“É um ato ancestral”: tradição do samba rock une três gerações da mesma família no Jardim São Luis, em SP

Ritmo oferece espaço de pertencimento para família desde os anos 1970.
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“O samba rock representa a minha essência”. A frase, dita por Sandra de Carvalho, moradora do bairro Jardim Monte Azul, no distrito do Jardim São Luís, zona sul de São Paulo, é a síntese do que significa fazer parte de um movimento musical que reúne por décadas a população negra da capital paulista. A mulher de 68 anos explica que frequenta bailes desde 2017, mas que sempre gostou de dançar, principalmente nas festas de família.

Sandra já participava de rodas de samba na casa de seu pai. Foto: Ana Alice de Lima/Desenrola e Não Me Enrola

“A minha família é mais do samba, meu pai. E depois, quando o meu irmão começou a dar baile, com aqueles discos de vinil e tudo, ele começou a me introduzir o samba rock. Apaixonei, aí ficou na veia. [Quando] eu vejo o samba rock, eu já quero dançar”, conta.

Em 2016, o samba rock foi reconhecido pelo Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade de São Paulo (Conpresp) como patrimônio imaterial paulista. O ritmo teve seu auge durante as décadas de 1970 e 80, majoritariamente na cidade de São Paulo, suas músicas eram tocadas durante os bailes black nas periferias, frequentados, em sua maioria, pela população negra.

O ritmo ficou marcado com a figura do discotecário, ou do disk jockey que hoje chamamos de DJ, esse profissional tocava nos bailes a música de vários artistas como Jorge Ben Jor, Tim Maia, Bebeto, Branca Di Neve e também alguns sucessos internacionais.

O irmão de Sandra também tocava discos em bailes e nas comemorações de sua casa. Foto: Ana Alice de Lima/Desenrola e Não Me Enrola

O primeiro disk jokey conhecido começou a tocar em 1958 e se chama Osvaldo Pereira ou Seu Osvaldo, com sua Orquestra Invisível, formada por equipamentos criados pelo próprio profissional. Seu Osvaldo tocava atrás de uma cortina e todos na época achavam que era uma orquestra ao vivo que estava tocando as músicas no baile.

Sandra de Carvalho relembra que assim como seu Osvaldo, seu irmão, hoje já falecido, também tocava discos em bailes e nas festas de família. “Meu pai era festeiro, a cada quinze dias tinha festa em casa que amanhecia o dia. Era samba, forró e a cada quinze dias a casa lotava. Meu irmão foi se reciclando [musicalmente], ele começou a sair e conheceu o samba rock. Aí ele começou a apresentar e ele me ensinava em casa”.

“Tinha a roda de samba tradicional, né? E ele começava a me ensinar em casa, tocava alguma coisa, dava pra tocar samba rock com Jorge Ben Jor”, acrescenta. 

Uma tradição de família

As festas em família também fazem parte das lembranças de seu filho, Leonardo Cordeiro. “Eu lembro do meu avô dançando, dos meus tios dançando com a minha avó, meu padrinho com a minha madrinha. Uma das maiores referências que eu tenho é o meu finado tio Pedroca, ele dançava muito e com uma alegria que era só dele”, compartilha Leonardo, conhecido como Léo Cordeiro, que tem 38 anos e dança profissionalmente há 20 anos. 

Registro de Sandra e seu pai. Foto: reprodução/arquivo pessoal. 

“O meu primeiro contato foi esse de visualizar e amar aquilo, é um contato ancestral mesmo, eu era bem pequeno tinha seis ou sete anos e via isso acontecer no quintal da minha casa”, relembra o Leo, que é professor de dança em diferentes espaços culturais.

“O samba rock é uma herança de família e ele me deu tudo que eu tenho hoje. Antes dele eu era só mais um andando pelo bairro. Depois dele eu virei o Leo Cordeiro, eu encontrei um ambiente onde a minha estética era diferente da que o povo me percebia na rua, sabe? Tipo, alguém perigoso. Aqui eu sou uma pessoa bonita, encontrei pessoas como eu, como as pessoas da minha família. É meio clichê falar, mas o samba rock representa muito de quem eu sou”.

Leonardo Cordeiro, professor, gestor cultural e criador do projeto Samba Rock Cultural.

Ele conta que a princípio dançava axé com as músicas de grupos como o É o Tchan, decorando os passos e reproduzindo depois, porém com o samba rock foi diferente, já que não conseguia decorar os passos de dança. Por isso, o professor decidiu começar a frequentar as aulas de dança do professor Kirk Douglas, no Centro Cultural Monte Azul, para aprender o ritmo. 

Leo Cordeiro é professor, gestor cultural e criador do projeto Samba Rock Cultural. Foto: Arquivo pessoal.

Leonardo destaca a importância do Centro Cultural Monte Azul para o samba rock, e também para a cultura da zona sul. O professor frequenta o local desde a época de escola, quando usava a biblioteca – que atualmente é uma comedoria – em suas pesquisas para trabalhos escolares. Nesse mesmo espaço, semanalmente o professor conduz aulas de dança promovidas pelo Samba Rock Cultural, iniciativa criada por ele.

“Para o samba rock, o Centro Cultural Monte Azul é um dos espaços mais tradicionais de São Paulo. Passou muita gente por aqui e aqui nasceu a galera que hoje trabalha no Samba Rock na Veia, nasceu o Núcleo Balanço, nasceu um monte de projetos desse lugar. Hoje eu estou aqui dando continuidade nesse legado, é um lugar importante para minha família, para mim, e para o cenário do samba rock”, explica. 

Baile Samba Rock Cultural realizado em agosto de 2026 no Centro Cultural Monte Azul. Foto: Ana Alice de Lima/Desenrola e Não Me Enrola

O professor diz que tudo que faz relacionado à arte é em paralelo ao samba rock, e que até durante os anos da pandemia de Covid-19 fazia lives em um canal do YouTube ensinando a dançar e contando a história do ritmo. “Mais da metade da minha vida eu passei dançando”, comenta. 

Leonardo diz que o samba rock consegue agregar vários ritmos musicais diferentes, se conectando com diversas raízes, como o forró, black moderno, jazz, bossa nova, samba de partido alto e baile nostalgia. 

“Acaba sendo um lugar onde as pessoas se sentem à vontade para pertencer, porque elas se enxergam lá. Tem muita representação, né? Até o jeito de dançar. No samba rock não é estranho você estar no baile e ver homem dançando com homem, mulher com mulher ou uma mulher conduzindo dois homens ou dois homens conduzindo uma mulher”. 

Leonardo Cordeiro, 38 anos, professor de samba rock.

A mãe de Leonardo, confirma o ponto de seu filho. Sandra diz que ao longo dos anos frequentando bailes de samba rock percebeu que pessoas de todas as idades começaram a frequentar os locais que ela vai. Além disso, Sandra também ressalta a empolgação dos que dançam o ritmo e seu carisma, atribuindo a esse fator a sobrevivência do samba rock por tantos anos. 

“As pessoas vem com empolgação, para querer dançar, se divertir e para fazer amizade. Então você faz muita amizade, o pessoal é muito educado e solícito e ajuda o outro. A gente chega aqui e eles estão dançando, eu chego aqui e é como se eu estivesse na minha casa. E você percebe que eles se sentem em casa. É um pessoal que eu amo”, conta. 

Sandra sempre participou das aulas de samba rock que seu filho, Leonardo Cordeiro, ministra no Centro Cultural Monte Azul, localizado no bairro de mesmo nome, e também em outros locais da região. 

Ela conta que antes de frequentar as aulas, dedicava-se ao trabalho de cuidado com a família:“Antes eu estava muito empenhada em cuidar de pessoas doentes, minha cunhada e minha sobrinha tiveram câncer, a gente cuidou delas. Meu marido também teve e cuidei, da minha mãe também e do meu irmão, ele faleceu e depois minha mãe também faleceu”, conta Sandra, que lembra que passou a frequentar os bailes apenas em 2017. 

“Eu ficava com um pouco de vergonha ainda, porque eu estava acostumada com outro tipo de dança. Depois eu comecei a ver as aulas do Leonardo, vendo ele dançar e vendo o pessoal dançar. O Leo falava assim: ‘Mãe, vem, você vai aprender, não precisa ter vergonha’. Aí eu comecei a frequentar as aulas. Onde o Leo ia, eu ia também para aprender a dançar. Eu me empolgava com ele dançando”.

Movimento que une diferentes gerações

Além de mãe e filho, a neta de Sandra, Lorena, que tem 11 anos de idade, também frequenta as aulas de seu tio. Ela se empolga quando fala sobre quando começou a dançar: “Eu fiquei um pouquinho nervosa [no dia que comecei], porque eu tava com um pouco de vergonha, eu tava ali no meio de todo o mundo, depois eu fiquei super animada de fazer as aulas”, relembra.  

Lorena tem 11 anos de idade e frequenta as aulas de seu tio no Centro Cultural Monte Azul. Foto: Ana Alice de Lima/Desenrola e Não Me Enrola

A menina diz que já admirava o tio antes de começar a dançar em suas aulas e que ficava super feliz quando ele dançava com ela em casa. Ela conta o que sente ao frequentar os bailes e dançar com o Leo: “É uma emoção super legal, é como se eu estivesse em algum lugar só com meu tio, dançando. Eu fico super feliz”. 

Nas aulas, Lorena dança acompanhada de outros colegas, alguns também com a mesma idade. Um exemplo é Lorenzo, que já havia estudado junto com ela durante o primeiro ano da escola. Lorena também fala sobre a timidez que sente e que sua avó lhe ensinou sobre perder o medo: “[Ela me ensinou a] Perder o medo, ter coragem de dançar na frente de todo o mundo e não ter vergonha”, conta. 

Sandra se emociona quando fala sobre o significado dos bailes de samba rock para si, ela explica que antes sua vida era muito triste por estar em um lugar de cuidar das pessoas que estavam doentes em sua família.

“Eu sinto [aqui] que eu to viva, isso pra mim é uma coisa que lava a alma. Você sai daqui leve e feliz. Eu me via muito mais na tristeza, já estava quase entrando em depressão, aí quando você vem pra cá que você começa a ver as pessoas, começa a dançar, você esquece um pouco dos seus problemas. Às vezes você está chateada com alguma coisa, chega aqui e vê o pessoal sorrindo, te chamando para dançar. Acaba, vai embora e parece que não teve nada”, conclui. 

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