados estaduais ao longo desse ciclo político de 2018 a 2026 evidencia uma forte estabilidade de base direitista para o Executivo, apesar de sutilezas na flutuação dos blocos partidários.

Historicamente ancorada em uma maioria expressiva conservadora, em 2018, a Casa foi composta por 67 cadeiras da direita, contra 22 da esquerda e 5 do centro. Na eleição seguinte, esse desenho sofreu leves ajustes com a expansão numérica do centro (indo de 5 para 8) e da esquerda (de 22 para 24), enquanto o flanco da direita perdeu assentos (de 67 para 60).
No pleito recente de 2026, essa tendência de recomposição sutil se manteve: a direita registrou 52 cadeiras, à esquerda atingiu 28 e o centro ampliou sua representação para 14. A soma orgânica entre a base de direita e o centrão na Alesp segue garantindo ao Palácio dos Bandeirantes uma confortável maioria superior a 70% das cadeiras (cerca de 70,21%), blindando a agenda de privatizações e reformas do Executivo contra qualquer risco de inviabilidade legislativa.
Todavia, uma análise comparativa dos deputados eleitos com mais votos permite afirmar que, mesmo não tendo alterado o eixo estrutural de governabilidade do estado, o top 5 passou de nomes predominantemente conservadores em 2018 (como Janaína Pascoal e Arthur do Val) para progressistas em 2022 e 2026 (Eduardo Suplicy, Carlos Giannazi e Paula da Bancada Feminista). Por fim, vale destacar o resultado concreto de campanhas parceiras entre candidaturas estaduais e federais: Eduarda Campopiano (PL) aliada de Lucas Pavanato (PL-SP) e Sofia Favero (PSOL) aliada de Erika Hilton (PSOL-SP).
O paulista não é desinformado, ele sabe o projeto que defende
Ao chancelar essa engrenagem necropolítica com mais de 62% dos votos para a reeleição do “presidente do estado” e garantir uma maioria à direita de mais de 70% na Alesp, o colégio eleitoral do estado de São Paulo sacramentou sua rota. Quem habita as margens já entendeu: em território hostil, a clareza do projeto político que nos governa não deixa margem para ilusões.
São Paulo tomou uma decisão em defesa do avanço desse modelo de governo que esmaga o trabalhador, suga o contribuinte sem dar nada em troca, massacra a periferia e desidrata o combate à violência contra a mulher:
- Transporte público: com as concessões e privatizações de linhas ferroviárias e metroviárias (CPTM e Metrô), o trabalhador — que passa horas do seu dia no transporte público — sente no bolso e na superlotação o custo de um sistema operado sob a lógica exclusiva do lucro, onde a tarifa sobe e a qualidade do serviço piora, transformando o direito de ir e vir em um pedágio diário para a sobrevivência. Com esse quadro de representação nos espaços de poder institucional, isso não deve mudar: a máquina paulista seguirá capenga e moendo gente cotidianamente.
- Ilusão do custo-benefício fiscal: a promessa de enxugamento do Estado traduz-se, na prática, na transferência de monopólios essenciais para o setor privado (como demonstrado na privatização da Sabesp e da EMAE). O paulista continuará pagando impostos à medida em que vê os serviços essenciais de saneamento, água, energia e infraestrutura piorarem e ficarem mais caros. São Paulo seguirá à venda e a rifa dos bens públicos será mantida para fundos de investimento; ao passo que o orçamento das famílias trabalhadoras ficará cada vez mais comprometido com as contas mais caras.
- Segurança pública e a gestão da morte sistêmica: a espetacularização da letalidade policial e a blindagem do alto escalão das polícias — coroadas pelo massacre e pelos arquivamentos em massa das operações na Escudo/Chacina do Guarujá e Verão na Baixada Santista que mataram 84 pessoas em sua maioria pretas e pardas — escancara que a vida nas periferias tem preço e seletividade: a carne mais barata de São Paulo é a carne negra que está na margem do sistema. O holocausto urbano seguirá operando o processo de higienização do estado por meio das forças de segurança pública tendo o combate a céu aberto e na calada da noite ao fluxo de consumo de drogas como subterfúgio para chegar em resultados sem eficácia real; como foi com a Cracolândia, que deixou de estar concentrada num raio monitorável e se espalhou pelo centro da cidade.
- Violência contra a mulher e o abandono estrutural: enquanto o discurso oficial foca na ostensividade punitivista das ruas, as redes de proteção social, o suporte às Delegacias da Mulher (DDMs) e os programas de retaguarda para vítimas de violência de gênero continuará sofrendo com a desidratação orçamentária e a precarização dos serviços públicos essenciais, deixando mulheres periféricas entregues à própria sorte em meio à escalada da vulnerabilidade social e dos índices de feminicídio no estado.