Em 9 de julho de 1562, acontecia o Cerco de Piratininga. Liderados por Piquerobi, cacique do povo Guaianá, e seu filho Jaguaranho, guerreiros indígenas da aldeia de Ururay seguiram em direção à aldeia de Piratininga, local onde nasceu a cidade de São Paulo, com o objetivo de recuperar o território invadido pelos colonizadores portugueses. A batalha aconteceu entre povos indígenas, já que, do outro lado, estava o cacique Tibiriçá, que se aliou aos jesuítas após ser batizado.
Séculos depois, chegando nos tempos atuais, Ururay já não é mais referenciado por esse nome nos registros oficiais. É nessa mesma região, que agora é conhecida como o distrito de São Miguel Paulista, na zona leste de São Paulo, que surge o coletivo Marginal Games.
Formado por multiartistas e arte-educadores, o coletivo nasceu de uma necessidade do próprio grupo, que queria trazer para suas oficinas temas relacionados ao território e às culturas afro-brasileira e indígena de forma lúdica. No entanto, ao procurar jogos de tabuleiro e de cartas disponíveis no mercado, não encontrou títulos relacionados a essas culturas, principalmente com foco nesses temas específicos. Em contrapartida, jogos sobre culturas não latinas, como vikings, deuses celtas e lordes, estavam entre os mais vendidos.
Mari Memo, 30, artista e co-fundadora do grupo, vem da Favela do Boi, no Itaim Paulista. Ela explica que a ideia dos jogos produzidos pelo coletivo é representar as diversas culturas e histórias brasileiras sem reproduzir estereótipos ou colocar em primeiro plano a narrativa do colonizador. Para isso, as criações partem de um pensamento descolonizado.

“Os jogos decoloniais, além de serem jogos de resistência, de memória e de busca do nosso passado, buscam tirar o foco das narrativas, histórias e conhecimentos que vêm das influências colonizadoras”, complementa.
A partir desse pensamento, surge a primeira produção do grupo: o jogo de tabuleiro Abya Yala: O Cerco de Piratininga. O jogo conta a história dessa guerra a partir de uma perspectiva diferente daquela a que estamos acostumados a ler nos livros de história.

Inspirado em fatos reais, ele aborda o território de Ururay e sua participação no Cerco de Piratininga por meio de personagens históricos, como Jaguaranho, guerreiro indígena que ocupa o papel principal na narrativa do jogo; seu pai, Piquerobi; seu tio, Tibiriçá; sua irmã, Bartira; e João Ramalho, descrito pelos criadores como o pior dos caraíbas, nome utilizado para se referir aos homens brancos colonizadores.

“Essa história é real, realmente aconteceu. A gente viu e entendeu a importância de falar sobre o nosso próprio território e entender as histórias que nos atravessam e nos atravessaram”, comenta Mari sobre Ururay.
O primeiro protótipo do jogo foi criado em uma caixa de pizza, como uma forma de improviso. Em 2025, o Marginal Games conseguiu incentivo por meio do edital Sampa Games, que investe na formação profissional e no desenvolvimento de coletivos. Com esse apoio financeiro, o grupo produziu 25 novos protótipos e realizou o lançamento oficial do jogo neste ano, na sede do coletivo Estopô Balaio, localizado no Jardim Romano, também na zona leste da capital paulista.

Desde então, o Marginal Games vem sendo convidado e contratado para participar de atividades e oficinas em diferentes espaços educacionais, como Fábricas de Cultura e escolas, onde a maior parte do público é formada por crianças e adolescentes, principalmente na zona leste, território retratado no game.
“A gente quer evidenciar a presença dos povos indígenas no nosso território, né? Na nossa vivência, na nossa quebrada”, diz Mari ao falar sobre a atuação do coletivo na zona leste.
No game, os jogadores são convidados a assumir o papel de guerreiros indígenas e juntos, enfrentar os colonizadores, construindo um desfecho diferente daquele que aconteceu na vida real, onde ocorreu vitória dos portugueses. Segundo Mari, um dos principais objetivos de colocar os personagens indígenas no centro desta narrativa é valorizar a história e a cultura dos povos originários.
“A valorização acontece exatamente por a gente poder recontar uma história que foi contada sempre de uma forma, né? É o resgate da memória e da valorização da cultura dos povos originários”, acrescenta.
Nas escolas e em outros espaços educacionais, o coletivo vê suas produções como uma forma de contribuir para a implementação da Lei nº 11.645/2008, que torna obrigatório o ensino da História e Cultura Afro-Brasileira e Indígena nas escolas de todo o país. Para isso, o grupo atua em parceria com professores e arte-educadores.

“É muito bom trazer esses jogos pra galera jogar dentro do espaço escolar, né? Os jogos lúdicos trazem uma possibilidade de discussão participativa, em que eles [os estudantes] acabam se tornando parte do jogo como personagens”, explica.
É possível aprender com os games?
Mirella Anjos, 23, é estagiária de educação ambiental e moradora do Itaim Paulista, na zona leste de São Paulo. Ela foi uma das primeiras pessoas a jogar Abya Yala enquanto o game ainda estava em fase de testes e, a cada melhoria, voltava a jogar.

Mirella conta que, durante as partidas, sentia um misto de sensações. Ela não conhecia a história do Cerco de Piratininga e nunca tinha ouvido falar sobre o assunto na escola. Moradora da zona leste, já tinha escutado que o território antigamente se chamava Ururay, mas desconhecia o significado e a origem desse nome. Foi por meio do jogo que conheceu a história de forma mais completa.
“Aprendi mais sobre a cultura indígena através do jogo, porque ele traz muitos elementos da cultura, palavras em tupi, instrumentos, ferramentas de batalha, personagens reais. Isso foi muito importante para mim, para a minha formação e para o meu conhecimento do território em que moro.”
Mirella Anjos é estagiária de educação ambiental e moradora de Itaim Paulista, zona leste de São Paulo.

Mirella descreve o jogo como uma ferramenta potente para quebrar estereótipos e preconceitos relacionados aos povos originários, a partir da maneira lúdica como a cultura é apresentada. Ela acredita que a presença do game nos espaços de ensino pode contribuir positivamente para a formação dos estudantes, assim como aconteceu com ela.
“Mais pessoas deveriam conhecer esse jogo, principalmente em espaços culturais e em espaços de educação, tanto os formais como os não formais também. E justamente por causa disso, é um jogo que tem muito potencial para apresentar a cultura indígena, a história de São Paulo, a história do nosso território. É aprender brincando”, afirma.

Foto: Jéssica Calheiros/Desenrola e Não Me Enrola.
O jogo foi como uma semente na vida da jovem. Após jogá-lo, ele despertou nela a vontade de conhecer melhor a região onde vivia. Mirella não se sentia pertencente ao bairro onde nasceu, justamente por não ter esse vínculo com a história do lugar. Em busca de aprender sobre o passado que não conheceu na escola, passou a conversar com os moradores mais antigos da região.
Ao conhecer outros aspectos do território, como acontecimentos históricos e momentos marcantes que ajudam a compreender situações do presente no qual estava vivendo, ela mudou sua percepção sobre o bairro. Esse processo também a aproximou de outras pessoas da região e fortaleceu sua relação com o lugar onde vive.
“Eu sinto que eu estou criando um quebra-cabeça na minha mente, onde eu vou encaixando cada pecinha de momentos históricos desse bairro. E isso faz com que eu me sinta parte dessa história, me sinta pertencente a esse território também”, conta, ao falar sobre como essa aproximação mudou sua relação com o território.
“Ele [o jogo] apresenta uma história e deixa um gostinho de quero mais, justamente por ser uma forma muito divertida de aprender essa história. Acho que poderiam existir vários jogos como esse”, finaliza sobre o game.
A quebrada também é território indígena
Juão Nÿn, indígena Potyguara, de Natal, Rio Grande do Norte, vive atualmente em São Paulo e está há 20 anos inserido no meio artístico, atuando como artista multimídia. Ele faz parte de alguns coletivos, dentre eles, o Estopô Balaio, um grupo de teatro com sede no Jardim Romano, na zona leste da capital.
Juão é formado em Teatro pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) e escreveu uma dramaturgia chamada “RESET BRASYL”, que convida os espectadores a fazerem uma viagem no tempo para descobrir mais sobre o território de Ururay, assim como acontece no game Abya Yala.

Durante o processo de construção do jogo, o Marginal Games convidou Juão para um processo de consultoria que apoio no desenvolvimento do game, acompanhando o grupo até o dia da estreia. Hoje, colhe resultados positivos junto ao coletivo quando o game é aplicado em espaços de ensino para os jovens.
“[O jogo] contrybuy com a reparação hystóryca, pela memórya já que a dyvyda das colonyzações são ympagáveys de tanto que nos roubaram. Ajuda na ynserção da população Yndygena na cultura Brasyleyra sem exotyfycação e dymynuy o preconceyto das pessoas não yndygenas com os unyversos e cosmologyas orygynáryas”, comenta Juão sobre o game.
Antes mesmo do lançamento, Juão e os desenvolvedores já pensavam nas reflexões que gostariam de despertar nos jovens. Diversificar as referências originárias estava entre elas. Ao longo da jornada no jogo, é possível observar palavras, elementos, alimentos, objetos e grandes nomes de origem indígena, resgatando suas contribuições culturais para a formação da sociedade. Esse também é um dos principais objetivos da Lei nº 11.645.
Juão acredita que o game pode ser um grande aliado dos educadores na construção de aulas e ensinamentos relacionados aos povos originários, além de mostrar que a quebrada também é território indígena.
“Geralmente a gente sabe que nossos lugares tem uma hystorya Yndygena, generyca ou às vezes oculta. Então, ter um jogo que avance com o conhecymento é um pryvylégya que deverya ser dyreyto básyco”, pontua o artista.
“[É] uma metodologya em que aprende-se bryncando, além de fomentar orgulho e pertencymento. entendendo que na vyda, mesmo fora da escola, a gente não para de aprender e pesquysar, amplyando horyzontes e fazendo contrybuyções coletyvas”, finaliza Juão sobre como o game pode contribuir para a valorização da cultura e história indígena brasileira.
Nota: O entrevistado Juão Nÿn utiliza a letra “y” no lugar do “i” como uma demarcação Potyguara na língua portuguesa do Brasil. Segundo ele, por ser um idioma imposto desde as invasões europeias, a utilização dessa letra é uma ferramenta de retorno gradual à própria fala nativa. Dessa forma, editorialmente, respeitamos a escrita da fonte. Para facilitar a compreensão, abaixo, a transcrição apresenta as letras adaptadas
“[O jogo] contribui com a reparação histórica, pela memória, já que a dívida das colonizações são impagáveis de tanto que nos roubaram. Ajuda na inserção da população indígena na cultura brasileira sem exotificação e diminui o preconceito das pessoas não indígenas com os universos e cosmologias originárias”, comenta Juão sobre o game.
“Geralmente a gente sabe que nossos lugares têm uma história indígena, genérica ou às vezes oculta. Então, ter um jogo que avance com o conhecimento é um privilégio que deveria ser direito básico”, pontua o artista.
“[É] uma metodologia em que aprende-se brincando, além de fomentar orgulho e pertencimento, entendendo que na vida, mesmo fora da escola, a gente não para de aprender e pesquisar, ampliando horizontes e fazendo contribuições coletivas”, finaliza Juão sobre como o game pode contribuir para a valorização da cultura e história indígena brasileira.
Esta matéria foi produzida como resultado do projeto “Raízes e Educação: cobertura de conteúdos para promoção da equidade racial periférica, quilombola e indígena na educação brasileira”, realizado pela Coalizão de Mídias e Imagine Futures.