Agente de Integridade da Informação: o elo humano entre quem produz notícia e moradores de territórios periféricos
Metodologia desenvolvida pelo Desenrola e Não Me Enrola reúne tecnologia, mídias territoriais e participação popular para transformar a produção e a circulação de notícias.
Em um cenário em que as grandes empresas de tecnologia influenciam cada vez mais as notícias que chegam à população, o Desenrola e Não Me Enrola está construindo uma alternativa para aproximar o jornalismo das pessoas e fortalecer o direito à informação nas periferias.
A proposta parte de uma mudança importante: em vez de deixar que os algoritmos das redes sociais determinem quais assuntos ganham visibilidade, o Desenrola acredita na participação dos moradores e nas necessidades dos territórios como elementos centrais para orientar a produção jornalística.
Essa transformação está no centro do Fellowship de Mudanças Exponenciais no Jornalismo, programa lançado em agosto de 2026 que reúne organizações de mídia de diferentes regiões do Brasil para experimentar um novo modelo de produção e distribuição de notícias.
Participam dessa experiência o Sargento Perifa, de Recife (PE), Conquista Repórter, de Vitória da Conquista (BA), e o Tapajós de Fato, de Santarém (PA), ampliando a aplicação da metodologia em diferentes realidades e contextos territoriais.
Um dos principais pilares dessa inovação é o Agente de Integridade da Informação, que estabelece uma conexão direta entre as organizações jornalísticas e os moradores das periferias. Sua atuação valoriza a escuta, o contato humano e o conhecimento dos territórios, reconhecendo que a população não deve ser apenas consumidora de notícias, mas também participar da construção da informação que chega até ela.
Uma alternativa à dependência das Big Techs
Nos últimos anos, o crescimento das plataformas digitais transformou profundamente a maneira como as pessoas consomem notícias. Empresas como Meta e Google passaram a exercer grande influência sobre a circulação de conteúdos, enquanto organizações jornalísticas enfrentam o desafio de alcançar seus públicos sem depender exclusivamente dessas plataformas.
Essa realidade se soma às desigualdades informacionais históricas no acesso à informação, especialmente em territórios periféricos, onde muitas vezes as necessidades e os interesses dos moradores não encontram espaço na cobertura dos grandes veículos de comunicação.
Durante os períodos eleitorais, os impactos desse cenário se tornam ainda mais preocupantes diante da circulação de informações falsas e de conteúdos que podem comprometer o debate público.
É nesse contexto que o Desenrola vem desenvolvendo uma metodologia baseada na integridade da informação, conceito abordado pela Organização das Nações Unidas (ONU) como fundamental para a construção de ambientes informacionais confiáveis, diversos e comprometidos com os direitos humanos.
Segundo a ONU, a integridade da informação refere-se à construção de um ambiente informacional confiável, diverso e comprometido com os direitos humanos. Em um contexto digital marcado pelo excesso de informações e pela rápida circulação de conteúdos, ela busca garantir que as pessoas possam navegar, se informar e tomar decisões de forma segura, livre e consciente, fortalecendo a confiança pública, o conhecimento e a participação cidadã.
A proposta combina a atuação dos Agentes de Integridade da Informação, o conhecimento das mídias territoriais e a tecnologia Território da Notícia 2.0, desenvolvida e gerida conjuntamente pelo Desenrola e Não Me Enrola e pela Periferia em Movimento.
Essa combinação busca construir novos caminhos para que o jornalismo tenha mais autonomia na produção e na circulação de conteúdos, sem depender exclusivamente da lógica de engajamento das plataformas digitais.
O objetivo é fortalecer a relação entre o jornalismo e os territórios, valorizando a confiança, a participação dos moradores e a capacidade da informação de contribuir para suas vidas.
“Nas periferias, o tempo passa diferente. Não há tempo para somente nos queixarmos diante dos problemas que temos. Precisamos construir alternativas e é isso que estamos fazendo no Fellowship de Mudanças Exponenciais no Jornalismo”, conta Ronaldo Matos, diretor executivo do Desenrola e Não Me Enrola.
Metodologia de integridade da informação fortalece o acesso à informação sobre saúde pública em São Bernardo do Campo
A região do Montanhão, em São Bernardo do Campo, na Grande São Paulo, foi escolhida para receber uma das experiências de aplicação da metodologia desenvolvida pelo Desenrola e Não Me Enrola. A iniciativa é resultado de uma parceria que reúne o Desenrola e Não Me Enrola, o Instituto de Saúde, a Secretaria Municipal de Saúde, a Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e a Associação dos Cafezais, responsável pela articulação local.
A experiência marca a primeira articulação desta etapa da metodologia entre poder público, universidade e organizações da sociedade civil. O trabalho conjunto busca fortalecer a comunicação pública, enfrentar a desinformação sobre direitos sociais e ampliar o acesso dos moradores a informações confiáveis sobre políticas públicas.
A parceria também abre espaço para aproximar o conhecimento produzido nas universidades, a atuação do poder público e a experiência das organizações de jornalismo que trabalham diretamente nos territórios. A proposta é construir soluções que considerem a realidade dos moradores, valorizem seus conhecimentos e contribuam para que a informação chegue à população de forma mais acessível e conectada às suas necessidades.
A metodologia desenvolvida pelo Desenrola e Não Me Enrola demonstra que as periferias não são apenas espaços de produção de notícias, mas também de desenvolvimento de tecnologias, conhecimentos e soluções capazes de contribuir para o futuro do jornalismo.
O contato humano como parte da inovação
Para Aloysio Letra, artista, assistente de coordenação e Agente da Integridade da Informação do Desenrola e Não Me Enrola, a experiência como Agente de Integridade da Informação transformou sua maneira de olhar para o próprio território. “Eu, que já conhecia meu território, com a experiência de ser Agente da Integridade da Informação, passei a enxergar coisas que antes não estavam nítidas”, conta.
“O trabalho do Agente da Integridade potencializa os territórios, suas relações e ações comunitárias. O contato humano, o olho no olho, as trocas sensíveis ajudam a comunidade a se sentir vista e ouvida em suas potências e denúncias. Hoje, nosso trabalho na região do Montanhão, em São Bernardo do Campo, reforça isso. Nossa escuta das pessoas e a observação atenta ao território se somam à metodologia e nos proporcionam uma visão mais abrangente e profunda de onde o jornalismo pode atuar, evidenciando caminhos possíveis para o acesso a direitos básicos, que sem acesso à informação poderiam estar escondidos das moradoras.” Aloysio Letra, artista e Agente da Integridade da Informação
Aloysio Letra durante a escuta territorial no Montanhão, em São Bernardo – São Paulo, em setembro de 2026. Foto: Felipa Anastácia | Desenrola e Não Me Enrola.
Com essa experiência, o Desenrola e Não Me Enrola e as organizações que participam do Fellowship estão mostrando que é possível pensar e fazer jornalismo de outra forma. A proposta valoriza o conhecimento de quem vive nos territórios e aposta na tecnologia e nas relações humanas para construir um jornalismo mais próximo das pessoas.
O trabalho também reforça algo que as mídias periféricas vêm mostrando há anos: as periferias não são apenas lugares de onde saem notícias. São lugares onde se produz conhecimento, se desenvolvem tecnologias e se criam soluções para os desafios do jornalismo e da sociedade.
Sobre o Fellowship de Mudanças Exponenciais no Jornalismo
O Desenrola e Não Me Enrola, organização de jornalismo periférico de soluções e educação midiática antirracista, lançou o “Fellowship de Mudanças Exponenciais no Jornalismo” como parte de uma nova metodologia para fortalecer o jornalismo de interesse público territorial. O programa irá difundir no país uma abordagem inovadora de escuta qualificada e mensuração de impacto das produções jornalísticas e, nesta edição de 2026, conta com a participação de mídias de Pernambuco, Bahia e Pará. A iniciativa ainda pretende apontar caminhos para combater a hegemonia das Big Techs no jornalismo e fortalecer a integridade da informação no Brasil, e conta com a correalização da Periferia em Movimento e do Território da Notícia.
A parceria reúne oito iniciativas de Pernambuco, Bahia, Pará e Rio de Janeiro para ampliar o debate público sobre concentração de renda e seus impactos na democracia brasileira.
Desenrola e Não Me Enrola se une a outros 55 veículos de jornalismo. O jornalismo brasileiro não pode vacilar: é hora de adotar uma posição direta em defesa da democracia e contra o autoritarismo.
Em Guaianases, distrito da Zona Leste, uma placa da Prefeitura na esquina da rua Tristão Gago, próximo à estação da CPTM, manda uma mensagem importante: “Proibido jogar lixo e entulho – Sujeito à multa e apreensão – Crime Ambiental, Lei Municipal n°13.478/02.”
O futebol de várzea é pulsante em Guaianases, distrito da zona leste de São Paulo, não só como lazer, mas uma ferramenta essencial de transformação social e acolhimento.
Ao contrário do que muita gente pensa, envelhecer na periferia pode significar vitalidade e pertencimento. Pelo menos é o que têm comprovado os frequentadores do projeto Dia Total e da Academia Black Brothers. Com atividades específicas para a população idosa, as iniciativas têm impactado não só a rotina, mas a saúde física e mental de muita gente pela região.
Imagine só: você tem várias peças de roupas que não usa mais, que estão paradas há algum tempo, e talvez até um pouquinho velhas, mas, ao invés de jogá-las fora, você transforma tudo em peças totalmente novas e únicas.