Nas eleições de 2026 para deputado estadual em São Paulo, foram eleitos ao todo 94 parlamentares homens e mulheres. Responsáveis por representar os interesses da sociedade paulista, votar as leis estaduais, fiscalizar o trabalho do Executivo, são encarregados de captar as demandas da população podendo entrar em contato direto com os cidadãos em seus gabinetes.
Com uma bancada formada, na maioria, por parlamentares da extrema direita, o retrato de 2027 da Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo se alinha a ideias conservadoras que podem colocar em risco políticas públicas que favorecem os moradores dos territórios.
Ao lembrar o período em que trabalhou na Alesp, entre os anos de 2008 e 2011, a jornalista e advogada Luciana Araújo, que conhece bem a rotina e a receptividade que a ‘Casa do Povo’ tem com os cidadãos que vão até lá reivindicar seus direitos, conta que a casa é muito fechada para o povo e que em todos os eventos que profissionais como professores ou trabalhadores da área da saúde lutam pelos seus direitos e vão até o local tentar conversar são recebidos por bombas de gás lacrimogêneo e pela polícia militar.
“Quando eu trabalhava na Assembleia, costumava dizer que se caísse um raio na Alesp no fim de semana provavelmente a população de São Paulo ia demorar seis meses para descobrir que o parlamento paulista não está mais funcionando”, coloca Luciana, que trabalhou na Assembleia entre os anos de 2008 e 2011 e é integrante da Marcha das Mulheres Negras de SP.

É a partir desse olhar que a advogada analisa o que podemos esperar do futuro da assembleia legislativa com a chegada de um novo governo e de novos deputados. Ela lembra que existe uma “cultura de boicote ao fórum”, quando parlamentares governistas não querem que algum projeto avance. O que dificulta a votação de novas políticas públicas, em especial aquelas propostas por membros do campo progressista.
O que podemos esperar da Assembleia após as eleições?
Atualmente, o Partido Liberal (PL) ocupa 21 cadeiras na Assembleia Legislativa, porém a partir do início de 2027, passará a ter 27 integrantes na casa. O resultado garante para o partido – que apoia o governador reeleito Tarcísio de Freitas – maioria de dois terços. Ao mesmo tempo, representantes do PSOL passaram de cinco para nove deputados, enquanto o PT conquistou 16 cadeiras, formando a maior bancada de oposição do governo.
Para Luciana, a presença ampliada de representantes do PL pode representar uma certa dificuldade para os setores da oposição. Ela acredita que essa dificuldade pode se manifestar na criação e liderança de comissões pelos tais setores. As comissões podem debater propostas e apurar ou investigar fatos graves.
“Historicamente, a gente tem uma dificuldade muito grande de todos os setores de oposição, não só a presidir as soluções porque às vezes até presidem. O regimento dentro da casa fala em alguma pluralidade na promoção das condições, mas mesmo quando ela [a comissão] é presidida por um parlamentar progressista é muito difícil conseguir avançar com as pautas lá.”
Luciana Araújo, jornalista e advogada, trabalhou na Assembleia entre os anos de 2008 e 2011 e integra a Marcha das Mulheres Negras de SP.
Aumento da presença feminina
A partir do ano de 2027 serão 28 mulheres eleitas, entre elas está a candidata à deputada estadual mais votada durante as eleições, Eduarda Campopiano, do Partido Liberal. A recém-eleita deputada reuniu 1.956.238 votos, equivalente a 8,39% dos votos válidos.
Vereadora de Praia Grande e influenciadora digital, Eduarda se posiciona contra a lei de cotas raciais, contra o feminismo contemporâneo, contra leis anti-aborto e diz não acreditar que o feminícidio seja “algo que exista”.
Ao avaliar o posicionamento da parlamentar, Luciana destaca: “Se ela diz que isso [o crime de feminicídio] não existe, a opinião deveria ser considerada um crime de quebra de decoro grave”, diz. Luciana ressalta os dados alarmantes sobre feminicídio do ano de 2025 no estado de São Paulo, onde, ao todo, 270 mulheres foram assassinadas, ou seja, uma mulher foi morta a cada 32 horas.
“Ela [Eduarda Campopiano] vai legitimar quaisquer projetos de quaisquer deputados, homens ou mulheres, que ataquem uma legislação que já existe. Vai dificultar, como para a gente já é bastante difícil, aprovar proposituras que tentem mudar essa realidade”, analisa Luciana sobre a deputada e a aprovação de projetos que tentem ir contra o feminicídio nos próximos anos.
“A violência contra a mulher é a última estação. A mulher vive uma realidade que o cara quer controlar a vida dela, o dinheiro que ela ganha. Chega em casa todo o dia bêbado, e às vezes não tem violência física, só essa violência psicológica do medo da violência. Quando ela consegue contar isso pra alguém, em geral a reação das pessoas é: ‘Mas você vai botar na cadeia o pai dos seus filhos?’. Ela chega na delegacia e muitas vezes ouve esse discurso, quando ela morre é considerado uma tragédia e a sociedade faz de conta que não ouviu essa tragédia”, expõe Luciana sobre como é a vida da mulher que sofre o feminicídio.
O legado das mulheres
Luciana avalia como outro sinal de retrocesso nas eleições deste ano a derrota sofrida pela segunda deputada negra da história da Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo, Leci Brandão, que pertence ao Partido Comunista do Brasil (PCdoB) e não conseguiu se reeleger.
“Eu considero uma derrota histórica, pelo que o mandato da Leci ainda é para a esquerda. E também com os seus questionamentos, para a cultura negra, para as quebradas, numa juventude que é muito marginalizada e pela esquerda histórica do estado de São Paulo”, coloca a advogada, que também é organizadora da Marcha das Mulheres Negras de São Paulo.

Luciana analisa a situação da política atual sem a deputada, e diz que assim como o samba no passado foi criminalizado, hoje pode voltar a ser. Um exemplo é o Projeto de Lei proposto no ano de 2025, pelo deputado estadual Gil Diniz (PL), que proíbe blocos de carnaval e outros eventos festivos de rua nas imediações de igrejas do estado de São Paulo.
A proibição vale para um raio de 50 metros e se estende a templos, bases da polícia militar, guarda civil, bombeiros, hospitais e funerárias. O não cumprimento da norma cabe sanções administrativas e multas. O projeto de lei ainda está em tramitação na Alesp e precisa passar por comissões como a de Cultura para ser votado. Gil Diniz foi eleito deputado federal em 2026.
A advogada fala sobre o resultado geral das eleições, que assim como na Alesp garantiram a vitória de partidos de extrema-direita. Para ela, é importante não botar a vitória do Partido Liberal, na Alesp ou no Senado, na conta da periferia. “Isso também é racismo”, ressalta.
Estratégias de combate ao extremismo
A jornalista traça técnicas para organização de direitos de base: “A extrema direita, que agora tem maioria no Congresso Nacional, quando estava insatisfeita com os avanços de direitos da população pobre e mulher foi organizar embaixo para disputar esse poder”, diz.
“Acho que a primeira coisa que a gente precisa avaliar é que a gente tem erros, nesse processo de aproximação. Erros de em muitos momentos tentar conciliar com o outro lado, de tentar uma administração pacífica. O problema é que a direita brasileira não quer paz conosco”, explica e cita sobre o comportamento de parlamentares de direita diante das conquistas de direitos sociais:
“A direita brasileira formou desde o império uma polícia militarizada para nos abater. Não para discutir os nossos direitos. Quando você dá em 2015 a possibilidade dos trabalhadores domésticos trabalharem em CLT que existia desde 1943, você tem um levante.”
Luciana Araújo, jornalista e advogada, trabalhou na Assembleia entre os anos de 2008 e 2011 e integra a Marcha das Mulheres Negras de SP.
Representação negra entre os parlamentares
A partir de 2027 a Alesp passará a ter 18 dos 94 deputados eleitos autodeclarados pretos ou pardos. Porém, mesmo com o número de parlamentares ocupando o cargo, Luciana ressalta as dificuldades no dia a dia.
A advogada também faz parte do grupo de preservação do sítio arqueológico do quilombo Saracura, encontrado quando foram feitas as perfurações para as obras do metrô da Linha 6-Laranja, em São Paulo. Ela relaciona as dificuldades de preservação da cultura e da história negra diante da ação de parlamentares que não defendem essas pautas.
“Nada para nós vem como está na legislação. A gente teve que fazer muita pesquisa, muita luta, a gente descobriu pelo menos 19 estações [ferroviárias] pelo mundo inteiro que bateu a picareta lá e achou uma cidade anterior a essa que a gente está vivendo. Esses sítios arqueológicos foram incorporados ao projeto da estação”, explica ao relembrar o processo.
A jornalista ainda completa que, no caso da preservação do sítio arqueológico: “Além de garantir o transporte, garante o não apagamento do passado e mais empregos além da estação”, diz.
Para Luciana, é preciso levar a política até os trabalhadores em seu ambiente de convívio dentro de seus territórios.
“Se a gente quiser ter a possibilidade de evitar um pouco os males dos números completos da Assembleia, vai ser fundamental trazer a população que está aqui fora sem saber o que está acontecendo. Porque se constrói um discurso que política não é para nós enquanto trabalhador, pessoa humilde, periférica, pessoa com deficiência. [Precisamos] trazer [a política] para a população, para os bairros, para os espaços de organização que todo o território tem”, conclui.