SÉRIE BARREIRAS DA ACESSIBILIDADE

Barreiras da Acessibilidade: a mobilidade de pessoas com deficiência na perspectiva de urbanista e engenheiro da quebrada

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 Na quarta reportagem da série Barreiras da Acessibilidade, conversamos com especialistas da quebrada sobre a mobilidade de pessoas com deficiência nas suas perspectivas.

 Na série Barreiras da Acessibilidade, falamos com moradores das quebradas e contamos um pouco sobre como diariamente lidam com dificuldades no transporte público e com a falta de assistência necessária do poder público ligada às questões que impactam a vida de pessoas com deficiência.

Para falar sobre o aspecto da mobilidade urbana, chamamos para uma conversa a Ana Cristina, 29, moradora do Jardim Macedônia, na zona sul de São Paulo. Ana é arquiteta e urbanista pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU-USP) e pesquisadora do Centro de Estudos Periféricos da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP). 

Ela analisa o modelo de transporte público vigente na cidade de São Paulo e como impacta na locomoção de moradores das periferias e pessoas com deficiência.

“É interessante pensarmos na questão que o modelo de sistema do transporte público implementado em São Paulo, criou diversos terminais intermediários dividindo uma viagem em vários trechos e obrigando o passageiro a fazer várias trocas de ônibus em um único trajeto”, coloca a urbanista.

Ana Cristina aponta que isso foi feito com a justificativa de racionalizar o sistema. “Mas para nós moradores de bairro periférico, que somos os que mais usam o transporte público, é muito ruim porque nos obriga a fazer várias baldeações até chegar ao nosso destino. Isso sem falar da malha de metrô e trem que, de modo geral, quase não cobre as periferias”, analisa.

Ponto de ônibus da Praça Maruzan Dourado Silva – Cidade Ipava. (Foto: Flávia Santos)

Além das pontuações sobre o transporte público, a urbanista também ressalta sobre a mobilidade a pé pelos territórios, e aponta que legalmente o responsável pela conservação da calçada, é o proprietário do imóvel.

“No caso das periferias, muitas vezes o proprietário não tem como arcar com os custos dessa manutenção. Em contrapartida, a prefeitura não oferece nenhum tipo de apoio financeiro para isso”, coloca.

“Um outro ponto da escala micro são as condições de mobilidade dentro das favelas, a dificuldade de acessibilidade nas vielas”

aponta a urbanista Ana Cristina.

Calçada da Rua Ferrador – Cidade Ipava. (Foto: Flávia Santos)

De acordo com uma pesquisa feita pelo Centro de Estudos da Metrópole (CEM), em agosto de 2021, as periferias possuem as piores calçadas do Estado de São Paulo.

Ana Cristina afirma que todas essas questões são ainda mais complicadas para os moradores de periferias que têm alguma dificuldade de locomoção. “Isso mostra a necessidade de políticas públicas urbanas que partam das reais demandas da população, que entendam a diversidade de formas de se deslocar pela cidade e que priorizem justamente quem enfrenta algum tipo de dificuldade”. 

“Uma cidade boa para as pessoas que têm algum tipo de deficiência, para as crianças e para as mulheres, é uma cidade boa para todos”.

conclui a arquiteta e urbanista Ana Cristina.

Rua Ferrador – Cidade Ipava. (Foto: Flávia Santos)

Ainda falando sobre a acessibilidade aos moradores da periferia, conversamos com o engenheiro e arquiteto Steffano Esteves, 29, morador da Cidade Ademar, zona sul de São Paulo, e pesquisador de problemas e soluções da cidade de São Paulo.

O engenheiro afirma que fazendo uma comparação das calçadas do Jardim Ângela até Santo Amaro, ambas na zona sul de São Paulo, ao andarmos pelas ruas, é possível perceber que a região de Santo Amaro é mais plana do que no Jardim Ângela, a existência de um desnível.

Segundo ele, isso provavelmente se deu pelo fato da região de Santo Amaro ter sido considerada importante na história, e por isso ter mais estruturas do que as redondezas do Jardim Ângela, onde ainda é difícil ter calçadas boas nas avenidas.  

“As ruas na periferia não foram pensadas para caber a calçada, foi pensada só para abrir um caminho ali. Virou a última prioridade depois que os moradores começaram a ter carro”

afirma Steffano.

Calçada da Rua Ferrador – Cidade Ipava. (Foto: Flávia Santos)

Steffano analisa que a atenção voltada para as avenidas é diferente, pois é um local mais movimentado e que fica mais exposto aos moradores, motoristas e aqueles que passam todos os dias por lá.

Ele conclui ressaltando que ainda precisa existir um olhar mais próximo voltado para situações como essas nas periferias, conhecer a cidade, andar pelas ruas, entrar nos lugares, utilizar os transportes públicos e ter contato com a real rotina dos moradores.

“O sentimento de circular pelo território, pegar busão, sentir como que é, ir para vários lugares, ajuda demais a ter uma perspectiva da nossa cidade”, finaliza o engenheiro.

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