Quem entrar não muda nada? Por que você deveria, sim, votar em alguém no 2º turno

Diante dos recordes de abstenção e votos nulos no 1º turno das eleições de 2026, te convido a refletir sobre a importância da participação para o futuro do nosso país.
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O primeiro turno das eleições de 2026 bateu recorde de abstenções: 33,4 milhões de brasileiros decidiram não votar, e muitos outros não votaram em ninguém. Se você está entre eles, vem saber o que realmente está em jogo quando você decide não participar.

“Quem ganhar não vai mudar nada na minha vida”

Essa é uma das frases que eu mais escuto ou leio por aí: quem ganhar não vai mudar nada. Mas será que isso é verdade mesmo? Vou te contar uma história: até o final da década de 1980, se você estivesse doente e não trabalhasse de carteira assinada, não poderia ter atendimento médico nenhum. A saúde dependia de você trabalhar formalmente para acessar o INAMPS – Instituto Nacional de Assistência Médica da Previdência Social. Ou, você podia contar com a sorte de conseguir caridade com as Santas Casas. 

Hoje, se seu filho passa mal você pode levar ele pra tomar soro ou fazer inalação no pronto socorro. Se a sua avó precisa de algum remédio para tomar todo dia, como os de pressão, você pode pegar no posto de saúde perto da sua casa. Ou se – Deus nos livre e guarde – você sofrer um acidente indo pro trabalho, você pode ser socorrido pelo SAMU. Sabia que o SAMU é super recente no Brasil? Mesmo depois que o SUS foi criado, as ambulâncias que podem socorrer cada um de nós se precisarmos só começaram a existir em 2003. Parece loucura, né? Eu nasci em 1999 e quando eu nasci não tinha SAMU?! Hoje, não consigo imaginar nossa sociedade sem esses serviços tão importantes, e olha só: eles não surgiram do nada. Precisou que alguém assinasse uma lei para isso se tornar realidade: e adivinha só, esse alguém é um político.  

Dizer que os políticos não mudam a realidade , é, na verdade, o que os políticos que não trabalham  mais ficam felizes de escutar as pessoas falando. Se você realmente acha que eles não fazem nada, você não vai procurar saber o que  estão fazendo, como estão gastando o dinheiro que arrecadam com o imposto que você paga e aí sim eles não vão fazer nada: se não tem ninguém se importando, se não tem ninguém fiscalizando, aí fica fácil mesmo usar o cargo para ganhar dinheiro e não contribuir com a sociedade.

Mas é uma mentira das grandes que eles não mudam nada na sua vida: quer outro exemplo? O Instituto Federal do Jardim Ângela. Quando eu contei para a minha avó que agora ia ter como estudar de graça no Ângela, uma das maiores quebradas de São Paulo, ela mal acreditou. Mas hoje isso é real: existe um IFSP aqui na quebrada, e olha só: ele também não surgiu do nada. Saúde, educação, transporte, todos os serviços que você usa todos os dias passam por uma administração cheia de decisões políticas. Sério que você vai abrir mão de escolher quem vai decidir sobre tudo isso? 

“Segunda-feira eu vou ter que trabalhar do mesmo jeito”

Claro que vai! Poucas são as pessoas que podem escolher não trabalhar. Mas sabe o café que você toma de manhã antes de abrir seu comércio? O preço dele passa por decisões da política e da economia. Sabe o ônibus que você pega de manhã para ir ao trabalho? O valor da passagem, as linhas que vão ter, os horários delas… tudo isso passa por decisões políticas. Se você recebe um salário mínimo, o valor desse salário pode crescer ou congelar por escolha do presidente, de deputados e/ou senadores. Todo mundo tem que se virar, seja no seu comércio, seja como autônomo, CLT, na informalidade… mas as condições nas quais você vai trabalhar não estão longe da política. Pelo contrário, estão mais perto de você do que você imagina.

“Político é tudo igual”

Essa é outra grande falácia: todo mundo repete como se fosse verdade, mas na verdade não é. Se nem dentro da nossa família nós somos iguais, quem dirá na política que tem gente de vários estados e defendendo tantos assuntos diferentes. Eu sei que a impressão geral é essa, mas quer saber o jeito mais fácil de ver que não é verdade? Pelas votações. Toda semana, mais ou menos, os políticos se reúnem para votar projetos de lei: tem quem vota a favor, quem vota contra e quem escolhe não votar e se abstém – pois é, igual o eleitor. 

Por exemplo, o programa Gás do Povo, que fornece gás para famílias que precisam, foi um projeto votado pelos deputados. Alguns votaram contra e outros a favor. Se fossem todos iguais, o voto não deveria ser igual? A mesma coisa pelo fim da escala 6×1, da isenção do Imposto de Renda para quem recebe pouco, etc. Inclusive essa é uma ótima forma de ver quem pensa como você: veja quem votou contra algo que você concorda. Veja quem votou a favor de um projeto que você acha que não é bom. Essas informações podem te surpreender, e, olha só: elas são públicas! Pouca gente sabe, mas na maioria das votações você consegue ver como os deputados votaram. Faça uma pesquisa para ver seus reais aliados aqui: Votações | Quem é Quem no Congresso. 

No caso do presidente, que é em quem vamos votar dia 25 de outubro, eles não votam em projetos de lei: mas aprovam ou não as leis aprovadas pelos deputados e senadores e também podem propor matérias importantes. Eu já falei mais sobre as funções dos presidentes aqui: Os poderes e os limites do Presidente da República – Desenrola e Não Me Enrola, mas agora vou te dar uma dica extra para pesquisar: vá até o site do Planalto e veja na parte da Legislação que leis cada presidente aprovou, clicando aqui: Home — Portal da Legislação.

“O voto nem deveria ser obrigatório”

Nessa aqui eu nem vou entrar no mérito se deveria ser obrigatório ou não, mas vou para outro lado: toda a população brasileira poder votar é algo recente na nossa história. Quando começou o voto no Brasil, ele era censitário: só podiam votar homens que tinham uma renda mínima super alta. E nessa época do Império, quem votava era, em geral, quem tinha dinheiro, inclusive muitos donos de pessoas escravizadas: pessoas que defendiam os próprios interesses votando nelas mesmas. 

Demoraram anos para mulheres poderem votar, assim como pessoas analfabetas e jovens a partir dos 16 anos. Eu sei que ninguém gosta de fazer nada por obrigação, mas acredite: antes obrigatório para todo mundo poder participar que limitado a fatias minúsculas da população.

Vamos mudar esses números?

No dia 04 de outubro, o Brasil bateu recorde de abstenções: quando o eleitor, mesmo tendo o direito a votar, não compareceu às urnas. No total, 33,4 milhões de pessoas abriram mão de ir até às urnas para escolher alguém, de acordo com o TSE – Tribunal Superior Eleitoral. Além disso, tem aquelas pessoas que foram, mas também deixaram, literalmente, o voto em branco: é quando você vai até as urnas, mas sente que ninguém te representa e aperta o branco: o voto não é contabilizado para nenhum candidato. 

Por fim, tem os votos nulos: o nulo é um voto que “não vale”: quando você aperta números que não são o número de nenhum candidato. Mas o que mais chamou a atenção foi o “00”: mais de 1 milhão e 800 mil brasileiros digitaram esses dois dígitos que não levam a candidato nenhum. 

Fonte: Nexo Jornal – https://www.nexojornal.com.br/grafico/2026/10/06/numeros-digitados-voto-nulo-eleicoes-2026 

Se você por acaso faz parte desse grande número de pessoas que escolheu não votar, repense sua decisão. Quem não foi votar no 1º turno ainda pode votar no 2º. E se você não votou em ninguém no 1º, ainda pode mudar de ideia e votar em alguém no segundo. Não abra mão do seu direito, porque é como se você estivesse lavando as mãos igual Pilatos: é da falta de interesse em conhecer, pesquisar e participar que os problemas da sociedade aparecem. Bora participar! 

Este é um conteúdo opinativo. O Desenrola e Não Me Enrola não modifica os conteúdos de seus colaboradores colunistas.

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