“Eles não sabem mais quando a gente abre”: Biblioteca no Jardim Olinda resiste em meio à escassez de recursos

Nascida como brechoteca, a Biblioteca Djeanne Firmino é tida como marco cultural na região do Campo Limpo, desde 2026 tem passado a maior parte dos seus dias fechada por falta de recursos.
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Em uma casa no bairro Jardim Olinda, no distrito do Campo Limpo, zona sul de São Paulo, encontramos a Biblioteca Djeanne Firmino. Com paredes coloridas e prateleiras recheadas de livros, o local acolhedor, por si só, conta sua história através dos detalhes. “Nossa missão é democratizar o acesso à leitura”, conta Alessandra Leite, uma das integrantes mais antigas da coletiva, reforçando o papel do espaço no território.

Alessandra Leite é a integrante mais antiga da coletiva. Foto: Felipa Anastácia/Desenrola e Não Me Enrola

A biblioteca Djeanne Firmino nasce como Brechoteca, em 2009, através da família do articulador cultural e poeta Robinson Padial, o Binho – criador também do Sarau do Binho – os livros compartilhavam espaço com um brechó que ajudava a pagar o aluguel do local que ocupavam. Foi em 2015 que Alessandra entrou no projeto, e no ano seguinte o espaço, que já funcionava exclusivamente como biblioteca, ficou sem recursos.

A situação de dez anos atrás não é muito diferente do cenário atual encontrado na biblioteca. Na época, a coletiva, que naquele momento já era formada apenas por mulheres, escolheu escrever uma carta aberta à comunidade contando a sua situação. Naquele momento, a Djeanne Firmino teve apoio da associação de moradores do Jardim Olinda, que cedeu o espaço ocupado até os dias atuais.

“Esse bairro é [precário] em muitas coisas, principalmente em coisas básicas, a gente não tem farmácia. Tudo é no Catanduva [bairro próximo ao Jardim Olinda]. Isso foi vindo aos poucos, não tinha nem posto de saúde. Ter esse espaço de cultura é revolucionário.”

Edvania Duarte, integrante da biblioteca Djeanne Firmino

Desde janeiro de 2026, a biblioteca passa a maior parte dos dias fechada, por sofrer com a falta de recursos. Esse movimento causa um prejuízo significativo para a comunidade que antes utilizava a estrutura da biblioteca para o lazer ou para estudo. “A comunidade cobra. As crianças, às vezes, vão na minha casa porque moro aqui na frente e dizem ‘Ei, não vai abrir mais não?’”, relata Edvania Duarte, integrante da coletiva desde 2020. 

Edvânia Duarte mora em frente à biblioteca, no bairro Jardim Olinda. Foto: Felipa Anastácia/Desenrola e Não Me Enrola

Alessandra e Edvânia contam que dedicam todo o tempo para cuidar da biblioteca: “Eu não trabalho como CLT, mas tenho a sorte de receber alguns aluguéis, e a Alê também não trabalha, ela tem o marido que é professor e músico.”, conta Edvânia.

“É só com amor que eu e ela resistimos à ficar aqui. Mas, esse ano parece que está apertando cada vez mais – e acho que ela também. Já tivemos vários baques esse ano.” 

Alessandra Leite, integrante da biblioteca Djeanne Firmino

Além dos livros

No passado, a biblioteca reunia os moradores do Jardim Olinda em diversos eventos e encontros celebrados na rua. O Festival de Brincadeira de Rua é um deles, o evento foi celebrado duas vezes, um na antiga sede e outro na atual que fica na Rua Carandazinho, número 50. O festival é lembrado por Edvania Duarte e Alessandra Leite com muito carinho. 

“Tem atividades que já entraram na história do bairro. O festival de brincadeira é um deles, a gente fechou toda essa rua e a ladeira para colocar brincadeiras de rua tradicionais, então foi carrinho de rolemã, peão, de tudo’”, relembra Alessandra.

Edvania diz que o evento Mulheragem, que ocorreu em 2018, foi um divisor de águas na história da biblioteca. Foi nesse momento que a então brechoteca se tornou Biblioteca Djeanne Firmino. No evento estava todo o núcleo de membros da biblioteca e também foi apresentada uma carta sobre a promulgação do que seria o novo nome. 

“A gente estava num momento muito bom, de muitas ações acontecendo. [Conseguimos] trazer muita coisa do que estávamos desenvolvendo, como a oficina de tambor e de percussão. Teve show das Clarianas, a Tula Pilar estava aqui. E a coisa do tambor foi muito bonito, porque saímos cortejando pelas ruas do bairro”, lembra Alessandra Leite. 

Com o espaço oficial fechado, atualmente, a coletiva oferece apoio pedagógico à escola de ensino fundamental Professor José Flávio Osório Negrini e ao Centro para Crianças e Adolescentes (CCA). Uma vez ao mês também acontece o sarau convocado por dois jovens parceiros da biblioteca. “A gente está levando mesmo, porque está bem periclitante. Estamos fazendo o sarau para ter uma movimentação e esse espaço não ficar muito esquecido. Não deixarmos fechar de vez”, conta Edvania.

A sobrevivência do espaço pelas leis de fomento

As leis de incentivo ou fomento à cultura são mecanismos legais que podem vir através de programas governamentais (estaduais ou municipais) para destinar recursos financeiros para apoiar projetos culturais. A biblioteca Djeanne Firmino depende desses recursos para garantir o seu funcionamento no dia a dia e para realizar os seus eventos.

Apenas no último ano a Biblioteca Djeanne Firmino tentou aplicar às seguintes leis de incentivo: Programa Municipal de Apoio a Projetos Culturais (PROMAC), Política Nacional Aldir Blanc (PNAB), Programa de Ação Cultural (ProAC) e à Lei de Fomento à Cultura na Periferia. 

Atualmente, a Biblioteca Djeanne Firmino recebe apoio financeiro apenas da Fundação Abrinq. Foto: Felipa Anastácia/Desenrola e Não Me Enrola 

No passado, a biblioteca foi contemplada por um fomento exclusivo para bibliotecas comunitárias. “Foi o primeiro edital que a gente fez e conseguiu, estava associado ao Plano Municipal do Livro Leitura e Bibliotecas. Foi com muita luta que a gente conseguiu uma versão só deste edital de bibliotecas.”, relata Edvânia Duarte. 

“Eles estão afunilando mais o processo de seleção”, Alessandra Leite compartilha a sua impressão sobre as leis de fomento. E não é à toa que a integrante da coletiva  tem essa sensação. Ao pesquisar a Lei de Fomento à Cultura na Periferia (Lei 16.496/16), podemos perceber que desde 2024 o valor disponibilizado para os projetos beneficiados foi reduzido. Ou seja, no ano de 2023 a prefeitura de São Paulo forneceu o total de R$ 14.850 milhões para apoiar financeiramente projetos culturais periféricos, mas nos dois anos seguintes esse valor encolheu para R$13,7 milhões, diferença de R$1,15 milhão.

Alessandra compartilha sua insatisfação quanto às políticas públicas de fomento à cultura: “Estão sufocando na unha a gente aqui das bordas das periferias. Deixando de abrir, atrasando, sobrepondo e tal. Geralmente o fomento à periferia abria em junho, quando era julho ou novembro saía o resultado. No máximo dia 5 ou 2 de dezembro o dinheiro estava na conta. Agora, o resultado do ano passado saiu em abril e Deus sabe quando o dinheiro vai sair.”

O diário oficial dos dois últimos anos, mostram uma diminuição nos projetos que foram aprovados para análise da documentação. Em 2024, na nona edição da Lei de Fomento à Cultura na Periferia foram aprovados 257 projetos, já no ano seguinte apenas 141 projetos foram concedidos, ou seja, nesse tempo a prefeitura deixou de contemplar 116 coletivos.

Atualmente, a Biblioteca Djeanne Firmino recebe apoio financeiro apenas da Fundação Abrinq para continuar com suas atividades. “O fato da biblioteca passar a maior parte dos dias fechada muda para as novas relações, principalmente. Impacta muito. Não existe mais aquela referência de saber que naquele horário a gente ia estar aqui com a biblioteca aberta”, ressalta Alessandra.

“Qualquer perrengue, a dona Cleide, por exemplo, se não conseguisse abrir o CADÚnico ou ‘preciso aqui resolver um negócio no meu celular’, ela sabia que aqui era um lugar para distrair, bater um papo. Crianças vêm aqui na aula de reforço, pegar livros, eles não sabem mais quando a gente abre.”

Alessandra Leite, integrante da biblioteca Djeanne Firmino.

Impacto no Jardim Olinda

Bruna Almeida, é uma jovem de 19 anos, e começou a frequentar a Biblioteca Djeanne Firmino entre seus 14 e 15 anos, através de um de seus projetos. “Eu não lia muitos livros assim, só pegava e olhava, mas o prazer mesmo pela leitura eu não tinha. Eu fui aprender a desenvolver na biblioteca através de uma psicóloga que tinha um projeto no campo chamado Garota. Essa psicóloga chamada Beatriz me indicou um livro chamado Persépolis, dali começou a minha paixão pela leitura e as meninas [que trabalham na biblioteca] foram incentivando, empurrando um livro atrás do outro.”, conta.

“Esse espaço cultural me construiu, foi paixão pela leitura. Foi amor pelo pensamento crítico, assim de pensar, olhar o mundo de outro jeito.” 

Bruna Almeida, frequentadora da Biblioteca Djeanne Firmino desde os 14 anos.

A jovem lembra das atividades que já ocorreram lá em outros momentos, e lamenta por, atualmente, a biblioteca não ter o acesso à verba como tinha antigamente. “A Biblioteca Djeanne Firmino sempre me marca, e as pessoas que fazem ela”, afirma. Quando perguntada sobre o que ocorreria se a biblioteca deixasse de existir, a jovem diz: “acho que eu deixaria de ser eu, também acho que eu sentiria muita saudade das meninas, minha vida estaria vazia”, compartilha. 

Desde janeiro de 2026 biblioteca passa a maior parte dos dias fechada. Foto: Felipa Anastácia/Desenrola e Não Me Enrola

Ao conversar com a Professora Zinalda Alves, da Escola Fundamental Professor José Flávio Osório Negrini, ela explica que as aulas na biblioteca foram um extra, pois os alunos dentro da escola têm estudado por meio de plataforma de livros online e isso faz com que essas crianças se afastem do mundo da leitura, segundo ela.

“A Djeanne como parceria tem livros físicos para emprestar, para eles folhearem ali mesmo, por mais que alguns não tenham o hábito mas ver com os colegas e poder tocar, olhar sabe? Deitar ali naquele tapete por alguns minutos. Quando a gente ia lá, a gente voltava com um monte de empréstimo e depois eu ia lá devolver.”

Zinalda Alves, Professora da Escola Fundamental Professor José Flávio Osório Negrini

“Eu fico muito triste de ver um espaço tão potente daquele que agrega muito no entorno para aquela comunidade estar praticamente fechado”, lamenta a professora. 

Mesmo com a escassez de recursos financeiros, Edvania Duarte e Alessandra Leite seguem com as atividades a partir da biblioteca com eventos marcados em datas pré-determinadas e saraus. “Não imagino isso daqui fechado, mesmo que eu venha uma vez ou outra para a gente fazer alguma coisinha, um sábado, para não deixar fechado. É impossível”, finaliza Edvania.

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