Os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), são locais de acolhimento de pessoas em sofrimento psíquico e de apoio no processo de reinserção à comunidade. É a partir desse serviço de apoio à saúde mental que o coletivo Saúde na Periferia formado pela atriz e oficineira do CAPS – Adulto Pirituba Jaraguá, Jaqueline Barreto, a produtora e pesquisadora, Emanuela Fonseca e o produtor de vídeos, Vinicius Pereira, desenvolveram o projeto “A Arte como Meio de Promoção da Saúde Mental”.
Os integrantes do grupo, todos moradores do bairro de Perus, região da zona noroeste de São Paulo, atuaram entre agosto e setembro de 2025 desenvolvendo oficinas de arte e cultura nas unidades do Caps III Adulto Brasilândia e Caps II Adulto Perus, na região norte e noroeste da cidade de São Paulo.
A partir de atividades no CAPS, o projeto pesquisou como a arte e a cultura contribuem com os cuidados em saúde mental. As oficinas resultaram na publicação de um livro com o relato desse processo.
A atriz e oficineira Jaqueline Barreto conta que as oficinas funcionavam como um espaço de trocas. “Enquanto a gente desenhava, pintava, conversava sobre música, sobre várias coisas que estavam acontecendo ali, a gente perguntava para as pessoas: ‘A arte e a cultura te ajuda?’’’, conta.

“A arte e a cultura são fundamentais e estruturantes para pensar a luta antimanicomial e a reinserção do sujeito dito louco ou diferente”, diz Jaqueline ao explicar sobre o uso da arte como recurso para promoção de saúde mental.
A atriz se inspira no trabalho da psiquiatra Nise da Silveira, médica que revolucionou o tratamento mental no Brasil por meio da arte. Trabalhando junto com a sambista e enfermeira Dona Ivone Lara, defendiam um tratamento psiquiátrico humanizado.
“Nise da Silveira usava muito das artes plásticas, olhava desenhos e trabalhava com o inconsciente das pessoas. Já Dona Ivone Lara foi para um lado diferente da abordagem de Nise, embora tenham trabalhado juntas, ela desenvolvia a música, mais especificamente o samba. Acho que são formas multivariadas que a gente pode se expressar”, explica.

Emanuela Fonseca explica que durante as experiências nas oficinas, os participantes puderam expressar suas emoções de maneira diversa, através do uso de massinha, cantando, compondo poemas ou contando histórias.
A Arte como Meio de Promoção da Saúde Mental
A atriz expõe que o projeto nasce através de vivências individuais e no apoio que a arte proporcionou para ela em momentos difíceis.
“Eu já tive questões de saúde mental, lidei com depressão e ansiedade. E a arte sempre foi uma grande aliada, que me ajudou muito a lidar com as subjetividades que aparecem do subconsciente”
Jaqueline Barreto sobre o projeto Saúde na Periferia dentro dos CAPS.
Ela também explica que foi através de um amigo que conheceu um dos projetos de arte dentro do CAPS e sua importância para a saúde mental, já que a artista cresceu com a avó com transtorno bipolar com quadros de psicose. “Havia uma pessoa muito amiga minha, e ela faz tratamento no CAPS. Então, ela me relata que no CAPS, através das oficinas de arte e cultura que acontecem lá, ela ajudou a se descobrir artisticamente. E aí eu pensei muito na minha avó e por quê ela não teve esse tipo de cuidado”, relata.
Enquanto desenvolvia o projeto pensando em investigar a importância das oficinas de arte e cultura na saúde mental dos usuários, Jaqueline foi contratada como oficineira no Adulto Pirituba Jaraguá.

A oficineira conta como funciona o dia a dia do seu local de trabalho: “A gente tem um quadro de oficinas e de grupos que acontecem, e tudo é terapêutico. A gente tem o grupo do autocuidado, que são pessoas que por conta de depressão, elas ficam muito dissociadas do corpo e acabam não cuidando do cabelo, ou da saúde bucal, grupos para pessoas autistas, grupos para pessoas com deficiência intelectual, cada grupo tem um objetivo de trabalho ”
Entre 2021 e 2025, os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) realizaram 92,9 milhões de atendimentos em todo o Brasil, com crescimento de 58,6% no período: o volume passou de 14,1 milhões de atendimentos, em 2021, para 22,4 milhões, em 2025. O aumento ocorre em um contexto de alta prevalência de transtornos mentais, como ansiedade e depressão, que colocam o Brasil entre os países com maiores índices desses problemas na América Latina e figuram entre as principais causas de busca por atendimento em saúde. Os dados fazem parte do artigo “Acesso aos Centros de Atenção Psicossocial no Brasil: Análise da Rede de Atenção Psicossocial“, publicado na revista Brazilian Journal of Implants and Health Sciences (BJIHS).
Ao falar sobre a aceitação das atividades artísticas, a produtora cultural, Manuela Fonseca, relata: “De modo geral todos acolheram bem a proposta da oficina. Teve gente que não queria muito fazer, mas no final das contas se permitiu experimentar alguma coisa.”

“Teve um usuário que foi bem marcante porque ele falou assim: ‘se eu for tentar colocar no papel, não vai caber, então eu prefiro deixar o papel do jeito que ele tá, porque o branco vai ser a representação do infinito’, ele só colocou o nome e disse: ‘essa é minha arte, se alguém perguntar tem meu nome nela’”, relembra Manuela.
“E a gente falou que estava tudo bem, mas perguntamos se ele gostaria de tentar em outro material, por exemplo, massinha. E ele começou vários bonecos bem detalhados, começava, já desmanchava e fazia outro, ia fazendo vários”, conta.
Oito meses após os encontros, em maio de 2026, o grupo retornou para realizar um sarau que encerraria as atividades do projeto com os participantes das oficinas. Eles também desenvolveram um livro que documenta as atividades realizadas durante os encontros do projeto.

“No sarau revimos várias pessoas que estão com as suas artes no livro, e elas também viram as artes delas. Isso muda completamente, trabalha a questão da auto-estima, é muito gratificante”, explica Jaqueline Barreto.
“Tem várias pessoas que a gente vai reencontrando e vendo que estão bem encaminhadas, em tratamento, e elas percebem que o que elas participaram surtiu um efeito, teve um resultado, isso deixa essas pessoas felizes.”
Jaqueline Barreto, atriz e coordenadora geral do projeto “A Arte como Meio de Promoção da Saúde Mental”
A atriz explica que a programação do sarau foi composta por pessoas que fazem parte ou são usuários da Rede de Atenção Psicossocial, profissionais do RAP e artistas. “O Daniel, meu amigo que tem esquizofrenia e inspira o livro, ele é poeta, compramos uma série de livros dele e vendemos todos. No dia, também tivemos como atração o microfone aberto. As próprias pessoas que estavam lá fazendo parte, elas conseguiam sentir o que é ser artista. Também teve dança e poesia.”

Acolhimento de portas abertas
Jaqueline explica que para trabalhar no CAPS é preciso passar por um comitê de ética. “A gente pediu a carta de anuência para a Coordenadoria Regional Norte de Saúde de São Paulo, eles deram a anuência para a gente e com essa anuência a gente faz a inscrição no CEP, que é o Conselho de Ética e Pesquisa da Secretaria de Saúde de São Paulo. E com a aprovação que a gente pode entrar nos CAPS”,, conta.
“Não é só chegar lá e propor coisas, tem todo um cuidado que você tem que ter, porque é a vida e a história das pessoas. É como a Dona Ivone Lara fala né? Alguém me avisou para pisar nesse chão devagarinho, e a gente tem que chegar lá devagar mesmo”, diz Jaqueline.
Ela ressalta que é preciso desmistificar o papel do CAPS na sociedade: “Quando a gente não sabe o que é a luta antimanicomial, a gente vai entendendo que os CAPS é um lugar onde a pessoa é internada compulsivamente, compulsoriamente. Isso não é verdade.”

A atriz explica que o acolhimento no Centro de Atenção Psicossocial funciona em formato portas abertas e que conta com uma equipe composta por diferentes profissionais.
“[Em] sofrimento psíquico muito grave, em que essa pessoa está apresentando risco para si ou para outra pessoa, ela vai ser convidada a ficar em hospitalidade noturna. Se a pessoa estiver tão desorganizada e não reconhecer que ela precisa desse auxílio, a família vai ser acionada e pode pedir a hospitalidade noturna dessa pessoa. E essa pessoa pode sair a qualquer momento, a família pode ir lá assinar antes dos 14 dias, e é só 14 dias que a pessoa pode ficar”, explica.
Além do projeto, desenvolvido pelo grupo, Jaqueline ressalta os grupos de economia solidária que ajudam a desestigmatizar e fortalecer a economia dentro dos centros de apoio nas periferias. Um exemplo é o ateliê Loucos pela X, grupo que nasceu do antigo Ambulatório de Saúde Mental do Jaçanã, na zona norte de São Paulo, e fabrica as fantasias de carnaval para a escola de samba X9 Paulistana, localizada na Vila Guilherme, na mesma região. “Quando você olha para o trabalho artístico desse sujeito, você volta a olhar para ele como potência que ele é”, conclui.