Super El Niño: tendências, projeções e recomendações para o segundo semestre de 2026

Neste artigo, trato do Super El Niño relacionando meteorologia e economia, com ênfase em como os impactos macroeconômicos desse fenômeno climático ao longo do território brasileiro afeta a dinâmica do cotidiano das periferias, mais vulneráveis aos efeitos catastróficos dos eventos naturais.
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A origem etimológica da palavra “economia” é “oikonomia” – sendo “oikos” a palavra grega que significa “casa”. Filologicamente, a transição do radical “oikos” (casa) para “eco” (natureza) assumiu que “a natureza é a casa humanidade”. Apesar disso, é notório que no sistema econômico vigente – o capitalismo – economia e ecologia estão cada vez mais desalinhados. 

Além disso, esse sistema se organiza politicamente para privatizar os ganhos (bônus) para os mais ricos e socializar as perdas e os danos (ônus) para as camadas mais pobres. O El Niño é um exemplo preocupantemente didático para entender como um sistema que opera o processo de expansão da acumulação individual de capital blinda o grupo (os proprietários) dos riscos reais das anomalias climáticas enquanto um outro grupo (os trabalhadores) precisam adotar táticas de racionamento.

Tá, mas afinal de contas: o que é o El Niño?

O El Niño é a fase quente do fenômeno El Niño–Oscilação Sul (ENOS). O ENOS constitui um dos principais modos de variabilidade natural do sistema climático terrestre que acontece anualmente, exercendo impactos sobre diferentes setores socioeconômicos e ambientais. Assim sendo, a fase quente desse fenômeno – que se chama El Niño – é caracterizada principalmente pelo aquecimento anômalo e persistente da temperatura da superfície do mar do Oceano Pacífico nas regiões equatorial central e oriental; mas também afeta os padrões de chuva, temperatura atmosférica, ventos e circulação em escala regional e global.

Agências e observatórios meteorológicos distinguem o El Niño de outros eventos climáticos com oscilações de curta duração a partir do seguinte critério: quando a anomalia da temperatura da superfície do mar na região em questão permanece igual ou superior a 0,5ºC por um período sustentado, temos um El Niño.

Mas por que “Super El Niño”? Como assim?

A NOAA (Administração Nacional Oceânica e Atmosférica, agência climática estadunidense) classifica a intensidade do fenômeno da seguinte forma: fraco (entre 0,5ºC e 1ºC), moderado (entre 1ºC e 1,5ºC), forte (entre 1,5ºC e 2ºC) e muito forte (acima de 2ºC). Dito isto, segundo ela, o El Niño de 2026 tem 81% de chance de atingir a categoria “muito forte” entre outubro e dezembro deste ano, sendo o mais intenso desde 1950 (ano em que começaram a ser feitas as medições). 

Para além disso, a NOAA também projeta que há 97% de chance do El Niño deste ano seguir ativo até junho de 2027 – ou seja, se estender para além do comportamento habitual. Por esse conjunto de motivos, o El Niño de 2026 vem sendo apelidado tanto de “Super El Niño” como de “Godzilla El Niño”.

Ok… E como esse fenômeno afeta o Brasil e o meu dia a dia?

O El Niño não derruba uma economia sozinho, porém, sempre amplifica as vulnerabilidades de um ecossistema produtivo que é estruturalmente dependente da natureza. O primeiro impacto sentido na pele – e no bolso – é a alta generalizada de preços dos alimentos, fretes para compras internacionais e energia elétrica. 

A desregulação climática nas regiões equatorial central e oriental do Oceano Pacífico afeta a oferta de alimentos nas cadeias globais e, com isso, o preço dos alimentos no varejo tende a subir por escassez de oferta das safras.

Esse mesmo desequilíbrio extraordinário na superfície das águas não compromete o trânsito marítimo, mas aumenta o risco e o custo logístico no translado de mercadorias que deve ser refletido no preço dos fretes internacionais. Para completar, sendo a nossa matriz energética dependente crucialmente da força das águas, projeções indicam que o El Niño gerar uma seca prolongada que esvazia os reservatórios das hidrelétricas, forçando o acionamento de usinas termelétricas (que são mais caras) e encarecendo a conta de luz por meio das bandeiras tarifárias – dada a escassez de água no ecossistema elétrico. 

Nas periferias, onde a infraestrutura elétrica muitas vezes é precária ou sofre com subdimensionamento, esse pico de consumo se traduz em quedas constantes de energia, queima de eletrodomésticos e um impacto financeiro desproporcional para as famílias de baixa renda.

Além do preço, o clima extremo também sabota a qualidade do que chega à nossa mesa. Esse calor anômalo acelera o apodrecimento de frutas, legumes e verduras antes mesmo de saírem do campo ou durante o transporte. O resultado é que o consumidor passa a encontrar produtos menores, manchados, menos nutritivos e com tempo de vida útil curtíssimo na fruteira de casa, penalizando diretamente a segurança alimentar de quem já tem menos opções. 

Vale ressaltar, também, que o excesso de chuvas no Sul e a seca severa no Norte e Nordeste afeta a produção brasileira de commodities agrícolas acontece em meio a um choque global em que a demanda internacional por produtos de qualidade aumenta e, assim, o setor agroexportador brasileiro supostamente tende a destinar ao mercado externo os produtos de melhor qualidade para seguir atendendo às regras rígidas de importação dos contratos milionários com Ásia, Europa e Estados Unidos, enquanto os de qualidade inferior permanecem em circulação no mercado interno.

Por fim, o Super El Niño altera drasticamente o mapa da saúde pública. O padrão desregulado de chuvas cria o ambiente perfeito — acúmulo de água parada combinado com altas temperaturas — para a explosão de mosquitos vetores de doenças como dengue, zika e chikungunya

Paralelamente, nas regiões atingidas pela estiagem extrema, os incêndios florestais e queimadas poluem a atmosfera com fuligem e fumaça densa, elevando os atendimentos médicos por crises respiratórias crônicas, afetando gravemente crianças e idosos que dependem de um sistema de saúde já sobrecarregado.

Fonte: BTR1/CPTEC/INPE (https://www.gov.br/inpe/pt-br/assuntos/ultimas-noticias/o-que-precisamos-saber-sobre-o-el-nino-e-seus-impactos-para-o-brasil)

Nossa! Considerando tudo isso, o que fazer?

No geral, a crise climática acelera um ciclo econômico cruel: o calor faz a comida estragar mais rápido, a terra cansada produz menos e o mercado nos empurra cada vez mais para os produtos menos saudáveis (ultraprocessados, transgênicos, cheios de agrotóxicos e com sementes geneticamente modificadas para maior eficiência do agronegócio). Para não deixar o orçamento e a saúde virarem reféns do clima nos próximos meses, o jeito é se organizar e desenvolver táticas de sobrevivência econômica para o cotidiano:

  • Fortalecer o comércio local: compre seus alimentos na feira de rua do bairro. Além de apoiar os feirantes locais, os produtos frescos costumam ser mais baratos e duram mais do que os esquecidos nas gôndolas dos grandes supermercados;
  • Evitar o desperdício dentro de casa: com altas temperaturas, não vacile com a comida. Assim que terminar as refeições, guarde as sobras direto na geladeira. Assim você evita que o alimento estrague de um dia para o outro, sendo a forma mais rápida de poupar dinheiro;
  • Ficar de olho nas contas e nos prazos: o uso contínuo de ventiladores e geladeiras (que passam a trabalhar dobrado para manter os alimentos resfriados no calorão) sobrecarrega não apenas a rede de distribuição dos bairros, mas também o orçamento doméstico. Então, acompanhe de perto os comunicados oficiais sobre o abastecimento de água e energia da sua região. Entender quando as tarifas vão subir (como a bandeira vermelha na luz) ajuda a planejar o uso dos eletrodomésticos e a evitar cortes por surpresa. A demanda por energia elétrica tende a atingir picos sufocantes;
  • Cuidar da sua saúde e da comunidade: não espere a situação apertar. Vá ao posto de saúde (UBS) mais próximo, atualize a sua carteira de vacinação, veja se não há nada pendente e proteja-se contra as doenças sazonais. Além disso, limpe o quintal e elimine qualquer foco de água parada para proteger também os seus vizinhos.
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