A ausência de políticas públicas de trabalho e renda para essa parcela da população tem obrigado os jovens a escolherem o caminho da informalidade, e por vezes desistirem de seus sonhos. Há um olhar comum nas redes sociais em que os jovens aparecem como pessoas menos empenhadas, que não se sentem bem em modelos seguros de trabalho e que rejeitam compromisso, todavia os dados da pesquisa nos trazem para outra realidade.
Desde a conversa inicial notei algo comum entre os jovens, uma angústia em não poder acessar trabalhos com seguridade devido ao horário delimitado pelo PEI (Programa de Ensino Integral). Logo no primeiro diálogo surgiu essa colocação “ou você para de estudar ou você trabalha”, em que eles me revelaram uma realidade de adolescência ainda extremamente atrelada ao trabalho.
Entre os motivos que podem levar jovens periféricos a ingressarem mais cedo no mercado de trabalho estão: acesso a lazer, acesso ao consumo e necessidade de independência. O que foge um pouco da ideia do acesso ao trabalho pela pobreza extrema, não que ela ainda não exista, mas há outras motivações que levam jovens a sustentarem essa conciliação (Ciarlariello, 2023).
Nas entrevistas ao mesmo tempo que os jovens relataram uma realidade em que não precisariam trabalhar, elencaram um lugar de necessidade e responsabilidade, se sentiam responsáveis por contribuírem com a renda ou cuidarem de si. Citavam que haviam itens que queriam ter e os pais não iriam conseguir comprar e aparecia um forte anseio pela independência.
Para a maioria deles, mais tempo na escola não os ajudou, haviam reclamações comuns em relação às disciplinas e a composição curricular realizada após o Novo Ensino Médio, os jovens diziam sentir que estavam desperdiçando tempo e que não sentiam que o PEI auxiliou a entrada no mercado de trabalho, pelo contrário, se sentiam despreparados para realizarem um vestibular, por exemplo.
Obstáculos para estudantes se manterem nas escolas
Ao contrário do que até eu mesma esperava, vi estudantes afirmarem que queriam o uso da lousa nas aulas, uma crítica aos slides prontos do Governo do Estado de São Paulo, afirmando uma postura questionadora em relação ao lugar em que se colocava o professor nessa dinâmica, eles viam professores sendo pressionados a fazerem algo que não era confortável.
Os estudantes também reforçavam inseguranças com a violência ao saírem da escola às 21h, algo que de fato se confirmou durante os meses em que estava realizando as entrevistas e tive que fazer usos constantes de carros de aplicativos, além das notícias sobre assaltos em frente a escola. Ademais, a violência contra a mulher tem aumentado significativamente, algo que nos faz questionar acerca dos trajetos realizados pelas jovens moças até suas residências.
Como o PEI não foi pensado para estudantes trabalharem, conseguir uma liberação da escola é uma tarefa difícil e conseguir uma vaga que contemple o horário em que estudam também. Sendo assim, atrasos e ausências às aulas fizeram parte da rotina escolar de alguns deles.
Um dos entrevistados acordava às 5h da manhã para trabalhar, segundo ele, por causa da distância acabava chegando atrasado e não conseguia entrar na unidade escolar. Outro jovem conseguiu uma vaga de emprego mais próximo e apesar de relatar uma exaustão, conseguia comparecer às aulas no horário correto.
Contudo, entre os entrevistados, estava um jovem que abandonou a escola para trabalhar, ao ver a família em uma situação difícil ele decidiu que este seria o único caminho, arrumou um trabalho em tempo integral e parou de frequentar as aulas. Todavia, houve algo especial na história dele, o incentivo de uma amiga na escola que não queria vê-lo desistir de estudar e as falas dos colegas de trabalho que afirmavam para ele que era importante concluir a escola.
Todos os relatos trazem os desafios e confrontos em conciliar trabalho e estudos, eles não querem abandonar a escola e vêem na educação uma importância para o futuro, todavia há realidades diversas que os levam ao trabalho e há uma escola que não repensa sua oferta de ensino para jovens que precisam realizar essa combinação entre trabalho e estudo.
Quando cheguei na escola, já esperava essa realidade, todavia os estudos mais recentes apontam para a diminuição de jovens adolescentes que conciliam trabalho com estudos, mesmo assim há uma realidade que persiste e uma vivência que faz parte da vida comum de jovens nas periferias, negar essa realidade é ocasionar uma exclusão escolar.
Atualmente, o Governo do Estado de São Paulo, culpabiliza professores, gestores e demais atores do ambiente escolar pelas ausências em aulas ou pelas notas dos estudantes, todavia o modelo ofertado tem o foco em métricas que adoecem docentes e levam estudantes a enxergarem a escola como um empecilho. Sendo assim, a responsabilidade está em repensar as políticas ofertadas para realidade do jovem brasileiro e não em punir educadores e educandos.
Os desafios em comum dos jovens nas periferias não significam que suas trajetórias são iguais, mas nos apontam um importante diagnóstico de um problema grave na falta de planejamento em relação à oferta escolar e à educação, uma questão que se não for resolvida pode ocasionar, inclusive, o abandono e a evasão escolar.
A escola não é um experimento, é um ambiente de aprendizagem que deve ser respeitado. O trabalho ainda é uma realidade para os jovens na periferia e negar essa realidade expõe esses jovens à insegurança e à informalidade.
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Este artigo faz parte da série de textos em que analiso como a carga horária do Programa de Ensino Integral (PEI) impacta a rotina de jovens das periferias que precisam conciliar os estudos com o trabalho. Os relatos e dados fazem parte da pesquisa realizada durante dois anos do mestrado na UFSCar, a partir de observações e análises das trajetórias de jovens estudantes trabalhadores em uma escola PEI de um bairro periférico de Itapecerica da Serra, São Paulo.