“Eu sinto que estou passando o dia inteiro em uma sala barulhenta”: a escola como um empecilho

Relatos de estudantes de escolas em tempo integral revelam como a falta de estrutura e o excesso de tempo na instituição adoecem a comunidade escolar e estimulam a exclusão.
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Durante todo o percurso de observação e entrevistas, um olhar crítico em relação à escola se sobressaía, a maioria dos jovens entrevistados nunca abandonaram a escola, contudo se incomodavam com a precariedade da oferta de ensino e do ambiente escolar.

Esses olhares críticos não são uma novidade. A 11 anos atrás, quando ocorreram as lutas secundaristas, educadores e educandos denunciavam a ausência de investimento na estrutura das escolas públicas e na educação em si. Algo que continua ocorrendo nas escolas públicas periféricas mesmo após a implementação do PEI (Programa Ensino Integral).

Majoritariamente, os jovens entrevistados tinham perfis parecidos em relação à frequência escolar, garantindo uma frequência constante e sem abandonos. Contudo, quatro dos nove entrevistados apresentaram situações diferentes e intrigantes, seja com abandonos rápidos, dificuldade para frequentar a escola ou ausências frequentes.

A precariedade na oferta de ensino e os desconfortos em estar na escola apareceram nas falas dos jovens. Uma das entrevistadas relatou que a experiência escolar no PEI é ruim, reforçando que o tempo excessivo na escola é negativo e existe a oferta de uma alimentação ruim, dando ênfase para o cardápio do dia em que foi entrevistada, atum. Afirmando que essas situações não eram benéficas para a saúde física e mental dos estudantes.

Rotina exaustiva para estudantes

A universalização do ensino médio ainda não aconteceu por completo, o acesso à educação no Brasil continua enfrentando desafios, inclusive de permanência. Os problemas que parecem estar sanados, na realidade foram jogados para baixo do tapete, sendo evidenciados quando ocorrem situações extremas, como o abandono escolar.

As experiências dos estudantes revelaram uma visão de que a escola ocupa mais tempo do que deveria (Brenner; Dayrell; Carrano, 2008), algo que não é recente na visão da juventude. Segundo os participantes da pesquisa, esse tempo poderia ser utilizado para outras tarefas ou para trabalhar. Não cabe a mim, enquanto pesquisadora decidir se seria melhor para as trajetórias dos jovens entrevistados realizarem outras tarefas ou estarem no PEI, mas sim evidenciar os tensionamentos de um projeto de escola implementado sem os devidos fundamentos.

Chama atenção a forma como os entrevistados valorizavam o lugar da escola e da educação, contudo destacavam que suas realidades não condiziam com o projeto de escola que está sendo ofertado.

Segundo outro jovem entrevistado, a dificuldade estava em saber que ficaria muito tempo na escola, algo que era exaustivo para o corpo e para a mente e tinha como consequência as ausências dele nas aulas. O entrevistado, que foi o único jovem aprendiz entre os interlocutores da pesquisa, destaca o cansaço que sente em relação à sua rotina diária e o PEI.

Outra afirmação comum entre os jovens que me chamou a atenção, foi que dos nove entrevistados, sete afirmaram que já pensaram na transferência para o ensino regular ou já conversaram com os familiares sobre a hipótese. O que os impedia de realizar essa transferência era a distância ou a fila de espera.

Existe futuro possível?

As avaliações constantes também receberam críticas dos interlocutores, os métodos de controle afetam docentes e discentes que se veem em disputa numa lógica educacional baseada em métricas distantes da realidade. Afastando mais ainda os jovens do desejo e anseio por estar na escola e sobrecarregando docentes com tarefas ineficientes.

Observando as experiências dos estudantes é possível notar que a questão principal não são as disciplinas “novas”, mas sim a retirada de disciplinas que são básicas para a formação durante o ensino médio, algo que a Rede Educação Pública e Universidade já sinalizou em notas técnicas nos anos de 2021, 2022, 2023 e 2024.

A escola é vista como empecilho pelo fato de os jovens pensarem: “se sair daqui.. ferrou”. Essa frase, que deu o título da minha dissertação, se referia ao pensamento sobre o futuro, como essa escola ofertada têm de fato os preparado para um futuro possível? O que pode vir após ela? E durante ela? 

A educação sempre enfrentou desafios. Em nível médio, a permanência escolar sempre esteve em discussão, contudo foram impostas condições e mudanças que estão ocasionando tensionamentos nas trajetórias dos jovens secundaristas, gerando exclusão escolar. 

A escola acaba sendo vista como empecilho quando não possui uma educação libertadora e abrangente, quando abandona o que deveria ser o ensino e quando se baseia em uma lógica que adoece quem dá vida a ela.

Este é um conteúdo opinativo. O Desenrola e Não Me Enrola não modifica os conteúdos de seus colaboradores colunistas. 

Este artigo faz parte da série de textos em que analiso como a carga horária do Programa de Ensino Integral (PEI) impacta a rotina de jovens das periferias que precisam conciliar os estudos com o trabalho. Os relatos e dados fazem parte da pesquisa realizada durante dois anos do mestrado na UFSCar, a partir de observações e análises das trajetórias de jovens estudantes trabalhadores em uma escola PEI de um bairro periférico de Itapecerica da Serra, São Paulo.   

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