“Se sair daqui, ferrou”: um olhar sobre as trajetórias de jovens estudantes trabalhadores na escola PEI

Esse mês inicio uma série de artigos, em que analiso como a carga horária do Programa de Ensino Integral (PEI) impacta a rotina de jovens da periferia que precisam conciliar os estudos com o trabalho.
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Essa série que será composta por sete textos irá apresentar os dados da pesquisa que realizei durante os dois anos como pesquisadora em nível de mestrado na Universidade Federal de São Carlos (Sorocaba, interior de São Paulo). O foco da pesquisa foi observar e analisar as trajetórias de jovens estudantes trabalhadores em uma escola PEI (Programa de Ensino Integral) em um bairro periférico de Itapecerica da Serra.

A pesquisa foi executada a partir de diferentes etapas, sendo elas:

1. Compreensão dos incômodos e desafios da pesquisa, levantamento bibliográfico, mapeamento inicial das políticas públicas e leis de educação dos últimos dez anos em nível federal e estadual e buscas do campo;

2. Observação e imersão no ambiente escolar, aplicação de questionários e entrevistas, conversas exploratórias com a gestão e os docentes; 

3. Transcrições, análises dos resultados e compreensão das limitações da pesquisa.

A metodologia que conduziu a pesquisa foi qualitativa, um método em que utilizamos as entrevistas e os questionários como base de análise, por exemplo. Esse método auxiliou no olhar e na compreensão do ambiente em que aconteceu a pesquisa. 

Realizar uma pesquisa sendo uma jovem que também cresceu na periferia, carrega seus próprios percalços, minha experiência como pesquisadora e durante o mestrado foi intensa, composta por viagens longas, inúmeros percalços financeiros e técnicas para me manter segura. Enfrentar os desafios de mobilidade, segurança e trabalho também fizeram parte da minha experiência, logo isso me fez repensar diversas lentes que utilizamos para observar jovens.

Afinal, o que é o Programa de Ensino Integral? 

O PEI ou Programa de Ensino Integral não é uma política nova, na verdade ele existe desde 2012 através da Lei Complementar Nº 1.191, criado com base na ideia de melhorar a oferta de ensino e promover a educação integral em múltiplas dimensões (SED-07462  · Portal de Atendimento – Secretaria de Estado da Educação de São Paulo ). Contudo após a Política de Fomento à Implementação de Escolas de Ensino Médio em Tempo Integral que foi instituída pelo Ministério da Educação pela Portaria nº 1.145/2016, o PEI ganhou mais força e sua expansão durante a pandemia foi realizada sob métodos de análise que deveriam ser revistos tanto por pesquisadores quanto pelas diversas comunidades escolares. Hoje o Programa de Ensino Integral que prometeu uma educação integral, oferece mais horas na escola e um ambiente escolar cada vez mais desarticulado. 

Como funcionam as cargas horárias no PEI?

Existem dois formatos, sendo eles de 7h e 9h. O primeiro onde as escolas oferecem dois turnos – das 7h às 14h e das 14h15 às 21h15. E o segundo no qual as aulas ocorrem entre 7h e 16h. Sendo o primeiro mais comum nas escolas.

Ao pensar na experiência de jovens em idade escolar, presumimos uma ausência de observação social. Hoje são comuns afirmações nas redes sociais sobre jovens não entenderem o valor do trabalho ou do esforço, mas será que eles não compreendem ou na verdade repelem uma lógica adoecida a qual já estão sendo expostos? Afinal, a juventude não é vivenciada da mesma forma por todos os jovens.

Apresentando mais um pouco da pesquisa, preciso explicitar que foram entrevistados 12 jovens dos 2º e 3º anos do ensino médio que estavam em uma escola PEI com horário das 14h15 às 21h15, esses recortes também se apresentam nos desafios retratados por eles, como por exemplo falta de tempo para trabalhar. Das 12 entrevistas realizadas, foram apresentadas 9 como resultado da pesquisa.

As narrativas e trajetórias dos jovens revelaram situações alarmantes e persistentes: entrada precoce no mundo do trabalho, sensação de responsabilidade em relação à renda familiar, desejo de sair do PEI, abandono escolar e entrada no mercado de trabalho informal e precário.

Contudo também demonstram uma valorização em relação à educação e um desejo de permanência escolar, mesmo com os percalços. Há também planejamentos em relação ao futuro e o reconhecimento da importância dos estudos.

É importante relembrar que a conciliação entre trabalho e estudo não é algo novo ou recente para jovens de periferia, e sim uma realidade que ainda persiste. Contudo, o projeto do PEI parece ignorar essa realidade quando propõe uma carga horária que, inclusive, impede os jovens de participarem de programas como o Jovem Aprendiz.

Repensar possibilidades de acesso à oportunidades para os jovens

Nessa série de textos serão apresentados os resultados e desdobramentos finais da minha dissertação. A ideia não é somente fortalecer a divulgação científica, mas compartilhar os resultados como uma forma de repensarmos as realidades e possibilidades que estão sendo vividas e ofertadas por e para esses jovens de periferia, sempre pontuando que os jovens, mesmo morando em uma mesma comunidade, podem ter acessos diferentes mesmo que enfrentem um desafio comum.

Observar essas diferenças não é um exercício simples, por isso os planejamentos das políticas públicas para a juventude precisam ser coletivos e estarem apoiados em ampla participação social, com uma prospecção necessária a longo prazo, pois existem desafios a serem enfrentados por etapas e comprometimento do poder público com essa parcela da população que é o futuro do país.

Os próximos textos irão apresentar de maneira simplificada os resultados, se baseando nas experiências dos jovens e suas percepções sobre a interação entre trabalho e estudo,  dados de outras pesquisas já realizadas e um olhar crítico em relação aos caminhos que estão sendo ofertados para a educação brasileira em nível médio.

Para aqueles que não deixam de sonhar e para os que tiveram sua esperança saqueada, dedico esta dissertação a todos que sentem o quão cruel é a realidade, ela insiste em nos perseguir… nós não desistiremos de quebrar as correntes!Agnes Roldan

Este é um conteúdo opinativo. O Desenrola e Não Me Enrola não modifica os conteúdos de seus colaboradores colunistas.

Este artigo faz parte da série de textos em que analiso como a carga horária do Programa de Ensino Integral (PEI) impacta a rotina de jovens das periferias que precisam conciliar os estudos com o trabalho. Os relatos e dados fazem parte da pesquisa realizada durante dois anos do mestrado na UFSCar, a partir de observações e análises das trajetórias de jovens estudantes trabalhadores em uma escola PEI de um bairro periférico de Itapecerica da Serra, São Paulo.



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