Na última sessão, trouxe o tema “Enfrentamento das Sombras Interiores” e a importância de olhar para dores profundas que atravessam a vida. Retomo essa reflexão para ampliar o olhar: o sofrimento psíquico não nasce apenas no indivíduo, mas também nas estruturas que nos cercam.
Recentemente, voltou ao debate um projeto que propõe acabar com a obrigatoriedade do ensino da história africana e indígena. Essa discussão não se limita à educação formal. Ela atravessa diretamente questões de identidade, pertencimento e saúde mental.
Para compreender essa relação, é preciso olhar para a memória e para as raízes que sustentam quem somos. Ao longo dos anos, diferentes movimentos sociais vêm denunciando o impacto do racismo estrutural no adoecimento da população. Desde, pelo menos, uns 15 anos, já se apontava a urgência de incluir, de forma efetiva, a história e a cultura dos povos africanos e indígenas nos currículos escolares.
Embora exista legislação que prevê esse ensino, sua implementação ainda é limitada. Esse apagamento não é neutro. Quando um povo não conhece sua própria história, perde referências fundamentais para a construção de identidade e autoestima.
E quando a memória é apagada, o corpo sente.
Surgem sintomas, silêncios, desconexões. Muitas vezes, o sofrimento aparece sem nome, mas carrega histórias antigas que não puderam ser reconhecidas. É nesse ponto que memória e saúde mental se encontram.
Ao mesmo tempo, a ausência de pertencimento fragiliza vínculos. A sensação de não ser visto, de não ter sua história reconhecida, pode levar ao isolamento — e o isolamento aprofunda o sofrimento. Por isso, falar de saúde mental também é falar de relação e apoio.
Fortalecimento está no cuidado coletivo
Nenhum processo de cuidado acontece de forma completamente solitária. Precisamos de espaços de escuta, de acolhimento, de troca. Precisamos reconstruir vínculos que sustentem a travessia das dores — sejam eles terapêuticos, comunitários, espirituais ou culturais.
Saberes ancestrais e práticas coletivas oferecem caminhos importantes nesse sentido. Eles nos lembram que o cuidado não é apenas individual, mas compartilhado. Que é possível se fortalecer na relação com o outro e com a própria história.
Quando políticas públicas deixam de garantir acesso a esses conhecimentos, reforçam um modelo que fragiliza ainda mais esses vínculos.
Negar a história é também dificultar processos de reconhecimento, pertencimento e cuidado coletivo.
Falar de saúde mental, portanto, é também falar de memória, de raiz e de relação. É reconhecer que o enfrentamento das sombras não acontece apenas no interior de cada pessoa, mas também na forma como nos conectamos com nossa história e com os outros.
Diante desse cenário, torna-se fundamental reafirmar a importância de políticas que valorizem a diversidade histórica e cultural. E, ao mesmo tempo, fortalecer caminhos de apoio que nos permitam reconstruir sentidos, vínculos e formas mais dignas de viver.
Porque, no fim, enfrentar as sombras também é isso:
não fazer esse caminho sozinho.
E talvez seja nesse reencontro — com a própria história, com o corpo e com o outro — que a vida, pouco a pouco, volte a encontrar caminho.
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