“Tem que tomar cuidado”: na zona leste de SP, eleitores apontam riscos de informações falsas nas redes sociais

O eleitor cansado e o eleitor engajado, ambos afirmam que mesmo não seguindo perfis políticos recebem conteúdos de candidatos.
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Com o passar do tempo, o sistema de divulgação de candidaturas para o pleito eleitoral foi sendo alterado no Brasil. O que um dia já foi feito apenas por voz em carros de som e imagem em santinhos impressos, ao longo dos anos foi ganhando novos formatos, muitas campanhas passaram a chegar diretamente para os eleitores em seus celulares por meio das redes sociais em vídeos curtos, fotos, memes e gifs animados. 

O processo de mudança na divulgação de propaganda político-partidária acompanha o crescimento do acesso da população do país à internet. Segundo pesquisa, a proporção de usuários da internet no Brasil ultrapassou 90% da população de 10 anos ou mais, em 2025. O estudo afirma que essa internet chega aos usuários, em sua maior parte, por meio do celular e pontua que o uso é diário.

Segundo pesquisa, a proporção de usuários da internet no Brasil ultrapassou 90% da população. Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil.

As redes e o eleitor

Ao perguntar sobre as redes para José Urbano, educador físico de 51 anos, morador do bairro Jardim Penha, no distrito do Cangaíba, zona leste de São Paulo, ele diz que passa apenas uma hora e meia por dia em suas redes sociais, e que usa o WhatsApp, Facebook e o Instagram. O educador conta que aparece de tudo em suas redes, mas afirma que em seu dia a dia prefere ler os sites de notícias, para se atualizar. 

“Não sigo ninguém [da política], mas aparece mesmo sem eu buscar. Alguns memes, muitas fake news e bastante campanha política.”

José Urbano, 51 anos, morador do Jardim Penha, zona leste de SP. 

O educador físico diz que desde os 20 anos de idade sempre gostou de acompanhar as notícias tanto na televisão quanto em jornais impressos. Atualmente, Urbano é assinante do jornal Folha de S. Paulo, por onde se informa e conta que teve acesso à pauta de todos os candidatos às eleições através dos veículos de imprensa tradicionais, em programas de televisão como o Roda Viva, transmitido pela TV Cultura, e nos debates. 

Ao se referir às informações que chegam pelas redes sociais, ele alerta sobre a importância de saber filtrá-las, principalmente durante as vésperas das eleições, além de destacar a necessidade  de checar a veracidade do conteúdo.

José Urbano, educador físico e morador do Jardim Penha. Foto: Ana Alice de Lima/Desenrola e Não Me Enrola.

“A gente tem que tomar cuidado, muitas pessoas acabam não sabendo filtrar as informações, isso acaba sendo perigoso. Eu consigo filtrar algumas, não todas. Gosto de política, então tudo que aparece de notícia, principalmente as que eu recebo em redes sociais, eu vou pesquisar se é verdade”, diz. 

Urbano conta que sempre gostou de política, e foi influenciado pela mãe, ativa em projetos sociais no Jardim Penha, que trabalhava junto ao Padre Ticão, sacerdote católico conhecido pela militância política e social na região.  

Ele relata que está engajado com as eleições desse ano, e fala da importância de conhecer todos os candidatos que estão concorrendo: “Nós temos 12 candidatos para presidente e a pessoa só conhece quatro ou cinco, sete candidatos para governador [em São Paulo] e a pessoa só conhece dois. Independente de quem nós vamos votar, tem que conhecer quais são as pautas de todos os candidatos. Isso que eu procuro fazer, eu procuro entender, eu procuro ver o que cada um procura fazer”, diz

No mesmo bairro do Jardim Penha, Keven Willians, de 26 anos, estagiário de educação física, se sente cansado das eleições e vê como “mesmice” a situação atual. 

“Parece que as discussões que têm desse ano são as mesmas que a gente teve para presidente há quatro anos atrás. Esse ano eu não estou com paciência para ver os debates, e não teve [para presidência]. Eu acho que é muito mais uma gritaria, ninguém quer falar sobre as propostas, querem apontar o erro do outro.”

Keven Willians, 26 anos, morador do Jardim Penha, na zona leste de SP.

Mesmo estando cansado, Keven diz que tenta se informar sobre os candidatos pelas redes e ser uma pessoa politizada: “Não tem como eu não ser, ainda mais sendo um homem negro. Quando acaba chegando as coisas [ nas redes sociais sobre algum candidato] eu sempre vou atrás de confirmar, principalmente pelo Google”, afirma. 

Keven destaca o papel que as redes sociais podem ter sobre o voto das pessoas, sendo quase impossível não pesquisar quem aparece em sua linha do tempo. “Hoje é muito difícil, por mais que eu não conheça o candidato, se ele passar na minha timeline vai me fazer pesquisar um pouco sobre os seus projetos”, diz.

Keven Wilians, estagiário de educação física de 26 anos. Foto: Ana Alice de Lima/Desenrola e Não me Enrola.

Em seu dia a dia, Keven usa, principalmente, o Instagram e o X/Twitter, e diz passar cinco horas do dia verificando as redes sociais. 

O jovem conta que prefere os perfis mais alinhados ao mundo dos esportes, e diz que não segue nenhum perfil nas redes que fale de política, mas que os conteúdos acabam aparecendo. “ [Aparece] Ainda mais em época de propaganda eleitoral, mas fora de época sempre aparece. Principalmente no Twitter, tem muita discussão sobre assuntos específicos, de política também.”

Keven ressalta que no X/Twitter os debates sobre política chegam de formas diferentes quando comparados às outras redes sociais, e que muitas pessoas se aproveitam do anonimato para disseminar discursos de ódio que transpassam as opiniões sobre candidatos políticos. 

“São pessoas comuns que acabam fazendo algum comparativo de alguma forma. Por exemplo, tem um meme que era para ser engraçado, alguém retuita e fala como isso é problemático. O Twitter não tem dados seus. No Instagram, por exemplo, você tem a sua família, você pode até trancar o perfil, mas [no Twitter] é bem anônimo a pessoa só solta o verbo e fala o que pensa. Se eu tivesse frente a frente com essa pessoa, ela não esboçaria essa opinião, sabe?”, explica ao se referir às pessoas que se aproveitam do anonimato das redes sociais para disseminar discursos de ódio sem serem identificadas.

O estagiário de educação física relata não confiar muito nas informações vistas nas redes sociais, procurando sempre acessar os links quando disponíveis para conferir a veracidade das manchetes. 

“Eu não tento debater sobre fake news na internet, porque eu sei que as pessoas não querem informação, sabe? Elas não querem ouvir o seu lado e você ouvir o delas, elas querem estar certas”, afirma Keven.

Tanto Keven quanto Urbano acreditam que hoje em dia é mais fácil ter uma opinião política formada, por conta da quantidade de conteúdos disponíveis online. 

Urbano diz que ao mesmo tempo em que vê facilidades, também enxerga dificuldades nos candidatos em transmitir credibilidade para o eleitor. “Acaba sendo mais fácil hoje em dia em termos de você saber o que você quer, eu defendo essa bandeira. O mais difícil é você ter um candidato que você consiga acreditar nas opiniões”, afirma falando também sobre a dificuldade do eleitor acreditar no que é dito por quem tenta se eleger. 

Para Keven Williams, as redes facilitam a formação de opinião, tanto por ver a divulgação dos candidatos pelas redes sociais, quanto pela influência de outras pessoas que vão votar em candidatos escolhidos a partir da presença nas redes. “Eu acho que é muito mais fácil formar um pensamento político e um viés político, mas não quer dizer que é a maneira correta. Acho que poucas pessoas da internet procuram ver quais são as propostas dos candidatos, eu estou incluso”, conclui.

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