A Copa do Mundo de futebol masculino tem penetração de impacto no debate da sociedade civil brasileira como nenhum outro evento. Num país de desigualdades econômicas estruturais, tornar-se um jogador de futebol é, historicamente, o sonho de muitos brasileiros.
Essa paixão nacional, porém, durante os 39 dias do torneio, faz com que o sentimento de identidade nacional lance uma névoa que entorpece as definições sociológicas e econômicas de classe, pois, a ideia unânime de que “somos todos (igualmente) brasileiros”, de alguma forma, torna mais forte as mandingas e a torcida para que a seleção brasileira de futebol (a elite do futebol nacional, “aqueles meninos que venceram as barreiras da pobreza e conseguiram alcançar o estrelato com seus corpos sendo a última reserva de valor que restou”) vença a competição, conquiste mais uma taça, mais uma estrela — insígnia que o brasileiro carrega no peito com orgulho e pertencimento.
Nesse momento do capitalismo, resgatar o debate da identidade nacional é vital por múltiplos fatores: estado das tensões geopolíticas com o norte global, a defesa das terras raras brasileiras ante a ofensiva “tecnocolonial” e a votação para o executivo e legislativo federal no final deste ano, são alguns exemplos. Contudo, não se pode perder de vista o cotidiano.
Em meio a essas “grandes discussões e negociações políticas”, o fim da escala 6×1 está na ordem do dia. Quando o jogo acaba, quem continua brasileiro? Quem continua valorizando a cultura nacional? Quem continua defendendo a soberania nacional frente aos avanços do Ocidente? Quem continua sendo parte do povo e quem torce a cara? É preciso abrir o olho para quem se diz brasileiro, mas quer higienizar o povo! Que tipo de brasileiro é você?
Por esse motivo, para dar nome aos bois, uma pirâmide social do Brasil no século 21 se faz necessária. Nesse momento do capitalismo não se pode deixar inebriar aos mecanismos e dinâmicas políticas da economia da atenção, pois o alvo prioritário é anestesiar digitalmente os sentimentos do “povão”, apaziguar em larga escala os corações que vivem a guerra social, bombardear aceleradamente quem vem do “fundão” com improváveis sonhos de prosperidade hiper-real. No final do dia, esses sonhos tornam o indivíduo fantoche, não ventríloquo. É preciso olhar a floresta, não apenas as árvores.
As definições capitalismo foram atualizadas e, nesse momento, há uma hiper-valorização da economia nominal financeira hiper-real às custas da economia real sendo operada pela classe proprietária através da captura da atenção e da remuneração superior aos trabalhadores do sistema financeiro e da economia de conhecimento para que estes se considerem “hierarquicamente diferentes” dos seus iguais na pirâmide social e, assim, não reflitam sobre a lógica do ecossistema econômico, a justiça do contrato social tecnocolonial e não questionem seu papel, sua agência e seu ponto de vista nesse mundo contraditório que colapsa pouco a pouco.
Tem brasileiro que busca o “sonho brasileiro” (ser jogador de futebol para ter mobilidade social), tem brasileiro que busca o “sonho americano” (mimetizar o estilo de vida individualista do norte global estadunidense e europeu) e tem brasileiro que busca o “sonho pindorâmico” (emancipação real do Brasil a partir das raízes, memória e legado cultural, ancestral e natural do território em defesa dos bens comuns e da soberania da nossa gente): quem você é?

Proprietário old money
Também denominado aristocracia patrimonial, elite rentista tradicional, capital dinástico, suserania territorial ou simplesmente dinheiro velho, são a categoria sociológica e econômica que designa a fração da classe proprietária cuja riqueza, poder e influência derivam menos da inovação produtiva ou do empreendedorismo contemporâneo do que da acumulação histórica de ativos transmitidos por herança ao longo de gerações.
No contexto brasileiro, essa figura encontra sua expressão mais característica nas dinastias ligadas ao latifúndio agroexportador, à grande propriedade imobiliária, aos recursos naturais e aos mecanismos de renda financeira associados à dívida pública, constituindo uma continuidade das estruturas coloniais, patrimonialistas e oligárquicas que moldaram a formação nacional.
Sua lógica econômica repousa na posse de estoques estratégicos de riqueza — terra, imóveis, concessões, participações familiares e patrimônios protegidos por holdings e sucessões — que permitem a apropriação recorrente de rendas, aluguéis, juros e ganhos patrimoniais sem necessidade proporcional de gestão direta ou inovação tecnológica. Discursivamente, esse grupo tende a apresentar a preservação do patrimônio como valor central, defendendo a estabilidade institucional, a proteção jurídica da propriedade, a baixa tributação sobre heranças e grandes fortunas e a manutenção de arranjos fiscais e fundiários historicamente favoráveis.
Em termos materiais, ocupa a posição de guardião dos ativos físicos fundamentais da economia — o “hardware” do mundo real — pois controla parcelas significativas do solo, dos recursos naturais e das infraestruturas patrimoniais sobre as quais se assentam os processos produtivos, convertendo em renda privada uma parte do valor gerado pela exploração econômica e pela transformação biofísica da realidade.
Proprietário new money
Também descrito como suserania tecnológica, capital emergente tecnológico-financeiro, elite digital rentista, aristocracia algorítmica ou simplesmente dinheiro novo. São a categoria econômica e sociopolítica que representa a nova geração da classe proprietária cuja riqueza foi construída em uma ou poucas décadas por meio da financeirização, da economia de plataformas, da inovação tecnológica e da apropriação de ativos intangíveis de alta escalabilidade.
Diferentemente do proprietário tradicional, cuja força repousa sobre a posse histórica da terra e de patrimônios físicos, o new money concentra seu poder no controle das infraestruturas digitais, dos fluxos de dados, dos algoritmos proprietários, das patentes, da propriedade intelectual, das plataformas de intermediação e dos sistemas tecnológicos que organizam a circulação contemporânea de informação, consumo e produção.
Sua mecânica econômica baseia-se menos na captura da renda fundiária e mais na extração de rendas de rede, rendas de plataforma e “pedágios digitais” cobrados continuamente de indivíduos, empresas e instituições que dependem de seus ecossistemas para operar, transformando infraestrutura informacional em fonte permanente de acumulação. No contexto brasileiro, manifesta-se nos grandes grupos ligados ao agronegócio financeirizado, às fintechs, às plataformas digitais, aos ecossistemas de venture capital e às corporações intensivas em tecnologia, cuja valorização patrimonial decorre da escalabilidade exponencial dos ativos intangíveis e da capacidade de monopolizar mercados por meio de efeitos de rede.
Discursivamente, essa fração costuma legitimar sua posição por meio das narrativas da meritocracia, do empreendedorismo, da inovação disruptiva e da eficiência tecnológica, defendendo a flexibilização regulatória, a redução de barreiras à circulação de capitais e a proteção dos ganhos oriundos da propriedade intelectual e financeira como supostos motores do progresso. Embora frequentemente se apresente como uma ruptura cultural com o conservadorismo patrimonial do velho capital, sua convergência estrutural com as elites tradicionais ocorre na defesa da preservação dos mecanismos de acumulação rentista e da baixa tributação sobre patrimônio financeiro, dividendos e ganhos de capital.
Em sua relação com o real, ocupa a posição de proprietário das camadas informacionais que coordenam a economia contemporânea — o “sistema operacional” do capitalismo digital — convertendo dados, atenção, conectividade e conhecimento codificado em ativos monopolizáveis, capazes de multiplicar riqueza em velocidade algorítmica e de amortecer, ao menos temporariamente, os impactos imediatos das limitações materiais e ecológicas que condicionam a produção da riqueza no mundo físico.
Trabalhador soft worker
Também descrito como cognitariado (proletariado cognitivo), trabalhador imaterial, operário informacional, gestor do simulacro, trabalhador do capital abstrato ou rentista operacional assalariado, constituem a fração da classe trabalhadora cuja força de trabalho é empregada predominantemente na produção, organização, processamento e circulação de informações, símbolos, códigos, serviços financeiros e fluxos digitais que sustentam a economia contemporânea.
Diferentemente do trabalhador diretamente vinculado à transformação material da natureza, sua atividade se concentra na administração das camadas cognitivas, comunicacionais e tecnológicas que permitem a coordenação dos mercados, das corporações e da infraestrutura informacional do capitalismo avançado. No contexto brasileiro, essa categoria engloba programadores, analistas de dados, profissionais de tecnologia, operadores financeiros, consultores corporativos, comunicadores, criadores de conteúdo e demais trabalhadores especializados cuja remuneração deriva da venda de competências intelectuais inseridas em redes empresariais altamente financeirizadas.
Sua função econômica consiste em acelerar a circulação do capital, otimizar sistemas de gestão, produzir conhecimento operacional e manter os mecanismos digitais que viabilizam a economia da informação, da atenção e dos ativos financeiros.
A mecânica de sua reprodução social permanece fundamentalmente salarial, embora frequentemente seja complementada por bônus, participação acionária, previdência privada ou investimentos financeiros que produzem a percepção de proximidade com os estratos proprietários.
Discursivamente, tende a adotar valores associados à meritocracia, à qualificação técnica, à inovação, à eficiência e ao empreendedorismo individual, frequentemente interpretando sua elevada escolarização, sua renda relativamente superior e seus instrumentos de trabalho sofisticados como sinais de pertencimento às elites econômicas, apesar de continuar dependente da venda contínua de sua força de trabalho.
Sua relação com o real é mediada por ambientes digitais, abstrações financeiras, sistemas algorítmicos e fluxos simbólicos que frequentemente o afastam da materialidade dos processos produtivos e ecológicos que sustentam a economia, tornando-o simultaneamente operador central da infraestrutura cognitiva do capitalismo e um dos segmentos mais expostos à automação, à inteligência artificial e à crescente substituição de funções intelectuais padronizáveis.
Dessa forma, o soft worker ocupa uma posição paradoxal: desfruta de maior conforto material e prestígio ocupacional do que amplas parcelas do proletariado tradicional, mas permanece estruturalmente subordinado às dinâmicas de acumulação do capital, funcionando como o operador especializado da maquinaria informacional que converte conhecimento, atenção e processamento simbólico em valor econômico. Frequentemente são bilingues, tendo o inglês como segunda língua.
Trabalhador hard worker
Também denominado trabalhador material, proletariado produtivo, operário do metabolismo social da realidade física, precariado, trabalhador de risco, “profissão perigo”, representam a fração da classe trabalhadora diretamente responsável pela transformação material da natureza em bens, infraestrutura e serviços indispensáveis à reprodução da vida coletiva. Trata-se dos agricultores, operários industriais, trabalhadores da construção civil, profissionais da logística, coletores, trabalhadores da manutenção urbana, entregadores e demais assalariados cuja atividade exige o emprego direto do corpo no enfrentamento das condições concretas do mundo físico.
No contexto brasileiro, constitui o núcleo estrutural da força de trabalho que sustenta os circuitos produtivos fundamentais da economia, embora permaneça submetido às formas mais intensas de vulnerabilidade econômica, exposição ambiental e dependência salarial. Sua mecânica de reprodução social é essencialmente imediata: vive da venda cotidiana de sua força de trabalho e depende do salário para garantir a própria subsistência, possuindo reduzida capacidade de acumulação patrimonial e elevada sensibilidade às oscilações do custo de vida, do emprego e dos serviços públicos.
Sua função econômica consiste em produzir o valor de uso concreto que sustenta toda a arquitetura produtiva da sociedade, convertendo energia humana, conhecimento prático e esforço físico em alimentos, moradias, infraestrutura, transporte e manutenção dos sistemas que impedem o colapso da vida material.
Discursivamente, seus interesses tendem a convergir em torno da valorização do trabalho, da ampliação de direitos sociais, da proteção previdenciária, da redistribuição de renda e do fortalecimento dos serviços públicos, uma vez que sua qualidade de vida depende diretamente da provisão coletiva de saúde, educação, mobilidade e segurança econômica.
Em sua relação com o real, ocupa a posição mais imediata e incontornável da estrutura social: é o segmento que experimenta primeiro e com maior intensidade os efeitos das crises econômicas, da degradação ambiental, dos eventos climáticos extremos e da precarização laboral, pois seu trabalho ocorre precisamente onde a abstração financeira encontra os limites físicos da existência.
À medida que a automação e a inteligência artificial absorvem parcelas crescentes das atividades cognitivas e administrativas, o hard worker tende a permanecer concentrado nas funções menos automatizáveis e mais expostas ao desgaste corporal (como, por exemplo, entregadores de aplicativo via moto ou bicicleta no cenário urbano), tornando-se o operador final da materialidade econômica e o elo humano que sustenta, com seu próprio tempo de vida, o metabolismo físico sobre o qual repousam tanto o capital tradicional quanto a economia digital contemporânea.