Como a concentração de renda afeta a democracia e a vida da população brasileira? E de que maneira o jornalismo produzido nos territórios pode contribuir para ampliar esse debate? Essas são algumas das questões que orientam o 2º Laboratório de Comunicação: Democracia e Desigualdades, realizado por meio de uma parceria entre o Desenrola e Não Me Enrola e a Oxfam Brasil.
A iniciativa reúne oito organizações de jornalismo e comunicação de quatro estados brasileiros com o objetivo de aproximar os dados e as análises do Relatório de Desigualdades 2026, produzido pela Oxfam Brasil, das realidades vividas pelos moradores e moradoras nos diferentes territórios do país.
Por meio de formações, produção de conteúdos jornalísticos e estratégias coletivas de circulação da informação, o laboratório busca ampliar o acesso ao conhecimento sobre as desigualdades econômicas e estimular a participação da sociedade nas discussões sobre distribuição de renda, democracia e justiça social. A iniciativa também incentiva a construção de alternativas de distribuição de conteúdos, incluindo ações offline, para que a informação alcance diferentes públicos sem depender exclusivamente das grandes plataformas digitais.
A parceria articula a experiência da Oxfam Brasil na produção de pesquisas e na incidência sobre desigualdades com a trajetória do Desenrola e Não Me Enrola no jornalismo territorial, na educação midiática antirracista e no fortalecimento de iniciativas de jornalismo e comunicação das periferias.
Desigualdade econômica também é desigualdade de poder
O relatório “Um Retrato das Desigualdades Brasileiras: Poder, Privilégio e a Captura da Democracia”, lançado pela Oxfam Brasil em 2026, destaca a relação entre concentração de riqueza e desigualdade de poder político no país. Segundo o estudo, os grupos mais ricos possuem maior capacidade de financiar campanhas, influenciar decisões públicas, acessar autoridades e moldar políticas que afetam toda a sociedade.
Enquanto o 1% mais rico concentra uma parcela crescente da renda e do patrimônio nacional, mulheres, pessoas negras e outros grupos historicamente vulnerabilizados continuam sub-representados nos espaços de poder político e econômico. O relatório evidencia que a desigualdade não está relacionada apenas à distribuição de renda e patrimônio, mas também às condições de participação da população nas decisões que determinam os rumos do país.
Essa discussão ganha relevância porque o aumento das desigualdades econômicas têm impacto direto na democracia, na confiança nas instituições e na capacidade de promover desenvolvimento com justiça social. Em um contexto marcado pela expansão das plataformas digitais controlados por Big Techs estrangeiras e pelo crescimento do poder corporativo, compreender como a riqueza influencia as decisões públicas é fundamental para fortalecer a participação cidadã, garantir maior representatividade e construir políticas que atendam aos interesses da maioria da população.
Jornalismo territorial aproximando o debate da realidade dos territórios
Uma das principais propostas do laboratório é fazer com que as discussões sobre desigualdade econômica ultrapassem os espaços acadêmicos e institucionais e cheguem aos territórios, considerando as experiências, os conhecimentos e as formas de jornalismo e comunicação construídas nos territórios.
Para isso, o Desenrola e Não Me Enrola e a Oxfam Brasil atuam em parceria com oito iniciativas de comunicação, organizadas em frentes de produção e distribuição de conteúdos.
Participam dessa ação as iniciativas Sargento Perifa e Redes do Beberibe, de Recife – PE; Conquista Repórter e Lab Estudos em Dramaturgia e Sociedade, de Vitória da Conquista – BA; Tapajós de Fato e Coletivo Jovens Tapajônicos, de Santarém – PA; Fala Roça e Agenda 2030 Rocinha, do Rio de Janeiro – RJ.
A participação dessas iniciativas contribui para que os dados nacionais sejam discutidos a partir das particularidades de cada território. Embora a desigualdade econômica seja um problema estrutural do Brasil, seus impactos se manifestam de maneiras diferentes na vida da população de cada território.
Para além das Big Techs: alternativas de circulação da informação
Além da produção jornalística, o laboratório também busca ampliar as formas de fazer a informação chegar aos territórios. Como grande parte dos conteúdos circula pelas redes sociais e plataformas digitais controladas pelas Big Techs, o projeto incentiva as iniciativas participantes a experimentar outras formas de distribuição, combinando ações online e offline.
A proposta é pensar em alternativas para que a informação não dependa apenas dessas plataformas. Isso porque produzir conteúdos de qualidade não garante que eles cheguem a todas as pessoas, especialmente quando os hábitos de consumo de informação são diferentes em cada território.
Por isso, o laboratório valoriza as formas de fazer jornalismo e comunicação que já existem nos territórios e incentiva a criação de estratégias que combinem o uso das redes sociais com ações presenciais, espaços comunitários e outras formas de comunicação local. Com isso, busca fortalecer a autonomia das iniciativas, ampliar a circulação dos conteúdos e fazer com que a informação chegue a mais pessoas.
Guia de comunicação contra as desigualdades
Com o laboratório em desenvolvimento, as iniciativas participantes já estão colocando em prática suas estratégias de comunicação e compartilhando os conteúdos produzidos ao longo do processo.
Entre os dias 28 e 30 de outubro de 2026, representantes das oito iniciativas estarão reunidos em Recife – Pernambuco, para um encontro nacional dedicado à troca de experiências, à avaliação das atividades realizadas e à construção coletiva dos aprendizados do laboratório.
As experiências compartilhadas durante o encontro também contribuirão para a elaboração do Guia de comunicação contra as desigualdades, uma das propostas previstas na parceria entre o Desenrola e Não Me Enrola e a Oxfam Brasil. O objetivo do guia é transformar esses conhecimentos em um material que possa servir de referência para outras iniciativas de jornalismo e comunicação, contribuindo para o desenvolvimento de novas estratégias de produção e circulação da informação.
Com isso, o laboratório busca fortalecer o jornalismo territorial, valorizar os conhecimentos construídos pelas próprias iniciativas e ampliar o acesso da população a informações que ajudem a compreender, debater e enfrentar as desigualdades sociais e econômicas no Brasil.