“De nós para nós”: Casa das Cholitas cria espaço de acolhimento à comunidade andina na zona norte de São Paulo

Pensada para ser um local de pertencimento da população imigrante, a casa conta com atividades que reforçam a cultura e ancestralidade de povos da Bolívia, Colômbia, Equador e Peru.
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Em uma casa na zona norte de São Paulo, no bairro de Santana, no distrito de mesmo nome, localiza-se um espaço, descrito como lar, dentro de um território que não pertence à terra natal dos que o habitam ou o visitam.  

“A comunidade boliviana aqui em São Paulo tem falta de espaços, praças públicas ou até mesmo feiras – porque suas feiras não são autorizadas, né? A necessidade de ter um espaço, nasce com a ideia de ser uma casa, acolher”, conta Fernanda Quéchua que nasceu na Bolívia e é fisioterapeuta.

Fernanda mora na Casa das Cholitas desde a sua criação, no final da pandemia da Covid-19, em 2021. Ela explica a necessidade da comunidade andina – povos nascidos na Bolívia, Colômbia, Equador e Peru, de ter um local seguro para encontros.

A fisioterapeuta prefere não mostrar o rosto, porque de acordo com suas palavras: sua luta não tem um rosto. Foto: reprodução/acervo pessoal.

Fernanda diz que a Casa das Cholitas surgiu de outro coletivo chamado Casa Lawa: “a gente foi desenvolvendo isso de uma forma muito particular, querer ter uma casa e não ser só minha.”, conta. A casa na zona norte é alugada e além de ser um espaço para encontros, festas e rodas de conversas também conta com quatro moradores (homens e mulheres), sendo um espaço de moradia rotativo. 

“Essa casa nasce por essa necessidade de ter um espaço para as pessoas atravessarem, por muitos pares indígenas virem para São Paulo só para trabalhar dois, três dias e voltarem para casa. A gente recebe várias mulheres em movimento, tanto do nosso território como de outros coletivos.”, explica. 

A programação dos eventos na Casa das Cholitas é semanal e feita pelos que moram lá e por convidados, suas oficinas são ministradas por pessoas da comunidade andina e pessoas da comunidade indígena brasileira, um exemplo de oficina que ocorreu no espaço é a Oficina de Têxtil que trabalhou com lã e papel, a oficina foi ministrada pela artista visual e arquiteta Luci Quillahuaman. 

De acordo com Fernanda, a programação de oficinas na casa ocorre de forma espontânea. “[É] Segundo a nossa necessidade, vamos fazer cine-pipoca porque a gente está precisando falar sobre identidade para jovens e adolescentes. Depende das necessidades e como a gente vai fazendo o movimento da casa”, diz. 

Apesar do espaço receber amigos e aliados brasileiros, o movimento é voltado principalmente à comunidade andina imigrante que procura não espetacularizar a sua cultura, já que a casa é um ambiente de acolhimento, funcionando como espaço de convivência para essa população.

Na Casa das Cholitas é feito comidas típicas. Foto: Reprodução/Instagram
E o resgate de hábitos dos povos andinos. Foto: Reprodução/Instagram

“A gente não se mostra tão aberto para mostrar para os outros, sabe? Como para os vizinhos, pesquisadores, antropólogos e acadêmicos. É aí que se diferencia, a casa não vira um espetáculo para pesquisador”, explica Fernanda sobre a dinâmica da Casa das Cholitas.

“É uma casa de acolhimento para nós. Para chegar em casa e ter cheiro de casa, cheiro da nossa comida, das coisas que a gente sente saudade. Então, isso vem da necessidade de nós para nós.”

Fernanda Quéchua, Fisioterapeuta e moradora da Casa das Cholitas.

Fernanda também faz parte do coletivo artístico e político Cholitas da Babilônia e explica a relação da Casa das Cholitas com o coletivo: “Se diferencia e ao mesmo tempo se conversa. Porque a casa nasce de um projeto particular, mas isso também vai se incluindo dentro do coletivo. Porque na casa a gente se reúne, faz nossas festas, é um lugar para a gente também nos articular. Acaba dialogando e conversando.”, explica. 

Lugar de trocas

A moradora da Casa das Cholitas explica que o espaço não recebe ajuda de nenhum fundo de investimentos ou termo de fomento, sendo “patrocinada”, segundo ela, por Pachamama – ou “Mãe Terra”, divindade que proporciona e representa a fertilidade e abundância, cultuada por originários dos Andes, incluindo os bolivianos e peruanos. 

“Quando nasce a casa, a gente [os moradores] já vêm com essa ideia de falar que a casa vai ser patrocinada por Pachamama e a gente pede que a gente tenha nossos trabalhos individualmente, para que consigamos pagar por esse espaço e poder manter.”

“Todos os processos artísticos que envolvem a casa tem um porquê, a gente quer sair dessa mentalidade colonial onde as exposições ou expressões artísticas precisam ser dentro de museus ou dentro de espaços embranquecidos, onde não tem espaço para entender e escutar a comunidade”, explica Fernanda sobre os eventos e oficinas de arte que ocorrem na Casa das Cholitas. 

Fernanda relata sobre a realidade das políticas públicas para a inclusão da Casa das Cholitas como uma casa de cultura: “Para ser uma casa cultural você precisa ter acesso, você precisa de uma rampa, é preciso um banheiro adaptado. Mas não tem dinheiro para por uma rampa nem nada dessas coisas, seria incrível mas não conseguimos”, diz.

Celebração realizada na casa contou com presença de DJ. Foto: reprodução/Instagram

A fisioterapeuta também reflete sobre a exposição em redes sociais e diz que para entrar no mapeamento e ser reconhecido para termos de fomento é necessário uma alta exposição nas redes sociais. 

“Muitas vezes, na Casa das Cholitas acontecem coisas que a gente não publica. A gente não anda mostrando o tempo inteiro o que estamos fazendo dentro da casa. A gente quer sair um pouco dessa parte da tecnologia onde você mostra tudo”, conta ao lembrar momentos de privacidade vivenciados entre moradores do local.

“Tem muita coisa que a gente faz nessa casa, muitos eventos, encontros, momentos de cura, de comer, de rir, de chorar, de falar sobre violência. A gente faz uma fogueira, senta e conversa e são conversas muito dolorosas, são coisas que não se pode publicar, não se pode fazer um espetáculo da nossa dor.” 

Fernanda Quéchua, Fisioterapeuta e moradora da Casa das Cholitas.  

Violência e luta por direitos

Fernanda ressalta a necessidade por políticas públicas no processo de imigração e regulação nos trabalhos praticados entre os imigrantes. “A gente passa despercebida em questão da nossa imigração. A gente não sabe a verdadeira situação da imigração dentro de São Paulo. Os bolivianos se centralizam muito aqui, porque nós trabalhamos com costura, e não temos políticas públicas dentro dos trabalhos. Até porque são grandes empresas que mandam fazer o trabalho a um preço de trabalho escravo”, coloca. 

A fisioterapeuta diz que ao chegar no Brasil há muita falta de informações para a regularização das documentações do imigrante. “A gente muitas vezes tem essa dificuldade de tirar os nossos documentos, porque é muito caro e tem que agendar, não falamos o idioma. Minha sobrinha acabou de chegar da Bolívia para tirar o CPF, é uma desinformação e a embaixada não ajuda.”

A casa realiza oficinas de tecelagem para resgate da ancestralidade andina. Foto: reprodução/Instagram

Além da violência para a regularização dos documentos para a sobrevivência no país, Fernanda expõe também outros tipos de negligência, como dentro de hospitais e em partos.

“Tem o negligenciamento dentro do SUS, mulheres sendo abordadas para ter um parto forçado dirigido por um homem. Sendo que é um corpo de mulher que vem de um território indígena, onde nossos partos são naturais, onde se preserva muita coisa”, relata. 

Fernanda diz que a violência contra a mulher no contexto da imigração vem de forma muito mais agressiva. “Quando vemos a gente vira só mais uma mão de obra para costurar uma camiseta por dois, três reais, muitas vezes. No shopping eles te pagam oito reais e a camiseta custa R$ 250,00”, conta. 

A Casa das Cholitas oferece uma capacitação para somar o aprendizado de mulheres que têm pouco conhecimento em modelagem. “É para mulheres que muitas vezes cortam, mas não sabem de moda se tornarem costureiras. Temos um projeto que fala: ‘Vamos capacitar e formar para elas se tornarem microempreendedoras’”, revela Fernanda. 

Mural em homenagem à Pachamama, divindade que proporciona e representa a fertilidade e abundância. Foto: reprodução/Instagram.

Ela explica que na casa também é demonstrada a ancestralidade dos que ali frequentam, e também é ensinado sobre o assunto para os mais novos que nasceram no Brasil. “Dentro da casa a gente vem nesse reconhecimento e construção, a gente pode conversar [com os mais novos], pode ouvir nossas músicas, pode fazer cinema. A gente faz cine pipoca, trazemos filmes e debatemos. Aí que está o contato do coletivo com a casa.”, diz.  

Fernanda diz que os que participam das oficinas e celebrações da casa chegam lá através de grupos de WhatsApp, pelo Instagram da Casa das Cholitas e também através da divulgação feita pelos que frequentam a casa. 

“A gente se encontra, faz uma fogueira, toma um chocolate quente, um mate de coca, a nossa bebida à base de milho que é fermentado. [Cozinhamos] nossos alimentos, nossos grãos, coisas que são memórias afetivas nascem na cozinha, no cheiro da comida, no nosso encontro da gente poder falar nossas línguas maternas como o aymara e quéchua.”

Fernanda Quéchua, Fisioterapeuta e moradora da Casa das Cholitas. 

Fernanda ressalta a importância do pertencimento e conclui que a casa vem para entender “quem somos nós”. 

“É muito importante ter um lugar de pertencimento e fazer entender que seu corpo é seu território. Quando a gente abre a casa o intuito de trabalho com jovens, mulheres e crianças vem com esse intuito de primeiro ser para nos acolher e entender quem somos nós, antes de querer mostrar ou ensinar para os outros sobre quem somos nós”, conclui. 

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