Localizada no bairro do José Bonifácio, na zona leste de São Paulo, a Okupação Cultural C.O.R.A.G.E.M (Coletivo de Ocupação e Revitalização, Arte, Graffiti, Educação e Música) completa 10 anos de história em 2026. Criada a partir da mobilização de moradores, artistas, educadores e pesquisadores da região, a iniciativa nasceu do desejo de transformar um espaço abandonado em um lugar de convivência, cultura, formação e educação.
O imóvel, que antigamente funcionava como um mercado do bairro, permaneceu abandonado por mais de uma década, sem qualquer atividade. A transformação desse espaço foi resultado de um processo construído ao longo de cerca de 20 anos de luta, ligado principalmente às mobilizações sociais que aconteciam na região desde o final dos anos 90, como a Ocupação Reação, um movimento anterior ao C.O.R.A.G.E.M, que teve um papel importante ao estabelecer atividades no local nesse período, mas que sofreu uma reintegração de posse.

“Okupação Cultural C.O.R.A.G.E.M surgiu do anseio dos moradores da COHAB 2, da região de Itaquera, de ter mais espaços de convivência, de formação, cultura e educação. E dar uma nova função para aquele espaço que já tinha perdido a sua função social”, comenta Letícia Ferreira, jornalista, gestora e produtora cultural da Okupação Cultural C.O.R.A.G.E.M.
Nascida em Taboão da Serra, na Grande São Paulo, Letícia Ferreira, 36, começou a se aproximar dos movimentos culturais ainda na adolescência, por meio de amigos que frequentavam iniciativas culturais na zona leste, principalmente no distrito de Itaquera, e hoje atua na gestão do Okupação.

gestão da Okupação Cultural C.O.R.A.G.E.M há 6 anos. Foto: Felipa Anastácia/Desenrola e Não Me Enrola.
Segundo Letícia, foi em 2016 que a Okupação Cultural C.O.R.A.G.E.M conseguiu entrar efetivamente no imóvel, após anos de mobilização, limpeza e organização do espaço. E foi a partir desse momento que o local passou a receber as atividades.
“Estivemos em processo judicial com COHAB (Companhia Metropolitana de Habitação de São Paulo), passamos por ameaça de reintegração de posse, iniciamos uma campanha de mobilização de comunidades com o lema #OkupaCoragemResiste e, por um tempo, permanecemos abertos sete dias por semana, graças à participação ativa com programação cultural ininterrupta de coletivos residentes e parceiros para obtermos apoio popular pela permanência de uso do espaço”, relembra a gestora.
Em 2021, em mais uma audiência de conciliação com a COHAB, proprietária do imovel, a Okupação conseguiu oficialmente a cessão de uso do espaço com validade de quatro anos, para que a associação seguisse com seu propósito de democratização do acesso à cultura e educação. Em 2025, esse acordo foi renovado por mais quatro anos.

Após mobilização dos moradores, o acordo de cessão do espaço com a COHAB (Companhia Metropolitana de Habitação de São Paulo) continua por 8 anos consecutivos. Foto: Jéssica Calheiros/Desenrola e Não Me Enrola.
Atualmente, a Okupação Cultural C.O.R.A.G.E.M proporciona de forma gratuita o acesso a atividades e oficinas, além de disponibilizar o espaço para artistas independentes, coletivos e iniciativas comunitárias.
“O C.O.R.A.G.E.M hoje é um espaço visto pela comunidade não só do território, mas de outras localidades como espaço diverso e estruturado para receber projetos, apresentações, atividades de iniciativas socioeducativas e culturais. Em 10 anos de atuação, o espaço se tornou referência para fruição e produção artística e cultural na zona leste de São Paulo.”
Letícia Ferreira é jornalista, gestora e produtora cultural da Okupação Cultural C.O.R.A.G.E.M.
Segundo o Mapa da Desigualdade 2025, o distrito de José Bonifácio, onde a Okupação está localizada, possui 128.404 habitantes e registra um índice de 0,08 centros culturais, casas e espaços de cultura para cada 10 mil habitantes. Já o distrito da República, região central que lidera o ranking nesse mesmo indicador, registra 0,66 equipamentos para cada 10 mil habitantes, um índice 8,25 vezes maior que o de José Bonifácio.
Para Letícia, o crescimento da população do bairro não tem sido acompanhado pela ampliação de políticas públicas voltadas à cultura. E aponta que nesse cenário, a Okupação se tornou necessária para o território por conta da demanda por espaços de cultura e formação que não era atendida.
“Se a gente for comparar com bairros mais centralizados, não há entrega de novas bibliotecas ou casas de cultura pelo poder público na região há décadas. E, embora o Distrito tenha conquistado novas ocupações e associações nos últimos 20 anos, a iniciativa da sociedade civil não dá conta das demandas territoriais”, reforça.
Os coletivos residentes
Vinte coletivos da zona leste são residentes no espaço, que promovem uma diversidade de linguagens artísticas e culturais, como teatro, dança, artes visuais, poesia, literatura, cultura nerd e multilinguagem. O espaço é disponibilizado para que os coletivos desenvolvam suas atividades e oficinas, além de utilizarem a estrutura para armazenar seus acervos. A Okupação também recebe outras organizações e iniciativas sociais. Juntos, os coletivos constroem com a equipe de gestão, a programação cultural oferecida ao longo da semana.

“Sem eles [os coletivos], só a equipe da gestão, que trabalha, prioritariamente, de forma voluntária, não seria suficiente para compor a grade cultural, manter o espaço aberto todos os dias da semana e zelar pela infraestrutura do imóvel”, destaca.
Entre os coletivos residentes, está a Gibiteca Balão, iniciativa que promove a cultura nerd nacional e internacional para jovens e adultos. Criado por um grupo de amigos, o coletivo surgiu da vontade de fomentar esse universo na zona leste, região em que moravam, diante da falta de iniciativas semelhantes no entorno. A partir desse desejo, os integrantes passaram a reunir pessoas interessadas no tema e a construir um acervo.
Victor Taiguara, morador da Vila Prudente, na zona leste de São Paulo, físico e integrante da organização da Gibiteca Balão, conheceu o coletivo com 14 anos, quando passou a frequentar as atividades como público. E, anos depois, passou a fazer parte da organização. Hoje, o físico acompanha de dentro do coletivo as atividades que antes conhecia como frequentador.

“O Coragem, não só enquanto espaço, ele tem uma importância muito grande na Gibiteca, de fazer a gente entender o que é um coletivo e se entender enquanto um. Para a partir disso a gente saber como movimentar as nossas forças para nos construir e nos melhorar”, comenta Taiguara.
Em 2016, a Gibiteca Balão passou a integrar os coletivos residentes da Okupação. Antes disso, o coletivo utilizava a Casa da Memória, em Itaquera, zona leste, como sede. A chegada ao C.O.R.A.G.E.M marcou uma nova fase para a iniciativa, que passou a contar com um espaço fixo para desenvolver suas atividades, armazenar e ampliar seu acervo. Além de manter proximidade e contato com o público do território.
“No Coragem, a gente tem um espaço fixo para conseguir conversar com o entorno, conhecer pessoas, falar do que está acontecendo, trocar uma ideia sobre o mercadinho ou como foi a feira. Isso fortalece os vínculos de quem está entrando com a gente”, reforça.

Em 12 anos de história, a Gibiteca Balão construiu um acervo com mais de 5 mil exemplares de quadrinhos, em sua maioria produzidos por artistas independentes e nacionais. A coleção também reúne 130 jogos de tabuleiro, 15 jogos de RPG (jogo de interpretação de papéis ou de personagens) e 3 tipos de videogames. O acervo foi formado principalmente por meio de doações dos próprios artistas, que, segundo Taiguara, encontraram na Gibiteca uma forma de apresentar e divulgar seus trabalhos. O coletivo também conseguiu recursos financeiros por meio de editais, como VAI 1 (Programa para a Valorização de Iniciativas Culturais), conquistado em 2014 e 2015.
“Mas o que eu vejo como mais importante para a Gibiteca em ter o acervo nacional é do público poder olhar um quadrinho feito e falar: ‘Isso aqui foi um brasileiro que fez’. Isso aqui foi uma pessoa, um desenhista que assim como você não faz parte de uma editora grande, tinha uma vontade e conseguiu fazer. É uma possibilidade colocar a arte como o seu trajeto, o seu caminho”, acrescenta.

Taiguara conta que um dos principais objetivos da Gibiteca é incentivar a leitura por meio de práticas lúdicas, utilizando os quadrinhos, jogos e outras linguagens como formas de aproximar o público da literatura.
Segundo a pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, realizada pelo Instituto Pró-Livro (IPL) em 2024, 53% dos brasileiros, com cinco anos ou mais, são considerados não leitores, e declararam não ter lido nenhum livro, ou parte de um, nos três meses anteriores à pesquisa.
Além de estimular o contato com a leitura, a Gibiteca também busca ampliar o repertório sociocultural de seus frequentadores por meio de produções nacionais, feitas por artistas e escritores de diferentes regiões do país.
“Ou, no outro viés, mostrar coisas que eles [leitores] não estão acostumados com o próprio país, para eles entenderem como é a vida no local que eles não estão vivendo. Conhecer mais sobre a cultura do Norte, do Nordeste, do interior de São Paulo. A Gibiteca consegue fortalecer nesse aspecto de mostrar um tipo de cultura que não se tem tanto contato”, afirma Taiguara.

O físico destaca a importância da Gibiteca Balão estar inserida no território e próximo dos moradores, especialmente em uma região que vem recebendo cada vez mais novos habitantes ao longo dos anos. Para ele, a presença de um espaço cultural como a Okupação facilita o acesso de forma gratuita a diferentes linguagens, incluindo a cultura nerd, ao oferecer atividades dentro do próprio bairro.
“É reconhecer que o próprio bairro tem suas opções de cultura, e isso é transformador. Porque eles [os moradores] começam a frequentar, começam a ver que eu não preciso pagar para ter acesso à cultura, que eu não preciso pagar nem condução [transporte público] para acessar isso.”
Victor Taiguara é físico e integrante da organização da Gibiteca Balão.
Os moradores na construção da Okupação
A Okupação já faz parte da rotina de moradores do José Bonifácio, como é o caso da advogada Simone Pereira, que vive no bairro há 35 anos. Aos 53 anos, ela frequenta regularmente o espaço e participa da oficina de danças africanas realizada pelo coletivo residente “Cia de Arte e Dança Negra Oju Orun”.
“Ele [o C.O.R.A.G.E.M] representa para mim a satisfação de autoconhecimento, de compartilhamento de ideias, de estarmos convivendo com pessoas independente da idade que tem a mesma necessidade que a gente de se autoconhecer, de autoaprendizagem.”
Simone Pereira, advogada e moradora do José Bonifácio.

Simone relembra que, antes do processo de reivindicação do espaço, costumava se deslocar até a região central de São Paulo com os filhos para ter acesso a centros culturais e casas de cultura. A distância e a rotina puxada de trabalho dificultavam conciliar os deslocamentos com o dia a dia da família. Hoje, com a oferta gratuita de atividades culturais no próprio bairro, ela consegue acessar esses espaços com mais facilidade e participar da programação oferecida pelos coletivos.
“A partir do momento que você está aqui passando cultura para as pessoas, para as crianças, para os jovens, para os adultos, existe a necessidade disso acontecer. Porque a gente, no caso, sempre tem que estar pagando alguma coisinha. Às vezes você paga, às vezes você não tem condições”, comenta a advogada.
Simone gostou tanto do ambiente que passou a convidar familiares, que antes a acompanhavam nos deslocamentos até o centro, e amigos para conhecer o espaço. Segundo ela, compartilhar as atividades oferecidas pela Okupação também é uma forma de incentivar outros moradores da região a conhecerem o espaço e terem acesso à cultura dentro do próprio bairro.
“O Coragem é algo que você vai lá e se sente protegida, acolhida e você quer repassar isso para mais pessoas. Levei minha filha, levei minha neta, levei alguns amigos meus… Então automaticamente tudo que é de bom, de produtivo, você quer repassar.”
Simone Pereira, advogada e moradora do José Bonifácio.
“O legal da Okupação é isso, sempre aparecem pessoas novas independente da idade, aprendendo, se reconhecendo, falando sobre a nossa cultura, de que forma chegamos, aonde estamos, e é sobre isso. Temos dentro de casa, mas a cultura também vem do lado de fora”, finaliza.