Talento é suficiente para sua arte ter alcance nas redes sociais?

Artistas independentes do ramo musical encontraram nas plataformas digitais uma ferramenta para divulgar seus trabalhos e construir público, mas contam que alcançar visibilidade não depende apenas da sua produção.
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Discos, composição de sets, a logística cansativa do leva e traz de equipamentos e a presença digital obrigatória fazem parte da realidade de um DJ independente. Para o paulistano Victor Marra, cria do bairro Jabaquara, na zona sul de São Paulo, as noites nas cabines se dividem com os dias atuando como maquiador e trancista, trabalhos que viabilizam financeiramente a sua carreira como DJ.

Victor Marra é DJ, maquiador e trancista, morador do Jabaquara na zona sul de São Paulo. – Foto Arquivo pessoal

Contudo, a trajetória do Victor não pode ser resumida ao estereótipo da exaustão; na verdade, ela é o reflexo de uma herança familiar. Filho de um pai MC, ele cresceu usando a mesa de casa como palco, mesmo como brincadeira. Hoje, ele usa os estilos musicais que fizeram parte da sua vida, como o funk, a black music e o charme para atrair o público que cruza a cidade em busca de lazer no centro de São Paulo. Para ele, é mais do que um set em uma festa no Centro, é uma ferramenta cultural de demarcação de território e identidade negra.

“É algo que eu cresci ouvindo e me formou como pessoa. Hoje, isso jorra na minha vida enquanto artista e DJ”, reflete Victor. “Procuro sempre resgatar o que nos foi tomado desde sempre, ritmos que acabaram sendo apropriados e tirados como música de branco.”

A profissionalização como DJ começou em 2023, quando participou de um curso oferecido pelo coletivo Todas Podem Mixar. A partir dali, o aprimoramento técnico passou a disputar espaço com a mais nova exigência do mercado cultural: a gestão da comunidade digital. No caso do DJ, o Instagram funciona como a vitrine diária de sua imagem para os trabalhos, enquanto o SoundCloud atua como a plataforma principal para a distribuição do seu som, por ser mais acessível e menos burocrática.

Foto: Arquivo Pessoal

A burocracia, aliás, é o principal gargalo de quem produz cultura de remix. As políticas de direitos autorais das grandes redes tornaram-se uma barreira criativa. “Eu não consigo soltar no Instagram ‘viradas’ e samples. Se eles identificarem a música nas mixagens, bloqueiam”, explica. 

“Infelizmente, nós somos reféns das redes sociais. Por mais que tenhamos um conteúdo bom, uma imagem boa e um som ótimo, a gente tem que ter a sorte de o Instagram entregar, das pessoas compartilharem, de cair no gosto. Isso é sorte.”

Victor Marra, DJ, maquiador e trancista, morador do Jabaquara, zona sul de São Paulo.

A saída de Victor foi readaptar seu formato, criando vídeos com curiosidades musicais e postando fotos profissionais para validar sua posição na cena. Com quase três mil seguidores nas plataformas, o esforço é contínuo para crescer dentro delas, mas a recompensa financeira ainda não é uma realidade para o artista. 

A internet abre a porta, mas não entrega a chave

Criada em Pirajuí, cidade do interior paulista, Jheni MC cresceu em contato com a música, tendo referências como Realidade Cruel e Facção Central presentes desde a infância. Mas foi só quando chegou em São Miguel Paulista, zona leste de São Paulo, há nove anos, que encontrou o cenário para materializar suas composições, abordando vivências na quebrada, resistência e autoestima.

Jheni é MC, moradora de São Miguel Paulista, zona leste de São Paulo. – Foto Arquivo pessoal

“Tudo que eu vou trazer para minha arte é a vivência que eu tenho na rua, é o meu dia a dia […]. Eu trago tudo isso para a minha música”. E, se sua realidade é a matéria-prima da produção, a internet se tornou um dos principais caminhos para fazer sua música circular. Para ela, as plataformas reduziram algumas barreiras de acesso e distribuição. 

“Antigamente você tinha que vender CD na rua, entregar pen drive para DJ… hoje eu trabalho das 6h às 6h, não teria como fazer isso. A internet com certeza me fez atingir públicos fora do meu bairro, da minha família e dos meus amigos.”

Jheni é MC, moradora de São Miguel Paulista, zona leste de São Paulo.

Apesar disso, a MC diz que entende o jogo e não compra qualquer narrativa. “Eu detesto esses gurus de internet que dizem para postar todo dia no mesmo horário. Cada um tem seu público”. Ainda assim, para se manter ativa, precisou desenvolver estratégias: “Eu comecei a olhar a rede como um instrumento de trabalho. Passei a levar a sério, com horário para gravar e editar. A essência permanece, eu sou eu o tempo todo. Mas a forma de falar foi adaptada”. 

Segundo dados de 2023 do relatório Loud & Clear, do Spotify, 70% da receita gerada por artistas brasileiros na plataforma veio do chamado setor independente. O percentual, porém, inclui empresas de grande porte que estão fora das três majors (Universal, Sony e Warner), como AgroPlay, MK Music e Som Livre, do grupo Globo, o que não permite dimensionar quanto dessa receita chega aos artistas que atuam de forma realmente autônoma, sem vínculo com grandes estruturas do mercado.

É nesse cenário que ganha relevância a nova política de compensação do Spotify, implementada em abril de 2024, que passou a exigir ao menos 1.000 reproduções nos 12 meses anteriores para que uma faixa seja incluída no cálculo dos royalties de gravação. Antes da mudança, toda música tocada por mais de 30 segundos no streaming gerava um pagamento. A alteração na forma de remunerar os músicos cadastrados afeta especialmente quem tem menor alcance na plataforma, que pode permanecer fora da distribuição mesmo fazendo parte do amplo grupo classificado como independente.

“Tem ficado cada vez mais difícil conseguir alguma coisa. Eu nunca consegui […]. Sei que meu alcance no Spotify ainda é baixo, mas a plataforma poderia dar algum tipo de incentivo para quem está criando músicas para colocar lá. A preocupação é sempre colocar mais dinheiro no próprio bolso”, compartilha Jheni.

A mudança no mercado da música, principalmente no pós-pandemia de covid-19, e a lógica das redes sociais, em especial TikTok e Instagram, são dois demarcadores que o gestor cultural, Wellison Freire destaca sobre o cenário das plataformas digitais e a carreira de artistas independentes. 

Mestre em Economia da Cultura e Indústrias Criativas e formado em Administração Pública, Welisson analisa que, dentro da lógica das redes, quantidade de seguidores, curtidas, alcance, os números em geral podem influenciar em determinadas curadorias e relações no mercado, mas reforça como essa medição é relativa.

“Não necessariamente o alcance que ele [artista] tem nas redes vai se converter no alcance presencial e vice-versa também. Então a gente tem artistas que têm números pulverizados, gigantescos nas redes sociais, mas que não alcançam um público no presencial e vice-versa. Artistas que não têm uma grande relevância, mas têm uma comunidade, de fato, falam com uma comunidade específica e têm um público mais fixo.”

A experiência de Jheni se aproxima dessa leitura: “A internet é uma vitrine, mas as coisas de verdade acontecem na rua: o movimento, os shows, as batalhas. Eu conheço artistas que estão na carreira há 40 anos, fazendo tudo, e nem ligam para o Instagram. A carreira deles está andando e é lindo”. Segundo ela, isso não significa que a presença nas redes não conte: “O que o Instagram dá é visibilidade. Ele me abre portas para conseguir um show ou entrar em um edital, mas quem faz acontecer é a rua”.

No entanto, a MC alerta que, para uma mulher negra no Rap, essa exposição também pode significar lidar com diferentes formas de violência. Ela relata que chegou a interromper temporariamente a produção de conteúdo depois de receber uma série de comentários ofensivos de homens, situação que se intensificou quando um de seus vídeos alcançou cerca de 170 mil visualizações. 

“Já tive vários homens acabando comigo nos comentários simplesmente porque sou mulher. Alguém ouve cinco segundos da minha música e diz que é um lixo […] Se a pessoa não conseguir trabalhar a mente, ela não fica nesse universo”.

Nem tudo que importa cabe nas métricas

Wellison, que também atua com gestão e produção cultural, reforça que não é sobre negar a presença no meio digital. “O artista está lá fazendo um bom trabalho, lançando boas músicas, fazendo uma estratégia que está dialogando com o que se pede de estratégia comunicacional nas redes, fazendo o trabalho bem consolidado, com constância. Às vezes consegue uma mídia paga, alguma coisa assim. Talvez ele tenha algum retorno que não seja econômico de primeira, mas que seja de visibilidade, de alcançar novos públicos, talvez começar a formar uma comunidade”, analisa.

As problemáticas que o especialista aponta giram em torno do tipo de posicionamento digital ao longo do tempo e a uberização da sua própria atuação. Por vezes, a produção de conteúdo é para viabilizar outras formas de receita, mas não diretamente da plataforma. 

“O Spotify paga os royalties ali num valor minúsculo. Então tem essa lógica de os artistas também serem trabalhadores dessas plataformas. E aí, cada vez que essas plataformas pedem mais dos artistas, eles vão gastar mais tempo e mais dinheiro para estar nessas plataformas”, coloca. 

A cantora e compositora Nayra Lays, do Grajaú, zona sul de São Paulo, também percebe as plataformas digitais como intermediárias inegociáveis na disseminação de um artista independente. Quando começou sua trajetória em 2016, embora as redes sociais já existissem, o cenário era outro, e a principal base para o início de sua carreira foi o que ela chama de “plataforma da rua”.

Ainda adolescente, Nayra começou a participar de saraus e encontros culturais em seu território para ganhar confiança no palco. Foi na própria comunidade que deu os primeiros passos na profissionalização de sua arte. Lançou o primeiro single no SoundCloud, aproveitando a mesma facilidade burocrática mencionada pelo DJ Victor. Hoje, quase uma década após a estreia, a artista acumula mais de 100 mil streams orgânicos no EP “Orí” e lançou, em 2024, seu primeiro álbum de estúdio, “Feita de Samba”, mesclando pagode, samba rock, pop e R&B dos anos 2000.

Nayra Lays, cantora e compositora, moradora do Grajaú, zona sul de São Paulo. – Foto Camila Matias Tuon

“O Grajaú é a quebrada onde eu cresci e nasci. Esse território influenciou completamente quem eu sou como artista e me deu coragem para me colocar no mundo, por ser um lugar com uma efervescência cultural muito grande”, reflete a cantora.

Apesar das conquistas artísticas, Nayra mantém um olhar crítico e descreve como “ambígua” e “complexa” a relação com as plataformas digitais. Para se manter relevante, o artista independente é forçado a assumir o papel de criador de conteúdo, exigindo um esforço exaustivo e não remunerado.

“O retorno e o engajamento são diferenciados para uma mulher quando ela está mostrando mais a própria vida pessoal do que o que ela produz”, aponta. Segundo a cantora, o alcance é infinitamente maior ao postar o próprio corpo na praia do que ao divulgar o lançamento de uma música. O apagamento é ainda mais agressivo quando a artista aborda tensões sociais e políticas.,

“Falo muito sobre mulheres negras e sobre ser uma pessoa negra no mundo. Sinto que, se eu fosse um pouco menos profunda, os algoritmos me recompensariam mais.

Nayra Lays, cantora e compositora, moradora do Grajaú, zona sul de São Paulo.

Ao analisar a relação dessas plataformas na perspectiva da economia criativa, Wellison ressalta a necessidade de entender os interesses políticos desse mercado. Quem são os donos dessas plataformas e onde elas estão localizadas são algumas das questões levantadas pelo especialista ao citar sobre a construção e influência dos algoritmos. 

Outro aspecto de destaque para Freire é a rotina de produtividade exigida pelas plataformas, que analisa como uma lógica cruel para a visibilidade desses trabalhos. “Essa rotina de produtividade, de entrega, ela não é compatível em vários momentos com a vida desses artistas. Com a renda, com a jornada dupla, com diversas outras coisas para além de fazer música. Ele [artista] precisa fazer música, trabalhar e ainda ter uma estratégia nas redes sociais”, observa.  

“Tem vários interesses que vão para além do que seria só o talento [do artista]. E aí, às vezes o artista pode ter um super destaque, pode ser uma pessoa muito talentosa, mas não vai ter uma entrega. Por que, será que ele passa uma mensagem política? Ou ele passa uma mensagem que vai tocar em uma questão de gênero ou de raça? E isso é muito relativo também.”

Welisson Freire, Mestre em Economia da Cultura e Indústrias Criativas e formado em Administração Pública.

Como estratégia criativa e de sobrevivência, Nayra adotou comportamentos digitais que fogem do imediatismo das redes. Durante a produção de seu álbum independente em 2020, na pandemia, ela decidiu não reproduzir a velocidade do Instagram. Foi assim que idealizou a campanha “Casulo”, em referência ao seu próprio recolhimento criativo, ela desenvolveu uma newsletter em que trocou longas cartas semanais com o público, resgatando a espera e o diálogo entre o artista e os fãs.

Mesmo já tendo trabalhado em campanhas com marcas, a cantora destaca que ter visibilidade nas plataformas não significa construir uma carreira artística. Para ela, o sucesso real é viver com dignidade financeira, conseguir pagar as contas, ter momentos de lazer e custear um plano de saúde com a própria arte. Uma realidade que a própria indústria musical mascara. 

Reflexão compartilhada com o especialista, Welisson, que chama atenção para a importância de construir uma trajetória de carreira para além da visibilidade nas plataformas: “É importante ter o ambiente digital ali, mas assim, a jornada é muito mais que isso. Ele precisa ter diversificação de receita, de renda, precisa ter formação na carreira dele. Qual é as outras coisas que ele precisa desenvolver dentro desse lugar de ser artista, desse lugar de estar no mercado da música para ter uma longevidade na carreira?”.

Segundo ele, esse aperfeiçoamento e construção da carreira artística deve ser pensado a longo prazo e não pode ser confundido com o imediatismo dos meios digitais. 

“Por que você quer bater 1 milhão de plays no Spotify? Vai pagar quanto para você? E o que você vai fazer com esse dinheiro? E o que você vai fazer depois? A gente tem muitos artistas que têm 10 milhões, 20 milhões, 30 milhões, mas assim, o cara faz R$ 5 mil por mês? Não faz. E R$ 5 mil por mês não sustenta ninguém no Brasil direito”, reflete o gestor cultural.

Nayra também alerta para a tentativa do mercado de empacotar a periferia em uma narrativa única e estereotipada, transformando em algo vendável, um produto fácil de lucrar. A resposta sobre quem enriquece com essa cultura, para ela, é estrutural:

“O artista periférico não ganha tanto quanto as plataformas quando canta sobre a realidade dele. Hoje, quem lucra mesmo com as histórias construídas sobre as periferias são as plataformas.”                                                                                                                     

Nayra Lays, cantora e compositora, moradora do Grajaú, zona sul de São Paulo.

Nesse exemplo, Welisson Freire menciona o último relatório financeiro do Spotify, o Loud&Clear, de 2025, que aponta o funk como o gênero musical entre os que renderam mais de 50 milhões de dólares no mundo, com um crescimento de 36% entre os gêneros. “É um gênero que é produzido massivamente no Brasil, a gente tem quantos artistas em relação ao funk nas plataformas que não recebem nem um milésimo desse valor na vida? E as plataformas estão lucrando muito mais”, analisa.

Acesso a políticas públicas

Outro ponto citado por Welisson é a importância de se enxergar enquanto uma classe. Para o especialista, esse cenário de estar vinculado a uma empresa europeia – no caso do Spotify, sueca – e todos os dias ter a dependência de alimentar esse algoritmo, sem receber para estar dentro dela, é uma conta que não fecha.

Wellison Freire – Foto: Arquivo Pessoal

Ele exemplifica, ao comparar a produção de um artista independente que, ao investir R$ 3 mil para fazer um lançamento, precisa gastar uma grande parte do valor com a produção visual daquele trabalho. Ensaio de fotos, algum material visual, porque a lógica das redes pede isso. 

“Essa lógica de que o artista dentro do streaming é igual ao trabalhador que está trabalhando em outras plataformas que tem essa mesma lógica de uberização. O iFood não paga a manutenção da moto do motoboy, ele vai pagar o quanto o motoboy entregar. O Uber não paga a gasolina do motorista, a manutenção do carro. É quantas corridas o motorista faz e ponto. E o Spotify não paga a manutenção do artista naquele lugar. Ele vai pagar o quanto o artista vai render de dinheiro. É a mesma lógica.”

Welisson Freire, Mestre em Economia da Cultura e Indústrias Criativas e formado em Administração Pública. 

Ao refletir sobre caminhos possíveis diante desse cenário, o pesquisador reforça sobre a regulação das plataformas e o papel das políticas públicas. Para ele, o papel do gestor cultural é comunicar a importância da política pública cultural e a busca do entendimento de como funcionam os acessos. 

“O grande mercado da música no Brasil, quem ganha dinheiro, está ganhando dinheiro do Estado, que é o sertanejo (…). O maior sustentador desse mercado é o Estado de fato. No Brasil, é isso. E o cachê do cara mais estourado do rap não vai chegar aos pés do cachê que os grandes artistas do mainstream ganham de prefeituras”, exemplifica.

Ele ainda ressalta sobre os maiores investimentos no mercado da música estarem vinculados a políticas públicas e a necessidade dessa descentralização. “As plataformas não investem o quanto o Estado investe, só que o Estado investe porque é político. Quem acessa esses lugares são os políticos. E os artistas que são conectados com esses políticos sabem quais são as ideologias dessas pessoas também. A política pública está chegando para essas pessoas, o recurso público está chegando para essas pessoas e a gente está pegando o farelo”.  

O pesquisador afirma que estar no mercado é caro para os artistas independentes que, além de recursos financeiros, dedicam trabalho e tempo. Ele ressalta  que a regulamentação desse setor enquanto área de trabalho e setor de serviços, pode contribuir, como na acessibilidade e distribuição dos editais.

“Não tem como você fazer com que o recurso público só chegue no artista através de edital ou contratação, tem que ter outras formas que o recurso chegue nesses artistas também”, finaliza Freire.

Essa reportagem foi produzida no contexto da disciplina Mídias e Representações Sociais da Diversidade no curso de Pós Graduação em Mídia, Informação e Cultura – CELACC/USP, a partir do grupo de trabalho formado por Ana Paula Oliveira, Evelyn Vilhena, Jennifer Mendes, Julia Filgueiras e Lourenço Almeida.

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