Home Blog Page 4

Entre babaçuais e rios amazônicos, quebradeiras propõem agenda climática para territórios

0

As florestas de babaçu formam um corredor ecológico que se estende por cerca de 195 mil km² entre Maranhão, Piauí, Tocantins e Pará. Nessa região, conhecida como Região Ecológica dos Babaçuais, mais de 300 mil mulheres trabalham no extrativismo da palmeira que, além de sustento, organiza modos de vida, circulação de saberes e formas próprias de manejo. O babaçu também integra a Relação Nacional de Plantas Medicinais de Interesse ao SUS (Renisus), o que amplia pesquisas sobre seu uso medicinal.

A presença dessas mulheres na COP30, que aconteceu de 10 a 21 de novembro, em Belém (PA), marca um movimento que nasce dentro dos territórios. O Movimento Interestadual das Quebradeiras de Coco Babaçu (MIQCB) articula trabalhadoras rurais que vivem entre florestas, roças, rios e áreas quilombolas.

Só no Pará, existem quase 200 comunidades quilombolas identificadas, onde vivem cerca de 135 mil pessoas, quarto maior contingente do país. Esses territórios, parte de um conjunto de 496 áreas quilombolas na Amazônia Legal, acumulam um estoque anual estimado de 1 bilhão de toneladas de CO₂, quase metade das emissões lançadas pelo Brasil no mesmo período.

A trajetória das quebradeiras é atravessada pelo acesso ao território, pelas disputas com o agronegócio e pela necessidade de políticas que garantam circulação, trabalho e segurança. Desde os anos 1990, o MIQCB reivindica o Babaçu Livre, conjunto de leis que asseguram a coleta da palmeira mesmo em áreas privadas. A proposta ganhou forma nacional em 2022. Em 2025, chega à COP30 integrada a debates sobre clima, justiça ambiental e reconhecimento de saberes tradicionais.

A presença delas na Cúpula dos Povos está ancorada em um histórico de enfrentamentos cotidianos. Segundo a coordenadora geral do MIQCB, Maria Alaides, participar da COP “nasce do verbo esperançar, de Paulo Freire, lutar, buscar, não se acomodar”. Ela afirma que o objetivo é pressionar pela implementação de políticas reivindicadas há mais de três décadas, entre elas, o direito à saúde, educação, produção, território e fortalecimento institucional. A participação também representa, segundo ela, “fazer parte de uma grande aliança global em defesa da vida, dos territórios e das florestas”.

Maria Alaides durante a Marcha Global pelo Clima em Belém, carregando bandeira do MIQCB. [Foto: Arquivo MIQCB]

No mesmo cenário amazônico, populações ribeirinhas e pescadoras enfrentam pressões que se somam às das quebradeiras. A agente do Conselho Pastoral dos Pescadores (CPP), Sueli Miranda, aponta que a ausência de pescadores na COP30 se deve à falta de recursos e entraves logísticos: “Tem muitos pescadores que gostariam de estar aqui e não puderam estar por falta de recursos financeiros. Os portos estavam ocupados, barcos tinham a possibilidade de trazer pescadores, mas a burocracia emperrou isso”.

Conflitos fundiários ameaçam vidas e territórios

As falas de Sueli e Alaides se cruzam na dimensão do território como espaço de sobrevivência, trabalho e tomada de decisão. Ao mesmo tempo, revelam tensões que atravessam as comunidades diante de grandes empreendimentos, mudanças climáticas e disputas fundiárias.

A atuação das quebradeiras de coco e das comunidades pesqueiras e quilombolas ocorre em áreas pressionadas por projetos de mineração, expansão do agronegócio, queimadas e perfurações para exploração de petróleo. Esses empreendimentos alteram fluxos de rios, derrubam florestas e restringem o acesso a áreas antes usadas coletivamente.

No Pará, Sueli descreve um cenário de preocupação entre as comunidades ribeirinhas. Ela cita o Pedral do Lourenço, projeto de derrocamento no rio Tocantins, como um dos pontos que podem afetar diretamente localidades inteiras. “Desafios nós temos com a mineração, temos com o Pedral do Lourenço, que vai desestabilizar muitas comunidades que estão naquele entorno”, denuncia. 

Entre pescadores e pescadoras, a possível perfuração na Margem Equatorial gera insegurança: “Perfuração na foz do Amazonas, para o povo da região é um terror, e para mulheres do mundo das águas é desafiador, porque nós já vivemos essa experiência com petróleo nas águas do Nordeste, em outras regiões, então a gente já sabe o que é que pode [acontecer] com a gente dessa região”.

A ameaça é compreendida como concreta e próxima. “Dizer isso, cantar isso, de todas as formas gritar de todas as formas, não tem surtido efeito. Mas nós não podemos ficar quietos diante dessa ameaça, de ter os nossos rios infestados de petróleo”, afirma Sueli.

Nas áreas de babaçuais, as mudanças no território também estão marcadas por conflitos fundiários. O avanço do agronegócio, a pulverização aérea de agrotóxicos e episódios de violência estrutural atingem diretamente mulheres que vivem do extrativismo. Para Maria Alaides, ser quebradeira de coco hoje é “viver sob risco constante”. Ela relata casos de ataques às lideranças e pressões sobre famílias que resistem à entrada de fazendeiros ou empresas: “Ainda hoje, quebradeiras são assassinadas por defender seus territórios. Sofremos racismo, racismo ambiental e violências físicas”.

Alaides compara práticas atuais do agronegócio ao período de atuação da União Democrática Ruralista (UDR), criada em 1980 para defender interesses de proprietários rurais contra a reforma agrária que seria proposta pelo então presidente José Sarney e que possui um histórico de violência: “O agronegócio mantém práticas que lembram a UDR dos anos 70 e 80: expulsão, conflitos, violência e pulverização aérea que envenena nossas plantações, destrói nossa produção, compromete a segurança alimentar e adoece nossos corpos”. Por causa desse cenário, as quebradeiras incluíram na carta pré-COP um eixo de proteção física e jurídica das lideranças e das comunidades tradicionais.

As mudanças climáticas também transformaram o cotidiano das quebradeiras. O calor extremo reduziu o tempo de trabalho no mato e na roça; chuvas irregulares diminuíram a produtividade das palmeiras; riachos que costumavam manter água até outubro agora secam em agosto. A ausência de floresta reduz a umidade e intensifica pequenos redemoinhos. Mesmo fenômenos raros, como o tremor registrado entre Caxias e Parnarama (MA), passaram a ser lidos pelas sabedorias locais como sinais de mudança ambiental.

Alaides resume esse processo afirmando que não existe separação entre clima, território e modos de vida nos babaçuais: “A palmeira restaura carbono, produz oxigênio e sustenta ecossistemas inteiros. O babaçu é clima porque é território, história e economia. Ele molda nosso modo de viver: criou nossas mães, que criaram a nós, que criamos nossos filhos a partir dele”.

Agenda própria para garantia de direitos

A agenda que o Movimento Interestadual das Quebradeiras de Coco Babaçu (MIQCB) levou à COP30 reivindicações discutidas ao longo de seis mini-COPs realizadas nos territórios. Esses encontros, segundo Maria Alaides, foram momentos de “escuta real da base”, nos quais quebradeiras, povos tradicionais e polos regionais definiram prioridades. O documento resultante foi entregue antes mesmo do início da conferência, com o tema que guia a atuação do movimento: “Território é vida, é clima e é resistência”.

Apresentação cultural das Encantadas marcou encontro de lideranças e mulheres de comunidades tradicionais durante as articulações da COP30 [Foto: Arquivo MIQCB]

Entre as demandas apresentadas, o MIQCB destaca a implementação de políticas históricas voltadas ao acesso à terra, ao Babaçu Livre, à educação, à produção, à segurança e ao financiamento climático direto. A regularização fundiária é tratada como ponto central. Para o movimento, a titulação de áreas tradicionais é condição para permanência e continuidade das práticas extrativistas que mantêm as florestas em pé.

Nesse contexto, as quebradeiras elaboraram suas próprias Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs), formuladas para integrar o debate climático global e para pressionar por metas específicas para povos tradicionais. Mesmo que não sejam adotadas integralmente pelo governo brasileiro, a meta do movimento é que sejam anexadas formalmente à NDC nacional, garantindo que orientem negociações futuras.

As NDCs das quebradeiras incluem:

  • Reforma agrária popular;
  • Prioridade e titulação de territórios tradicionais;
  • Democratização da estrutura fundiária;
  • Justiça socioambiental;
  • Mitigação das mudanças climáticas;
  • Financiamento mínimo de R$ 225 milhões por ano para regularização fundiária, com meta de atendimento a 75 mil famílias de Povos e Comunidades Tradicionais (PCTs) até 2026;
  • Garantia de 27 milhões de hectares titulados até 2026.

Segundo Alaides, o documento busca suprir um vazio histórico: “É uma proposta pensada por mulheres diversas, quebradeiras, indígenas, quilombolas, para suprir um vazio histórico: não existimos nas regularizações do INCRA, ITERMA ou ICMBio. Queremos que o Estado reconheça nosso direito à terra”.

A proposta das quebradeiras dialoga com debates mais amplos na COP30 sobre justiça climática e reparação racial, discutidos também no documento apresentado pela Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (CONAQ). Os territórios quilombolas, que ocupam áreas distribuídas por toda a Amazônia Legal, têm papel significativo na regulação climática. Estudos apresentados pela coordenação mostram que esses territórios são capazes de reter 1 bilhão de toneladas de CO₂ por ano, valor equivalente a quase metade das emissões totais brasileiras no mesmo período.

Os dados reforçam o argumento de que políticas de proteção territorial são medidas climáticas. No entanto, as lideranças destacam que essas contribuições não são reconhecidas proporcionalmente nos programas nacionais de mitigação e adaptação. Para o MIQCB, incluir as NDCs das quebradeiras é uma forma de incorporar saberes tradicionais, manejo florestal de baixo impacto e práticas de uso comum da terra à política climática do país.

Foto: Arquivo MIQCB

A juventude tem ganhado centralidade nesse processo. Alaides explica que meninas e jovens babaçueiras têm participado de formações políticas, atividades de comunicação e processos internos de decisão. “Precisamos garantir formação política, identidade e pertencimento, como palmeiras jovens que renovam o babaçual”, afirma. A intenção é que o movimento mantenha continuidade e capacidade de incidência para além das lideranças atuais.

As alianças entre povos e comunidades tradicionais reforçam esse percurso. O MIQCB tem atuado junto à Rede de Povos e Comunidades Tradicionais e ampliado diálogos na Cúpula dos Povos. Para Alaides, essa articulação é estratégica: “Essa união é fundamental para fortalecer as lutas por justiça climática, justiça de gênero e direitos territoriais. A equidade que buscamos não é só entre quebradeiras, mas entre todos os povos tradicionais”.

A participação das quebradeiras de coco na COP30 conclui um ciclo de mobilização que parte dos territórios e retorna a eles como compromisso político. Nas falas das lideranças, o eixo que orienta as reivindicações é o reconhecimento do território como fundamento da política climática brasileira. As demandas por regularização fundiária, Babaçu Livre, segurança e financiamento direto têm como objetivo garantir continuidade ao trabalho das mulheres que mantêm os babaçuais produtivos e as florestas em pé.

A defesa por justiça climática inclui mudanças legais, fiscalização e barreiras ao uso de agrotóxicos e à pulverização aérea. Para o movimento, essas medidas precisam ser combinadas a políticas de proteção física e jurídica das comunidades diante do avanço do agronegócio, das queimadas e dos conflitos por terra.

As vozes das quebradeiras, dos pescadores e das comunidades quilombolas convergem para um mesmo ponto: políticas climáticas são ineficazes sem garantia de território. A ausência de reconhecimento formal coloca em risco práticas de manejo que contribuem para a regulação ambiental e para a preservação de áreas que acumulam estoques relevantes de carbono.

No encerramento das entrevistas, Maria Alaides resume a mensagem que levariam diretamente ao governo brasileiro e às delegações internacionais: “É urgente que o Estado assine os decretos e negocie as pautas dos movimentos sociais”. 

A presença das quebradeiras de coco na COP30 não se traduziu apenas em representação simbólica. Mostra um esforço organizado para incluir saberes, práticas e experiências de quem vive da floresta no centro das decisões climáticas. A agenda que carregam é marcada pela defesa de direitos, pela continuidade do trabalho extrativista e pela manutenção das florestas que sustentam pelo menos três gerações de mulheres — e que ainda estruturam os modos de vida de centenas de milhares de famílias na Amazônia e no Cerrado.

Carta aberta aos vestibulandos de 2025

0

No início desta coluna costumava escrever com certa frequência sobre educação, mas nos últimos meses a vida tem me tomado tanto tempo que pouco consigo sentar para realizar uma escrita digna de todos os meus leitores. Nesse tempo em que a vida parece correr, ela também me afirma que não podemos nos deixar levar pelas narrativas e pela dureza do escolher.

Desde muito cedo, jovens de periferia têm suas trajetórias atravessadas por diferentes experiências; uma delas é o trabalho. Na adolescência, o trabalho passa a assumir um papel central para jovens periféricos, não somente para o auxílio da subsistência da família, mas também para o acesso a lazer e independência, por exemplo.

Sendo assim, o estudo se torna uma das únicas formas de um jovem periférico acessar uma realidade diferente, e com isso vem também uma pressão: não ter tempo para esperar e não ter tempo para errar. Ser aprovado em uma universidade, por vezes, é o sonho de ter um trabalho mais digno e, nessa realidade, parece não haver tempo para erros.

Contudo, querido jovem, os vestibulares são feitos para excluir; a verdade é que as universidades não são acessíveis a todos e que o estudo ainda é tratado como privilégio em nosso país. Pesquisando com jovens, sendo jovem, percebi que o tempo tem sido uma disputa e que cada vez mais vivemos em meio a tantas transformações que as adaptações que fazemos para sobreviver acabam sendo uma pedra para alcançar nossos sonhos.

Assim, a saúde mental e física dos estudantes de periferia fica completamente comprometida, não há outra opção senão fazer dar certo, mas e quando já estamos dando certo? Nossa vida não inicia na universidade; até lá já vivenciamos tantas coisas que nosso olhar para o próprio estudo muda. 

Em uma realidade em que o trabalho é central, o estudo secundário e a vida uma urgência, a saúde não entra em nossa conta. Não contamos as horas em que ficamos em pé em um ônibus cheio, dos dias fazendo janta ou do final de semana limpando a casa. Funções reprodutivas e questões de gênero também assumem um lugar importante; desde cedo jovens rapazes assumem um papel ligado ao sustento do lar, já as jovens moças realizam todo o trabalho doméstico e de cuidado. Algo que também ocupa boa parte do tempo e impede os estudos assíduos.

Jovens LGBTQIAPN+ sofrem diversas violências dentro e fora de casa, sem rede de apoio e, por vezes, precisam ocultar quem são de sua própria família. Jovens negros e negras possuem desafios ligados ao racismo estrutural: dificuldade de acesso ao mercado de trabalho, violência policial e hipersexualização.

Nos últimos anos, a juventude periférica também tem sido atravessada pela informalidade no trabalho, acesso a subempregos em que possuem múltiplas funções e sem uma perspectiva esperançosa em relação ao seu futuro. 

A solução seria estudar mais? Se esforçar mais? Perder noites e saúde?

Não. O intuito dessa carta é dizer para vocês que, infelizmente, pela política focada em exclusão, não há universalização do ensino público universitário. E que esse processo é pensado para nos fazer duvidar, mas não podemos, não devemos.

Olhem o vestibular como uma ponte entre vocês e a universidade, utilizem o conhecimento como munição constante para observar a realidade em que vivem e peçam ajuda.

Hoje na periferia temos alguns lugares com uma rede de apoio, lugares de lazer e cultura; não abdiquem da poesia, do funk, do rap, das rodas onde brilham, dos lugares que trazem força. Não se tranquem, estudo se faz com movimento, não se permitam serem saqueados pelo uso de substâncias sem cuidado, não busquem fuga, entendam o caminho.

Ao verem as notas, orgulhem-se. Eu sei que o tempo nos pede urgência, mas precisamos pensar: e tudo o que já fizemos? Um livro em nossa mão já é uma viagem, sem volta. Não desistam, eu tirei 547 como nota final do primeiro ENEM que fiz; no mesmo ano passei nas duas fases da UNESP e hoje sou pesquisadora em nível de mestrado na Universidade Federal de São Carlos, no campus de Sorocaba. 

Aqui a afirmação é: uma prova não define sua inteligência ou até onde pode chegar. Você, assim como eu, pode realizar duas provas ao mesmo tempo e obter resultados diferentes. Justamente porque realizar uma prova dessa magnitude depende de inúmeros fatores. E nós chegarmos lá já é um passo enorme. Acreditar em nós mesmos também! 

Nunca fui uma estudante exímia, mas sei que muitos de vocês são infinitamente mais dedicados do que um dia já fui. Isso tudo para dizer que a saúde de vocês vem antes, que é preciso ter equilíbrio; não é fácil estudar e é por isso que já são vitoriosos!

Parabéns a todos, independentemente dos resultados. 

Este é um conteúdo opinativo. O Desenrola e Não Me Enrola não modifica os conteúdos de seus colaboradores colunistas.


Meninas periféricas denunciam violências de gênero sofridas no futebol

0

Esse texto está preso na minha garganta desde outubro de 2025. Por vezes eu tentei escrevê-lo e as palavras certas não vinham e, sendo sincera, nem sei se essas palavras que escrevo agora, são as melhores para levantar um debate tão delicado. 

Esse é um texto que poderia falar sobre o espetáculo que é ver meninas jogando bola no país do futebol, mas é um texto sobre a violência de gênero e como ela vem sendo naturalizada entre os meninos.

Oyana [nome fictício para proteger a identidade da menor], uma menina de 11 anos, mandou mensagem para sua professora de futebol na noite de domingo do Dia das Crianças, informando que havia sido agredida fisicamente por três meninos com idades de 5, 7 e 11 anos. Relatou que, ao driblar um dos garotos, apanhou, levou chute nas pernas e soco nas costas e agora estava tão triste que tinha vontade de desistir do futebol. A situação ocorreu na rua onde a menina mora.

Na semana seguinte, a menina explicou que não era a primeira vez que apanhava dos meninos, informou que eles sempre a agridem, disse ainda que eles fazem parte de uma escolinha de futebol do bairro e treinam semanalmente.

Essa semana, Oyana informou que estava gostando de um dos meninos que a agrediu, disse que ele a procurou e pediu desculpas e que ele também gostava dela. Oyana disse que decidiu perdoá-lo já que ele prometeu nunca mais fazer isso de novo.

Ontem, Oyana me mandou mensagem, disse que um dos meninos – o mais novo – furou sua bola de futebol… é a segunda vez só este ano.

A violência sofrida por Oyana não é um caso isolado. Todos os dias as meninas periféricas enfrentam desafios para ocupar espaços de lazer, diversão e esporte em seus bairros e escolas. Não são raros os relatos de meninas falando sobre a dificuldade para usar a quadra poliesportiva e jogar futsal na escola, ou denunciando que ao irem para a rua jogar bola, os meninos dizem que o lugar de meninas é lavando louça ou em casa cuidando dos irmãos.

Como psicóloga e educadora, é triste observar que os meninos pequenos já estão aprendendo e incorporando esse comportamento de empurrar as meninas para fora de qualquer espaço de convivência que eles ocupam, reproduzindo uma lógica machista adulta.

Oyana, menina negra de 11 anos de idade, foi agredida fisicamente pelo menino que disse gostar dela, esse mesmo menino pediu desculpas, prometeu nunca mais bater nela. Qualquer semelhança com muitos casos de violência contra a mulher não é mera coincidência.

Nós, meninas e mulheres, aprendemos desde pequenas, que nosso papel é perdoar as agressões vindas de quem diz gostar de nós, aprendemos a suportar a dor e comprar novos objetos porque os nossos foram quebrados num momento em que o outro não suportou nossas habilidades.

Enquanto isso, meninos e homens aprendem, desde pequenos, que agredir é uma forma de lidar com frustrações, que meninas e mulheres não podem ser boas ou melhores que eles em algum campo da vida. Aprendem que a rua é deles e a cozinha é nossa.

E quem ensina tudo isso?

Nós! 

Você, eu, outras mulheres, outros homens…

Enquanto de um lado nós, mulheres periféricas, temos fortalecido o debate sobre respeito e autocuidado junto às meninas, fico me perguntando o que os homens têm feito no diálogo/trabalho com os meninos? Enquanto meninas aprendem sobre a história de luta das atletas do futebol e organização pelo direito de jogar bola, o que os meninos têm aprendido

Enquanto falamos com meninas sobre a existência Fanta, Sissi, Cristiane, Martha e Formiga, para que elas não conheçam apenas jogadores homens, me questiono se os meninos também têm sido incentivados à se inspirarem em jogadoras que lutaram e lutam pelo direito de jogar futebol?

O que se vê hoje, na maioria das vezes nas escolinhas privadas de futebol masculino, nas iniciativas sociais em campos de várzea para meninos, ou no futebol de domingo que o pai leva seu filho para participar é a perpetuação do desejo de formar meninos atletas, mas no que diz respeito à valorização do futebol feminino, ainda se mantém o silêncio dos homens.

Este é um conteúdo opinativo. O Desenrola e Não Me Enrola não modifica os conteúdos de seus colaboradores colunistas.



Ser mulher negra periférica na comunicação de direitos: reflexões a partir da Marcha Nacional das Mulheres Negras

0

Ser uma mulher negra da periferia trabalhando com comunicação de direitos é andar diariamente entre dois mundos: aquele que insiste em nos silenciar e aquele que construímos, com muita luta, para existir com dignidade. Nasci e cresci num território onde informação nunca foi garantia. E talvez por isso eu tenha entendido tão cedo que comunicar é também disputar poder, território e futuro.

Quando escrevo, não falo apenas de um lugar profissional — mas de um lugar de sobrevivência, memória e responsabilidade. Carrego comigo o compromisso de denunciar injustiças, mas também de afirmar a potência que existe na quebrada: nossas lideranças, saberes, coletividades e sonhos.

As estratégias que construímos para democratizar a comunicação

A Marcha Nacional é sempre um ponto de virada para nós, jornalistas e comunicadoras negras. É um espaço onde a luta política encontra a luta simbólica — e onde entendemos, mais uma vez, que não basta estar presente: é preciso registrar, narrar e disputar as formas como o país nos enxerga.

Na Marcha, organizamos estratégias que se fortalecem ano após ano:

  • Jornalismo colaborativo e comunitário — inspirado em práticas como as do Desenrola e Não Me Enrola, que produz comunicação “da quebrada para a quebrada”.
  • Tecnologia a favor da inclusão — formatos acessíveis, ferramentas de baixo consumo de dados e distribuição em múltiplas plataformas para superar desigualdades digitais.
  • Storytelling de resistência — narrativas que fogem dos enquadramentos estereotipados e colocam as mulheres negras no centro das suas próprias histórias.
  • Formação e multiplicação de vozes — oficinas, mentoras e redes que fortalecem a entrada de mais comunicadoras negras no ecossistema da mídia.

E, neste ano, um elemento essencial ganha ainda mais força: o ecossistema de Comunicação da Marcha das Mulheres Negras por Reparação e Bem Viver.

Um espaço estratégico e coletivo que articula diversos grupos, organizações e comunicadoras para garantir que a voz das mulheres negras esteja em todos os lugares — das ruas às redes, das mídias tradicionais às comunitárias. Esse ecossistema amplia nossa capacidade de disputar narrativas, proteger nossa memória e ocupar o debate público com autonomia e legitimidade. Inclusive, se aproximando das plurais mulheridades negras que estiveram na Marcha, perguntamos “o que é Bem Viver para você?”

Bem Viver, reparação histórica e o papel do Desenrola e Não Me Enrola

O Bem Viver, para mim, não é apenas conceito político — é um horizonte de vida possível onde dignidade, afeto e pertencimento são direitos básicos. Quando penso em Bem Viver, penso nas mulheres negras que sustentam suas comunidades, chefiam sozinhas suas famílias, mesmo quando o Estado vira as costas. Penso nas nossas mães, tias, vizinhas, lideranças de bairro e de fé.

É impossível falar de Bem Viver sem falar de reparação histórica, porque nossas ausências, dores e interditos foram construídos ao longo de séculos. Reparar é reconhecer, investir e transformar.

E é exatamente nesse ponto que a missão do Desenrola e Não Me Enrola se conecta: ao narrar a periferia a partir de quem vive nela, rompemos com o ciclo de apagamento. Tornando-se prática cotidiana de reparação simbólica e política, reafirmando que nossos territórios não são carência — são potência.

A Marcha como projeto político de país

Em um contexto de ataques aos direitos das mulheres, especialmente às mulheres negras e periféricas, a Marcha se consolida como um projeto político de país. Um projeto que não depende de governos, mas que dialoga com eles. Que não se limita a reivindicar, mas propõe caminhos concretos. Que não fala apenas de dor, mas de futuro.

A Marcha nos organiza, nos forma e nos projeta para o debate público. Ela reafirma nossa centralidade na luta por democracia, justiça e liberdade. E, com esse ecossistema de comunicação fortalecido, garantimos que nossas pautas não sejam apenas ecoadas — mas compreendidas, respeitadas e transformadoras.

Foto: Ester Cruz

E algo mais que eu preciso dizer…

Quero reforçar que o jornalismo e comunicação das periferias é parte essencial da democracia brasileira. Não é um apêndice, não é um nicho. É um campo estratégico, capaz de alterar políticas públicas, narrativas e imaginários. Enquanto jornalista negra periférica, sigo acreditando que comunicar é construir um  país mais justo para todas. E que, juntas, seguiremos fazendo da comunicação e do jornalismo uma ferramenta de luta, memória e Bem Viver.

Após a COP30, o legado desigual do saneamento na Amazônia urbana permanece 

0

Na aldeia Akamassyron, em São Domingos do Araguaia, onde mora Wira Suruí, de 30 anos, liderança feminina do povo Aikewara Suruí, não têm sistema de esgoto. A água que ela e seus afetos bebem vem de um poço perfurado, sem nenhum tratamento ou filtração. Por isso, com frequência, há surtos de coceiras entre os mais velhos e as crianças sofrem com vômitos e diarréias. Há anos, nada é feito, conta. 

No mês de novembro, há 10 horas de carro da terra de Wira, lideranças de todo o mundo discutiam o futuro do seu corpo e do clima do seu território na COP 30, em Belém. Embora no mesmo estado, o Pará, a falta do básico não permitiu sua ida. 

“Foram algumas pessoas [da aldeia], mas não conseguimos incluir nossas pautas, devido a não terem nos chamado antes para as discussões”, conta Wira.

Enquanto o Brasil sediava a maior conferência climática do mundo, populações inteiras — em especial, indígenas, quilombolas e periféricas — seguiam sem acesso a direitos fundamentais. Especialistas chamam esse abandono de racismo ambiental: a exposição desproporcional de determinados grupos racializados a condições ambientais degradantes, fruto de decisões políticas que escolhem quem vive e quem morre, quem tem dignidade e quem é condenado à precariedade.

“O povo preto sabe que tem algo errado”: pesquisadora explica impacto do racismo ambiental nas periferias

A realidade de Suruí se estende a outras regiões do Pará. Segundo o Ranking do Saneamento 2025, publicado pelo Instituto Trata Brasil em parceria com a GO Associados, o Pará concentra três dos vinte piores municípios do Brasil em saneamento básico — Belém, Santarém e Marabá. A publicação, que avalia os 100 maiores municípios do país, utiliza dados do Sistema Nacional de Informações em Saneamento (SINISA), de 2023, e mostra um cenário alarmante: “44,8% da população brasileira não possui coleta de esgoto e 16,9% ainda vivem sem acesso à água potável”.

Nos municípios com pior desempenho, o investimento médio em saneamento foi de apenas R$ 78,40 por habitante ao ano — um valor cerca de 65% abaixo do patamar considerado necessário para a universalização dos serviços, que é de R$ 223,82 por habitante.

A COP como catalisador desigual

Na Vila da Barca, comunidade histórica de palafitas em Belém, a expectativa de sediar a COP 30 funcionou como um acelerador de obras há décadas adiadas. Gerson Bruno, liderança comunitária, testemunha as transformações recentes.

“Há décadas, as famílias que residem nas palafitas sofriam com o péssimo sistema de abastecimento de água. A tubulação foi instalada no final da década de 70 e início da de 80 e, de lá para cá, infelizmente, por falta de manutenção e pelo aumento no número de moradores, o sofrimento para conseguir água na torneira era diário.”


Gerson Bruno, liderança comunitária na Vila da Barca, comunidade histórica de palafitas em Belém.

Bairro Vila da Barca, em Belém (PA) – Tânia Rêgo/Agência Brasil

Em julho de 2025, após a concessão da Cosanpa para a empresa Águas do Pará, os trabalhos de modernização da rede começaram. “Em agosto, todas as residências das palafitas já tinham água potável e de qualidade na torneira. Havia famílias que, há anos, não conseguiam tomar banho de chuveiro. Quando o sistema foi finalmente normalizado, foi um dia de grande festa na Vila”, diz Gerson.

As obras de implantação da rede de esgoto nas palafitas começaram em outubro — pela primeira vez em mais de 100 anos de história da comunidade. “As obras da Estação Elevatória de Esgoto fazem parte do pacote de intervenções previstas para a COP 30”, reconhece a liderança. “No fim, as problemáticas da comunidade acabaram ganhando visibilidade durante a COP.”

Gerson Siqueira, presidente da Associação de Moradores da Vila da Barca, erguida com construções de palafitas na baía do Rio Guajará – Foto Tânia Rêgo/Agência Brasil

Mas a chegada dessas melhorias expõe também a profunda desigualdade no acesso a direitos básicos. Antes das obras, os moradores faziam longas filas para pegar água em torneiras públicas, carregando o líquido em latas e baldes.

“As tubulações tinham inúmeros furos e boa parte delas ficava em meio à lama. Quando se misturavam com a maré, o mau cheiro era inevitável. A pressão da água era insuficiente para atender todas as famílias; muitas precisavam usar bombas para tentar conseguir água na torneira”, relembra o líder comunitário.

Hoje, segundo ele, toda a comunidade será atendida, que aponta ser um avanço importante, mas que não elimina outras urgências.

“Há duas décadas teve início o projeto habitacional destinado a acabar com as palafitas, mas, devido a atrasos, abandono e redução das metas, ele ainda não foi concluído.”


Gerson Bruno, liderança comunitária na Vila da Barca, comunidade histórica de palafitas em Belém.

Racismo ambiental

O estudo Áreas Protegidas na Amazônia Legal – Um retrato ambiental e estatístico, publicado pelo IBGE em 2025, mostra que as populações negras, indígenas e quilombolas da região amazônica enfrentam desigualdades estruturais severas, sobretudo em relação ao acesso a serviços de saneamento básico. 

Nas Terras Indígenas da Amazônia Legal, mais de 98% dos moradores convivem com alguma forma de precariedade no acesso à água potável, à coleta de esgoto ou ao manejo de resíduos sólidos. Com relação ao saneamento, três em cada quatro pessoas indígenas na região — o equivalente a 75% — vivem sem acesso simultâneo à água encanada, esgotamento sanitário e coleta de lixo.

“Esses índices são superiores até mesmo à média nacional das Terras Indígenas, onde 58,09% dos moradores vivem com precariedade total de saneamento”, aponta o relatório.

A mesma lógica atinge os Territórios Quilombolas, em especial os localizados na Amazônia Legal, que abrigam 41,63% de todos os domicílios quilombolas do país — embora representem apenas 0,09% do total de moradias brasileiras.

Nessa região, 96,9% dos moradores convivem com alguma forma de deficiência no saneamento. E para mais de 33 mil pessoas (36,55%), a precariedade é total, sem nenhum dos três serviços básicos assegurados. A média de moradores por residência nesses territórios (3,53) também é superior à média nacional (3,25).

No município de Barcarena, localizado próximo à foz do rio Tocantins, nordeste do Pará, lideranças vivem sob constante ameaça após denunciarem à Justiça Federal e ao Tribunal de Roterdã, na Holanda, a contaminação e poluição do rio Murucupi, após o transbordamento de rejeitos sólidos das instalações da mineradora Hydro Alunorte. 

Apesar das evidências das ilegalidades praticadas pela empresa, incluindo o despejo de metais pesados em área de preservação ambiental formada por vegetação e nascentes, o caso foi arquivado e não foi reconhecida a responsabilidade das empresas pelos danos ambientais na região. 

A luta dos moradores do Burajuba e outras regiões traz visibilidade às chamadas de Zonas de Sacrifício, áreas geográficas nas quais se instalam empreendimentos de grande impacto e que, em sua maioria, são habitadas por populações tradicionais e/ou de baixa renda, sem aos processos decisórios que favorecem a escolhas de localização pelas empresas para instalações perigosas.

Violências ambientais

São 640 km que separam Vila da Barca da aldeia do povo Suruí. Povo que chegou naquele território após um processo de desterritorialização, em 2017, e se dividiu em 8 aldeias. Na de Wira, moram 11 famílias — cerca de 33 pessoas, entre adultos e crianças. 

“Esse processo de desterritorialização que a gente teve foi porque o nosso território foi demarcado num espaço [e] lugar muito pequeno, sem água. Não passa nenhum rio”, explica. O igarapé mais próximo que ainda não secou fica a 5 km de distância.

A ausência de infraestrutura sanitária se estende a todas as dimensões da vida comunitária: não há sistema de esgoto, por exemplo. A escola, que atende do maternal ao 9º ano, está dividida em dois espaços. 

Escola que atende crianças de diferentes idades na aldeia Akamassyron, em São Domingos do Araguaia. Foto: Wira Suruí.

“Nossas crianças não têm uma infraestrutura, uma escola adequada. Eles merendam no chão, porque a gente não tem nada. Isso é surreal”, desabafa. Quando chove, molha tudo. 

Além da negligência com o saneamento, a comunidade enfrenta múltiplas violências ambientais. “O nosso território é muito impactado pelo agrotóxico, porque a gente é ilhado por fazendeiros”, denúncia Wira. A BR-153, que corta o território, traz ainda mais problemas: caminhões de mineradoras deixam resíduos, lixo hospitalar foi encontrado jogado nas áreas próximas, e a poluição do ar geram doenças respiratórias, conta. 

“A gente sente o impacto das mudanças climáticas muito intensa mesmo no nosso território”, conta Wira. Em 2024, a comunidade não teve safra de castanha, base da economia local, pela falta de chuvas. “A gente teve uma perca enorme. Não choveu no nosso território. Esse ano também não está muito diferente.”

 Wira, integrante do povo Suruí – Foto: Arquivo Pessoal

“O racismo ambiental se revela na ausência das políticas públicas e dos serviços básicos para as populações vulnerabilizadas”, explica Marcella Freitas, Presidente do Instituto A Cidade Precisa de Você, co-fundadora da Rede Brasileira de Urbanismo Colaborativo e pesquisadora das relações entre estrutura urbana e ecologias. “É um reflexo das desigualdades socioambientais históricas do nosso país, que se aprofundam com a ocorrência de extremos climáticos”.

“A vida das mulheres está totalmente diferente, está tendo muito índice de aborto. O território não estando bem, as mulheres não estão bem. Porque a gente sabe que quem leva ancestralidade são as mulheres.” 

Wira Suruí, liderança feminina do povo Aikewara Suruí.

Para Marcella, no caso de Belém é importante reconhecer sobretudo os territórios habitados por comunidades extrativistas, que vivem outra relação com o manejo sustentável. Ela cita o caso da comunidade do Território Quilombola de Menino Jesus, em Bujaru, que enfrenta ameaças socioambientais e fundiárias para a construção de dois aterros sanitários na Região Metropolitana da capital paraense. 

“Casos como esse vem demonstrando a urgência do reconhecimento e da demarcação de territórios populares dos povos  indígenas, quilombolas e periféricos”, complementa.

Em entrevista ao Vozes da Cúpula, a liderança Takwyry Kaiapó, que esteve presente na Cúpula dos Povos, defende a necessidade do governo federal de reconhecer a possibilidade de desenvolvimento pensando nos povos e nas características de cada território. 

“Existem várias formas de desenvolvimento, e um desses modelos é o desenvolvimento que respeita as especificidades socioculturais”, declara, “podemos trabalhar modelos de desenvolvimento reconhecendo o limite, conhecendo a especificidade de cada região e cada território, de cada povo. Eu acho que é isso que o governo federal precisa conhecer”.

O legado desigual da COP 30

Enquanto a Vila da Barca, pressionada pela vitrine internacional da COP 30, recebeu investimentos emergenciais em saneamento após décadas de abandono, a aldeia Akamassyron continua invisível. Ambas fazem parte da mesma região que recebeu líderes mundiais para discutir o futuro do clima. Mas apenas uma teve suas urgências reconhecidas, ainda que tardiamente e de forma incompleta.

Agora que a COP30 terminou, a pergunta incômoda permanece: como foi possível discutir soluções climáticas globais enquanto populações inteiras — especialmente indígenas, quilombolas e periféricas — seguiam sem direitos básicos como água limpa, esgoto tratado e condições dignas de moradia?

Eventos como a COP passam “uma imagem que as comunidades indígenas recebem uma garantia de projeto, né? E isso não está acontecendo com a gente”, finaliza Wira.

Este conteúdo foi produzido no contexto da COP 30, realizada em Belém, durante os dias 10 a 21 de novembro de 2025.

Acessibilidade: moradores de Guaianases relatam problemas na manutenção de ruas e calçadas

Ruas e calçadas com lixo, entulho e esburacadas, degraus altos e quase nenhuma estrutura de acessibilidade. É assim que moradores de Guaianases, na zona leste de São Paulo, descrevem as condições das ruas e calçadas próximas à estação da CPTM.

“Meu irmão não enxerga nada. Acabou caindo dentro do buraco, foi de cara num bueiro aberto” – Vilma Assis, 55 anos, moradora do distrito.

Dona Vilma, 55 anos. Foto: Zaya da Silva

Ela recebeu a equipe de reportagem do Laboratório Você Repórter da Periferia 2.0 (VRDP), do Desenrola e Não me Enrola, em outubro, e contou um pouco sobre o dia a dia do irmão, que tem deficiência visual.

Por perceberem o risco de mais acidentes, ela relata que alguns moradores já pediram a manutenção buraco pelo Portal 156, da Prefeitura, mas que ele continua aberto há anos.

“Os próprios moradores que já conhecem ele colocam um pedaço de pau lá pra ele não cair de novo” – Vilma assis

Morador do distrito há mais de 60 anos, Seu Marivaldo tem deficiência física e se locomove com uma scooter elétrica pelas ruas próximas à estação. 

Quando questionado sobre o que acha da acessibilidade na região, ele é tranquilo em dizer que não vê problemas quanto a isso. Mesmo assim, para transitar, ele ainda precisa se arriscar disputando espaço com carros. “Eu ando de carrinho, então eu não uso calçadas. Vou pela rua mesmo.”

Distância entre o chão e o degrau nas calçadas do território. Foto: Zaya da Siva

Acessibilidade é um assunto de todos

Pode até parecer que apenas quem tem algum tipo de deficiência deve se preocupar com a acessibilidade das ruas e vias, mas, na verdade, esse é um assunto que impacta a vida de todos.

Melhorar a mobilidade e acessibilidade pela cidade pode facilitar a vida de pessoas gestantes, ciclistas, idosos e pessoas com deficiência (PCDs), além de pessoas que têm algum tipo de mobilidade reduzida temporariamente como, por exemplo, de alguém que quebrou a perna e precisa andar de bengala ou muletas.

Na visita da reportagem à região, outra moradora contou sobre as dificuldades de andar no dia a dia. “Difícil, porque eu tenho um problema no joelho, e as calçadas aqui são tudo mais ou menos, sempre tem um degrau muito alto na calçada.” 

Quando perguntada sobre as melhorias que gostaria de ver no bairro, ela lembra de algo importante: o corrimão. Para ela, isso a ajudaria muito a se locomover.

Calçadas em mal estado e sem acessibilidade no bairro são comuns. Foto: Zaya da Silva
Tipo de DenúnciaServiço a Solicitar
Calçada com buracos, desníveis, piso quebrado em frente a imóvel particularSolicitar Fiscalização da Calçada
Obstáculo na calçada (poste caído, lixo, entulho, placa irregular).Solicitar Remoção de Obstáculos ou Fiscalização
Buraco causado por obra de água, luz ou gás (Sabesp, Enel, etc.).Solicitar Tapa-Buraco ou Fiscalização de Concessionária
Problemas em rampas de acesso ou na sinalização tátil.Solicitar Vistoria de Acessibilidade
Esse conteúdo foi produzido por jovens em processo de formação do laboratório de produção de conteúdo Você Repórter da Periferia 2.0 (VCRP 2.0), programa em educação midiática antirracista realizado desde 2013, pelo portal de notícias Desenrola e Não Me Enrola.

Aqui Resiste um Quilombo: projeto na zona sul, atua para manter viva tradição do samba no Jardim Gismar

0

Na zona sul de São Paulo, o projeto Aqui Resiste um Quilombo evidencia o que acontece quando cultura, história e coletividade se encontram, ao transformar uma comunidade inteira através do samba. No antigo bairro Jardim Gismar, a iniciativa busca manter viva e ampliar a tradição do gênero, promovendo rodas de samba na rua, apresentações e oficinas de formação em percussão e canto para jovens, adultos e crianças.

Criada a partir do grupo Amigos do Gismar, iniciativa de samba que atua na região há uma década (desde 2015), o projeto busca aproximar territórios — promovendo a troca cultural entre grupos e coletivos de diferentes bairros da região — com a proposta de preservar a memória do samba na periferia. O projeto nasceu do convívio: amigos que se reuniam para conversar e tocar. Desses encontros, mais tarde, veio a proposta de estruturar ações contínuas.

“A gente se juntava, tomava uma cervejinha, fazia um churrasco, trocava ideia e desse convívio nasceu a ideia de criar um projeto mensal. Eu acreditei, investi e assim tentando fazer acontecer”, conta o sambista Michael Rob, um dos idealizadores e fundadores do Samba Amigos do Gismar.

A partir daí, surgiu a necessidade não só de preservar a memória do antigo Jardim Gismar, mas também conectar comunidades ao entorno que igualmente reafirmam a cultura do samba. Assim tomou forma o Aqui Resiste um Quilombo. 

“O nome do nosso projeto, por si só, já é muito forte e toca diretamente na essência do que representamos: a favela, a união da comunidade, a força e a cor desses territórios. As pessoas sentem essa energia, essa vibração, e lutam, juntas, para mantê-la.” 

Michael Rob, um dos idealizadores e fundadores do Samba Amigos do Gismar.

O coletivo Amigos do Gismar promove rodas de samba na rua, apresentações e oficinas de formação em percussão e canto para jovens, adultos e crianças. As oficinas são conduzidas pelos próprios integrantes do grupo, que atuam como educadores e músicos. A participação é aberta: moradores podem se inscrever previamente, mas também é possível chegar no dia e acompanhar as atividades.

Esforço coletivo para manter a tradição do samba

Para o sambista, consolidar o trabalho como referência cultural exige esforço contínuo. “Nossos equipamentos estavam deteriorando e precisávamos tocar fora, enfrentando aquela rotina pesada de madrugada, chegando em casa às duas da manhã — até aos domingos — mesmo sabendo que no dia seguinte precisaríamos estar nos nossos trabalhos [formais]. Tudo isso para manter o projeto vivo na rua”, relata.

Apesar do trabalho conjunto, manter o projeto financeiramente, segundo ele, sempre foi outro grande desafio. “A gente se vira como pode, mas muitas vezes fechamos no zero a zero e nem conseguimos garantir o próximo evento. A saída é tocar de novo para tentar viabilizar”, afirma.

Para conseguir apoio financeiro, o projeto Aqui Resiste um Quilombo foi inscrito em editais públicos, sendo contemplado pela 2ª edição do edital Fomento às Comunidades de Samba e Fomento ao Samba da Cidade de São Paulo, programas da Secretaria Municipal de Cultura da capital paulista no ano de 2023.

Acolhimento, pertencimento e orgulho

Edmilson da Cuíca, também sambista, fundador do grupo Amigos do Gismar e do projeto Aqui Resiste um Quilombo, reforça a dimensão comunitária. Segundo Edmilson, para quem nasceu e cresceu no território, é especialmente simbólico. “Permanece o sentimento de pertencimento. Crescemos ali, sempre será o Gismar”, recorda.

Ele, que hoje não reside mais na comunidade, mas se desloca semanalmente para participar das atividades do coletivo, relembra os primeiros passos do grupo. “Tudo começou bem simples: uma roda de samba para o aniversário de um amigo, misturada ao Dia das Crianças, que virou festa da quebrada. Deu certo, uniu a comunidade e acabou virando tradição”.

Edmilson também destaca que, com o projeto, o grupo tem conseguido alcançar novos públicos. “A galera mais nova também se conecta com os sambas dos anos 90, músicas que estão voltando com força, tocando nas rádios, nos streams, e isso atrai eles, que chegam curiosos, ficam pelo ambiente e voltam pelo acolhimento”.

“O acolhimento é fundamental, pois nossa missão é mostrar justamente o lado positivo da periferia. Lutamos para mostrar que a quebrada não é só violência, droga e agressividade. A periferia é cultura, abraço, é família, pertencimento e resistência.” 

Edmilson da Cuíca, sambista, um dos fundadores do grupo de samba Amigos do Gismar e do projeto Aqui Resiste um Quilombo. 

Edmilson aponta que no Aqui Resiste um Quilombo a atuação das mulheres é destaque. “Tivemos clareza de que as mulheres precisavam ser homenageadas. Não só num evento, não só numa roda: todos os dias. Elas vêm de muita caminhada, muita luta, muita dor, muita resistência e por muito tempo, muitas delas, foram e ainda são invisibilizadas”.

Homenagem aos legados do território  

Dona Samantha dos Santos, referência da velha guarda do samba paulistano, foi uma das homenageadas pelo projeto, que a cada edição celebra e exalta figuras que sustentam o samba. Exemplo vivo da herança daquelas que vieram antes, a sambista fala que ver reconhecidos os anos que construíram seu trabalho sólido e respeitado, lhe traz profunda gratidão. 

“A primeira vez que tive contato com o projeto, já senti logo de cara o carinho. Me sinto envaidecida em ser homenageada”, compartilha. 

“Ser reconhecida como sambista é especial demais. Fiquei orgulhosa de estar participando de tudo aquilo. E estar no território, no meio dos meus, de outros mestres e mestras, é ainda mais especial,” afirma.

Com mais de 50 anos de estrada, dona Samantha dos Santos é sambista paulistana e referência da cultura de raiz. Sua voz e presença em rodas de samba dentro e fora dos terreiros traz sua força interpretativa e ligação com a ancestralidade. 

“Ver todo mundo cantando junto [também é muito especial]”, diz ao ressaltar a importância de conectar passado, presente e futuro. “Em São Paulo, no que diz respeito a manter o sagrado dentro do samba, eu acredito que fui uma das primeiras a trazer isso”, afirma. 

“O sagrado não era muito bem aceito, e hoje é. Quase todas as rodas cantam. Alguns não sabem o fundamento, mas cantam e isso mostra que o sagrado ganhou seu espaço”, celebra Dona Samantha.

Edmilson da Cuíca ressalta que o projeto resiste mesmo diante de dificuldades financeiras. “O grande desafio é financeiro. É manter o projeto vivo. É fazer cultura na periferia com tão pouco investimento. São 10 anos fazendo tudo por amor, colocando do nosso próprio bolso, ralando para que a comunidade tenha acesso a arte, aprendizado e pertencimento”, conta ao ressaltar que disputar e conquistar um edital público representou uma verdadeira virada de chave.

O sambista reforça a afetividade e o compromisso com o samba enquanto movimento de resistência e memória. “Queremos e lutamos para manter viva a rua onde tudo começou, ali na porta da casa dos meus avós, onde o samba hoje pulsa, respira e transforma a vida de muita gente”, finaliza.

“O samba nos deu dignidade”: Sambistas lutam para manter tradição do gênero nos territórios

0

No início do século XX, o samba surgia no Brasil a partir de homens e mulheres que se reuniam para festejar. Expressão cultural das populações negras e periféricas, o gênero musical nasceu no Recôncavo Baiano e, mais tarde, se espalhou por outras regiões do país, como no Rio de Janeiro. A mistura de batidas, ritmos e histórias é marcada por resistência, especialmente frente à violência e repressão sofridas pelo povo negro. 

A antropóloga Fabiana Marques, nascida no distrito de São Mateus, zona leste de São Paulo, pesquisa sobre cultura afro-brasileira e samba, explica que o gênero musical carrega memória, resistência e pertencimento, sendo considerado também um ato contra-colonial diante das violências sociais. 

Segundo ela, os antigos quintais espalhados pelo Brasil, onde mulheres negras recebiam em suas casas a comunidade para celebrar o samba, especialmente em São Paulo e no Rio de Janeiro, funcionaram, historicamente, como espaços de aprendizagem, socialização e preservação da ancestralidade negra.

Essas manifestações herdaram consigo elementos da capoeira e das religiões afro-brasileiras, como o Candomblé, a Umbanda, Jurema e Kibanda, baseadas nas práticas que vêm dos terreiros e conduzidas por figuras religiosas como babalorixás, pais e mães de santo. 

Apesar do gênero estar historicamente associado às classes econômicas mais pobres, Fabiana destaca que ele transcende fronteiras sociais e raciais. “Não há quem viva no Brasil e não o conheça, seja no batuque, em seus versos ou instrumentos. Até entre os povos indígenas há variações do ritmo”, explica.

“As periferias são pontos de resistência política, pois o samba nasce da cultura periférica, fortalecendo a coletividade, o senso de família e o aquilombamento. O samba é ancestral porque ele cura, é como uma reza, uma bênção.” 

Fabiana Marques é nascida em São Mateus, mestre em Antropologia e pesquisadora do samba e da cultura afro-brasileira.

Desde 1920, o samba faz parte da história do país, marcado pelo cruzamento de vivências e trajetórias de mulheres negras que pavimentaram o caminho do movimento. 

Como economia criativa e espaço de formação, Fabiana ressalta que os quintais de samba, liderados por mulheres, foram fundamentais na consolidação do samba em São Mateus entre as décadas de 1960 e 1970.

“Hoje, alguns deles ainda existem e mantêm vivos os legados de quem veio antes. Mesmo que muitas dessas mulheres não estejam mais entre nós, suas memórias permanecem”, diz.

Num país que se recuperava dos traumas da ditadura militar, estes quintais se tornaram também escolas de vida. Neles, atuavam como verdadeiras educadoras, transmitindo consciência crítica e política aos mais jovens. Em São Mateus, Fabiana conta que grandes nomes se formaram fortalecidos pela luta e pelo apoio dessas figuras femininas até se consolidarem artisticamente.

“O povo negro nunca fez nada sozinho; estamos sempre em comunidade. É no samba que nos fortalecemos. Dele surgiram músicos, intérpretes e compositores que levam na música o que aprenderam com as tias: afeto, crítica, raízes e o valor da coletividade.” 

Fabiana Marques é nascida em São Mateus, mestre em Antropologia e pesquisadora do samba e da cultura afro-brasileira.

Os primeiros sambas registrados na história despontaram nomes como o grupo “Oito Batutas”, conjunto musical brasileiro criado em 1919 no Rio de Janeiro e formado pelos músicos Pixinguinha, Donga e Raul Palmieri, Nelson Alves, China, José Alves e Luis de Oliveira. 

Mulheres que propagaram a cultura do samba nos quintais 

Dentre outras figuras marcantes do movimento samba, está Hilária Batista de Almeida, conhecida como Tia Ciata, uma sambista, mãe de santo e curandeira brasileira, considerada por muitos como uma das figuras mais influentes para o surgimento do samba carioca. No Rio, seu quintal se transformou em um verdadeiro espaço de encontro, símbolo de cultura e força durante o regime militar.

Já em São Mateus, zona leste de São Paulo, um dos primeiros quintais surgiu nos anos 1950, com Dona Ercilia, mãe da Tia Cia dos Terreiros. Sua família foi uma das primeiras a ocupar o local, lutando por moradia e melhorias para o bairro.

Com o avanço da urbanização e a especulação imobiliária no cenário nacional, a população de São Mateus sofreu os reflexos, sendo empurrada do centro para as periferias. A família de Tia Cida passou pela Vila Madalena até se estabelecer em São Mateus, onde nasceram outros quintais importantes: os de Dona Ercília, Dona Carmen, Dona Chica, Tia Filó e tantos mais. 

Cada quintal tinha sua própria identidade: o de Dona Ercília (mãe de Tia Cida) era do Partido Alto; o de Tia Chica, do choro; o de Dona Carmen, do tambor de crioula; o de Tia Severina, ligado ao futebol de campo; e o de Tia Filó reunia influências do partido alto e do pagode 90.

Fabiana avalia que o quintal de Tia Cida, em especial, representa a síntese de todos os outros. “Juntos, criaram uma rede de cultura e pertencimento que mantém vivo o samba como expressão de identidade e resistência […]. Foi lá que as memórias, os ensinamentos e a força da cultura do samba se mantiveram, reunindo e propagando tudo o que essas mulheres construíram”, afirma.

“Parafraseando Tia Cida, e eu também sou cria desta grande mulher, se quiser conhecer a verdadeira história do Brasil, ouça um samba-enredo. É ali que tudo está escrito. [Quando o carnaval chega], o povo toma as ruas para celebrar sua cultura e sua política, transformando a arte em reflexão sobre quem somos e de onde viemos.”

Fabiana Marques é nascida em São Mateus, mestre em Antropologia e pesquisadora do samba e da cultura afro-brasileira.

A tradição do samba que resiste em São Mateus

Assim como o samba nasceu a partir de muitas mãos, essa força coletiva se reflete até hoje em São Mateus. Lá, acontecem diversos movimentos tradicionais, incluindo as rodas de samba do grupo Berço do Samba de São Mateus, uma das iniciativas que luta para manter a continuidade deste legado, através das ações promovidas pelo Instituto Cultural de Tradição e Memória do Samba de São Mateus.

O bairro também concentra a Orquestra de Samba e Choro, blocos carnavalescos e as escolas de samba: Amizade Zona Leste e Aroeira, além das comunidades de samba: Maria Cursi, Jd. Vera Cruz, Toca da Onça e Quilombo Vila Flavia, que movimentam o território e fazem de São Mateus um reduto do samba paulistano.

O braço social do grupo atende a comunidade local, especialmente crianças e jovens interessados em aprender a tocar, compor e compreender a história do samba, além das recorrentes rodas realizadas no histórico Bar do TiMaia e outras iniciativas culturais comunitárias.

Segundo o sambista Gerson Martins, um dos fundadores do Berço do Samba de São Mateus, não há documentos históricos que indiquem o exato momento em que o gênero surgiu na região, mas a própria memória coletiva evidencia a presença do samba na comunidade. 

Ele avalia que o samba se tornou um gênero muito presente em São Mateus e gerações foram conectadas através de artistas como Dixon, Evo, Subito, Miguelito, Canota, Tocão e Gilvan, músicos que fundaram o grupo Berço do Samba.

Gerson lembra que ele e outros músicos percorriam o bairro se apresentando e reencontrando as pessoas. Nesses encontros, reuniam aqueles que tinham mais aptidão para tocar instrumentos, outras que ajudavam a ditar o clima da plateia, além dos que cozinhavam para alimentar o público.

Samba como posicionamento social

O tempo difícil também impôs outras formas de silenciamento. “Houve um tempo que a discriminação [era pesada], no final da década de 70, se os caras pegassem a gente na rua à noite, eram truculentos mesmo. A polícia vinha junto, batia na cara, dava soco, quebrava os instrumentos, os caras chutavam com aquela bota de bico de ferro na nossa canela. Humilhavam mesmo”, lembra ele, que também relata a resistência dos sambistas diante da violência policial. 

“O samba não é só um gênero musical, é um posicionamento social. A gente se reconhece no samba. O samba nos deu dignidade. A gente respeita o samba muito mais que um gênero musical.” 

Gerson é sambista e um dos fundadores do grupo Berço do Samba, em São Mateus, Zona Leste de São Paulo.

Nos bastidores e nos palcos desta luta, também está Yvison Pessoa, conhecido como Casca, que é um dos principais articuladores do grupo e quem costuma orientar os encontros, as rodas de samba e as demais ações do Berço do Samba no território. Ao se referir à perseguição sofrida por sambistas, ele lembra que a Lei da Vadiagem, prevista nos Códigos Penais de 1890, que permitia prender pessoas sem documentos ou sem comprovação de vínculos empregatícios, ampliando a perseguição à população negra no pós-abolição, foi uma consequência direta da escravização. 

Os sambistas de São Mateus fazem questão de reforçar que na zona leste o samba se construiu como forma de coletividade e como resposta a um cotidiano de precariedade e silenciamento. Nesse sentido, os quintais foram espaços de criação e acolhimento, onde se aprendia a tocar, cantar, conviver e resistir diante deste cenário. 

Apesar de celebrar os quintais, Casca pontua que a repressão policial na região de São Mateus continua, sobretudo, contra o funk:  “É o mesmo processo que o próprio samba sofreu durante décadas. Agora a gente tá vendo outro gênero sendo perseguido igualmente, violentamente, o funk. Gênero esse que é [herança] da comunidade periférica”, comenta.

A resistência dos quintais

Casca relembra como eram realizados os sambas nos quintais, sob a proteção de mulheres: “O samba em São Mateus passou a ser feito nos fundos das casas porque era perigoso. O quintal da Tia Cida foi essencial. Ela era [e ainda é] uma ativista aqui no bairro e dizia: ‘Não quero ver meus filhos e minha comunidade sendo repreendidos pela polícia’”. 

Ele conta que foi dessa realidade que surgiu o verso da obra Elemento Suspeito do grupo Quinteto em Preto e Branco“O quintal da Tia Piló, tia do Gerson, já falecida, também foi um dos nossos focos de resistência”, conta.

Além da presença, ele ressalta que essas mulheres desempenhavam papéis cruciais na organização das rodas. “A Tia Cida fazia, a muito custo, uma comidinha para todo mundo. Lá, a gente sabia que estávamos fora de perigo e bem acolhidos. E temos um samba falando exatamente sobre isto: o racismo [que vê] o negro como elemento suspeito”, relembra. 

Dos quintais para as escolas de samba

A luta das mulheres negras migrantes da Bahia, também teve papel central na formação das escolas de samba que conhecemos hoje. “As Baianas” ou “tias baianas”, representavam a força espiritual e a tradição afro-brasileira, sendo vistas como guardiãs da ancestralidade e da memória. 

Com a migração ao sudeste, muitas delas se tornaram, na região, quituteiras e mães de santo. Elas ainda acolhiam os sambistas em suas casas, onde aconteciam as primeiras rodas de samba, em um contexto de marginalização e perseguição. 

“Mão pra cabeça

Se correr leva no peito

Um negro na favela

Essa tal atitude suspeita

É um preconceito velado

Aplicada pra cima do negro

E do pobre marginalizado

É nazismo declarado

Fruto da discriminação

Pra quem mora na periferia

E vive num campo de concentração. Mão pra cabeça”.

[Trecho da música Elemento Suspeito do grupo Quinteto em Preto e Branco] 

Fabiana Pedroso, conhecida como Fabis, faz parte da nova geração do movimento do samba. Mulher negra, ritmista, mestre de bateria da Elas Que Tocam e diretora da bateria Só Quem É da Escola Imperador do Ipiranga, fundada em 1968, em Vila Carioca, no Bairro do Ipiranga, ligada às comunidades da Vila Carioca e Heliópolis, em São Paulo, lembra como se deu seu encontro com o samba.

“O samba e o Carnaval é algo que sempre esteve presente na minha vida. Faço aniversário em janeiro, então, os meus presentes de aniversário sempre foram algo relacionado ao carnaval, um vinil do carnaval, que depois passou para CD. Meu pai sempre me dava, eu ficava vendo, sempre querendo fazer parte disso”, relembra. 

Ela fala do samba como lugar de acolhimento, mas também de luta, principalmente para as pessoas periféricas. “Tenho me envolvido com outros projetos também. Há três bandeiras que levanto: a de ser mulher, negra e LGBT+”, ressalta.

Fabiana ainda reitera que o samba é memória e pertencimento, elementos constantemente ameaçados. “Tenho conversado com amigos que percebem o samba ficando cada vez mais branco, com pessoas ocupando nossos espaços, até em escolinhas de bateria. Isso gera a discussão de que precisamos agir para proteger nosso lugar, porque o samba é muito mais que folia: é ancestral e cultural”.

Entre esse nascimento coletivo e territorial do samba e o cenário atual, para Fabis, existe um percurso marcado por disputas de espaço, permanência e reconhecimento. Segundo ela, se antes os quintais, terreiros e ruas eram lugares de construção comunitária, onde o samba se fortalecia a partir da vivência, hoje esses mesmos territórios simbólicos enfrentam processos de esvaziamento, apropriação e apagamento.

“É difícil manter o carnaval, especialmente por questões financeiras, já que as escolas com mais recursos geralmente são administradas por pessoas brancas, que historicamente têm mais acesso ao dinheiro”, coloca.

Fabis acredita que a história do Carnaval, o significado das tradições, como o papel das baianas, do mestre-sala e da velha-guarda, ainda não são amplamente conhecidos. “O samba e o Carnaval são para todos, pois é uma celebração coletiva, porém é fundamental que a comunidade negra permaneça [no centro] da história”, diz.

A sambista finaliza dizendo que manter o samba vivo é essencial para garantir a continuidade daquilo que resiste e não se rende em meio ao apagamento e à constante apropriação cultural sofrida pelo povo negro.

O corre do fim de ano

0

Quem é que não quer chegar nas festas de fim de ano com aquele dinheirinho sobrando, não é mesmo?! A correria na quebrada nunca para, e, pra tirar aquele lazer merecedor, a galera sempre se reinventa para conseguir aquele a mais e garantir um conforto maior nas festas de fim de ano. Em cada esquina, uma banca nova, um carrinho de lanches ou de churrasco, um cooler com água gelada e refrigerante.

A galera trabalha dobrado, cada um tenta conquistar o cliente na simpatia. É a economia viva da periferia pulsando, longe dos shoppings e dos grandes comércios. A economia periférica é feita de laços e trocas que não aparecem nas estatísticas oficiais. 

O pagamento pode ser em dinheiro ou na confiança. O marketing é boca a boca, e o capital é o tempo de quem se dedica. Essa lógica, muitas vezes invisível, mostra outro modelo de economia: mais humana, mais direta e mais solidária. É o oposto do consumo desenfreado e distante das relações que marcam o fim de ano nas zonas centrais.

O fim de ano, para a comunidade, é também tempo de celebrar pequenas vitórias, fechar as contas, garantir o presente das crianças, preparar a ceia com fartura. Porque, quando a quebrada se movimenta, cada um encontra um jeito de transformar o tempo e talento em renda extra. 

Mas o corre não é só sobre dinheiro. É sobre dignidade. É sobre o orgulho de fazer parte de uma engrenagem que funciona à sua maneira, longe das normas e das vitrines. É sobre a força que o povo carrega, mesmo quando o sistema não reconhece. O corre é também um gesto político: afirmar que o trabalho da periferia tem valor. Fazer esse extra e poder partilhar para que mais famílias tenham também um fim de ano com tranquilidade e comida na mesa. O corre de fim de ano é coletivo.

Enquanto muitos celebram o consumo, nas periferias o verdadeiro espírito é o da luta coletiva, porque a ideia é uma só, a esperança de recomeçar o ano que está por vir com o pé firme no chão, contas em dia e comida na geladeira. 

Mais do que números ou vendas, o verdadeiro resultado do corre de fim de ano está na força que ele desperta de acreditar na própria capacidade, de apoiar o vizinho e de transformar pequenos recursos em grandes conquistas. É esse aprendizado coletivo que se perpetua, ano após ano, fortalecendo os laços da comunidade, mostrando que a quebrada é muito mais do que um espaço geográfico: é um espaço de resistência, crescimento e esperança contínua.

Este é um conteúdo opinativo. O Desenrola e Não Me Enrola não modifica os conteúdos de seus colaboradores colunistas.

“Fundamental discutir cotas de gênero”, diz economista Gabriela Chaves sobre Fundo de Reparação Econômica para população negra

0

Três meses após sua aprovação pela Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania da Câmara dos Deputados (CCJ), em Brasília, por 41 votos favoráveis e 15 contrários, a admissibilidade da PEC 27/2024, que cria o Fundo Nacional de Reparação Econômica e de Promoção da Igualdade Racial (FNREPIR) e inclui na Constituição Federal o capítulo “Da Promoção da Igualdade Racial”, segue com discussão e tramitação em andamento. 

Com o objetivo de corrigir desigualdades históricas contra a população preta e parda no país, a iniciativa busca ampliar a inclusão social e econômica da população negra, que corresponde a 56,7% da população brasileira.

Dados de 2024 da PNAD Contínua, mostram que dos brasileiros que se autodeclaram pretos ou pardos, 45,3% são pardos e 10,2% pretos. Nesse panorama, as mulheres negras representam cerca de 28,5% da população, ultrapassando 60 milhões de pessoas, e aparecem tanto como maioria nos lares brasileiros quanto como parte fundamental da força de trabalho do país.

O objetivo do FNREPIR é ser um fundo para financiamento de políticas públicas e projetos voltadas para a população negra, como ações de educação, geração de renda, fomento a iniciativas culturais e comunitárias, entre outras demandas com foco na promoção de oportunidades de desenvolvimento social, econômico e educacional.

Gabriela Chaves, economista e idealizadora da iniciativa NoFront, explica que o debate sobre a construção de um fundo de reparações econômicas para a população negra no Brasil é antigo e configura uma demanda histórica do Movimento Negro. Nesse sentido, o avanço da discussão é bem recebido pela sociedade civil, porém os valores que estão sendo discutidos em torno do fundo são preocupantes. 

“Hoje a discussão posta é de 20 bilhões de reais a serem distribuídos ao longo de 20 anos. Esse valor é praticamente irrisório diante dos danos que temos, do tamanho da população negra e da necessidade que se tem de investimento relevante”, alerta.

Ainda existem diversas etapas burocráticas e legislativas dentro do Congresso Nacional para que o projeto avance. A admissibilidade da PEC foi aprovada na CCJ, e essa é a porta de entrada. A partir disso, o texto passa por outras fases, como comissões, discussão em plenário, votação em dois turnos, até eventualmente avançar no Senado Federal.

A economista ressalta que esse trâmite é complexo e exige conhecimento jurídico e político, o que nem sempre está ao alcance de quem atua diretamente nos movimentos sociais, que atuam para garantir propostas alinhadas ao contexto da população. Como os movimentos sociais não têm poder formal para decidir os rumos de uma PEC, sua atuação ocorre pela capacidade de influenciar o processo legislativo. 

Nesse sentido, para que o Fundo de Reparação Econômica avance conforme a realidade da população negra, esses grupos precisam acompanhar de perto cada etapa da tramitação, participando das discussões e pressionando as negociações em curso. Gabriela pontua, porém, que a complexidade técnica do processo acaba limitando essa participação de forma mais qualificada.

“Há a necessidade de construir um debate sobre que recursos são esses e como se dará a distribuição desses recursos para garantir uma equidade de gênero nessa questão”, coloca ao abordar sobre a origem dos recursos e como serão distribuídos, ao frisar que mulheres negras são, historicamente, as mais afetadas pela balança tributária desigual.

Segundo ela, um bilhão de reais por ano é um valor irrisório. “A minha expectativa era que esse fundo fosse pelo menos cinco vezes maior, e nesse caso estaríamos falando de pelo menos 100 bilhões de reais.”

Um país de mulheres negras

Nesse horizonte, a população de mulheres negras é a mais impactada pelas desigualdades socioeconômicas, como explica Gabriela, que também é Diretora de Economia e Incidência da Marcha Nacional das Mulheres Negras.

Mulheres negras contam o que mudou desde a última edição da Marcha em Brasília

Levantamento do Instituto de Pesquisa DataSenado revelou as principais desigualdades sociais, econômicas e educacionais que a população de mulheres negras enfrenta no país. No Brasil, majoritariamente jovens e adultas, 18% têm entre 16 e 24 anos e 12% têm 60 anos ou mais, elas se concentram, sobretudo, em São Paulo (18%), Bahia (10%) e Minas Gerais (10%).

Em termos proporcionais, a Bahia lidera com 80% das mulheres do estado se declarando pretas ou pardas, seguida por Pará e Maranhão, ambos com 79%.

Com relação à escolaridade, 2,8 milhões são analfabetas e 11,4 milhões não concluíram o Ensino Fundamental, somando 31% do total. A maioria conclui o Ensino Médio (34%), mas apenas 14% chega ao Ensino Superior.

Isso se reflete na renda: 66% vivem com até dois salários mínimos e só um terço considera ter renda suficiente; 32% não têm renda e 34% afirmam que ela não cobre suas necessidades. Entre as que trabalham, 40% atuam em instituições públicas ou privadas, 25% para pessoas físicas e 34% por conta própria.

Nos lares, 45% vivem em casas com quatro ou mais moradores; 78% tem 78% têm filhos e 58% criam ao menos um menor de 18 anos. A maior parte reside em áreas urbanas (87%) e se declara católica (45%) ou evangélica (36%).

O levantamento revela ainda que a violência doméstica contra mulheres negras é atravessada simultaneamente por aspectos de raça, gênero e classe.

Direito à terra e acesso a financiamento

Mercado de trabalho, acesso à terra, que envolve a titulação de terras quilombolas e de territórios tradicionais, além de um programa nacional de reforma agrária, são demandas que a economista destaca como prioritárias, sendo as mulheres negras as mais afetadas por essas políticas.

“Vivemos desafios profundos, tanto no contexto urbano quanto rural, que são resultado direto de um país que criou e manteve mecanismos para impedir que a população negra tivesse acesso à terra. Isso se reflete na presença majoritária da população negra nas favelas, periferias e nos territórios de maior risco ambiental.” 

Gabriela Chaves, economista, coordenadora do NoFront e Diretora de Economia e Incidência da Marcha das Mulheres Negras.

A economista aponta ainda que o sistema financeiro brasileiro exige garantias que muitas mulheres negras não possuem, dificultando o acesso a crédito e atrasando conquistas como a casa própria. Ela defende a criação de mecanismos como microcrédito, juros reduzidos e garantias públicas, permitindo que essas mulheres obtenham financiamento ou desenvolvam seus negócios com apoio de bancos públicos e do BNDES.

“É possível pensar também em como o Estado pode se tornar esse garantidor de crédito no caso da população de mulheres negras, que têm menos garantias para dar em empréstimos e, nesse sentido, acabam pagando taxas de juros mais altas. Por isso, é possível sim, estabelecermos um fundo garantidor”, exemplifica.

O avanço da reparação econômica passa também pela inclusão da ‘economia do cuidado’, que abrange trabalhadoras domésticas e de cuidado informal, sem proteção trabalhista. Por isso, defende que o Fundo Nacional de Reparação precisa contemplar esse grupo, garantindo que as políticas alcancem também as trabalhadoras que sustentam, de maneira invisível, a dinâmica econômica do país.

“As regras de funcionamento desse fundo ainda não foram definidas, e esse é um campo em disputa. Para que haja recursos destinados à reparação do cuidado, é fundamental discutir cotas de gênero”, salienta.

Ela aponta que uma das demandas mais fortes que identificam é o endividamento, que bateu recorde em 2024 e segue em alta. “Propomos, no âmbito da Marcha das Mulheres Negras, a criação de um Programa Nacional de Alívio de Dívidas, capaz de desonerar as famílias e garantir melhor qualidade de vida. Essa pauta será encaminhada ao Ministério da Fazenda e é central em nosso manifesto”, ressalta. 

Dados da Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), divulgada pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) em 2025, mostra que mulheres são as mais endividadas, somando 78,1%. 

“O desafio orçamentário existe porque o Brasil enfrenta limitações fiscais desde o teto de gastos e o novo arcabouço fiscal. Criar esse fundo exigirá encontrar recursos, seja taxando super-ricos, seja revisando subsídios, diante das desigualdades na distribuição de benefícios econômicos, como os concedidos ao agronegócio.”

Gabriela Chaves, economista, coordenadora do NoFront e Diretora de Economia e Incidência da Marcha das Mulheres Negras.

Justiça tributária: Entenda por que o pobre cada vez fica mais pobre #36

Outro desafio, segundo Gabriela, está relacionado ao reconhecimento político da desigualdade racial no país, que historicamente se vendeu como uma democracia racial. Ela destaca que estabelecer um fundo nacional para a população negra não é apenas uma questão financeira, mas sim um paradigma de responsabilização do Estado brasileiro. 

“A reparação precisa vir acompanhada de reconhecimento das instituições envolvidas na escravização e nos processos discriminatórios pós-escravidão que moldam a vida da população negra hoje. Os principais entraves são econômicos, pelo arcabouço fiscal, e políticos, pela resistência de grupos que historicamente negaram a necessidade de reparação.” 

Gabriela Chaves, economista, coordenadora do NoFront e Diretora de Economia e Incidência da Marcha das Mulheres Negras.

A economista menciona que é essencial considerar aspectos de prevenção a novas injustiças socioeconômicas. “É igualmente essencial refletir sobre como esse recurso será investido na sociedade, considerando que nosso modelo de reparação é coletivo e não individual. Além disso, é fundamental garantir a implementação de mecanismos efetivos de não repetição”, diz.

Casos de trabalho análogo à escravidão, especialmente no trabalho doméstico, também são pontos de atenção ao resultar em indenizações baixas. “Pessoas que passaram a vida inteira nessa condição recebem valores insignificantes diante das violências sofridas. Precisamos repensar o cálculo, considerando o tempo de vida perdido e o real benefício econômico gerado.”

“Acredito que, a partir da mobilização da sociedade civil, podemos ampliar o valor [do Fundo de Reparação], mas estamos em um campo da disputa política, onde existem muitos fatores envolvidos”, reforça.