“Não sinto que ela aprende muito”: comunidade escolar questiona impactos da plataformização do ensino em São Paulo

Professor da zona sul e mãe da grande São Paulo expõem ambiente escolar com metas, cobranças e preocupação em ambos os lados.
Compartilhe

Lousa, giz, marcador de quadro branco, folhas de sulfite, tinta guache e mimeógrafo. Por muito tempo, esses foram os recursos usados por professores em salas de aula nas escolas do estado de São Paulo. Mas o cenário mudou em 2024, quando a Secretaria da Educação do Estado e seu secretário, Renato Feder, tornaram obrigatório o uso de plataformas digitais na gestão das escolas e no seu ensino.

“Hoje a visão que se tem da educação é uma visão totalmente empresarial, desconsiderando toda complexidade que é uma sala de aula e todas as particularidades que as escolas têm”, conta o professor Marcos Castro (nome fictício)

Professor Marcos Castro dá aulas de geografia desde 2009. Foto: Divulgação/MCTIC

Marcos dá aulas de Geografia desde 2009 em uma escola da rede estadual, localizada no bairro do Jardim Olinda, no distrito do Campo Limpo, zona sul de São Paulo. Até 2025, o professor lecionava em duas escolas, mas desde janeiro de 2026 o profissional encontra-se afastado de um de seus cargos por conta da sobrecarga de trabalho. 

O professor explica como funciona o seu dia a dia com o planejamento de aulas após a implementação do chamado “material digital”.

“A gente recebe o chamado material digital, que são slides, resumos das aulas, que a gente projeta numa televisão de 43 polegadas onde nem todos conseguem visualizar, porque é uma sala com 40 alunos. É muito conteúdo para pouco tempo de aula e os conteúdos são muito resumidos”

Marcos Castro* (nome fictício), professor de Geografia no Jardim Olinda.

Além do material digital, Marcos lida com o aplicativo para enviar lições para que os alunos façam em casa no dia a dia. “Quando a gente digita algumas aulas no sistema, automaticamente ele envia para os alunos algumas tarefas para casa sobre aquela aula. Mas existe uma cobrança por metas sobre essas tarefas.”

O professor relata cobrança excessiva para melhorar o acesso aos aplicativos. Foto: Rafa Neddemermeyer/Agência Brasil.

Além do aplicativo das lições de casa, existem diversos aplicativos para diferentes matérias como física ou inglês, explica. Ele também conta que as metas funcionam a partir de relatórios recebidos pela gestão escolar semanalmente sobre o acesso dos alunos à essas plataformas digitais.

“Se está tudo verde é ok, amarelo é atenção e vermelho é que está muito baixo o acesso. É um efeito dominó, a Secretaria da Educação cobra as diretorias de ensino [para melhorar os acessos], que cobram os diretores, que cobram os professores e que cobram os alunos”, relata o professor de geografia. 

“Se você conversar hoje com todos os professores, é uma cobrança que beira o assédio moral. De intimidação, no sentido de que se não atingir [a meta] pode o gestor sair da escola, os professores serem remanejados ou aqueles contratados, perderem o contrato. Como se isso dependesse só do professor, né?” 

Marcos Castro* (nome fictício), professor de Geografia no Jardim Olinda.

O dia a dia com a tecnologia

Camila Santos mora no Jardim Oratório, em Mauá, região metropolitana de São Paulo, ela tem uma filha de 12 anos que atualmente está no sétimo ano da rede estadual. Segundo a mãe, a criança não tem acesso aos aparelhos eletrônicos em seu dia a dia e apenas os utiliza para fazer as atividades escolares. 

“Ela só usa [o celular e computador] para fazer atividades. O que ela mais reclama é quando eu saio, por exemplo, né? Porque às vezes eu preciso sair e levar o meu celular, e como ela não tem, então acaba não fazendo as atividades”, explica.

A mãe diz que a menina é muito prática em suas atividades, mas que seu irmão de nove anos é mais distraído e que não gosta de realizar as tarefas usando as telas. 

“Minha filha é muito objetiva, isso ajuda que ela não se perca no tempo de tela. Agora, eu tenho um filho de nove anos que também estuda, ele está começando a entrar nesse universo de fazer a tarefa com a tela, mas ele é muito mais distraído, se ele tivesse que fazer [as atividades] pelo celular, ele se perderia. Em algum momento, isso vai ser muito desafiador”, conta. 

O professor Marcos Castro relata que na escola em que leciona, na zona sul de São Paulo, a gestão encontrou a solução de realizar as tarefas que não são feitas em casa durante o período de aulas. “Como eles não fazem as tarefas em casa e existe essa cobrança pelo ranqueamento, a gestão da escola acha melhor fazer isso na escola mesmo”, explica. 

A utilização do celular pessoal conflita diretamente com a Lei Federal que proíbe o uso dos aparelhos em sala de aula. Foto: Cecilia Bastos/imagens usp

Marcos diz que durante os dias em que há essas atividades, a escola não consegue suprir a necessidade de todos os alunos por equipamentos, então alguns acabam usando os próprios celulares: “Nesses dias de tarefas na escola, como não têm equipamentos para todos é orientado que eles possam usar o próprio celular, mas não é uma obrigação.”

De acordo com relatório realizado pela Plataforma de Direitos Humanos, Dhesca Brasil entre 2022 e 2024 houve crescimento no uso de tablets na escola passando de 5% para 32%. O relatório ainda diz que 75% dos alunos usuários de Internet acessavam a rede na escola, sendo que 55% afirmavam utilizar com equipamentos da própria instituição.

A utilização do próprio celular, apesar de ser uma medida emergencial para que os alunos possam realizar as atividades online, conflita diretamente com a  Lei Federal nº 15.100/2025, que proibiu o uso de dispositivos eletrônicos em escolas de educação básica.

A realidade da filha de Camila difere da encontrada pelos alunos de Marcos, já que ela relata que por muitas vezes a escola que sua filha estuda está sem internet para a realização das atividades, ou o computador onde são feitas as lições está quebrado. “Eles mandam fazer em casa, e ela acaba com o acúmulo de lição. Acaba atrapalhando o rendimento dela, porque em casa não é a mesma coisa, né?”, comenta. 

O professor reclama sobre a falta de aproximação do corpo docente com os alunos e as discussões que são deixadas de lado para que a escola foque no modelo de aplicativos.

“A gente não tem mais tempo na escola de fazer projetos, fazer eventos ou festas, daquela aproximação humana que nós tínhamos com o estudante que é importante. Na escola que eu trabalho a gente fazia projetos muito interessantes, como o mês da consciência negra, a gente fazia discussões muito relevantes. A gente não tem mais tempo porque tudo se resume à plataforma”.

Marcos Castro* (nome fictício), professor de Geografia no Jardim Olinda. 

Do outro lado, Camila expõe não saber como funciona o modelo de plataformização do ensino: “Eu não tenho nenhuma informação clara e a escola não passa como funciona, mesmo indo nas reuniões eles não falam como é o dia a dia”.

“Eu não sinto que ela aprende muito, porque como ela mesmo fala, na TV não tem como ela voltar o conteúdo, não tem como ela ter ali a dinâmica de passar um texto, alguma coisa que eu não entendi, conseguir voltar, perguntar, ela reclama dessa dificuldade”

Camila Santos, mãe de aluna da rede estadual de ensino de São Paulo.

Camila relata que a filha, que usa óculos no grau seis desde os oito meses de idade, também sofre com dificuldades para enxergar o conteúdo da televisão: “Às vezes ela vem com a vista cansada porque ela teve que copiar textos que são da televisão e, por exemplo, ela usa óculos, e ela senta no meio da sala e ela chega assim super cansada, às vezes com dor de cabeça porque teve que se esforçar muito para conseguir enxergar os textos e as coisas das atividades que eles que eles colocam lá pela TV”, afirma.

Marcos relata que não há autonomia em sala de aula, como não planeja suas aulas ele sente que o currículo está cada vez mais engessado e isso afeta a sua liberdade de cátedra, estabelecida na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, que diz que professores e alunos têm liberdade em sala de aula para aprender, ensinar, pesquisar e divulgar o pensamento, a arte e o saber.

“A gente não tem mais autonomia, precisamos seguir um currículo cada vez mais engessado que desconsidera todas as particularidades dos alunos, das turmas. O que funciona numa, não funciona em outra. E você sente engessado e pressionado a cumprir aquilo o quanto antes”.

Marcos Castro* (nome fictício), professor de Geografia no Jardim Olinda.

“A gente não tem perspectiva, o salário continua defasado, as condições de trabalho são cada vez mais precárias, as salas superlotadas, falta de estrutura e segurança nas escolas e para piorar a situação, essa cobrança louca. Eu costumo falar que a plataformização do ensino aqui em São Paulo desumanizou o processo de aprendizagem”, relata o professor. 

De acordo com o Censo Escolar do ano de 2024, a partir de 2022 a contratação de profissionais em regime temporário na rede estadual paulista superou o regime efetivo. Naquele ano, haviam 81.473 profissionais contratados em regime temporário em comparação aos 63.603 professores efetivos, essa diferença de 17.870 profissionais fere a Constituição de 1988, que em seu Art. 206, Inciso V trata a: “valorização dos profissionais da educação escolar, garantidos, na forma da lei, planos de carreira, com ingresso exclusivamente por concurso público de provas e títulos, aos das redes públicas.”

O professor ainda reflete sobre a realidade de sua profissão: “Eu ainda acredito que a maior forma de mudança e transformação social é pela educação, mas é matar um leão por dia. Está cada vez mais difícil, e não é culpa dos alunos. A indisciplina também é resultado desse sucateamento da educação, sabe? Mas esses governos, eles não dão perspectiva nenhuma para a gente. Pelo contrário, eles nos atacam, tiram os nossos direitos e nos culpabilizam pelo fracasso na educação”, conclui.

Mais sobre →

relacionadas

últimas

Em Guaianases, projetos impactam autonomia e a vida de quem envelhece na periferia

Compartilhe

Ao contrário do que muita gente pensa, envelhecer na periferia pode significar vitalidade e pertencimento. Pelo menos é o que têm comprovado os frequentadores do projeto Dia Total e da Academia Black Brothers. Com atividades específicas para a população idosa, as iniciativas têm impactado não só a rotina, mas a saúde física e mental de muita gente pela região.

Acessar o conteúdo