“O Brasil é seu também, não só dos homens”: três gerações de mulheres da zona leste de SP relatam mudanças através do direito ao voto

Em Cidade Tiradentes, local com maioria feminina na urna, mulheres ressaltam a importância do voto.
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Após 94 anos da promulgação do direito ao voto feminino no Brasil, em 2026 o país conta com a maior parte do eleitorado composta por mulheres. O número de votantes representantes do gênero equivale a 52,8% dos eleitores. Essas mulheres irão votar em outubro de 2026 para a eleição dos futuros representantes do executivo, que inclui o cargo de Presidente da República. 

O direito ao voto feminino foi conquistado em 1932. Foto: reprodução/arquivo nacional. 

No Estado de São Paulo, o perfil dos eleitores não se diferencia muito do país. Dados do Tribunal Superior Eleitoral mostram que 52% do eleitorado paulista é feminino, enquanto na capital, 54% do eleitorado é representado por mulheres. Os números demonstram a necessidade de ouvir o que elas têm a dizer sobre a importância das eleições e como o voto das mulheres se torna crucial para definir os rumos das políticas públicas no país. 

Entre os eleitores da zona leste da cidade de São Paulo, no bairro de Cidade Tiradentes, vive Tânia Silva. A mulher de 76 anos, que há 33 mora na capital paulista, é natural de Palmares, município localizado no interior de Pernambuco. Ela reconhece a importância do voto e exalta a permanência feminina na política. 

“Infelizmente tem pessoas que ainda na política brasileira é uma vergonha, que discrimina o voto da mulher. A mulher agora tem que ocupar o lugar dela, a mulher sabe mais o que significa a educação de seus filhos, mais do que quem faz [política]. Hoje a mulher está se desenvolvendo muito bem.”

Tânia Silva, 76 anos, moradora de Cidade Tiradentes. 

Tânia explica que desde criança sempre acompanhou a movimentação política do país por conta de seu pai, que gostava de escutar o rádio, já que durante sua infância a televisão não era tão comum em alguns lares brasileiros quanto hoje em dia e também não existiam redes sociais. 

Tânia completará 77 anos no mesmo dia das eleições, em outubro. Foto: Ana Alice de Lima/Desenrola e Não Me Enrola.

Quando lembra da mobilização das mulheres para votar em sua cidade natal, Tânia diz que todos se envolviam na política, inclusive as crianças. “Com 12 anos eu já brigava por política com meu pai. Que também se informava todos os dias, mesmo sendo analfabeto, ele escutava A Voz do Brasil. Minha mãe também votava, até quando ela se mudou para São Paulo, ela votou todos os anos”, diz. 

Tânia lembra que votou pela primeira vez aos 18 anos e também foi mesária, isso ocorreu no ano de 1968, durante a ditadura militar. Naquele ano aconteceram eleições diretas para prefeito, vice-prefeito e vereadores. “Comecei a votar muito cedo, o voto das mulheres, quando comecei a votar, tinha importância, mas ninguém valorizava”, relembra. 

A senhora diz que naquela época existiam dois partidos, o Movimento Democrático Brasileiro (MDB) e o Arena, ela também lembra de um terceiro partido chamado Partido Comunista Brasileiro (PCB), que não funcionava como os outros, sendo, segundo Tânia, apenas um “enfeite”. 

Segundo registros, o PCB funcionava de modo clandestino, pois o Ato Institucional nº 2 (AI-2), assinado em 1965 pelo Presidente da ditadura militar, marechal Humberto Castelo Branco, extinguia todos os partidos, impondo o bipartidarismo.

Mãe e filha pelo direito ao voto

Há dois quarteirões de distância da residência de Tânia vivem Ingrid de Jesus, de 27 anos e Gislene de Jesus, de 51 anos. Mãe e filha moram na mesma casa e concordam que o voto feminino é um direito básico que deveria ser garantido a todas as cidadãs. 

Ingrid diz que votou pela primeira vez em 2016. Foto: Ana Alice de Lima/Desenrola e Não Me Enrola.

A jovem que atualmente dá aulas de inglês em um cursinho do bairro relata que não gosta de dar atenção aos discursos extremistas que pregam contra o voto feminino, pois isso é apenas um discurso para atrair eleitores que pensam igual e tentar a candidatura.

“É só um papinho, mas é um papinho que não deveria estar acontecendo. [O voto] É o básico, e se chegar algum deles e tiver a coragem de levantar alguma coisa, um projeto de lei maluco [contra o voto], eu lutaria”, conta Ingrid.

Ingrid votou pela primeira vez aos 17 anos, no ano de 2016. Segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral, aquele foi o primeiro ano que no país o eleitorado feminino superou o masculino nas eleições municipais, com mais de 75 milhões de mulheres votantes. Em contrapartida, ainda segundo dados do TSE, apenas 31% das candidatas daquele ano eram mulheres. 

Em 2016, o voto feminino correspondia a 52% do total de eleitores no Brasil. De acordo com o site do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), a maior concentração de eleitoras estava na faixa dos 25 a 39 anos.

A mãe de Ingrid, Gislene de Jesus, possui domicílio eleitoral no interior de Minas Gerais, por isso ela justifica seu voto há 28 anos. Gislene, a quem todos chamam de Lena, diz não ter vontade de transferir o seu título de eleitor para São Paulo, e não acredita na política atual. 

“[Na primeira vez que votei] Fiquei muito feliz, eu não entendia nada mesmo de política. Para mim, a coisa mais importante do mundo, era votar. Depois que a gente vai ficando madura, a gente entende a sujeira. Para mim a política só tem vagabundo e ladrão, lógico que tem uns piores que os outros, né? Roubando as classes menos favorecidas e continua aí”, se revolta Lena, que mesmo cética com a política, reconhece a importância do voto e dos direitos das mulheres para a sociedade como um todo.

Lena tem domicílio eleitoral em Minas Gerais, por isso justifica o voto. Foto: Ana Alice de Lima/Desenrola e Não Me Enrola.

Em 1990, pouco tempo depois da redemocratização do Brasil, com o fim da ditadura militar, a população brasileira era formada por 144,5 milhões de pessoas, enquanto 58% dela integravam o eleitorado total no país. Nesse período, as mulheres representavam 49% dos eleitores.

Lena diz que já pensou em transferir o seu voto para São Paulo, mas que por sentir vontade de voltar para sua cidade natal com a família foi adiando a transferência. “Eu sei que é errado [justificar o voto] porque por mais que a gente se revolte com essa sujeirada, mais a gente tem que tentar colocar alguém um pouco melhor, né? Aí eu falo ‘vou transferir’, mas também tem a vontade de voltar. Os anos passam rápido”, diz. 

“Tirar o direito da mulher votar é um absurdo, eu acho que os direitos são todos iguais, não existe isso. Tem mulher que pensa melhor, vota melhor. Até hoje eu sou revoltada porque a mulher ganha menos que o homem. Se está no mesmo trabalho, luta até mais, por que discriminar? Isso é um horror.”

Lena, 51 anos, moradora da Cidade Tiradentes. 

Para ela, “Mulher tinha que votar, se candidatar, porque só presidente e não presidenta? Eu acho isso erradíssimo. A mulher tem que ter direitos iguais”, afirma a moradora da Cidade Tiradentes. 

Ataque ao voto das mulheres

Mesmo formando maioria entre as pessoas votantes, o voto feminino ainda sofre ataques, um exemplo é a fala do blogueiro de extrema direita Paulo Figueiredo, que sem apresentar dado estatístico, afirmou durante uma transmissão ao vivo no YouTube, que “Mulher vota estatisticamente muito mal, principalmente mulheres solteiras”. 

Paulo Figueiredo é neto do último presidente da ditadura militar, João Baptista Figueiredo, e vive nos Estados Unidos, onde atua como comentarista político e tem presença forte nas redes sociais.

A fala do blogueiro ecoa a opinião dos movimentos conservadores de extrema-direita do país onde mora, que fazem campanha pelo fim do voto feminino. Nos Estados Unidos, membros da extrema direita religiosa e influenciadores a favor do presidente Trump se mobilizam para substituir o voto de mulheres por um modelo de “democracia familiar”, com um voto por domicílio (substituindo as decisões individuais). 

Além de representantes do conservadorismo se posicionando contra os direitos das mulheres, também existem as violências vividas no cotidiano por figuras femininas que se envolvem na política.

A Cartilha sobre violência política de gênero, publicada pelo Observatório de Violência Política Contra a Mulher, entrevistou candidatas em 2020, que concorriam a cargos em municípios espalhados por 8 estados do país e identificou que 43,8% delas já haviam sofrido algum tipo de violência durante a campanha. Além disso, 81,8% das vítimas classificaram as violências sofridas como de média e alta gravidade. 

Violência contra mulheres aparece na hora do voto e contra candidatas. Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil.

A cartilha mostra ainda que as agressões às mulheres na política podem ser de natureza física, psicológica, simbólica, econômica ou institucional. Partindo de “ameaças e intimidações direcionadas à mulher ou à sua família, difamação e injúria para desqualificar sua imagem, retenção de recursos de campanha, uso do nome para fraudes de cota e restrição ao uso da palavra no exercício político”, podendo chegar à violência física e sexual.

Voto: a chave para mudanças? 

Ao perguntar sobre as mudanças que o voto proporcionou em seu território, Tânia relembra como a criação do Centro de Educação Unificados (CEU), pela ex-prefeita Marta Suplicy, inaugurado na Cidade Tiradentes em 2007, mudou a educação dos jovens que moram no bairro. 

“O CEU tirou muita criança do meio da rua, e é uma referência aqui na Cidade Tiradentes. Hoje também temos hospitais e uma escola profissionalizante. E acredito que agora está vindo o Expresso Tiradentes, que é o monotrilho, vai ficar melhor. Mas ainda tem muito a melhorar”, diz. 

Para Ingrid, o CEU também foi uma mudança importante principalmente porque na época de sua implementação ela era criança e desfrutou da estrutura pública: “A Marta foi uma época boa no bairro. Quando a Marta era prefeita o leite era melhor, porque a escola dava leite na época. E o CEU é uma das melhores escolas atualmente aqui, foi construída quando eu era pequena e está aqui até hoje. Eu amava ir na biblioteca de lá”, conta. 

Imagem aérea do CEU Água Azul, na Cidade Tiradentes. Foto: Fernando Pereira/Secom.

A jovem professora de inglês também relembra da época em que a avenida principal do bairro contava com uma ciclovia: “Todo o mundo reclama das ciclovias, mas cara, foi uma das melhores épocas. Tinha na Avenida Metalúrgicos. Hoje em dia a ciclovia tá apagada. A Bike Itaú veio pra cá e tinha o depósito, a gente conseguia nos finais de semana fazer passeios. Eu fazia toda hora com os meus amigos”, relembra.  

Lena vê com pessimismo as mudanças feitas no bairro, principalmente em época de eleição, visto que agora para chegar na Cidade Tiradentes, com a construção do monotrilho, o trabalhador enfrenta um maior tempo no trânsito: “Eu não vejo mudanças, quando chega a época de eleição limpa aquela praça que tem hora que o mato dá pra cobrir, às vezes leva um banquinho na praça para as crianças, mas só na intenção do voto”, relata. 

Lena ainda critica a demora em obras como o monotrilho, o que, para ela, revela o desinteresse político em promover melhorias para a população: “Se eles tivessem intenção de melhoria, porque não traziam o monotrilho pra cá? Tem quantos anos? Tem dias que eu levo quatro horas pra chegar em casa. Quantas vezes eu já vim do Terminal São Mateus até aqui em casa de pé, e no outro dia eu trabalhei. Tem vezes que eu falo com os meninos: ‘Não sei como eu vou aguentar trabalhar’. Você já vem morto do trabalho. E quantos anos tem esse monotrilho aí e nunca chega?” 

Ingrid de Jesus diz que vê a diferença entre gerações de mulheres de sua família no ato de votar porque sua mãe não gosta tanto de política, mas para ela o voto é como um gesto de pertencimento. 

“[Votar] É entender que o mundo e o Brasil é seu também, não é só dos homens. Você nasceu para se quiser ir e se unir, votar em alguém e essa pessoa ir lá e ganhar.”

Ingrid de Jesus, 27 anos, moradora da Cidade Tiradentes.

Para Tânia Silva, ter o direito de votar significa ter o direito da escolha: “A escolha é uma coisa muito importante. É muito importante procurar e saber quem é quem para não votar errado. Porque quatro anos é o suficiente para fazer com que o Brasil tenha um retrocesso muito grande como foi no governo Bolsonaro”, relembra. 

Tânia ainda ressalta a importância do estudo e do interesse na política no dia a dia: “As mulheres precisam se interessar e estudar mais, porque o amanhã vai ser delas. Então as que estão indo tem que deixar um campo bonito para essa turma jovem”, diz.

Participação política

Shisleni de Oliveira-Macedo, cientista social com mestrado em Estudos Feministas e de Gênero e em Antropologia Social, lembra como é recente a conquista do acesso ao voto para as mulheres, e o fato de estar sob ataque reforça a relevância desse direito. “Se fosse indiferente, isso não estaria sendo questionado”, diz.

Ela ressalta sobre a necessidade de fazer parte da tomada de decisão sobre coisas que vão influenciar as nossas vidas. “Isso serve para todas as pessoas, não só para as mulheres. Mas é particularmente importante para as mulheres, que são mais da metade da população e que não ocupam a maioria dos cargos de decisão, nem no setor público, nem no setor privado”, coloca. 

“É importante que as mulheres também estejam participando das decisões que determinam a vida delas e de todas as pessoas que estão sob o cuidado e responsabilidade delas.”

Shisleni de Oliveira-Macedo, cientista social com mestrado em Estudos Feministas e de Gênero e em Antropologia Social.

Ela enfatiza que o voto deve ser feito de maneira autônoma, sem estar condicionado à decisão de outras pessoas ou a uma escolha coletiva, como um voto “familiar”, exemplifica. “As pessoas podem divergir dentro da mesma família e ter posições e opiniões diferentes sobre como a gestão do Estado deve ser feita, e porque as pessoas são impactadas também individualmente por essas decisões e têm que poder influenciá-las de maneira autônoma”, pontua. 

Além do próprio ato de votar, Shisleni aponta o envolvimento em outras esferas políticas como caminho para acompanhar e cobrar ações práticas, como participar de conselhos comunitários, conselhos de saúde, entre outros. “Acho que um grande exemplo foi a participação dos movimentos de mulheres no orçamento participativo em São Paulo, que conseguiu desencadear a criação da Casa Viviane dos Santos, que é um Centro de Defesa e Convivência das Mulheres em Guaianazes”, exemplifica.

Todas essas são estratégias de participação são importantes para pressionar o Estado para que seja efetivado uma cidade, um país melhor, segundo ela. “O controle social, controle dos movimentos sociais, tem sido historicamente, no Brasil, muito importante para fazer funcionar e avançar na direção de uma proteção social maior do que o que a gente tinha antes”, coloca.

O voto no Legislativo, para deputados estaduais, deputados federais e senadores, em disputa nesta eleição de 2026, se estende para além do dia da votação. Shisleni ressalta que as pautas e projetos que os candidatos eleitos estão votando e defendendo, devem ser fiscalizados a longo prazo. “A gente tem a impressão de que o Presidente reina como se ele fosse um rei, quando, na verdade, ele depende muito do Congresso. Então é importante que a gente também tenha muita atenção em acompanhar o que que foi feito depois das eleições”, finaliza. 

Este conteúdo é fruto do projeto ‘Territórios e Eleições’, realizado pelo Desenrola e Não Me Enrola em parceria com a Coalizão de Mídias Periféricas, Faveladas, Quilombolas e Indígenas. 

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