“Queríamos contagiar as pessoas sobre o tema através da arte”, diz Ará Silva, jornalista e produtor cultural, de 37 anos, natural do Rio Grande do Norte, sobre a criação do Coletivo Contágio. O surgimento da iniciativa aconteceu junto da mudança de Ará para São Paulo e do momento em que ele recebeu o diagnóstico positivo para o vírus HIV, em 2018.
Recém-chegado em São Paulo, o jornalista buscou em seu círculo de amizades pessoas que conviviam com o vírus e percebeu o desejo de falar sobre o tema. Atualmente, Ará vive entre o bairro de Ermelino Matarazzo, no distrito de mesmo nome, na zona leste de São Paulo, e a cidade de Natal, no Rio Grande do Norte.

Ará explica como o grupo surgiu: “Nesse desejo em comum, surge o Coletivo Contágio, em 2018. Na parceria entre três amigos que queriam falar sobre o tema através da arte e da literatura.”
“O Coletivo Contágio surge com o desejo de falar sobre uma pauta que até hoje ainda é muito silenciada, mas naquela época talvez ela era um pouco mais.”
Ará Silva, jornalista, produtor cultural e co-fundador do Coletivo Contágio.
O primeiro espetáculo do coletivo surgiu, chamado “Pode entrar, o cachorro está preso”, estreou em 2019 e teve como ponto de partida as trajetórias de pessoas que vivem com o vírus HIV/AIDS. A sinopse da peça faz um convite para mergulhar e refletir sobre as metáforas que universalizam dramas específicos.
Já no ano de 2023, o coletivo lançou o espetáculo “Há mais revolta do que vírus no meu sangue”, peça criada ainda no mesmo ano, durante a Primeira Residência Contágio.
O produtor cultural, diz que o coletivo é a continuidade da trajetória de resistência de movimentos LGBTQ+ como ballroom; movimento cultural criado nos Estados Unidos durante a década de 1970 entre a comunidade LGBTQIAPN+, negros e latinos em resposta à exclusão enfrentada nos espaços brancos, especialmente pela comunidade transsexual.
“Somos a continuação dessa história que é inacabada ainda. Lá atrás, outros movimentos fizeram com que a gente chegasse até aqui, a gente pode citar aí o movimento ballroom e o movimento das pessoas trans”, coloca.
Atualmente, o coletivo está às vésperas de apresentar o seu espetáculo mais recente, chamado Ferida$ Política$, na Casa Farofa, espaço localizado no bairro da Bela Vista, em distrito de mesmo nome no centro da cidade de São Paulo. “É o resultado de um grande incômodo que ainda existe sobre esse assunto”, diz Ará Silva sobre o último trabalho criado pelo grupo.
O espetáculo nasce, originalmente, em 2025, durante uma residência artística, é o que explica Canafístula, 30, diretor do espetáculo, morador da Barra Funda, região oeste de São Paulo. “Fizemos um chamamento para artistas que viviam ou não com HIV, mas que traziam a temática na sua pesquisa artística, buscando pessoas que poderiam trazer uma contribuição de diversas linguagens artísticas, não só atuantes de teatro, mas também da dança, música, das artes visuais e do audiovisual”, conta.

A primeira residência do Coletivo Contágio ocorreu no espaço Corpo Rastreado na Vila Madalena, zona oeste de São Paulo. Já a segunda foi no Teatro Flávio Império, localizado no bairro do Cangaíba no distrito de mesmo nome, na zona leste.
“Todos e todas artistas participantes da residência são de bairros e regiões periféricas de São Paulo, é nossa prioridade estar com essa população. Na segunda residência tivemos a presença do Coletivo Transcentrar”, Ará ressalta que nas duas residências a prioridade foi a presença da população periférica.
O diretor diz que a residência, que resultou na formulação do espetáculo Ferida$ Política$, contou com três etapas de experiência: “Na residência teve a experiência corporal, uma experiência escrita e a experiência cênica. A partir da residência a gente une essas três etapas e transformamos no espetáculo.”
Canafístula também ressalta a importância da visão de cada artista ao desenvolver suas cenas e o processo de pesquisa feito durante a residência artística: “Essas cenas foram desenvolvidas a partir do interesse das pessoas de falar sobre determinado ponto da sua experiência com HIV naquele momento. No começo da residência, tivemos a etapa de pesquisa e troca com Pisci Bruja, pesquisadora e ativista do movimento HIV/Aids no Brasil, e com Ará também, que fez uma linha do tempo de como vem sendo o entendimento social e político do HIV no mundo e principalmente no Brasil”, conta.
O vírus e o espetáculo
Desde a sua descoberta nos anos 1980 até setembro de 2025, o Ministério da Saúde já identificou um total acumulado de 1.679.622 pessoas infectadas com HIV/AIDS no Brasil. O vírus, descoberto em maio de 1983 na França, afeta o sistema imunológico dos infectados, deixando-os vulneráveis para infecções oportunistas e tipos raros de câncer.
Tanto Ará quanto Canafístula tem suas experiências pessoais com o vírus. Canafístula relata um episódio vivido durante a infância no Ceará, quando um familiar foi infectado. “O HIV entra na minha história de vida quando eu tinha mais ou menos seis ou sete anos e eu perco essa pessoa familiar que quando soube do seu diagnóstico positivo para HIV, optou por não procurar ajuda e não fazer nenhum tipo de tratamento até a família descobrir”, revela.
O diretor traz a complexidade da situação vivida por seu familiar e reforça o cenário de preconceito da época. “Estamos falando de uma pessoa cearense, em um local onde as políticas públicas não eram semelhantes ao que já era possível de se acessar no sudeste do Brasil”, relata.

Ará reflete sobre como a AIDS se tornou um estigma para a comunidade LGBTQIAPN+ na sociedade dos anos 90: “A gente da comunidade LGBTQIAPN+, quando nasce entre as décadas de 1980 e 1990 já nasce com AIDS no sentido que seu corpo é lido pela sociedade como um corpo dissidente, ele vai ser estigmatizado.”
“Muito antes de eu descobrir a minha sorologia em 2018, descobriram por mim quando eu era criança e me e gritavam: ‘gay morre de AIDS’, na década de 90.”
Ará Silva, jornalista, produtor cultural e co-fundador do Coletivo Contágio.
Na apresentação há dois momentos de debate chamados “converso positivo”, que acontecem no início e no final do espetáculo. “Promovemos um debate entre o público sobre HIV, onde a gente pergunta sobre as expectativas dessas pessoas quando elas entraram ali naquela sala de apresentação, o que elas esperam assistir de um coletivo que se chama Contágio e de um espetáculo que se chama Feridas Políticas, e também se elas já foram alguma vez ao teatro assistir algum espetáculo sobre HIV”, conta Canafístula.
“A gente se torna resistência por se ausentar da lógica dramática que geralmente os trabalhos que falam sobre HIV trazem. Trazemos debate político, social, estética, beleza, resistência e por trazer também camadas que às vezes não são muito faladas [na sociedade].”
Canafístula, diretor do espetáculo Ferida$ Política$.
Canafístula conta que o espetáculo utiliza das corporeidades vivas em cenas, trazendo as suas histórias e mostrando as diversidades que seus corpos têm e carregam. “A partir dessas histórias e dessa memória, a gente busca criar e trazer situações experienciadas por essas pessoas e elas mesmas trazem quais contextos são potentes. Trazemos contextos não de adoecimento, mas de potência, não no lugar explicativo, mas no lugar de recontar determinadas histórias.”


Ará reforça que insistem em pautar o HIV por ainda ser um debate que precisa de visibilidade. “Ainda [insistimos] em falar sobre algo que as pessoas hoje em dia querem dizer que já está tudo resolvido, e que é muito fácil hoje em dia viver com HIV, e os os remédios não têm efeitos colaterais. Eu acho que a gente vai continuar sendo essa resistência, porque infelizmente, são poucos artistas e poucos coletivos que vão se disponibilizar para trazer à tona esse assunto”, conclui.