Para começar, é muito frustrante para todas nós que defendemos os direitos humanos e os direitos das mulheres termos que, em 2026, também defender o voto das mulheres. Mas sim, tem um movimento internacional, que parte da direita brasileira tentou abraçar, defendendo um voto por família. Ou seja, basicamente, as mulheres deveriam deixar o voto para o “chefe” da família, que seria o pai ou marido.
O direito ao voto das mulheres têm menos de 100 anos e se incomoda tanto os conservadores, é porque deve estar fazendo algo importante.
Essa tentativa de emplacar as estratégias da direita gringa também esbarrou numa realidade muito nossa: cerca de 52% dos lares brasileiros são chefiados por mulheres, de acordo com um levantamento do Dieese. Além disso, o voto feminino tem o potencial de decidir eleições. Então não dá pra abrir mão de nós. É tão verdade que um partido de direita saiu na frente e resolveu investir no contrário: formar lideranças mulheres muito antes da eleição começar.
Bom, então, nessa disputa pelo voto das mulheres, a gente talvez precise pensar no voto em mulheres. E, aqui, vou defender o voto naquelas que defendem os direitos das mulheres.
Glossário político
Antes de tudo, vou fazer um pequeno glossário político, me desculpem o excesso de didatismo. O Brasil é organizado e dividido em três poderes: Executivo, Legislativo e Judiciário, e suas distinções estão na Constituição Federal, especialmente nos artigos 32, 45, 46 e 92 em diante.
O Executivo é responsável por administrar o funcionamento das cidades, estados e do país, administrar o orçamento público, cuidando do funcionamento de áreas essenciais como saúde, educação, segurança e transporte, mas também colocando em prática as leis que são criadas no legislativo. No executivo temos as Presidentas, Governadoras e Prefeitas.
O Legislativo é responsável por elaborar, discutir e votar as leis, além de fiscalizar as ações do Poder Executivo. Ele é organizado em âmbito Federal, com o Congresso Nacional, onde estão Deputadas Federais e Senadoras eleitas de todos os Estados e do Distrito Federal. É organizado também em âmbito Estadual, na Assembleia Legislativa, com Deputadas Estaduais. Cada estado tem a sua e o Distrito Federal tem a Câmara Legislativa, com Deputadas Distritais. E temos as Câmaras Municipais, nos municípios, onde trabalham as Vereadoras. Todas as pessoas que ocupam qualquer um desses cargos são chamadas também de parlamentares.
E por fim o Judiciário, que tem como função interpretar e aplicar o direito, resolver conflitos e proteger direitos e a Constituição. Dos três poderes, este é o único que não tem representantes eleitos pelo voto popular.
Esse ano nós vamos votar em 6 pessoas, para 5 cargos: Presidência da República, Governo do Estado, Câmara dos Deputados, Senado (duas vagas) e Assembleia Legislativa.
Maioria entre as eleitoras, minoria entre as eleitas
Retomando os argumentos para votar em mulheres, o primeiro é clássico: em 2022, mulheres eram 53% do eleitorado brasileiro, mas representaram apenas 18% das pessoas eleitas para o Legislativo. A sub-representação feminina é tão grande, que tivemos que implementar uma política que obriga os partidos a terem um número mínimo de candidatas.
O segundo argumento é sobre as pautas relacionadas às mulheres no legislativo: Pesquisas mostram que parlamentares mulheres apresentaram, defenderam e aprovaram mais leis em defesa dos direitos das mulheres e dos direitos humanos do que seus colegas homens.
Mulheres tendem a defender os direitos de todas as pessoas, ainda que nem todas as parlamentares sejam realmente defensoras de direitos humanos.
Isso sem deixar de lado discussões de direito penal e economia, que são temas considerados “mais masculinos”, por visões mais conservadoras da política. Deixo aqui a indicação de um episódio curtinho do podcast Duas e Tanto, que mostra como as senadoras foram fundamentais pra CPI da Covid não terminar em pizza.
Por fim, queria trazer um último ponto: as mulheres também apresentam mais propostas. Um levantamento da Secretaria da Mulher da Câmara, publicado em março de 2023, encontrou uma maior média de proposições por deputada nas cinco legislaturas analisadas. Em 2019–2022, essa média foi cerca de 42% superior à dos deputados homens.
Pois bem, se outro dia me vi tendo que defender o voto das mulheres, termino defendendo também o voto em mulheres que defendam os nossos direitos. Pesquise a história da sua candidata, ajude as mulheres 70+ a ir votar e leve sua colinha pras urnas.
Se o congresso representa o povo, ser maioria entre quem vota deveria se traduzir em presença equivalente entre quem decide. E, nessa escolha, importa olhar para as propostas, a trajetória, os compromissos de cada candidata e de seu partido.
É desse voto em mulheres que estou falando: aquele que leva em conta quem elas são e o que têm feito pelos direitos de todas nós.