Patriarcado: quando o poder adoece a sociedade

Refletir sobre saúde mental também exige compreender as estruturas de poder que moldam nossas relações e escolhas coletivas.
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Ao longo das últimas colunas, tenho refletido sobre temas relacionados ao adoecimento individual e coletivo. Falamos sobre violência doméstica, sofrimento psíquico, depressão e os impactos que determinadas experiências produzem em nossas vidas. Hoje gostaria de abordar um tema que atravessa todas essas questões e que, muitas vezes, permanece invisível: o patriarcado.

Confesso que por algum tempo evitei escrever sobre temas considerados mais políticos. Existe sempre o receio de que determinadas reflexões sejam mal interpretadas ou reduzidas a disputas ideológicas. No entanto, algumas questões são grandes demais para serem ignoradas.

Grande parte desta reflexão foi inspirada pela leitura do livro A Vontade de Mudar: Homens, Masculinidade e Amor, da escritora bell hooks. Em sua obra, a autora nos convida a compreender como a estrutura patriarcal afeta não apenas as mulheres, mas toda a sociedade, produzindo sofrimento, silenciamentos e formas de violência que muitas vezes se tornam naturalizadas.

Quando observamos os altos índices de violência contra mulheres, crianças, pessoas LGBTQIAPN+ e populações historicamente marginalizadas, é necessário olhar além dos fatos isolados. Existe uma cultura que, durante séculos, reforçou relações baseadas na dominação, no controle e na ideia de que algumas vidas possuem mais valor do que outras.

O patriarcado não está presente apenas nas instituições. Ele se manifesta na educação que recebemos, nas expectativas que recaem sobre homens e mulheres, na dificuldade de expressar sentimentos, na naturalização de comportamentos agressivos e na reprodução cotidiana de desigualdades.

Por muito tempo, homens foram ensinados a associar sensibilidade à fraqueza. Mulheres aprenderam a conviver com silenciamentos, limitações e diferentes formas de violência. O resultado desse modelo não é força. É sofrimento.

Talvez por isso o adoecimento emocional tenha se tornado uma realidade tão presente em nosso tempo. As violências que testemunhamos diariamente não surgem do nada. Elas são fruto de estruturas culturais que continuam influenciando a forma como nos relacionamos, educamos nossas crianças e compreendemos o poder.

É nesse ponto que a reflexão se torna inevitavelmente política

Não falo aqui da política partidária ou das disputas eleitorais que costumam ocupar os noticiários. Falo da política como construção coletiva da sociedade em que desejamos viver. As escolhas que fazemos, os valores que defendemos e as pessoas que elegemos para ocupar espaços de decisão influenciam diretamente os caminhos que serão percorridos por nossas comunidades.

Quando escolhemos líderes, também escolhemos quais visões de mundo serão fortalecidas. Escolhemos quais direitos serão protegidos, quais vozes serão ouvidas e quais formas de convivência serão incentivadas.

Por isso, refletir sobre patriarcado é também refletir sobre responsabilidade coletiva.

Os saberes ancestrais e as práticas comunitárias nos mostram que existem outros caminhos possíveis. Caminhos baseados na cooperação, no respeito, no acolhimento e na construção compartilhada da vida. Formas de existir que reconhecem a dignidade de mulheres, homens, crianças e de toda a diversidade humana.

Pode parecer utópico imaginar uma sociedade mais justa, menos violenta e mais amorosa. Mas acredito que a verdadeira utopia seja imaginar que continuaremos repetindo os mesmos modelos e obteremos resultados diferentes.

Talvez o desafio do nosso tempo seja justamente este: compreender que transformar a sociedade exige transformar também as estruturas que sustentam a violência, o medo e a exclusão.

E essa transformação começa quando somos capazes de olhar criticamente para o mundo que herdamos e assumir, coletivamente, a responsabilidade pelo mundo que desejamos construir.

Acompanhem os canais de acolhimento e cuidado do Núcleo Obará: 

https://www.obaranucleo.com.br

Contato: (11) 9 6587-2050 Whatsapp para acolhimento e encaminhamento para atendimento psicológico

E-mail: nucleoobara@gmail.com

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