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Linha do tempo

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Quem já gravou um depoimento qualquer entrevistando pessoas periféricas talvez consiga reparar alguns dados dessa livre reflexão que vou propor aqui.

Há muito tempo que venho pensando sobre algumas características específicas do pensamento e do discurso periférico e da forma como em diferentes obras audiovisuais a montagem marca a construção discursiva do filme.

Para começar, talvez seja necessário fazer um preâmbulo acerca de uma intuição importante que penso ser central na forma de pensar dos sujeitos das quebradas. A não linearidade das reflexões, a descontinuidade das elaborações, que nos exigem, por vezes, uma rearticulação da fala para que faça sentido ao espectador no tempo do filme.

Depois de anos editando documentários e dando forma a diferentes diálogos com periféricos famosos e anônimos, percebo algumas questões do ponto de vista da descrição de situações, à questões do universo da ética e da própria expressão das pessoas que culturalmente vivem e/ou viveram a condição marcada pela precariedade e a potência das favelas e outras formas de fruição social. Fatores que marcam, a meu ver, a forma de construção narrativa de qualquer elaboração dos oriundos dessa realidade.

João Moreira Salles, Cristina Amaral, Eduardo Coutinho, Eduardo Escorel, entre outros grandes nomes do cinema nacional mainstream, já pontuaram algumas premissas gerais sobre a montagem de um filme documental, coisas como ‘a não neutralidade do montador’, ‘o reencontro do diretor com o processo do set na ilha’, ‘o diálogo e a reavaliação do que foi filmado’, entre outros, a nível internacional não podemos esquecer da grande contribuição para o que hoje chamamos de montagem dada pelo grande cineasta russo, Andrei Tarkóvski que, entre outras coisas, produziu o clássico “Esculpir o tempo”, onde o mesmo se debruça na maneira como sensações e a inflexão do diretor perante à realidade, exigem meditação e profundidade no ato de dar ritmo às imagens e sons. 

Este escreveu:

“O tempo é um estado: a chama na qual vive a salamandra da alma humana” e “O artista existe porque o mundo não é perfeito… a arte nasce de um mundo mal projetado”. 

O editor nesse sentido quase sempre é visto, no âmbito do cinema, como este que conserta o mundo mal projetado. Realidade que com a maturidade na profissão vamos percebendo que não é verdade.


Aproveito para deixar aqui, pra trazer algo que me impactou no set de gravação do doc ‘Videolência’, numa entrevista com Anderson Montanha do extinto “Filmagens Periféricas” o mesmo disse: “Vamos contar a história com as câmeras canetas, a nossa história”.

Talvez more nas entrelinhas destas duas reflexões, uma teoria de montagem do cinema periférico, principalmente do cinema documental periférico, uma forma de conceber o tratamento de discursos e narrativas que é ao mesmo tempo universal e por outro lado completamente particular.

Universal porque busca, quase sempre, o resultado do escultor descrito por Tarkóvski, extraindo do material bruto a forma desejada, a forma que fará sentido para o realizador e seu público. Particular porque não obedece, necessariamente, grandes acordos e normas pré concebidas de como fazer, ou dinamizar a linguagem de um filme. Vejo no método de montagem dos realizadores periféricos uma liberdade e uma capacidade de invenção muito particular. 

Algo vivo que extrapola as formas tradicionais. 

Acredito que isso acontece porque assim como em qualquer outro âmbito da vida de uma pessoa da periferia os meios ideais para se fazer a produção concreta da vida, nem sempre estão disponíveis, e isso passa desde uma gambiarra pra consertar o chuveiro, à aquisição de um computador ou câmera no âmbito audiovisual.

Mas isso já está saturadamente descrito, refletido e pensado, da cosmética da fome a diferentes teses, textos e artigos sobre o quanto nossa arte se adapta a precariedade, é importante pontuar aqui, porque de fato essas condições muitas vezes determinam processos que posteriormente são ressignificados como linguagem, por causa das inúmeras fraturas, cicatrizes e dificuldades orçamentárias que impactam o resultado final das gravações, quase que inevitavelmente. 

Mas quero dar mais ênfase aqui ao tratamento do material bruto na montagem, começando pelo computador, a Ilha de edição.

Nenhum ser humano é uma ilha

Admiro alguns editores do cenário periférico pelosinsights criativos, pelo estudo de linguagem e pela dinâmica de produção, mas admito que uma das maiores problemáticas de montagem é imaginar que a edição só começa na ilha, quando o tratamento principal da montagem é dado ainda na roteirização e na gravação, quando imaginamos a partir dos discursos os tipos de imagens de cobertura e as formas com as quais os depoimentos podem ter ligação em blocos temáticos ou não. Ou seja, o ser humano prescinde à máquina, a tal da ilha de edição. 

Talvez você, leitor, que não é da área do cinema, esteja se perguntando que raios é uma ilha de edição. Explico, é um termo comumente convencionado pelo setor por conta da natureza do trabalho de montagem, muito minucioso e exigente quanto ao isolamento e atenção no computador. 

Dizem que pode ter origem no trecho do poema de Waly Salomão “A memória é uma ilha de edição”, trecho que amplia ainda mais o propósito da tarefa e traz a questão da memória pro centro da ação, pois toda vez que você vai de encontro com o material gravado, ou material bruto, como se costuma dizer, estamos automaticamente lidando com o passado, mesmo com as apresentações ao vivo e a edição nas mesas de corte em tempo real, é o passado que se mobiliza ali, a imagem que chega pelos cabos está sempre alguns segundos atrasada na ilha de edição, no estúdio ou no palco onde a transmissão ocorre, o que chega no YouTube ou outra plataforma para o público pode atrasar ainda mais, o famoso delay.

O mais comum é o trabalho com que foi gravado anteriormente, sejam dias, semanas ou anos.  Tudo é questão de passado, de lidar com a energia de um set que já não existe mais, e que é rememorado na montagem. E a depender do quão distante é esse passado, tudo pode se recriar e se reinventar na lembrança. Daí a genialidade da frase de Waly.

Muitas vezes a dificuldade em se desprender de algum depoimento, por mais repetitivo ou mal elaborado, pode vir de uma memória, de acontecimentos fora do set com aquela pessoa entrevistada, com a recepção da pessoa, o acolhimento à equipe, sua forma de lidar com as circunstâncias da vida. Depois fica quase que como dívida, garantir a presença da pessoa no filme, mesmo que às vezes a fala não esteja ‘casando’ com a edição. 

Dilemas da precariedade, dilemas da afetividade.

Nesse tipo de set tudo corre no entorno do relógio. Economizar tempo e maximizar resultados traz como consequência as tais marcas, cicatrizes já ditas que podem resultar num registro menos cuidadoso quanto à qualidade do áudio ou fotografia que se pretendia alcançar. Coisas que podem por vezes determinar ou não a presença de trechos ou de depoimentos inteiros no final, ou seja, dependendo de qual o estado do material captado, a direção e a edição (que por vezes é a mesma pessoa), tem apenas 3 opções: 

1) usar as ferramentas de edição e finalização disponíveis para tratar os erros de captação e deixá-lo da forma mais viável dentro de uma linguagem padrão; 2) Avaliar o quão drástico é o problema do material bruto e decidir por eliminar por toda a parte que não corresponde minimamente aos requisitos básicos de leitura e audição do conteúdo; 3) Ajustar ou não o conteúdo e assumir suas marcas, as mantendo como são ou justificando como linguagem a forma daquele trecho ou dos trechos ao longo da narrativa. 

Desta forma o montador vira também um recriador do material, redefinindo a utilidade ou a significação de sua visualidade, encontrando assim saídas novas e criativas para problemas estruturais, exercendo quase que involuntariamente uma metáfora de como lidamos com a estrutura capitalista, racista e patriarcal, gingando entre as marcas que a vida nos impõe. 

Montando a vida na contramão 

Editar, no contexto da produção periférica, é buscar novas referências de linguagem e narrativa contra-colonial, pontos de fuga à narrativa clássica eurocêntrica e anglo-saxão, do velho começo, meio e fim, propondo outras costuras menos lineares, porque não? Talvez um começo-meio-começo, como já dizia o mestre Nego Bispo. Ou uma narrativa espiral como o mito da cobra grande que atravessa mundos em diferentes momentos históricos, defendida pelos Guaranis. Ou ainda as narrativas orientais, migrantes e contrahegemonicas de modo geral. Em suma, experiências de vidas que compartilham histórias de opressão e comungam resistência artística como forma de expressão de outras possibilidades de existência. Forma essa que por vezes é repelida pela indústria audiovisual e por outras é aplaudida e fetichizada nos festivais mundo afora. 

Entre a pura representação da precariedade e a genialidade de lidar com pouca estrutura e compensar a falta de recursos materiais com a superexploração de recursos filosóficos e linguísticos, é que vivem os montadores de imagens quebradas, costuradores de retalhos como foram suas avós. 

E tem muito mais. 

Por exemplo, como lidar com a franqueza de quem despe a alma em frente às câmeras e não faz a mínima ideia do impacto que a fala pode ter em sua própria vida? Qual o senso ético quando o instinto de denúncia casa com a proposta artística e o desejo de influir na realidade retratada? 

Belchior pode nos ajudar a responder essa questão quando aponta em Como nossos pais que “qualquer canto é menor que a vida de qualquer pessoa”. Ou seja, o artista não tem o direito de sobrepor sua arte à vida das pessoas que busca retratar. 

Logo, quando estamos montando um documentário periférico, muitas vezes temos que proteger nossos interlocutores deles mesmos, pois se foi a confiança e a conexão entre pares que colocou a pessoa vulnerável com seu discurso em frente nossas câmeras, deve ser nossa responsabilidade e traquejo social o condutor igualmente confiável de uma narrativa que, para além do filme, não coloque em risco a depoente, pois diferente da maioria dos editores dos filmes feitos pelos playboys que se aventuram em produzir documentários na periferia, nós vamos encontrar novamente as pessoas entrevistadas e os possíveis problemas que uma fala ou uma imagem mal colocada na narrativa podem acarretar para o cotidiano dela. Pois para alguns, a paisagem retratada é cenário, para outros é a própria vida.

É claro que esse senso moral, também não pode ser um escudo para deixar de debater temas sensíveis e processos complexos vividos por pessoas periféricas. Mas sim ser uma bússola que guia nossas histórias para o enfrentamento das opressões, sem repetir as opressões já vividas.

Enfim parece simples, mas não é, porém tudo que se faz realmente no coletivo, onde cada etapa é pactuada com quem participa do processo, tudo fica mais fácil, senão pelo menos mais real, mais funcional. A nossa linha do tempo é curta, raras são as longas estradas sem metragens, por isso não podemos perder tempo montando armadilhas contra nós mesmos, em tempos de edição rápida no celular, dip fake, AI, etc. Temos a difícil tarefa de usar tudo que estiver disponível para afirmar nosso ponto de vista, de classe, de raça e gênero. Se nada faz sentido, há muito o que fazer!

Este é um conteúdo opinativo. O Desenrola e Não Me Enrola não modifica os conteúdos de seus colaboradores colunistas.

Natal e suas decorações: Quanto vale montar a árvore na periferia

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Dezembro chegou e é só andar pela Quebrada que já vemos as luzes enfeitando casas, os famosos pisca-pisca iluminando a rua quando a noite chega. Dentro de cada casa sempre rola aquela dúvida, montar ou não montar a árvore de Natal este ano?

Para quem vê as fachadas dos shoppings piscando e os comerciais de TV cheios de pinheiros enormes com muitos enfeites pode até parecer uma tradição simples. Mas na realidade das periferias, montar uma árvore, mesmo que pequena, já pesa no bolso. 

A maioria dos moradores gostaria de colocar a casa toda em clima natalino, fazer decorações mais completas, mas nem sempre o dinheiro acompanha esse desejo.  Preços altos no mercado, no aluguel, no transporte, nos gastos de fim de ano, faz muitos se questionarem se vale a pena investir na decoração. 

Uma árvore pequena de Natal custa em média de R$40 a R$80 nas lojas populares e se a pessoa quiser uma árvore maior e mais cheia, esse valor sobe. As árvores maiores custam a partir de R$150. 

E isso é só a árvore. Têm os piscas-piscas, as bolinhas enfeitadas, os laços, os papai noel, os gorros. No fim das contas uma decoração simples pode facilmente ultrapassar duzentos reais, para muitas famílias isso já é o preço de um botijão de gás, uma conta de água, comida.

Mesmo com as dificuldades, a galera sempre arruma uma forma de poder manter a tradição, muitas pessoas optam por ir até a 25 de março, rua de comércio popular em São Paulo, para achar preços mais em conta, e assim deixar seus lares também enfeitados. 

Mesmo com as mudanças nos hábitos de consumo e no ritmo da cidade, as tradições seguem firmes nas periferias e as famílias vão se preparando para as celebrações. 

No final, calcular quanto custa montar uma árvore não se resume ao preço do enfeite ou do pisca-pisca. O verdadeiro valor está no impacto que essa tradição tem na comunidade. Reforça laços, fortalece histórias compartilhadas e mantém vivas práticas que definem a identidade do bairro. Na periferia, montar a árvore é investir em memória, união e pertencimento.

Este é um conteúdo opinativo. O Desenrola e Não Me Enrola não modifica os conteúdos de seus colaboradores colunistas.

Transporte noturno de SP: o que saber para voltar pra casa na cidade que nunca dorme

Se durante o dia os paulistanos já enfrentam diversos perrengues no transporte, para quem precisa transitar pela cidade de madrugada, seja trabalhando ou se divertindo, a coisa pode complicar. 

Depois de um certo horário, a principal pergunta feita é: será que consigo voltar para casa? Para muitos, mesmo vivendo na cidade conhecida por ser “a que nunca dorme”, a resposta é não.

Ainda que a capital forneça uma modalidade de transporte noturno há cerca de dez anos, que funciona de 0h às 04h com 150 linhas, não faltam relatos de pessoas que passam por perrengues ou precisam esperar até o amanhecer para conseguir voltar ao lar.

Os motivos são diversos. Um deles é a falta de informação. Tem gente que não sabe da existência da rede noturna, onde pode encontrar informações ou até onde ela funciona ou não na cidade.

Pensando nisso, o Desenrola selecionou alguns pontos importantes para quem precisa ou quer saber mais sobre essa modalidade de transporte na cidade.

Ponto final de ônibus à noite, no Jardim Riviera, Zona Sul de SP. Foto: Gabriel Zahid.

O que é e como funciona?

A linha noturna é a rede de ônibus da madrugada, que funciona das 0h às 04h. Ao todo são 150 linhas. Horários e trajetos podem ser achados no site da SPTrans, na busca pela Rede de Ônibus da Madrugada. Acesse o link aqui. Informes em tempo real também podem ser vistos no Google Maps e outros aplicativos de GPS.

A modalidade foi criada em 2015, sob a então gestão de Fernando Haddad, por intermédio da Secretaria Municipal de Transportes. A pesquisa de seu projeto piloto mostrou que 78% dos passageiros nos seus seis primeiros meses o usaram para ir ao trabalho.

A cobertura da malha viária comparada ao tamanho da cidade, que tem cerca de 12 milhões de habitantes, é uma questão levantada por especialistas.

Embora o alcance do transporte noturno tenha crescido a passos tímidos nos últimos dez anos, apenas 65,8% da cidade é atendida por linhas de ônibus noturnos, segundo o Relatório Integrado da Administração da SpTrans de 2024. 

As maiores regiões de atendimento são Centro e Norte 1 (76,3% e 75,3% respectivamente), seguidas pelas regiões Leste 1 (69,7%), Leste 2 (68,5%), Oeste (68,1%), Norte 2 (63,1%).

A Zona Sul apresenta a menor cobertura da rede noturna: a região Sul 1 tem 60,1% da sua área atendida e a Sul 2 tem menos de 50%, por ter o distrito de Marsilac, sendo o único da capital sem linhas noturnas – além de ter números baixos nas linhas diurnas.

Como o transporte noturno impacta na vida do paulistano?

De acordo com Ricardo Barbosa da Silva, coordenador do grupo Rede Mobilidade Periferias e professor de geografia no Instituto das Cidades, no Campus Zona Leste da Unifesp, a ausência do serviço de transporte público noturno dificulta, ou mesmo inviabiliza, o acesso a oportunidades de trabalho e estudo. 

Para ele, a população mais impactada é negra e periférica, que dependem majoritariamente do transporte coletivo. “Isso aprofunda desigualdades e reforça uma das dimensões da chamada segregação espaço-temporal”, diz.

“O transporte é constitucionalmente um direito social. E um serviço de qualidade no período noturno é essencial para que todos possam voltar para casa com dignidade, sejam periféricos ou não. No entanto, as pessoas das periferias dependem mais desse serviço e, por isso, vivenciam uma cidadania incompleta. Alguns têm mais direito de se conectar pela cidade do que outros. Isso precisa mudar com urgência.” – Ricardo Barbosa da Silva, coordenador do grupo Rede Mobilidade Periferias

Moradores esperando o ponto de ônibus à noite, perto de uma adega na Avenida Guarapiranga, ZS. Foto: Gabriel Zahid.

E a segurança para chegar em casa?

Ao longo da última década também houve uma diminuição de passageiros no transporte noturno. Em 2019, a modalidade tinha uma média de 900 mil usuários mensais. Ano passado, a média mensal foi de 450 mil, de acordo com a SPTrans.

Questionado se uma das motivações para essa queda é a segurança dos passageiros, Ricardo aponta que a desconfiança está enraizada no cidadão paulistano, mas que acredita que esse cenário pode ter mudanças, se houver investimento. 

“Para muitos, o transporte noturno causa, à primeira vista, uma sensação de insegurança e o temor de violência e assédio. No entanto, a ampliação de seu uso, acompanhada de fiscalização e políticas de educação, pode reverter esse cenário, sem prejuízo a um serviço que é essencial”, diz.

Para garantir a segurança de parte dos passageiros, a lei 16.490, desde 2016, assegura que, a partir das 22h às 5h, mulheres, idosos e pessoas com deficiências podem pedir ao motorista descer fora do ponto de ônibus em um local seguro de sua escolha dentro da rota da linha.

Poste de ponto de ônibus à noite, no Jardim Riviera. Foto: Gabriel Zahid.

Para proteção nos pontos noturnos há também o projeto Abrigo Amigo, que existe desde 2023. O projeto traz alguns pontos inteligentes conectados à internet que contam com câmeras de alta resolução, microfones, alto-falantes e atendimento remoto por chamada de vídeo entre 20h e 5h, assegurando a proteção de quem está esperando, sendo possível até mesmo ligar para o SAMU (Serviço de Atendimento Móvel de Urgência), a Guarda Civil Metropolitana ou a Polícia Militar.

Esse conteúdo foi produzido por jovens em processo de formação do laboratório de produção de conteúdo Você Repórter da Periferia 2.0 (VCRP 2.0), programa de educação midiática antirracista realizado desde 2013, pelo portal de notícias Desenrola e Não Me Enrola.

Nas bordas do mapa: lançamento celebra escritas de estudantes-autores periféricos dos CIEJAs

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O lançamento do livro de minicontos “NAS BORDAS: histórias de vida no mapa da escrita”, realizado em 28 de novembro de 2025, reuniu no auditório da Reitoria da Unifesp estudantes-autores dos CIEJAs Ermelino Matarazzo, Lélia Gonzalez de Parelheiros e Perus. Eles dividiram o espaço com docentes, coordenadores, convidados e integrantes do projeto da Unifesp Zona Leste, construindo um ambiente de celebração.

A obra nasceu do projeto “Cartovivências nas Periferias da Cidade”, que articulou cartografia social e escrevivência para entrelaçar o mapa e a palavra, o território e a memória. Fruto de oficinas realizadas em abril de 2025, a proposta buscou valorizar histórias muitas vezes invisibilizadas, reafirmando a literatura como direito e a escrita como caminho para a cidadania.

Mais que o resultado de um esforço coletivo entre universidade e escola pública, o livro representa a conquista dos estudantes-autores. Não apenas pela singularidade do processo formativo, mas pela generosidade de compartilharem interpretações profundas sobre a cidade, o país e o mundo em que vivemos.

Capa do livro de minicontos “NAS BORDAS: histórias de vida no mapa da escrita”, lançado no dia 28 de novembro

O projeto envolveu cerca de 80 estudantes, culminando em 61 mini contos reunidos nesta publicação autônoma, auto editada pelo selo Perrengue, do grupo de pesquisa Rede Mobilidade Periferias. Durante o processo houve escuta atenta, aprendizagens, desabafos, alegrias e, sobretudo, celebração pelas histórias que agora ganham corpo nas páginas do livro.

A cerimônia foi conduzida por Luana Damasceno Amancio, estudante de Geografia da Unifesp. Após sua fala de abertura, fui convidado, enquanto professor da Unifesp Zona Leste e coordenador do projeto, para falar sobre o percurso da iniciativa, além de destacar os estudantes-autores como protagonistas da noite.

Em seguida, as coordenadoras dos CIEJAs, Daylse Gaspar, Sheila Coelho e Bismaria Galan, relembraram o caminho trilhado e a importância do vínculo respeitoso construído entre escola pública e universidade.

Docentes falando sobre o projeto “Cartovivências nas Periferias da Cidade” – Foto: Divulhação

Os docentes Maurício da Cunha, Amanda Moraes e Cristiane Fialho compartilharam relatos sobre o projeto e sobre os aprendizados mútuos vividos com a equipe e com os estudantes. Logo depois, as professoras Letícia Farnetani, Cristiane Fialho e Maurício da Cunha, realizaram a leitura de alguns minicontos, emocionando os presentes.

A noite finalizou com os estudantes-autores recebendo os livros. Um a um, receberam nas mãos a obra que agora carrega suas narrativas. O brilho dos olhos de estudantes, professores, familiares e convidados, reafirmava a importância daquele momento.

Ao final, ficou a sensação de que o lançamento não encerrava um ciclo, mas, quem sabe, inaugurava outros. Pois, as histórias reunidas em NAS BORDAS parecem destinadas a inspirar novas leituras, novas cartografias e novas escritas.

*Geógrafo e Professor da Unifesp Campus Zona Leste e coordenador do projeto

**Estudante de Geografia da Unifesp Campus Zona Leste e bolsista de extensão do projeto

Mulheres negras contam como o legado das mais velhas pavimentou a luta pelo bem-viver

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O que muda quando uma mulher negra se movimenta e pode existir sem pedir licença? A luta das mulheres negras pelo bem-viver perpassa territórios, corpos, e vivências. A oralidade e memórias também possibilitam outras formas de existir no mundo. É o que relatam três mulheres que contam como as lutas de ontem influenciaram novas construções hoje e projetam caminhos para o amanhã. 

Mulheres negras contam o que mudou desde a última edição da Marcha em Brasília

Elas estiveram presentes na Marcha das Mulheres Negras, que após 10 anos, reocupou Brasília, no dia 25 de novembro, levando às ruas mais de 300 mil vozes para denunciar o racismo, a misoginia e reivindicar garantias de direitos historicamente negados à população de mulheres pretas e pardas no Brasil.

A enfermeira e ativista Ana Carolina de Souza, 26, moradora do bairro Jardim Liberdade, em Goiânia (GO), cresceu na região Noroeste do Brasil, e entende que ser mulher negra, desde cedo, atravessou sua experiência de vida, seja pelas sequelas do racismo, pelos afetos, referências ou pelas lutas herdadas. 

“Cresci sendo moldada a ser forte e a lutar pelas minhas origens, pelo meu cabelo, pelos meus estudos e direitos. Isto vem de berço, por conta das mulheres da minha família e de algumas já [organizadas no] movimento [social]”, compartilha ao contar sobre as mulheres que abriram espaço para que pudesse viver, sonhar e se expressar com liberdade.

Sobrinha de uma das fundadoras do primeiro grupo de mulheres negras feministas de Goiânia (a ativista Geralda Pereira) — o coletivo Mulheres Negras Malunga — Ana cresceu perto de uma organização que há décadas defende os direitos e a saúde integral da população negra. 

Foi entre as brincadeiras no quintal da sede, rodas de conversa, encontros e caminhadas que começou a formar seu repertório. Ali, ela encontrou mulheres que partilhavam de demandas em comum. “Foi muito lindo perceber que, no futuro, eu estaria lutando pelas que vieram antes de mim e pelas que ainda viriam depois de mim”, diz.

“Gostaria que todas as meninas tivessem a oportunidade que eu tive: referências de grandes mulheres negras que conquistaram espaços que muitas de nós nem imaginávamos. Que tivessem letramento racial desde cedo e, assim, possam viver seus sonhos como mulheres empoderadas e independentes neste país.”

Ana Carolina de Souza, 26, enfermeira, moradora de Jardim Liberdade, em Goiânia (GO) e integrante do coletivo Mulheres Negras Malunga.

Neste contexto, a goiana celebra o fato de já ter experimentado a possibilidade de ingressar na universidade e se ver representada, além de ocupar sua profissão usufruindo de um salário digno. O mesmo ela deseja para mais mulheres. Entretanto, de modo geral, aponta que conquistar acesso à saúde de qualidade, livre dos efeitos do racismo institucional, se apresenta como um dos desafios mais urgentes.

“O maior ensinamento que uma mais velha me transmitiu é que não importa onde e quando eu estiver, eu uma mulher negra periférica, tenho o direito ao estudo, e ele é quem vai me levar a lugares inimagináveis, mas que temos direito”, afirma.

Cerca de 1.180 quilômetros separam geograficamente Ana Carolina e Fabiana Carmo, 48, que vivem no Médio Paraíba, na região de Pinheiral, Rio de Janeiro. Assistente social, agente educacional comunitária e militante do movimento negro, Fabiana tem sua trajetória marcada na política institucional e comunitária em uma agenda de defesa do bem-viver. 

“Carrego em meu corpo e memória as marcas de um país que ainda insiste em negar humanidade à população negra, mas também carrego a força de quem aprendeu cedo a transformar dor em movimento e resistência em horizonte”, afirma ao contar que ser mulher negra moldou cada passo da sua caminhada.

“A minha experiência não é separada da história: ela é costurada pelas mãos de minhas ancestrais, por todas as mulheres negras que vieram antes de mim e que deixaram caminhos abertos para que eu pudesse estar aqui, caminhando com a cabeça erguida.”

Fabiana Carmo, 48, assistente social, agente educacional comunitária e moradora de Médio Paraíba, na região de Pinheiral do Rio de Janeiro (RJ).

Outros aspectos, segundo ela, também constroem este caminho. “A luta das mulheres negras da minha geração e das anteriores foi o que me permitiu viver, sonhar e me expressar com mais liberdade. Elas enfrentaram o silêncio imposto, romperam barreiras na política, na educação, nos espaços de cuidado, na arte, na religião de matriz africana, e na luta diária dentro das favelas e periferias”, fala.

“Foram elas que disseram que nossas vidas importam, que nossos corpos não são descartáveis, que nossa voz tem potência e que o bem viver também é direito nosso. Eu só caminho porque elas marcharam. Eu só falo porque elas gritaram. Eu só sonho porque elas ousaram sonhar antes de mim”, acrescenta.

Fabiana também fala da necessidade do racismo ser desmontado e que as novas gerações vivam a plenitude de ser mulher negra, com dignidade e perspectivas de bem viver.

“Que [meninas negras] cresçam sabendo que são amadas, legítimas e dignas de ocupar qualquer espaço. Que possam viver com liberdade, estudar, criar, envelhecer, maternar ou não, sem ter que negociar sua humanidade.” 

Fabiana Carmo, 48, ativista, assistente social, agente educacional comunitária e moradora de Médio Paraíba, na região de Pinheiral do Rio de Janeiro (RJ).

Mulheres negras têm conquistado visibilidade, denunciando o racismo, exigindo políticas públicas e afirmando sua potência. Ainda assim, a assistente social diz que direitos básicos, como viver com dignidade, segurança e igualdade de oportunidades, sem ver suas famílias ameaçadas pela violência do Estado ou empurradas para os piores indicadores sociais, permanecem distantes.

Ela ainda destaca a importância da luta coletiva liderada por mulheres negras na nossa sociedade: “Mulher negra aprende cedo que sozinha até vai, mas juntas nós mudamos mundos”, coloca.

“Ainda não construímos nossa plena humanidade como mulheres”, afirma antropóloga

Aos 47 anos, Rosilene Pimentel Gomes, moradora da zona sul de São Paulo (SP), também traz a maturidade de quase três décadas de atuação no movimento de mulheres negras ao refletir sobre o que a mantém no enfrentamento das desigualdades estruturais. 

Assistente social, mestre em políticas públicas, escritora e pesquisadora do Núcleo de Estudos e Pesquisas em Psicologia Social e Violência (NuBalaio), Rosilene destaca que a luta por direitos exige presença contínua e insistência. Para ela, se a sociedade civil diminui a pressão, a estrutura social empurra novamente mulheres negras para a condição de invisibilidade. 

Questionada sobre o que atravessa a vivência de mulheres negras, Rosilene lembra de ensinamentos de intelectuais como a psicanalista Neusa Santos, autora do livro ‘Tornar-se Negro’, e de Lélia Gonzalez, que falam sobre como experências em comum são vivenciadas por pessoas negras na nossa sociedade. 

“Vamos reconhecendo, diante de um racismo estrutural, que não há nada de errado com o nosso cabelo nem com nossa beleza. O que está errado é esta estrutura [social] discriminatória que usa padrões eurocêntricos [como referência] e nos coloca num lugar de menosprezo, de inferioridade, sem valor, do feio, do negativo”, afirma.

Ao traçar a história do Brasil, a pesquisadora compreende o peso do legado escravocrata como um sistema que submeteu a população negra e transformou mulheres negras em alvos de exploração, objetificação e violência, revelando a dimensão estrutural da desigualdade que atravessa gerações. 

“Por isso, reconhecer essa história e que o problema não somos nós, mas sim esse sistema racista, patriarcal, capitalista, colonial, nos molda enquanto mulheres que têm o direito de viver a sua liberdade”, diz.

‘‘Nossa principal reivindicação ainda é o fim da morte de nossos filhos’’: mulheres negras marcham por reparação e bem viver 

Rosilene faz parte de uma geração que ainda sonha em testemunhar o fim do genocídio e da violência de gênero. “Que mulheres negras consigam sair na rua e não serem violentadas. Eu quero que as mulheres negras saiam dos índices de estudo como os principais alvos de violência doméstica, violência de gênero, feminicídio”, ressalta ao contar que espera para a próxima geração de mulheres negras uma sociedade segura e com oportunidades.

“Se hoje conseguimos denunciar o racismo, ter legislações que garantam cotas, que garantam espaços para nós, é porque muitas mulheres lutaram para que hoje consigamos ter acesso a muitas outras coisas que minha mãe, por exemplo, não teve.”

Rosilene Pimentel Gomes, 47, assistente social, mestre em políticas públicas, escritora e pesquisadora do Núcleo de Estudos e Pesquisas em Psicologia Social e Violência (NuBalaio), moradora da zona sul de São Paulo.

A pesquisadora avalia que a força da militância e da intelectualidade do feminismo negro, ao longo de décadas, trouxe outra dimensão subjetiva de ser mulher preta e agora pauta o país do futuro. 

“A nossa luta nos trouxe poder de fala, de expressão, de contraponto, de reconhecer o nosso saber, a nossa capacidade, a nossa diversidade”. 

Rosilene destaca que aprendeu com a mãe — que não teve acesso à educação formal, mas sempre carregou a sabedoria adquirida no território — lições que guiam seu olhar, especialmente para mães solo e para mulheres frequentemente criminalizadas pela ausência do Estado. 

“Eu saúdo todas as mais velhas, pois o que elas nos trazem é fundamental”, reforça e finaliza: “Que a próxima geração de mulheres negras siga com a nossa bandeira de luta ancestral. Que não a deixe parada”.

O parque, o mirante e uma interrogação: pode o monumento natural do Morro do Cruzeiro existir ao lado do lixo?

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O ano é 2019. Junto com as parceiras e parceiros do CPDOC Guaianás (coletivo de patrimônio e memória das periferias que orgulhosamente integro desde 2018) e guiados pelo militante trotskista, morador e educador ambiental (agora também historiador e professor de história) Pedro Caranicolov,  subimos o Morro do Cruzeiro ouvindo suas memórias sobre a formação do loteamento que deu origem aos bairros do Jardim Santo André e do Jardim São Francisco na década de 1970 e de como o riacho Caaguaçu (o maior de São Mateus, hoje quase totalmente retificado e poluído) era utilizado, próximo à sua nascente, na base do morro, para o lazer dos moradores em um ambiente onde o rural e o urbano se confundiam.  

Subimos a Rua Hum do Cruzeiro e no topo do também chamado Pico do Votussununga (do tupi-guarani, “morro onde o vento assopra”) nos deparamos com a cidade que se abria ao nosso olhar. Mirante poderoso, terceiro ponto mais alto da cidade, atrás apenas de dois picos no Parque do Jaraguá. Lugar de uso religioso, por cristãos e povos de terreiro, de lazer dos residentes no bairro, com moradores criadores de caprinos, bovinos e equinos. 

Pico das torres, onde se perfilam antenas de operadoras de celulares, cujos carros são presença frequente em nossa rota. Espaço onde podemos avistar a urbanização acelerada de São Mateus e das cidades de Santo André e Mauá, os prédios que se aninham próximos ao monotrilho (Linha 15-Prata do Metrô), o Polo Petroquímico Mauá-Capuava e, ao fundo, a Mata da Área de Preservação Ambiental do Parque do Carmo, irmã Atlântica dos arredores do Morro do Cruzeiro. 

Olhando para o outro lado, percebemos a Serra do Mar abrindo seus caminhos mas, ao mesmo tempo, enxergamos degraus secos, patamares de um solo sem árvores e com uma grande contradição que sentimos nesse lugar raro na cidade: o mau cheiro. 

Estamos diante da Central de Tratamento de Resíduos Leste (CTL), há pouco mais de 1km do espaço em que estamos, que foi decretado como Parque Municipal em 2011 (Decreto Municipal nº 52.102/11), Patrimônio Natural da Cidade pelo Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade de São Paulo – CONPRESP em 2018 e Monumento Natural da Cidade (MONA) em 2025.  

Detalhe da Plataforma Geosampa indicando a proximidade dos Aterros Sanitários (em verde contornado e preenchido) com as áreas do Morro do Cruzeiro e de sua área tombada (em cinza e lilás). https://geosampa.prefeitura.sp.gov.br/PaginasPublicas/_SBC.aspx 

Desde então, temos a convivência entre realidades e projetos distintos. Entre uma cidade de pesadelos, e uma cidade sonhada e projetada a partir de demandas de movimentos sociais. De um lado o Aterro Sanitário real, existente ali desde 1992 e que passou por três ampliações – o Aterro São João, que se torna Central de Tratamento de Resíduos Leste (CTL) em 2010, sob gestão da Ecourbis, empresa contratada pela prefeitura para gerir suas atividades. 

De outro lado, um parque abstrato e até hoje sem infraestrutura adequada, projetado para preservar uma natureza real, historicamente construída e vivida, monumental para seus moradores e para quem mais for visitá-la. 

Mobilização coletiva para preservar o território

Mas o que é feito, então, para chamar atenção sobre essa reserva de natureza, refúgio ambiental na zona leste, e para a proteção de sua biodiversidade, nascentes da bacia hidrográfica – conjunto de riachos – do Rio Aricanduva, paisagens e modos de viver de sua população? 

Os roteiros e subidas guiadas ao Morro, como as realizadas pela liderança local Fátima Magalhães, moradora do território desde os anos de 1970 e articuladora do grupo S.O.S. Morro do Cruzeiro, são parte dessa luta. 

As atividades reúnem escolas públicas e particulares do território, equipamentos de socioeducação como os Centro de Convivência de Adolescentes (CCAs), universidades como Instituto das Cidades da UNIFESP – Zona Leste e a Faculdade de Arquitetura da USP. A falta de infraestrutura do Parque e a presença do Aterro Sanitário nas proximidades, que ameaça a preservação ambiental pretendida pelo espaço, bem como uma série de promessas de compensação ambiental não realizadas, que vêm desde os anos de 1990, são assuntos recorrentes nesses roteiros. 

São presentes, neles, também, a luta das moradoras e moradores contra aterros que foram instalados e desativados – graças a essas pressões – em São Mateus nos anos de 1980 (Aterro São Mateus em área vizinha ao Parque do Carmo) e Aterro Sapopemba, também próximo ao Morro do Cruzeiro e que se torna o “Parque Aterro” Sapopemba em 2013.

O roteiro Subindo o Morro do Cruzeiro: Um Outro Olhar de São Mateus, organizado pelo CPDOC Guaianás em 2019, foi uma dessas ações, com a presença de Fátima, Pedro, gente de outros cantos da cidade e do bairro. Além dessas iniciativas, o tema vem sendo abordado em aulas das universidades públicas parceiras e hoje circula na exposição Nebulosas da Cidade, contando com imagens históricas da coleção de Fátima Magalhães, compondo um painel de diferentes disputas urbanas, ambientais e de memória em diferentes metrópoles brasileiras. Atualmente na Universidade Federal da Bahia – UFBA, teve temporada no Centro MariAntonia da USP em 2024.  

Abandono e deterioração

A oposição entre o parque sonhado e o aterro real fica nítida nas condições em que estão as Placas Interpretativas da Geodiversidade instaladas pela prefeitura da cidade em 2022 para demarcar a presença do parque no local e auxiliar no entendimento da diversidade de solos, rochas, vegetações e hidrografia presentes ali. 

‘Imagem Adriano Sousa, 2025. Subida ao Morro do Cruziero com S.O.S Morro do Cruzeiro e escolas do Distrito do São Rafael

Danificadas, em sua maioria, são o símbolo da não prioridade da gestão pública em promover espaços públicos verdes e saudáveis para a população das periferias da cidade, predominantemente negra. Essa operação real do racismo ambiental na organização do município ganhou contornos dramáticos com a Lei 18.209/2024,  aprovada de forma atropelada no final do ano passado, sem ouvir qualificadamente os movimentos sociais do bairro e da cidade que apontaram nela o relaxamento da preservação ambiental no entorno do Parque, visando a ampliação do Aterro Sanitário com a derrubada de 10 mil árvores (número absurdamente atualizado neste semestre para 63 mil árvores)

Além disso, à ideia da devastação e ampliação do aterro somou-se a instalação de um incinerador, fato denunciado pela Frente Contra o Aterro e o Incinerador em São Mateus, hoje também atuante em Perus, área que sofre desde os anos de 1990 com o problema dos aterros e proposta de novo incinerador este ano

Hoje congelado por conta da mobilização dos movimentos que judicializou a questão, esse planejamento urbano que para nós é desorganização, reedita a ideia de São Mateus como depósito de lixo da cidade, sem horizonte de amanhã quanto a reuso, reciclagem e outras políticas para resíduos sólidos. 

Mais do que isso, nos faz rememorar a luta ambiental de São Mateus, encampada por mulheres dos movimentos de saúde, que brigavam por postos de saúde e hospitais no território, conseguindo garantir a Área de Preservação do Carmo, o Parque Sapopemba – nas áreas dos antigos aterros dos anos de 1980 – e reverberando na possibilidade do Parque do Morro do Cruzeiro. 

Porém, a única derrota desse movimento, o Aterro São João-CTL, nos ronda tal qual um fantasma que, ao persistir a vontade do poder público municipal em nos soterrar no lixo, pode fazer com que a visão de nosso mirante, patrimônio ambiental e de vida rural e lazer se torne miragem em um futuro não muito longínquo.

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Privatização agrava problemas com saneamento básico e deixa famílias sem acesso seguro à água

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Cortes inesperados e falhas no abastecimento d’água têm afetado a rotina de moradores da Grande São Paulo. “No mês passado, pelo menos duas vezes percebi que a água foi cortada antes do horário programado”, relata o mecânico Denis Lourençoni Ribeiro, de 33 anos, morador do bairro Casa Grande, no município de Diadema (SP), ao destacar que, apesar de o racionamento não afetar constantemente sua rotina, cortes inesperados de água têm ocorrido com certa frequência.

Desde 2013, a Sabesp reduz a pressão da rede de água durante a noite em São Paulo para evitar desperdício de água tratada. Mas famílias que vivem nos perímetros da cidade ou em áreas mais altas sofrem com interrupções no abastecimento. São moradores que muitas vezes enfrentam uma rotina intensa de trabalho e dependem da água chegando diretamente na torneira. 

O mecânico, que mora com mais três pessoas, classifica a qualidade da água que chega na sua casa como boa, sem notar alterações significativas, mas demonstra preocupação com o sistema de esgoto da região. “Aqui na minha rua tem esgoto, mas a rede já não está suportando mais. Tem uma tampa que sempre fica vazando na rua. Na minha região, algumas casas nem têm rede de esgoto, e [os resíduos] acabam sendo jogados para os fundos, que [escorrem] para a rodovia”, explica.

Além dos problemas com a rede de tratamento de esgoto, ele conta que os cortes no abastecimento afetam tarefas diárias e cuidados com a higiene, sobretudo em residências com idosos ou pessoas que precisam de cuidados especiais. 

Para Denis, a solução está em um planejamento mais eficiente. “Acho que deveria ter mais investimento na prevenção dos problemas de abastecimento e rede de esgoto. Assim, não teríamos esses vazamentos que vemos diariamente nas ruas e poderiam ser evitadas obras emergenciais”, opina.

Já a dona de casa, Indara Cardoso, de 39 anos, é moradora do bairro Jardim Vera Cruz, localizado na zona leste de São Paulo, e relata que também não tem enfrentado problemas significativos com o abastecimento de água.

Ela avalia a qualidade da água como satisfatória, mas observa que, quando a pressão retorna após interrupções, o fluxo vem forte por cerca de 30 segundos com cheiro de cloro, normalizando em seguida.

Quanto à rede de esgoto, fala que a estrutura na sua rua é boa, com coleta regular. Por outro lado, reconhece que ela e sua vizinhança não sofrem diretamente com os impactos da medida, pois possuem caixas d’água suficientes para suprir a demanda diária. “Tenho caixa d’água, e na minha vizinhança a maioria também tem.”

Privatização privilegia o lucro

O que Denis e Indara descrevem faz parte de uma dinâmica maior de desigualdade e precarização de serviços. É o que explica a professora e pesquisadora Luciana Ferrara, coordenadora do Centro de Estudos das Favelas (CEFAVELA) da Universidade Federal do ABC (UFABC) sobre o avanço da privatização ao redor do país.

O Brasil ainda enfrenta questões quando o assunto é saneamento básico e acesso a esgoto tratado, o que reflete em problemas sociais e de saúde pública do país.  De acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios, a PNAD Contínua, realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), dos cerca de 77 milhões de domicílios existentes no país, 29,5% não estavam conectados à rede geral de esgoto, o que equivale a três em cada dez residências expostas a algum tipo de risco relacionado à água imprópria para consumo ou uso doméstico.

O relatório que sistematizou dados por amostragem de domicílios e tipo de esgotamento mostra que 63,8% das casas estão conectadas à rede geral ou fluvial, 6,5% possuem fossa séptica ligada à rede, 15,1% têm fossa séptica não ligada e 14,4% utilizam outros tipos, como fossa rudimentar, vala ou córrego.

Para a pesquisadora, especialista em Planejamento Urbano e Ambiental, a questão sanitária revela camadas de desigualdade que distanciam, diariamente, milhões de pessoas de direitos básicos, sobretudo nas favelas e periferias.

No cenário nacional, segundo ela, há grandes diferenças entre as regiões, tanto no acesso à água quanto no atendimento da coleta e do tratamento de esgoto. A cobertura da rede de água geralmente é maior do que a da coleta e do tratamento de esgoto, e as maiores desigualdades permanecem nas regiões Norte e Nordeste do país.

A análise da pesquisadora vai de encontro ao que aponta Pnad acerca das desigualdades territoriais em relação ao tipo de esgotamento dos domicílios. A região Sudeste supera a média nacional (70,4%), com 90,2%. Na sequência aparecem o Sul e Centro Oeste que registram 70,2% e 63,8%, respectivamente. As piores condições são localizadas no Nordeste (51,1%) e no Norte (31,2%).

Entretanto, mesmo em cada uma das regiões, há um funil de desigualdades locais. “Se olharmos para áreas urbanas e rurais, há diferenças, pois o déficit de água se concentra mais nas áreas rurais, enquanto o déficit de coleta e tratamento de esgoto é maior nas áreas urbanas. Nas favelas, o déficit é ainda maior, tanto na rede de água quanto na coleta e tratamento de esgoto, em comparação com o restante da cidade”, explica ao destacar que isto faz das favelas territórios com maior incompletude de infraestruturas, sofrendo consequências em saúde pública, qualidade de vida e no desequilíbrio ambiental.

Dados específicos sobre favelas e periferias mostram que, no Brasil, meio milhão de residências pertencentes a estes territórios não têm rede de água, quase 100 mil não têm água encanada, mais de 109 mil dependem de poços artesianos e quase 705 mil usam fossas rudimentares. Quanto ao esgoto, 58% têm rede, 13% têm fossa não ligada e 61% têm fossa séptica ou ligada à rede. Sobre o lixo, 76% recebem coleta regular, mas 107 mil ainda descartam em terrenos ou áreas públicas. Os números constam na pesquisa “Censo Demográfico 2022 Favelas e Comunidades Urbanas: Resultados do universo”, divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Ainda segundo a pesquisadora, a privatização em massa das companhias de água agrava o problema. O Estado de São Paulo é um dos principais exemplos.

Em julho de 2024, a Sabesp — principal companhia de saneamento do estado de São Paulo — foi privatizada, com a venda de 32% das ações e manutenção de apenas 18% sob controle público. A mudança, segundo o governo estadual, visa acelerar a universalização do saneamento, elevar os investimentos e garantir o abastecimento de água e tratamento de esgoto a municípios que historicamente enfrentam exclusão no acesso a esses serviços.

No entanto, especialistas e movimentos sociais acreditam que a privatização não resolve o problema, pois privilegia o lucro e os interesses privados em detrimento do acesso universal à água e ao saneamento. Nesse sentido, alerta-se para prováveis efeitos reais da medida, como aumento da tarifa de abastecimento e dificuldade de pagamento por famílias de baixa renda, redução da qualidade da cobertura d’água em áreas pobres, enfraquecimento do controle social sobre o serviço, impactos ambientais, etc.

Novo Marco Legal do Saneamento

O Novo Marco Legal do Saneamento (Lei nº 14.026/2020) alterou a legislação anterior, de 2007, que já visava a universalização do saneamento, mas a principal mudança é a ampliação da atuação do setor privado, o que, segundo a Luciana, gera consequências na forma como os municípios concedem o saneamento. “A lei de 2017 amplia essas possibilidades e, inclusive, incentiva o município a transferir a concessão do serviço para empresas privadas.”

Em relação à universalização, há diversas análises sobre os impactos da privatização do saneamento. “Primeiro, as companhias privadas precisam garantir sua rentabilidade. Assim, quando os processos de concessão são abertos, essas empresas tendem a se concentrar em áreas com mais cidades, regiões maiores e população com maior capacidade de pagamento”, explica.

“A população de baixa renda, que habita as favelas, enfrenta mais dificuldades financeiras, e a universalização nesses territórios nem sempre ocorre no mesmo ritmo que em outras áreas. Isso cria uma tendência de melhor cobertura e serviço fora das favelas, enquanto a população mais vulnerável permanece mais exposta a riscos ambientais”, acrescenta.

De acordo com Luciana, outro ponto é que, anteriormente, as companhias estaduais atendiam uma grande quantidade de municípios, e os mais lucrativos, em termos de tarifa, ajudavam a suprir investimentos nos menos lucrativos, garantindo um atendimento cruzado. Com a privatização, isso deixa de estar garantido, pois os serviços passam a ser feitos com base em contratos que definem quais áreas terão atendimento e como ele será realizado.

A especialista em Planejamento Urbano e Ambiental pontua que “muitos contratos de companhias privadas não incluem as favelas de forma clara.” No Rio de Janeiro e em outros municípios, por exemplo, o atendimento dessas áreas não têm o mesmo comprometimento que havia pelo poder público. 

“Embora os números gerais indiquem 98% ou 99% de cobertura, na prática ainda há muitas pessoas em favelas e ocupações sem acesso à água ou esgoto. Medir a universalização apenas em porcentagens oculta o problema.”

Luciana Ferrara, professora, pesquisadora e coordenadora do Centro de Estudos das Favelas (CEFAVELA) da Universidade Federal do ABC (UFABC). Especialista em Planejamento Urbano e Ambiental.

Neste contexto, os indicadores usados por empresas privadas para medir a universalização do saneamento não são suficientes para retratar a realidade da população.

A universalização muitas vezes é medida, somente, pela cobertura da rede [de água e esgoto]. Porém, ter a rede passando na rua não garante acesso real, especialmente em favelas e periferias. Muitas famílias não conseguem pagar pela tarifa social, permanecendo conectadas a ligações precárias ou improvisadas para água e esgoto. Isso cria insegurança hídrica doméstica que não aparece nos grandes números e famílias continuam sem acesso adequado à água e ao saneamento. 

A Sabesp já possuía um capital misto, mas mantinha forte caráter público-social, atuando nas favelas e comunidades urbanas em parceria com prefeituras e projetos de urbanização. 

Com a privatização recente, a pesquisadora afirma que os impactos nos territórios ainda estão sendo estudados: observa-se uma intenção de ampliar a cobertura, mas sem garantir que a população consiga pagar pelas ligações, que a tarifa social seja mantida ou que os custos não aumentem. “Programas como o Água Legal que ligavam comunidades à rede de água, passaram por grandes reformulações e as informações sobre eles ainda não são claras”, finaliza.

“Comunidade está de pé, não vamos sair”: a luta do Chaparral contra a ameaça de reintegração de posse

Cerca de 2 mil famílias vivem atualmente na comunidade Chaparral, no distrito da Penha, Zona Leste de São Paulo. Apesar de realidades distintas, cada uma delas compartilha o mesmo objetivo: lutar pela regularização de seus terrenos.

Márcio Vale, morador e presidente da Associação de Moradores União e Fé (Foto: Arquivo Pessoal)

 “A comunidade está de pé, não vamos sair”, diz Márcio Vale, morador e presidente da Associação de Moradores União e Fé.

A favela, também conhecida como Kampala Chaparral, corre contra o tempo desde que recebeu uma ameaça de reintegração de posse da CDHU (Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano), em junho deste ano, com o prazo inicial de três meses para deixar o local, que é ocupado há mais de dez anos. 

Ao portal Metrópoles, a CDHU informou que parte da área da comunidade será destinada para a extensão da Linha 2-Verde do metrô, que conecta a Vila Madalena com a Vila Prudente.

No meio do ano, a CDHU chegou a iniciar demolições e descaracterização de casas das famílias que deixaram o local. “É um perigo, pode cair tudo em cima de quem está do lado”, conta preocupada Maria Valderez Trajano, de 69 anos, costureira e uma das primeiras moradoras.

Antes de ir para lá, ela vivia no Parque Novo Mundo, na Zona Norte da cidade, e se mudou em busca de melhores condições de vida e independência financeira. “Quando cheguei aqui, tinha só três barracos: dois cobertos de telha e um de lona”, relembra. “Passamos por muitos problemas para construir, e nós estamos aqui”, reforça.

Maria Valderez Trajano ao lado de voluntários da ONG TETO em 2014, organização que constrói moradias emergenciais em comunidades vulneráveis. Foto: arquivo pessoal.

Em setembro, as demolições foram interrompidas durante 28 dias, após forte mobilização dos moradores, entre elas, um ato que bloqueou parte da Marginal Tietê em agosto.

Manifestantes da comunidade Kampala fecharam a Marginal Tietê, na altura da Ponte Aricanduva, em protesto contra a desocupação. O ato, realizado na noite de 11 de agosto de 2025, foi pacífico. Foto: Márcio Vale.

Outra frente de ação conjunta dos moradores foi a contratação de um escritório de advocacia para cuidar das questões burocráticas na Justiça. Cada família tem contribuído com uma taxa mensal para garantir a continuidade do processo movido pelos moradores contra a reintegração.

“A nossa luta é para que a gente permaneça, para que o governo regularize essa terra e para que cada morador possa ter o título, pagar seu IPTU e ser dono do seu lote, da sua casa”, afirma Márcio.

Assim como as casas, os pequenos comércios também vêm sendo descaracterizados e abandonados — deixando moradores sem parte essencial de sua renda e aprofundando o impacto da reintegração no cotidiano da comunidade. Foto: Jéssica Calheiros.

O surgimento do Chaparral

A área em que atualmente existe a Chaparral tem um histórico de luta por moradia. Em 2010, o local chegou a abrigar cerca de 2 mil famílias (incluindo as comunidades do Kampala e Tiquatira), que foram retiradas pela Prefeitura.

A promessa era de que ali seria feita uma expansão do Parque Linear Tiquatira Engenheiro Werner Eugênio Zulauf, o primeiro parque linear da cidade, localizado na divisa dos distritos da Penha e Cangaíba. A expansão do parque, porém, nunca ocorreu e a área permaneceu desocupada durante anos.

Em maio de 2014 ela voltou a ser ocupada por pessoas, muitas delas, recém expulsas de outras ocupações, formando o que hoje é conhecido como Chaparral.

A comunidade Chaparral não aparece nos aplicativos de mapa: enquanto os condomínios privados são registrados, nem mesmo os prédios da CDHU são reconhecidos como parte do território, invisibilizando quem vive ali. Foto: Reprodução Google Maps (captura de tela).

Memória e pertencimento 

Entre os moradores, é comum ouvir histórias que revelam a luta diária para conquistar o direito à moradia. Cada casa representa anos de esforço coletivo e reconstruções.

É o caso de Maria Eunice Teixeira, de 58 anos, diarista. Ela construiu sua casa com ajuda da mãe, do marido e do filho, após deixar Itaquaquecetuba em busca de uma casa própria.

Primeiro fizemos um barraco, que enchia de água quando chovia. Depois, fomos construindo, devagarzinho, com o dinheiro que podíamos” – Maria eunice teixeira

A casa, que começou de forma simples, hoje é a principal lembrança de Maria Eunice com sua família.

“Meu marido morreu, meu filho foi morar na Bahia junto com a família dele e minha mãe também faleceu. Hoje sou só eu.”

Parte das casas já passa por descaracterização, com portas e janelas fechadas à base de tijolos durante o processo de reintegração. Foto: Jéssica Calheiros

Assim como Maria, outros moradores relatam o vínculo afetivo com o território e o quanto a possível remoção representa mais do que a perda de um imóvel, mas também o apagamento de suas histórias.

As negociações

Até agora, segundo o presidente da Associação de Moradores, a CDHU não tem oferecido condições viáveis para que as famílias consigam recomeçar em outro local. 

Segundo ele, a companhia ofereceu o pagamento de R$ 2,4 mil em parcela única e um auxílio-aluguel de R$ 800 por mês, até que novas moradias sejam entregues — algo que ainda não tem prazo nem endereço definido, o que aumenta a incerteza entre os moradores. 

De acordo com dados da COHAB-SP (Companhia Metropolitana de Habitação de São Paulo) divulgados em 2023, mais de 180 mil pessoas aguardam na fila por um imóvel popular na cidade de São Paulo. Enquanto esperam, muitas famílias acabam ficando reféns do auxílio-moradia, um benefício temporário que, na prática, não acompanha o alto custo de vida da capital.

Segundo o índice FipeZap (Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas), São Paulo lidera o ranking nacional de aluguéis, com o valor médio de R$61,63 por metro quadrado, o que faz da cidade a mais cara do país para se alugar um imóvel.

Galeria de Fotos

Os registros de imagens feitos por Jéssica Calheiros mostram a realidade atual do Chaparral — casas demolidas, comércios fechados e a mobilização de quem luta para seguir no território. As imagens ajudam a preservar a memória deste momento e mostram, sem filtros, o impacto da ameaça de reintegração na vida das famílias.

Esse conteúdo foi produzido por jovens em processo de formação do laboratório de produção de conteúdo Você Repórter da Periferia 2.0 (VCRP 2.0), programa de educação midiática antirracista realizado desde 2013, pelo portal de notícias Desenrola e Não Me Enrola.

Visibilizar e preservar a memória de existências periféricas: nosso jornalismo na prática rumo à efetivação de direitos

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Mais que um veículo de comunicação, o Desenrola é um arquivo vivo de memória, resistência e pertencimento. E neste Dia Internacional dos Direitos Humanos (10 de dezembro) lembramos da necessidade de reconhecer a memória como ferramenta de comunicação e como recurso para mobilizar pela efetivação de direitos. A data é, por si, um marco à lembrança para a coletividade global sobre a vigilância contínua pelo cumprimento dos compromissos assumidos pelos Estados no sentido dos direitos sociais, civis, políticos e ambientais. E para as reivindicações de participação coletiva quanto às demandas dos mais diversos grupos, em especial, os historicamente mais vulnerabilizados. 

Com tudo isso, nosso jornalismo periférico de soluções, impulsionado a garantir direitos, se propõe à escuta e ao afeto para revelar histórias que constroem o país de dentro para fora — histórias que não apenas informam, mas transformam.

Nas quebradas, as pessoas não são personagens: são autoras de suas trajetórias. O jornalismo periférico nasce desse direito de falar por si e disputar sentidos. Praticamos uma narrativa de presença — aquela que reconhece a potência, a criatividade e o trabalho comunitário que sustentam o cotidiano.

Essa prática, também cumpre uma função histórica: preservar a memória das populações negras, indígenas e das comunidades tradicionais que moldaram o país, mas raramente aparecem nos registros oficiais.

Vó Tutu, durante nossa reportagem, realizada em 2019 - Foto: Desenrola e Não Me Enrola
Vó Tutu, durante nossa reportagem, realizada em 2019 – Foto: Desenrola e Não Me Enrola

Entre tantas histórias, a de Vó Tutu, moradora da Brasilândia, na zona norte de São Paulo, sintetiza isso. Em nossa reportagem publicada em 2019, Vó Tutu aparece não apenas como personagem, mas como ancestral que articula redes de solidariedade e reinventa o sentido de política no cotidiano.

Assim como ela, tantas outras pessoas — como Tia Cida, de São Mateus, na zona leste — guardam o que o jornalista Adriano Sousa chama de “arquivos de território”: memórias orais, invisíveis nos arquivos oficiais, mas fundamentais para compreender a história real das cidades.

Tia Cida, matriarca do samba em São Mateus, zona leste de São Paulo. Foto: Divulgação

Registrar essas vozes é um ato político e de justiça narrativa. É afirmar que a história da cidade também se escreve nas casas construídas nos mutirões, nos muros pintados e nas estreitas vielas que abrigam “toda gente”.

O Desenrola e Não Me Enrola integra uma rede de coletivos que transforma a comunicação em política pública de memória. E o acesso à comunicação é direito. E também caminho para promoção dos demais direitos, por isso, mais do que noticiar, o jornalismo periférico atua como ponte entre passado e futuro, visibilizando saberes, conectando gerações e fortalecendo pertencimentos. O futuro das periferias se constrói quando essas vidas ganham espaço para serem contadas. Porque preservar a memória é preservar a existência — e cada reportagem do Desenrola e Não Me Enrola reafirma esse compromisso todos os dias.

“Não passou, pode ir embora”: torcedores relatam falhas no reconhecimento facial em estádios

Rafaela Silva, mulher negra de 26 anos, e torcedora e influenciadora são-paulina, foi convidada para estar presente em um dos camarotes do MorumBIS, em São Paulo, na partida entre seu time do coração e o Fluminense, pela 17ª rodada do Brasileirão deste ano.

Só que o que era pra ser um dia de diversão, se tornou uma dor de cabeça logo na chegada ao estádio. Ao tentar passar pelas catracas, ela foi barrada porque o sistema de reconhecimento facial, que permite o acesso ao campo, não reconheceu suas características faciais.

“Eu tentei passar umas três vezes e não dava. O cara [segurança] perguntou como estava meu cabelo na foto da biometria. Eu falei que estava preso, e ele respondeu: ‘deve ser por isso que não está passando’. A biometria não pega o cabelo, é só o rosto. Então, não fazia sentido eles questionarem meu cabelo. Percebi que era uma situação de racismo”, relata.

O questionamento de Rafaela faz sentido. A biometria facial reconhece características como a distância entre os olhos, o formato do nariz, das maçãs do rosto, da mandíbula e do queixo, e outras proporções faciais que são medidas e convertidas em um “mapa facial” ou “impressão facial” digital. O cabelo não interfere – ou não deveria interferir – no reconhecimento.

Depois de algumas tentativas sem sucesso, Rafaela ouviu de um funcionário: “não passou, pode ir embora”. Mesmo frustrada, ela insistiu e explicou que havia feito um cadastro antecipado e que queria entender o que estava acontecendo.

Rafaela é torcedora do São Paulo e usa as redes sociais para registrar os momentos que vive com o time. (Foto de Arquivo Pessoal)

“Eu só consegui entrar porque estava no camarote, se fosse na arquibancada comum, provavelmente não teria entrado”

Desde então, a torcedora, frequentadora constante, diz que não sente confiança em entrar nos estádios usando a biometria facial por achar que situações como essa podem voltar a acontecer. 

Os gêmeos idênticos, Gabriel e Jonathan, de 15 anos, jovens pardos e moradores do Capão Redondo, extremo sul de São Paulo, estiveram na mesma partida de Rafaela, e enfrentaram problemas semelhantes.

À esquerda, Jonathan Santos de Miranda, ao centro o jogador Alisson Castro que atua no São Paulo Futebol Clube, e à direita Gabriel Santos de Miranda. (Foto de Arquivo Pessoal)

Em entrevista à reportagem, a irmã deles, Grazielle Santos de Miranda, contou que, mesmo tendo feito o cadastro prévio e individual dos irmãos, ao chegar no estádio, o reconhecimento não os identificou, travando suas entradas de imediato. “Acabou que passou o mesmo ingresso duas vezes”, conta ela.

Grazielle só conseguiu entrar no estádio com os irmãos depois de apresentar provas de que tinha feito o cadastro da forma correta.

O que é e como funciona o tal reconhecimento facial

O uso da tecnologia de reconhecimento facial (TRF) tem sido o instrumento usado como única forma de acesso dos torcedores a alguns estádios. A Lei Geral do Esporte, aprovada em 14 de junho de 2023, determina que estádios com capacidade máxima acima de 20 mil torcedores utilizem esse método. 

O cadastro da biometria facial é feito pelo torcedor com o próprio celular no momento da compra do ingresso. Depois, a plataforma verifica se a pessoa que está se cadastrando é a mesma do documento. Quando chega no dia do jogo, o torcedor vai para o estádio sem precisar portar QR Code, celular ou ingresso físico.

Parece fácil, mas não

A TRF foi vendida como um método eficaz para combater a falsificação de ingressos, o cambismo e agilizar o acesso ao estádio. Só que, do ponto de vista do torcedor, a tecnologia não aparenta ser tão simples assim.

Um conceito que tem ganhado cada vez mais espaço no debate público é o chamado racismo algoritmo, que nada mais é do que a reprodução ou amplificação de preconceitos e discriminações raciais por ou em sistemas tecnológicos, como a inteligência artificial.

Conforme explica a advogada Tulani Matias, especialista em direito digital, os algoritmos de reconhecimento facial são treinados, em sua maioria, em bases de dados europeias.

“Isso significa que eles falham muito mais ao reconhecer rostos negros, miscigenados e de mulheres”, diz. Por conta da biometria facial, diz Tulani, em um futuro próximo, a sociedade colocará o racismo algorítmico na mesma discussão do racismo estrutural.

Para ela, “o futebol corre o risco de se elitizar ainda mais” a partir do momento em que a tecnologia apresenta falhas e expõe o torcedor ao constrangimento.

“A biometria [facial] cria barreiras que afastam justamente o torcedor popular, periférico, negro e vulnerável. O mínimo que os clubes deveriam garantir é uma validação humana quando o sistema falha, para não humilhar torcedores que só querem assistir ao jogo” – Tulani Matias, especialista em direito digital

Tulani enfatiza que o cabelo não deveria interferir na tecnologia de reconhecimento facial e que o sistema segue padrões enviesados. (Foto de Arquivo Pessoal)

Atualmente, a Lei Geral do Esporte também determina que todos os estádios devem ter uma “central técnica de informações, com infraestrutura suficiente para viabilizar o monitoramento por imagem do público presente e o cadastramento biométrico dos espectadores”.

Fica a dica

Aos torcedores que tiverem problemas em acessar os estádios, a recomendação é que apresentem um documento oficial com foto às equipes designadas nos locais.

Além disso, segundo, Tulani, é um direito do torcedor solicitar a exclusão de seus dados após as partidas, principalmente daqueles estádios em que tem certeza que não frequentará mais.

O risco dos dados nas plataformas

Os torcedores devem obrigatoriamente fazer o cadastro da biometria facial através de um site para conseguirem entrar nos estádios em partidas de futebol. (Foto: Andressa Barbosa)

Outro ponto destacado por Tulani é que o torcedor não têm clareza de quem poderá acessar seus dados, que são sensíveis. Segundo ela, as informações ficam dispostas de forma implícita em termos enormes que são reduzidos a um box onde o torcedor só precisa sinalizar: ‘li e aceito’. Além disso, ela diz que os dados correm risco de estarem disponíveis para comercialização. 

O estudo “Esporte, dados e direitos: o uso do reconhecimento facial nos estádios brasileiros”, do Observatório Social do Futebol em parceria com o Panóptico, projeto do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (CESeC), acompanha essa crescente expansão da tecnologia e os impactos sobre direito e privacidade na cultura esportiva do país.

A pesquisa explica que o Programa Estádio Seguro, parceria entre a CBF e o Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP), compartilha dados dos torcedores com bancos de dados de instituições de segurança pública.

Problema da pesquisa: o estudo mostra que o uso de reconhecimento facial nos estádios brasileiros avança rapidamente, impulsionado por leis e programas de segurança, mas sem garantias adequadas de transparência, proteção de dados e respeito aos direitos fundamentais. Os riscos de erros, racismo algorítmico, datificação de massas e vigilância abusiva superam os supostos ganhos em segurança e fluidez de acesso.

Esse conteúdo foi produzido por jovens em processo de formação do laboratório de produção de conteúdo Você Repórter da Periferia 2.0 (VCRP 2.0), programa em educação midiática antirracista realizado desde 2013, pelo portal de notícias Desenrola e Não Me Enrola.