No dia 5 de junho, moradores e produtores culturais de Osasco se organizaram em um ato contra o desmonte da cultura no município. Com faixas e reivindicações, o ponto de encontro foi no calçadão de Osasco, região metropolitana de São Paulo. “Eles querem nos alienar, e a gente tá aqui pelo contrário”, afirma o Poeta CJ, artista e morador do território, no bairro da Vila Dalva.
O ato é uma das ações de uma série de mobilizações que os agentes culturais da região têm fomentado e que teve como marco o descarte de milhares de livros em abril de 2026.

Os moradores de Osasco viram as imagens de livros da Biblioteca Pública Monteiro Lobato sendo descartados no dia 24 de abril. O motivo, segundo a prefeitura da cidade, era a contaminação por fungos e mofo. Naquele dia, foram descartados em uma caçamba obras de autores locais, livros de poesia e coleções antigas de jornais.
“Eu fiquei bem preocupada”, conta Yasmin Gabriele, produtora cultural, moradora do Jardim Rochdale, bairro de Osasco, região metropolitana de São Paulo. Ela é co-criadora do coletivo Viela Vive, que atua no município desde 2019 e relata ter recebido a notícia do descarte dos livros através de um grupo de WhatsApp.

“Em torno das 15h recebi um print que tinha informações do que estava acontecendo em frente à Biblioteca Monteiro Lobato, essa mensagem havia sido postada às 14h34. A partir disso comecei a acionar a minha rede de conhecimento de literatura da cidade”, relembra sobre as primeiras informações que recebeu naquela dia.

Após saber sobre o descarte dos livros, Yasmin entrou em contato com produtores culturais conhecidos que fazem parte de saraus que ocorrem na cidade, como o Sarau Salva e o Sarau Zona Ouro. “A primeira pessoa que se colocou à disposição para poder ir presencialmente lá ver o que estava acontecendo foi o Poeta CJ”, lembra.
“Eu recebi algumas fotos sobre um descarte de livros que estavam sendo jogados em uma caçamba. Nesse momento eu parei tudo que tava fazendo e corri pra Osasco para tentar resolver a situação e entender o que estava acontecendo”, relata Poeta CJ, artista e morador do bairro da Vila Dalva, em Osasco.

O artista explica que ao chegar no local de descarte dos livros pediu que fosse mostrado algum documento que explicasse porque aqueles livros estavam sendo descartados.
“Eles [pessoas que estavam descartando os livros] alegaram que os livros estavam com fungos, então a gente tentou ver se tinha algum laudo químico ou biológico para poder atestar aquele descarte, não tinham.”
Poeta CJ, artista, morador do bairro da Vila Dalva, em Osasco.
A equipe que estava descartando os livros afirmou para o Poeta CJ que ele apenas conseguiria o laudo indo até a Secretaria da Cultura. O poeta relembra a trajetória do dia: “A gente largou tudo lá e fomos até a Secretaria da Cultura para conseguir esse laudo. Chegamos na secretaria era umas 16h e ela fechava às 17h. Tomamos um chá de cadeira de 30 minutos, mas pedimos uma reunião com o pessoal responsável, seja o secretário da cultura, seja outra pessoa com o documento que se chamava Eliana.”

Porém, o pessoal responsável pela secretária de cultura falou que não seria possível que o artista fosse atendido naquela sexta-feira, dia 24. “A gente falou: ‘Ta bom, se ela [Eliana], não puder atender, como podemos prosseguir?’ então marcamos uma reunião para a segunda-feira, dia 27 de maio. Chegando naquele dia, nem o secretário de cultura nem a Eliana foram para a reunião que marcamos, fugiram. Então começamos a providenciar outras coisas”, relembra.
Na data do encontro, o artista mobilizou outros dois produtores culturais de Osasco ainda para tentar analisar o laudo. “Fomos barrados na porta da secretaria de cultura de Osasco, impedidos de entrar lá para trocar ideia e averiguar o laudo. Naquele ponto já estávamos entendendo que o laudo não existia, né? Que os livros haviam sido descartados de maneira irregular e que não podíamos confiar naquelas pessoas”, relata.

Enquanto o Poeta CJ estava à procura do laudo que explicava o descarte dos livros, Yasmin tentava entender junto aos órgãos públicos da prefeitura de Osasco o que estava acontecendo com os livros da Biblioteca Monteiro Lobato: “Eu busquei alguns vereadores, a secretaria de igualdade racial para entender o que estava acontecendo e ninguém sabia”, relata.
“A partir do momento que as secretarias não estão cientes do que está acontecendo, começamos a perceber um tipo de movimentação aparentemente criminosa. Até porque a gente está falando de uma movimentação que aconteceu na calada das três horas da tarde de uma sexta-feira, né?”, coloca Yasmin.
Fechamento da Biblioteca Pública Monteiro Lobato
A Biblioteca Pública Monteiro Lobato foi inaugurada durante a década de 1960 e já ocupou diversos endereços na cidade, atualmente o acervo está localizado em um prédio na Avenida Marechal Rondon, 260, centro da cidade de Osasco. De acordo com o site da instituição, o acervo da biblioteca reúne romances, poesias, peças teatrais, revistas, folhetos, gibis e outros. O espaço, quando estava aberto, também contava com acesso à internet para os seus visitantes. O local está fechado desde o ano de 2020, quando as atividades foram interrompidas por conta da pandemia.

Yasmin Gabriele lembra que a biblioteca era também o único acervo para obras de autores locais. “Muitos autores daqui de Osasco não conseguiam ter impressões em grande escala de seus materiais, mas às vezes tinha uma única edição em cinco impressões na Biblioteca Pública”.
“Muitas famílias reuniam documentações, informações e estudos sobre a cidade lá [na Biblioteca Pública Monteiro Lobato]. Tinham materiais de pensadores daqui que estavam na biblioteca. A biblioteca foi construída pela população com todos os seus livros.”
Yasmin Gabriele, produtora cultural, co-criadora do coletivo Viela Vive, moradora do Jardim Rochdale, em Osasco.
“Temos uma série de questionamentos sobre a biblioteca”, diz Yasmin Gabriele, que questiona as promessas feitas pela gestão atual de Osasco: “Em 2023 foi falado que haveria uma reforma dessa biblioteca para a sua reabertura, mas isso não foi feito”, lembra.
Ao pesquisar sobre o valor que a prefeitura de Osasco está investindo para reabrir a Biblioteca Pública, quase nada é encontrado. Na internet, apenas uma ata entre o Conselho Participativo da Cidade (ComCultura) e representantes do governo municipal de setembro de 2025 detalha uma proposta da Secretaria de Cultura para o conselho.
Estava prevista a destinação de R$ 1 milhão para a reforma dos equipamentos públicos (como o Teatro Municipal da cidade e a Biblioteca Pública), porém o conselho declinou a proposta e cobraram uma prestação de contas sobre as reformas que já estavam em andamento naquele período, e também como aqueles recursos seriam utilizados.

“A gente quer que tudo isso seja penalizado corretamente. Enquanto população, queremos uma CPI em cima da história da Biblioteca Monteiro Lobato”, diz Yasmin Gabriele.
Além de produtora cultural, Yasmin também é pós-graduada em ESG, sigla para Ambiental, Social e Governança, que estabelece práticas e diretrizes para que empresas e instituições sejam consideradas ou não, socialmente responsáveis e sustentáveis e explica que achou estranha a justificativa do governo municipal para o descarte dos livros.
“A primeira coisa que eu trouxe foi: está sendo descartado de forma incorreta, porque se o risco é biológico não deveria ser descartado em caçambas abertas.”
Yasmin Gabriele, produtora cultural, co-criadora do coletivo Viela Vive, moradora do Jardim Rochdale, em Osasco.
“A partir do momento que se tem um laudo, é preciso estar junto da empresa que vai realizar o descarte junto com você. Essa empresa precisa abrir um protocolo em um órgão público e ele vai controlar o transporte e o material de acordo com o laudo biológico. Isso deveria ser feito em um caminhão baú fechado, podendo ter a estrutura de caçamba – mas obviamente com um baú fechado. E também, deveria ter toda a parte do EPI, para a manipulação desses itens”, explica Yasmin.
A produtora cultural conta que existiu uma documentação para o descarte dos livros, que foi acessada posteriormente por ela e pelo grupo que estava no dia 24 de maio na prefeitura. “[A documentação] Falava sobre as condições do espaço e condições dos livros, mas a gente está falando de um estudo bibliotecário que tinha ali em torno de seis imagens de livros em mau estado. Isso não justificaria 49.500 unidades serem descartadas. E no estudo não recomendava o descarte imediato dos livros”, relata.

Atualmente, o descarte dos livros da Biblioteca Pública está sendo investigado pelo Ministério Público de São Paulo, até a publicação da reportagem a Secretaria de Cultura de Osasco não respondeu aos questionamentos sobre o descarte dos livros da Biblioteca Monteiro Lobato.
“Acho que as vias burocráticas dão um conforto de prazo, de tempo para que essas pessoas possam mexer os pauzinhos delas e mover outras estruturas para criar uma história que justifique suas ações. A gente quer que isso seja penalizado corretamente”, diz Yasmin.
Cuidado com outros equipamentos culturais de Osasco
Inaugurada em 2004, a Casa de Angola é um importante centro cultural da cidade de Osasco. A casa tem o teto de eucalipto revestido e cobertura de piaçava, sua construção é em alvenaria, e o seu acervo conta com itens como: pinturas, vestes, esculturas e camisetas vindos diretamente de Angola dados de presente pelo país no ano de 2012. O local, assim como a Biblioteca Pública Monteiro Lobato, foi fechado em 2020, e segue assim até hoje.
“Esse é outro atentado que existe contra a cultura de Osasco. Existem duas casas de Angola no Brasil, uma em Salvador e a outra aqui, em Osasco e a nossa não funciona”, relata o Poeta CJ.
“O episódio dos livros revela sobre a forma como o poder público, em específico a Secretaria da Cultura, tem tratado as bibliotecas e os acervos culturais da cidade.”
Yasmin Gabriele, produtora cultural, co-criadora do coletivo Viela Vive, moradora do Jardim Rochdale, em Osasco.
Ao acessar o site da Secretaria de Cultura de Osasco, na página de bibliotecas, é possível identificar que as unidades descritas são: a Biblioteca Pública Monteiro Lobato (relatada na reportagem) e a Biblioteca Municipal Heitor Sinegaglia, localizada na zona sul da cidade, além do Museu Dimitri Sensaud de Lavaud, fechado em 2019 e em processo de restauração.
“Eu fico muito triste em saber que o poder que Osasco tem está sendo revertido para situações de negligência, onde eles não estão pensando realmente na nossa juventude, no nosso povo.”
Poeta CJ, artista, morador do bairro da Vila Dalva, em Osasco.
“Estamos se aquilombando, ouvindo o povo e entendendo o que o povo necessita. E o povo necessita de uma leitura que seja realmente acessível. O povo necessita de uma biblioteca, necessita de um centro cultural”, afirma o artista.