Em um dos prédios da Cohab 2, em José Bonifácio, na zona leste de São Paulo, vive o jovem escritor e Slammer de 18 anos, Marcos Vieira. Também conhecido como Marquinhos. Estudante de Letras, ele é autor de quatro livros e concilia a rotina entre o estágio como professor em uma escola pública e a sua carreira de escritor.
Antes mesmo de concluir o ensino médio, Marcos já circulava por escolas da rede pública e espaços de ensino com oficinas e rodas de conversa a partir da literatura marginal e do Slam. O jovem escritor já passou por mais de 25 escolas e espaços educacionais em diferentes regiões de São Paulo, atingindo aproximadamente 3 mil pessoas, entre estudantes e professores.

Marcos propõe diferentes atividades, adaptadas às faixas etárias e às séries, transitando por artistas e autores afro-brasileiros e indígenas. O objetivo é mostrar aos estudantes que, assim como ele, também é possível se expressar e conhecer mais sobre a própria identidade por meio da escrita.
Seu último lançamento, “Os Passos de Luiz”, publicado em 2026, nasce justamente desse desejo, mas com um público um pouco diferente do que ele estava acostumado: o infantil. Na obra, Marcos conta, por meio do personagem principal, muito mais de sua própria infância e dos desafios que enfrentou ao longo dela do que de uma história fictícia. Assim como o personagem, ele foi uma criança negra de pele clara e cresceu com dúvidas relacionadas à própria identidade racial.

O livro aborda sobre raça a partir do olhar de uma criança, e ao longo da história, Luizinho, personagem principal do livro, passa a compreender melhor o que significa ser uma pessoa negra com a ajuda de seus familiares.
“É com esse sentimento que eu tenho da minha jornada, somado a minha vivência, que sai o livro infantil, que conversa com as infâncias negras. Com ele eu abri um novo leque de público, e depois de visitar muitas escolas de ensino fundamental e médio, eu estou recebendo convites de escola de educação infantil”, conta.
Acesso à literatura a partir da escola
Quando criança, Marcos, assim como outras crianças, gostava de brincar com seus amigos, assistir desenhos na televisão e desenhar. Mas ele também tinha um outro interesse: a leitura. Ele gostava de ler gibis da Turma da Mônica, a Revista Recreio e outras histórias infantis. Nessas leituras, Marcos, uma criança preta de pele clara, já notava um distanciamento: “Eu olhava para a literatura e não me reconhecia. Não fazia sentido para mim”, relembra.
Foi na escola que essa realidade começou a mudar. Na E.M.E.F. Benedito Calixto, localizada no Jardim São Pedro, próximo a José Bonifácio, Marcos conheceu a professora Tatiana Cândido, responsável pela sala de leitura do lugar.
A partir do Ensino Fundamental II, Tatiana passou a levar para Marcos e seus colegas de turma atividades com ênfase em autores afro-brasileiros e indígenas. As aulas abordavam temas relacionados aos povos negros, indígenas, migrantes e a diferentes culturas brasileiras.
“Foi quando entendi que a literatura também era feita para mim e por mim. Que existiam pessoas falando daquilo que eu vivia, daquilo que eu sentia, existiam pessoas parecidas comigo fazendo literatura também.”
Marcos Vieira é escritor, estudante de letras e Slammer.
O contato com esses autores, como Daniel Munduruku, Carolina Maria de Jesus e Solano Trindade, inspirou o jovem, com 13 anos, a entrar no mundo da literatura.
“Quando eu comecei a ler e entender esses autores, foi quando eu comecei a me reconhecer, e foi despertando essa coisa dentro de mim. Se eles fazem, falando de mim, falando do que eu sinto, eu também posso fazer”, conta.
Em 2020, no período da pandemia de covid-19, quando estava no 7º ano, o jovem manteve contato com seus professores pelas aulas online, e passou a pesquisar cada vez mais sobre o processo criativo dos autores que o inspiravam. Pela internet, Marcos também se aprofundou no Slam e na Literatura Marginal, a partir de nomes como Cleiton Mendes e Tawane Teodoro.
Foi nesse período de isolamento social que Marcos começou a construir sua primeira obra. Em 2021, aos 13 anos, na pré-adolescência, o primeiro livro de Marcos saiu das folhas de caderno e foi publicado. Chamado “Quem Perdoa é Deus”, o livro reúne diversas poesias do autor e foi construído em conjunto com seus professores, que o ajudaram desde o processo de escrita, revisão, ilustração até a publicação.

“Foi um livro completamente construído dentro da escola, ainda que a gente estivesse na pandemia. Foi graças ao apoio dos meus professores que acreditaram na minha ideia, que eu também passei a acreditar que daria certo”, conta.
Da escrita à poesia falada
Quando as medidas de isolamento social foram sendo reduzidas, Marcos, acompanhado de alguns amigos e da professora Tatiana, foi pela primeira vez ao Slam da Guilhermina. E justamente naquela noite, ele foi um dos sorteados para recitar, sendo o poeta mais novo entre os presentes.
“Quando eu pisei naquela praça a primeira vez eu falei: ‘É, realmente, se eu tinha dúvidas se era o que eu queria, é aqui que eu quero estar mesmo”, relembra.
A partir dali, Marcos passou a ter um compromisso fixo: todas as últimas sextas-feiras do mês, junto com seu pai, não faltava a nenhuma edição do Slam da Guilhermina. Por lá, fez novas amizades, conheceu novas inspirações e começou a construir seu segundo livro.

“Armado de Palavras” teve seu lançamento em janeiro de 2023, no Slam da Guilhermina. Para Marcos, a obra marcou a influência que o Slam teve em sua trajetória como poeta e escritor.
“Eu vou entendendo que na verdade sempre existiram referências, sempre teve gente que poderia me espelhar. O que não existia era acesso.”
Marcos Vieira é escritor, estudante de letras e Slammer.
Marcos intitula suas obras como literatura marginal, modo literário no qual se encontrou, assim como os autores que são suas referências. Mas essa nomenclatura não surge do nada. Para ele, suas produções estão diretamente ligadas ao seu território periférico.
“A literatura marginal é um modo de literatura que carrega a essência, os traços e os sentimentos de todas as pessoas que estão à margem da sociedade geograficamente e socialmente falando. A gente tá falando de uma literatura produzida pela periferia, para a periferia e a partir da periferia e também de pessoas que se encaixam dentro de grupos tidos como minoritários.” Explica.
Nesse contexto, nasce o terceiro livro de Marcos. “Despejados”, lançado em 2024, reúne poesias em que o território também é um personagem. Entre poemas românticos e de luta, Marcos também aborda o lugar onde nasceu e vive.

“O meu território ele fala muito dentro de mim, dentro das minhas produções, porque realmente não se separa. Eu cresci aqui, eu nasci aqui e sempre que eu parto, eu parto daqui e quando eu preciso voltar, eu volto para cá também.”
Marcos Vieira é escritor, estudante de letras e Slammer.
De volta à escola
Desde o lançamento do primeiro livro, Marcos passou a receber convites de escolas e eventos para apresentar seus trabalhos. Desde então, retorna às instituições não como aluno, mas como autor.
“Acho muito interessante, toda vez que eu chego em algum outro contexto também periférico, por exemplo, na zona Sul, e ainda assim a gente se reconhece em determinadas vivências, em certas coisas que nos tornam parecidos, ao mesmo tempo que a gente reconhece diferenças que nos tornam únicos”, relata.

Para Marcos, voltar à escola como referência para os estudantes não estava em seus planos. Ele conta que, quando iniciou sua carreira aos 13 anos, não imaginava que todo o processo daria certo. O estudante de Letras quer se tornar professor e, assim como sua professora Tatiana, pretende influenciar positivamente os alunos por meio da literatura.
“Todas as vezes que eu chego numa escola, para falar sobre os meus livros, para servir como um exemplo ou referência para esses alunos que assim como eu provavelmente não teve muitas referências apresentadas a eles, é como se eu tivesse devolvendo aquilo que plantaram em mim um dia.”
Marcos Vieira é escritor, estudante de letras e Slammer.
As atividades realizadas pelo escritor também dialogam com as perspectivas das Leis 10.639/2003 e 11.645/2008, que tornaram obrigatório o ensino da história e da cultura afro-brasileira e indígena em todas as escolas brasileiras, públicas ou privadas. A escolha de Marcos por sempre construir suas oficinas e obras a partir dessas referências vem para mostrar aos leitores, estudantes e professores que, por meio da literatura marginal, do Slam e da poesia, também é possível conhecer diferentes culturas e também quebrar com estereótipos relacionados a elas.
“As leis 10.634 quanto e 11.621, assim como o currículo escolar se pauta nelas, eu também me pauto. Para que eles [alunos] entendam de que a África é um continente, de que a história do Brasil foi contada da maneira errada e que a partir disso, como isso influencia eles hoje, como isso influencia o território deles. Quem são esses alunos e alunas dentro do território enquanto sujeitos.”
Marcos Vieira é escritor, estudante de letras e Slammer.

A importância da aplicação dessas leis nos espaços de ensino é possível ser vista na trajetória do próprio Marcos. Desde a 4° série, quando começou a ter aulas com a professora Tatiana, o escritor ainda carrega consigo o que aprendeu nessa época.
“Todas as minhas atividades, meus livros, partem também dessas leis. Porque os meus livros surgem graças a um aluno que teve acesso a essas referências”, reflete.
Ter seus livros dentro das escolas também é um dos principais objetivos do escritor, e em algumas escolas que já passou, é possível encontrar alguns exemplares dos livros de Marcos nas salas de leitura. Na maioria das vezes, são os próprios professores que se mobilizam para comprar as obras e deixá-las disponíveis aos estudantes.

Agora com seu último lançamento, Marcos segue voltando às escolas. Trabalhando ao lado dos professores e de referências que tornam seu caminho até aqui possível.
“Os meus escritos, os meus livros publicados, concretos, físicos que hoje circulam por aí, tudo que eles fazem as pessoas sentirem, aprenderem, e pensarem são as concretizações da minha vida e do meu legado. São a certeza de que eu permaneço depois daqui”, finaliza.
Esta matéria foi produzida como resultado do projeto ‘Raízes e Educação: cobertura de conteúdos para promoção da equidade racial periférica, quilombola e indígena na educação brasileira’, realizado pela Coalizão de Mídias e Imagine Futures.