Com bandeirinhas, fogueira, curau e canjica, durante o mês de junho todo o Brasil comemora as festividades juninas. O período que remonta tradições vindas desde a colonização do país e comemora datas da fé católica carrega suas especificidades e tradições em cada região do país. O Jardim Romano, localizado no distrito do Itaim Paulista, zona leste de São Paulo, também tem sua festa com características próprias. Desde 2015, o bairro recebe as comemorações que são organizadas pelo coletivo de artistas drag queens, Acuenda.
Para 85% dos brasileiros com mais de 18 anos, as festas de São João fazem parte dos planos deste ano, segundo pesquisa do Instituto Locomotiva realizada entre 29 de abril e 6 de maio de 2026. O índice supera os 81% registrados em 2025, dentro da margem de erro de três pontos percentuais. Entre os formatos preferidos, lideram as festas juninas de rua e gratuitas (44%), seguidas pelos arraiais em casas de amigos ou familiares (39%) e pelas quermesses e festas em igrejas (37%).

“O coletivo Acuenda surgiu em 2014 com uma ação cultural chamada Cabaré D’Água, que é a ação que a gente desenvolve até o presente momento. Ele nasceu dentro de um núcleo LGBT dentro de outro coletivo”, explica Bruno Fuziwhara, fundador do coletivo Acuenda, que também tem sede no Jardim Romano. Bruno é artista drag e performa com o nome de Dhiana D’Água.

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O artista conta que a primeira festa junina do coletivo foi em 2017, em comemoração a um ano de existência do grupo: “Era o mês de junho e íamos completar um ano de trajetória. Então a gente montou [a festa junina] sem muitas expectativas, como se fosse um evento normal da nossa agenda, fizemos e demos o nome de Arraiá das Drags”, relembra.
“Logo de primeira já foi um grande sucesso, foi um evento na rua, com os moradores e com muita gente de fora vindo assistir. Então a gente viu que esse evento daria muito certo.”
Bruno Fuziwhara, fundador do Coletivo Acuenda e artista drag, morador do Jardim Romano.
Comemoração ao longo dos anos
Além do coletivo Acuenda, desde a primeira celebração o Arraiá das Drags conta com a organização dos próprios moradores do Jardim Romano, que vendem as comidas típicas juninas em barracas na festa.
“A gente convida os moradores para montarem as suas barracas. Entramos em contato com essas pessoas antes para saber a disponibilidade e se vão poder estar no dia. A gente tem essas tratativas antes com as pessoas que vão vender nas barracas para quando o público começa a chegar já tá tudo funcionando, já ter a música tocando, as comidas já estarem sendo vendidas, né?”, explica o fundador do coletivo.
Bruno conta que ao longo dos anos o Arraiá das Drags tem reunido mais público: “Vem bastante gente, já teve um momento que a gente já teve mais de 2 mil pessoas na festa. De ano para ano muda o número de pessoas.”


Durante o Arraiá acontecem várias atividades como: bingo, apresentação de banda de forró e shows de drag queens. Dafny Delano também faz parte do coletivo, e é uma das artistas drag que se apresenta no evento desde 2023, além da artista o Coletivo Acuenda chama outras drags queen para se apresentarem a cada ano. “É uma festa maravilhosa, gigantesca, a festa junina em si já é muito boa e eu acho que quando você mistura drag queen, a arte performática dá uma coisa a mais, uma glamourizada para o arraial”, comenta.

“Eu acho que o Arraiá é um marco na minha trajetória, por a gente estar na periferia e apresentar esse tipo de trabalho, que é um trabalho às vezes marginalizado e às vezes não tão reconhecido, não tão bem aceito em alguns lugares”, afirma Dafny.
“A gente levar a cultura da arte drag queen, que mistura dança, teatro, performance e tudo mais para a periferia, para mim é muito gratificante. E mistura tudo isso com a cultura da festa junina, com esse toque drag faz toda a diferença”
Dafny Delano, artista drag queen, moradora de Osasco, na grande São Paulo.
A celebração já ocupou vários endereços ao longo dos anos, e durante a pandemia o festejo aconteceu de forma remota. “A gente não deixou de fazer lives”, diz Bruno. Nesse ano, o Arraiá das Drags será realizado no estacionamento do Teatro Flávio Império, no Jardim Penha, bairro localizado no distrito da Penha, na zona leste da cidade nos dias 27 e 28 de junho a partir das 14 horas. Porém, Bruno deixa claro que no mês seguinte terá outra edição da festa no Jardim Romano.
Acolhimento no território
“Esse é um bairro que acolhe bem a arte drag queen. O que essas meninas estão fazendo é revolucionário, gigantesco, eu na minha comunidade não me sinto confortável de sair assim.” Dafny Delano mora em Osasco, na grande São Paulo, e comenta que fica impressionada ao ver o acolhimento da comunidade do Jardim Romano com o coletivo Acuenda.

Porém, nem sempre foi assim. Bruno explica as dificuldades e o preconceito enfrentados ao longo dos anos: “Muitas vezes, os pais não deixavam algumas crianças perto da gente, falavam: ‘Vocês não podem ficar perto dessas travestis’. Então, eles tinham esse preconceito e não entendiam muito as diferenças entre uma pessoa trans e uma drag. Foi nesse momento que a gente resolveu colocar dentro dos nossos eventos uma roda de conversa onde a gente convidava uma pessoa especialista para debater”, relembra.
“As crianças são nosso maior público, e elas levam suas famílias, seus pais e tios. Foi nesse momento que a gente começou a ser abraçado pela comunidade. Por atender todas as demandas de pautas sociais que muitas pessoas não entendiam, eles começaram a entender em nossos eventos.”
Bruno Fuziwhara, fundador do Coletivo Acuenda e artista drag, morador do Jardim Romano.
Bruno ressalta a importância do Arraiá para a ligação com o seu território: “O arraiá foi um passo muito importante porque foi onde a gente convidou as pessoas para montar as barracas e a partir disso teve uma aproximação maior. Então os vizinhos sempre tão junto com a gente.”
O artista ressalta que todo trabalho desenvolvido no território, junto com os moradores, já é um marco na região e legado futuro. “Eu acho que as pessoas lembram que no bairro delas tiveram um grupo de drags, que faziam festas, que faziam eventos e passarem isso de geração para geração, falando que trouxeram muita diversidade, pluralidade [e] alegria”, finaliza.