Na sessão de hoje, começamos com uma reflexão sobre o corpo e tudo aquilo que nos atravessa. O que me pareceu incomum foi perceber o quanto ele nos diz o tempo todo e como não o ouvimos.
Somos, muitas vezes, mudos e surdos diante de nós mesmas. Ignoramos as dores, os traumas, o amor que não recebemos e as emoções que não sabemos onde colocar.
Tememos não ser acolhidas, reconhecidas ou vistas. E o que fazemos para calar esse corpo teimoso, que não conseguimos controlar racionalmente? Como entender aquilo que desejamos receber: amor, afeto, desejos que conseguimos dizer e tantos outros que permanecem escondidos?
Criamos um mundo de fantasias que, às vezes, escapa à nossa compreensão. A partir delas, podemos construir um abismo entre a realidade e os traumas que carregamos e não queremos olhar. As fantasias passam a dominar esse olhar sonhador e distante, cobrindo silenciosamente feridas dolorosas de indiferença, negligência e violência.
Transformamos algozes em salvadores e abafamos a vontade de gritar e revelar a dor. Em vez de trazê-la à luz, enterramos
aquilo que nos desobriga de denunciar quem deveria ter oferecido cuidado e proteção. E assim seguimos.
Até que, um dia, os corpos se rebelam.
Adoecem. Apresentam sintomas. Revelam aquilo que não conseguimos ou não queremos trazer à consciência.
O corpo não esquece. Ele guarda memórias, e muitas delas podem ser traumáticas. Vai mostrando sinais, sintomas e doenças que se acumulam ou parecem surgir de repente.
Mas será que foi tão repentinamente assim?
O corpo dá sinais. Talvez nós é que tenhamos aprendido a ignorá-los. E, ao mesmo tempo, ele parece buscar maneiras de nos proteger e nos conduzir para algum caminho de cuidado. Por não termos uma cultura de autoconhecimento, cuidado emocional e prevenção, muitas vezes deixamos os problemas se instalarem e passamos apenas a conviver com eles.
Tenho aprendido que existe uma dimensão do nosso corpo que não controlamos pela mente racional. No livro Mãos da minha avó, do autor Resmaa Menakem encontrei a expressão “nervo da alma”, utilizada
para falar dessas sensações e emoções que nos atravessam de maneira profunda e nem sempre passam pela nossa elaboração consciente. É nesse território que também encontramos os traumas, a dor física e as sensações desencadeadas pelo medo, pelas violências e pelas necessidades que não foram ouvidas.
Podemos aprender a reconhecer os sintomas, diminuir sofrimentos e construir outras formas de lidar com aquilo que
nos atravessa. Ou podemos continuar ignorando até que o corpo encontre outra maneira de se manifestar.
A magia do autocuidado
O caminho me parece relativamente simples em alguns aspectos. Tenho feito descobertas individuais e coletivas e colocado em prática técnicas e experiências, principalmente de fácil acesso, que podem ajudar a diminuir o estresse e a ansiedade. Respirar, meditar, movimentar o corpo, desacelerar. Pequenos gestos que podem produzir grandes mudanças.
O mais complicado, para mim, é sustentar traumas por tanto tempo. O corpo expressa aquilo que foi reprimido através da tristeza, da depressão, dos incômodos, das dores e de tantas outras formas. Viver assim pode ser muito mais difícil.
Por isso, precisamos encarar os desafios corporais e emocionais, conhecer-nos e tentar compreender esse mundo desconhecido que existe dentro de nós. Somos complexos. E, para trilhar um caminho novo, precisamos de disciplina, foco e constância.
Foi também através do corpo que fiz descobertas sobre mim. Ao receber massagens, compreendi que desejava profundamente receber afeto. Havia carências tão profundas que eu não havia experimentado aquela sensação em minhas relações afetivas. Ao respirar para me acalmar ou sustentar uma posição de yoga, sentia uma leveza que poderia ser comparada àquela de dançar até molhar toda a roupa.
Dar um tempo na vida, respirar, ouvir o corpo e meditar para estar mais centrada também me trouxe uma leveza corporal e emocional indescritível.
Sinto que os prazeres, o autoconhecimento e o autocuidado têm sua magia. Essa magia também foi experimentada por nossos ancestrais através de formas de viver que integravam corpo, cuidado e comunidade, mas muitos desses saberes foram perdidos ou silenciados em uma sociedade automatizada pelo cotidiano, na qual tantas pessoas lutam apenas para garantir o mínimo necessário para sobreviver.
Diante de tantos atravessamentos, compreendo que o caminho ainda é coletivo. Talvez cuidar seja também criar espaços onde possamos parar, respirar, escutar nossos corpos e reconhecer aquilo que durante tanto tempo fomos ensinadas a esconder.
É esse espaço de acolhimento e cuidado que buscamos construir no Núcleo Obará.
Acompanhem os canais de acolhimento e cuidado do Núcleo Obará:
https://www.obaranucleo.com.br
Contato: (11) 9 6587-2050 Whatsapp para acolhimento e encaminhamento para atendimento psicológico
E-mail: nucleoobara@gmail.com