Semanalmente milhares de cidadãos na cidade de São Paulo e região metropolitana atravessam a metrópole utilizando transporte público. Apenas no mês de março de 2026, de acordo com dados da Companhia de Trens Metropolitanos (CPTM), mais de 32 milhões de pessoas utilizaram o meio de transporte. É o caso de Ana Karoline, 30, moradora de Mauá, município da Grande São Paulo. “Minha rotina de transporte é bem cansativa, eu dependo diariamente de trem e metrô para me deslocar, trabalhar, estudar ou cumprir algum compromisso”, explica.

Ana Karoline mora em Mauá desde 2021, atualmente faz estágio em serviço social e também trabalha como bartender. O principal serviço de transporte por trilhos utilizado em seu dia a dia é o da Linha – 10 Turquesa, que conecta sua cidade ao restante da malha ferroviária paulista. Porém, ela sente que desde 2025, com o fim da integração das linhas 7 e 10, o trabalho dos trens teve uma piora: “Demora muito [os trens], antes demorava uns 30 minutos para chegar nos lugares, no máximo 45, agora eu levo mais de uma hora com o fluxo do trem”, relata.
“Teve um dia em específico que eu precisava chegar na Mooca, que o trem ficou trinta minutos parado. Então uma coisa que era por exemplo para eu chegar às nove horas, acabei me atrasando quarenta minutos. Não por conta de ter saído atrasada, né? Mas pela demora.”
Ana Karoline, estagiária de serviço social, moradora de Mauá.
Fim do serviço 710 e privatização
Inaugurado em maio de 2021, o chamado Serviço 710 unia as linhas 7 e 10 da CPTM. Segundo estimativas da companhia divulgadas em 2021, o serviço beneficiava cerca de 165 mil passageiros por dia. Os trens da Linha 7 – Rubi e 10 – Turquesa circulavam entre Jundiaí e Rio Grande da Serra até a concessão da linha 7 – Rubi para a TIC Trens, em agosto de 2025, que agora obriga os passageiros a descerem na estação Palmeiras-Barra Funda para fazer baldeação e continuar o trajeto.
Karol, que é uma mulher autista, relata que as viagens na linha 10 – Turquesa ficaram mais cansativas após a transição: “Eu gosto de horário para tudo, sempre cálculo o horário que vou chegar e voltar e às vezes por conta dessa lentificação fico mais ansiosa”.
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A estagiária explica também que os trens atualmente fazem muito barulho, e que busca mecanismos para minimizar esses estímulos externos. “Sempre que estou no trem eu fico de fone por conta dos ruídos, ou eu fico fazendo crochê, lendo algum livro, para desestressar”, conta.

Antes do encerramento do Serviço 710, a Linha Turquesa operava com trens mais novos da série 9500, fabricados entre 2017 e 2019. Porém, após o encerramento, e a concessão da Linha 7, as máquinas dessa série foram transferidas para a TIC Trens e a linha passou a operar com uma série mais antiga de máquinas fabricadas entre 2015 e 2019.
Segundo a Secretaria de Parcerias e Investimentos, “a reorganização não está associada aos processos de concessão em curso, mas a ajustes operacionais permanentes da rede, que são realizados com base em critérios técnicos”.
Em abril de 2026, a CPTM, através do jornal Diário do Grande ABC, anunciou a retirada de trens novos da linha 10 – Turquesa, que passariam a ter veículos fabricados entre os anos de 2008 e 2011. Os veículos que antes eram usados na operação da linha 10, agora seriam destinados as linhas de trem do Alto Tietê e da Zona Leste da cidade de São Paulo. O motivo desse deslocamento é que as máquinas mais novas faziam parte do pacote concedido à Trivia Trens que irá operar as linhas 11 – Coral, 12 – Safira e 13 – Jade a partir do segundo semestre de 2026.
Após receber críticas dos passageiros, o Governo do Estado de São Paulo recuou e decidiu manter os trens mais novos circulando na linha 10. Porém, no contrato de concessão ainda é esperado que aconteça a transferência das composições para a concessionária que adquiriu a concessão das linhas 11, 12 e 13.

Karol lamenta a situação atual da Linha 10 e diz que já chegou a recorrer aos carros de aplicativo para voltar para casa ou chegar aos seus compromissos nos dias em que o cansaço falou mais alto: “Muitas vezes a gente acaba tendo essa opção, entre aspas, né? Porque não deveria ser essa a opção, para não chegar tão atrasada.”
Desde o ano de 2015 até 2026, o preço da passagem dos trens em São Paulo aumentou R$ 1,90, sendo que o aumento mais expressivo aconteceu no ano de 2024, após a pandemia. Naquele período a passagem estava com o preço congelado em R$ 4,40, desde 2020. O aumento efetuado pelo Governo de São Paulo foi de R$ 0,60 centavos, elevando o valor da passagem para cinco reais.
Na época, o governador Tarcísio de Freitas afirmou que o Estado não tinha mais condições de subsidiar o valor da passagem por conta dos custos operacionais do sistema.
Nesse cenário, usuários como Ana Karoline dizem não se sentir seguros usando os trens: “De manhã os trens são uma lata de sardinha, você precisa lutar para conseguir entrar. O sistema precisa de melhorias, acompanhar as demandas dos passageiros”, conclui.